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Dos autores tristemente banalizados: Hermann Hesse
Posted by: MAngelo in Autorais/Literatura on setembro 6th, 2010

Dá uma série. É inevitável que quando se torne “pop” a obra de alguém seja planificada, esquartejada, reproduzida de modo frenético e gratuito, raramente chegando ao cerne da coisa. No caso das letras, é quando as citações são infinitamente mais lidas e conhecidas do que os livros em si. Mal inevitável e antigo que tomou proporção imensurável na internet: o reino por excelência do faz de conta, da projeção.
Entre os autores que “mais gosto”, há uma categoria especial: os que considero pais. Aqueles que tenho cumplicidade tão grande, que mergulhei tão profundamente, que falam tão diretamente à minha alma que não podem ser colocados lado a lado dos demais. Hesse é um deles. Um dos principais. Com ele aprendi a ser alguém melhor. A pensar e olhar o mundo de outra maneira, literalmente. E se conseguisse aplicar 50% do que Hesse passa, seria alguém incomparavelmente melhor do que sou hoje.
De família protestante, Hesse foi estudar as religiões orientais (tendo viajado longamente para alguns países), especialmente o budismo. Ligado ao início da psicanálise na virada do século XIX/XX (Jung, principalmente) e também pelas marcas da Primeira Guerra Mundial, estes três pontos são fundamentais na sua literatura. Com sua vasta cultura autodidata e a incrível lucidez e sensibilidade para o humano - o que mais me toca nele, inevitavelmente - Hesse acabou por se tornar espécie de ícone do movimento hippie, como um dos autores mais “lidos” e referenciais.
Daí as tentativas fracassadas de ligá-lo ao movimento beatnik (um absurdo sem fim) e o início da popularização de sua obra. A espiritualidade tão forte em Hesse - uma espiritualidade profunda e livre de ranços e maniqueísmos - fala de modo único, dada sua incrível capacidade de colocar as coisas sob um prisma transparente ao mesmo tempo que rico e multifacetado. Seu profundo conhecimento do cristianismo ocidental em colisão com as bases das religiões orientais geram um caldo irresistível. Ler “Demian” na adolescência, como foi o meu caso, faz bastante diferença. “Demian” é uma bela introdução à obra hesseana, recomendado classicamente para adolescentes dado o poder e simplicidade. Tentei exprimir - com as falhas inerentes - a essência de Demian, ligando-o a outras obras de Hesse e George Orwell, escrito e publicado na época que estava descobrindo tudo isso, em 2004, aos 17 anos.
“O Lobo da Estepe”, sua obra mais famosa, é de pungência assustadora. Harry Haller tornou-se um dos maiores outsiders da literatura, por mais que o termo seja clichê e insuficiente. “Siddartha” é onde Hesse expõe mais diretamente sua relação com o budismo. “Narciso e Goldmund” vai fundo na psicanálise e história, ambientado durante o período da Peste Negra na Europa. Já “O Jogo das Contas de Vidro”, seu último romance (que lhe deu o Nobel de Literatura em 1946) é o ápice da complexidade e da mente de Hesse. Seu romance final, deliberadamente composto para reunir todas as características de sua obra até então, levando-o a outro nível. Diversos estilos literários misturados e uma infinidade de conceitos e dilemas, “Das Glasperlenspiel” tem força assustadora. No mais, recomendo também a biografia, o “Para Ler e Guardar”, compilação de fragmentos de cartas, pensamentos esporádicos e outros comentários de Hesse e seus diversos contos, sempre arrebatadores. Os demais livros até hoje infelizmente ainda não li.
A banalização é cruel porque reduz toda uma concepção de mundo, estética e filosófica, à uma mero fragmento. Rigorosamente, tudo é banalizado. A simplificação e exposição sucinta de conceitos e pensamentos é um problema quase inescapável. Esse próprio texto. Uma das bases do jornalismo, aliás, como sabemos. Piorado por não se tratar do buraco da rua da esquina que causa problema no trânsito - pra citar um caso diário - mas de coisas que demandam tempo, dedicação, interesse real. Que exigem mais que uma passada de olho rápida. Algo quase surreal em tempos tão estéreis.
A opressão do universo criado em torno do trabalho para total e irrestrita dominação da mente já foi discutida aqui nesse artigo. Sem falar na rede nefasta da própria sociedade. O problema não é o carinho de alguém por uma obra que não gosta de vê-la jogada como qualquer coisa por aí, a exemplo do que costuma acontecer na música, quando algo se torna popular passa necessariamente a ficar pior para certo grupos de pessoas. Não se trata de ciúme ou falsa sensação de exclusividade.
Como tudo que me é caro, não posso negar a tristeza pela banalização irrestrita. Mais que isso, perdemos o essencial. Ficam só os rótulos. Para pessoas que costumam receber 800 inserções de propaganda por dia desde crianças - em estudo que lamentavelmente não possuo o link, feito pelo pessoal do Adbusters - parece natural que nos guiemos por marcas e definições baratas. Rejeitando tudo que vá além disso.
A obra de Hesse, como de inúmeros outros (por exemplo Nietzsche que virou bottom de estudante universitário), acabam sofrendo desse mal. A capitalização da cultura não é coisa nova e tampouco obrigatoriamente nefasta, desde que acompanhada de estudo e interesse real. 1% dos casos. Daí que, numa provocação sob isso tudo, cabe a famosa frase de Hesse, extraída de “Lobo da Estepe”: só para os raros. Mesmo.
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Minha noção de D’us
Posted by: MAngelo in Autorais/Literatura on agosto 17th, 2010

Nunca esqueci. Não. Falar em “D’us” - e já explico o porquê da grafia - é um prazer. Não almejo o Deus “cristão”, “religioso”, comum, tão massivamente violentado e negligenciado todos esses [milhares] de anos. No cotidiano da vida mundana e banal, é inevitável escaparmos de certa essência. Certo elemento formador único. Certa sensibilidade e amplitude para a existência. Como se estivéssemos, na verdade, permanentemente desconectados do que realmente importa. Do que nos toca. Do que nos faz bem. E apenas em alguns raros momentos, por uma “epifania” ou uma visão clarificada e jamais gratuita, vemos, sentimos. Está ali: D’us. É a força motriz de tudo. O que lubrifica o labirinto do ser. É entre a pieguice autêntica, o clichê sincero e a estética inevitável que sempre me equilibro. É quando somos mais transparentes. É tentar emergir de tudo que é vil e ordinário. Baixo, ruim. É transformar a “mundanidade” dentro dela.
Tenho encontrado pouco com D’us. Muito aquém do que já consegui e do que deveria. Estar longe de D’us é permanecer afastado de si próprio: de seus verdadeiros anseios, buscas. Do seu espírito. Normal (e saudável) que fiquemos cambaleantes, tontos e angustiados por vezes. Que entremos num mundo sombrio e hostil. A armadilha é não conseguir sair dele. Vejo D’us quando consigo escrever textos necessários e prazerosos. Como este. Vejo D’us nas coisas mais belas e interessantes que encontro. Temos inclinação natural a admirar o que é belo, sábio, engraçado, sarcástico, fora do lugar comum. O que nos impele. Nos chama. Cria o desejo. Por tudo. A curiosidade, a afirmação, o diferente. A afetividade espontânea. Tão fundamental e tão esquecida.
Vejo D’us quando converso com um bom amigo. Quando me entrego a quem acho que deva merecer. Quando ouço música que consiga ir além do trivial. Que tem a rara capacidade de alcançar algo único ali dentro do seu cérebro, da sua alma. Quando me entrego aos pequenos prazeres entorpecentes e reveladores. Quando leio um autor que fale, mesmo, à mim. Quando troco conhecimento, inspiração, risadas. Na lucidez. No trabalho bem feito. Na crítica e na observação. No elogio, quando merecido. Nas coisas bobas, infantis. No hermético e no simples. Nas brincadeiras. Na seriedade. Na natureza. Na loucura e na retidão. No correto e no dissonante. D’us está ali. Sempre. É uma delícia me encontrar com ele.
O resto, meu amigo, é perfídia. Enganação, lucro, vida a esmo. D’us costuma estar em vários lugares. Menos naqueles escritos, designados, arbitrariamente impostos como a “casa” dele. Uma verdade universal é que nós, homens, arrogantes, traiçoeiros, pretensiosos, não sabemos coisa alguma. Ainda mais sobre D’us. Tentar - permanentemente - me reaproximar dele é tentar fazer o caminho necessário para dentro de mim. Dentro de tudo que dá valor e graça à minha vida.
Desde o primeiro momento que vi a grafia “D’us” senti algo diverso. Que alguma coisa de real significado estava ali. Sou assim. Gosto da beleza das palavras. Do sentido oculto. Verdadeiro ou imaginário. Do que podemos dar à elas. Da liberdade de criar, errar, ousar. Um amigo, querido. E com quem discordo de muita coisa, me explicou. E tomo aqui a liberdade de transcrever parte do seu conhecimento, dado a mim num email de 2008:
No Antigo Testamento, no texto original, as alusões a D’us nunca são nominais. Javé, o nome Dele, é escrito com as letras hebraicas Yod, He, Vav e He, sem vogais. E assim é impossível adivinhar a pronúncia do nome. Por isso, é comum na liturgia judaica se referir a Ele como HaShem (”O Nome”, em hebraico). Eu poderia passar o resto do dia falando sobre isso, mergulhando nas implicações cabalísticas e neoplatonistas d’O Nome, mas (…) fica pra próxima. O importante é saber que o nome de Deus é impronúnciavel. E por essa razão há o nome D’us. Existe uma outra razão, também: eu prefiro fazer distinção entre D’us mesmo, e “Deus”, uma palavra utilizada sem nenhuma significância no dia a dia, em expressões como “pelo amor de Deus”, “juro por Deus”, “ai Deus meu!”, etc. Como disse acima, eu sou extremamente supersticioso, e embora não seja religioso, prefiro manter o espírito presente no judaismo, onde a palavra ganha uma dimensão inédita em qualquer outra língua ocidental. “D’us” conserva um mistério, o desconhecido. E assim deve ser.
Difícil pensar em poucas coisas mais lindas que isso. O respeito e admiração que tenho por “D’us” é imensurável. E por isso procuro não ferir ao que julgo fundamental. Nem sempre consigo. É um exercício constante. Complicadíssimo. Que só pode ser simplificado pela prática. Pela intimidade. Só cada um pode alcançar o real sentido que “D’us” tem em nosso ser. O estrito significado que você guarda contigo. Ou a ausência dele.
Eis o que representa D’us pra mim. Com todas as lacunas que um breve texto pode deixar. Ahava.
Brasília representa tudo que está errado no Brasil
Posted by: MAngelo in Artigos/Matérias/Opinião on agosto 13th, 2010

Ao mesmo tempo em que é a cidade maravilhosa descrita no post anterior, Brasília simboliza, precisamente, muito do pior deste país. A desigualdade e o abismo social não está tão escancarada em nenhum outro lugar como em Brasília. Na capital federal, pobre, definitivamente, não se mistura com os ricos e a classe média. Não dividem o mesmo espaço, as mesmas ruas, os mesmos lugares. Brasília é como um enorme condomínio fechado. Nele, só o funcionalismo público e a classe média alta podem permanecer. No Plano Piloto, a total e irrestrita separação social atinge seu ápice e sua manifestação mais flagrante.
De fato, os candangos pioneiros foram literalmente expulsos à força para as cidades satélites (como brilhantemente mostra o documentário “Conterrâneos Velhos de Guerra”, do Vladimir Carvalho, obrigatório e já lembrado aqui). A “limpeza social” feita em Brasília deliberadamente desde sua fundação nunca fez questão de ser sutil.
Com a especulação imobiliária a níveis extremos desde sempre, a classe média foi cada vez mais empurrada para rincões pós-Plano Piloto como Guará e Águas Claras. A favelização de Brasília tem no nome abjeto de Joaquim Roriz, que conseguiu a façanha de instalar uma oligarquia por 4 mandatos e 16 anos (!!!!), o maior representante. Roriz alcançou o pleno objetivo de instalar o caos social, econômico e urbano. A capital do país entregue nas mãos de uma besta completa por quase 20 anos. Recomendo o ótimo artigo de Leandro Fortes sobre o tema.
Brasília foi concebida e administrada para os ricos. Os milhões de carros que se amontoam pelo DF expressam não só o alto poder aquisitivo da população, como o descaso total com quem não possui veículo. Os parcos e maltratados ônibus, o metrô caríssimo e ineficiente. As passagens para pedestres no Plano (como a que ilustra este texto) totalmente abandonadas, sujas, escuras e perigosas. Brasília não foi feita para que se ande a pé. Nunca. Jamais. Tente fazer isso e terá a experiência máxima da opulência errônea da capital.
Os pobres que se amontoem e se estrepem nos seus grotões de sujeira, violência e falta de infra-estrutura básica. Os cargos e concursos públicos, vocação por excelência, acabaram por criar a maior obsessão e sentido de vida do brasiliense. Não existe vida fora da teta do Estado/Distrito. Não existe possibilidade de se ter uma carreira ou uma vida “normal” fora de um cargo público. É o Estado paquidérmico, lento, pesado, caríssimo, que oferece empregos que pagam substancialmente acima da média do mercado. É dinheiro mal e porcamente gasto. Desperdiçado.
É a corrupção endêmica, enraizada, esperada. Por concepcão, concentra todo o jogo político podre a que estamos acostumados (e anestesiados). São os recursos recebidos indevidamente da União. A sua questionável natureza administrativa e política. O planejamento para abrigar o erro.
Lugar de gente fria, egoísta, não raro ignorante. Que a generalização não ofenda quem não se encaixe no perfil. Toda generalização é arbitrária, falha e - até - provocativa. É o reino do dinheiro fácil. Da meritocracia da coleira. Do aplauso ao adestramento. Ao curral da mente. Do clima insuportável. Da bolha imobiliária, automotiva, inflacionária. Do total e irrestrito abandono aos direitos mais básicos. Da vida fútil e das conversas insuportáveis.
Brasília concentra tudo que está presente em outros lugares do Brasil. De forma drástica, maciça, draconiana. É a utopia que não deu certo. A concepção “humanitária” que fracassou miseravelmente. Entre os paradoxos e as questões expostas aqui - dentre outras fatalmente esquecidas - Brasília se equilibra. Tateia no escuro. Se consola com o belíssimo céu favorecido pela arquitetura e posição geográfica.
Muito pouco para uma cidade que nasceu para ser justamente o oposto do que atualmente é. Ou, na verdade, talvez tenha cumprido seu objetivo verdadeiro, principal. Criar uma ilha de riqueza e qualidade de vida para alguns e manter o povo longe, bem longe de suas estruturas, sem nenhuma capacidade de questionamento, resistência. Parabéns, Brasília!
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Brasília é um caminho sem volta
Posted by: MAngelo in Artigos/Matérias/Opinião on agosto 10th, 2010

Se não está disposto a se apaixonar, não vá para Brasília. Ela jamais sairá de você. Toda metrópole tem suas similaridades. Toda cidade do interior também. Brasília não. Ela é diferente de todas as cidades do mundo. Singular, única. Sair do ninho do caos normal de qualquer metrópole brasileira e parar em Brasília é uma covardia: com você e sua cidade anterior. O Plano Piloto irá te acostumar mal, muito mal. Este texto não é para analisar os problemas flagrantes do Distrito Federal. Matéria para outro post. É apenas para tentar expressar minha relação com o Plano Piloto.
Brasília não fede a lixo e urina. Não tem vielas incompreensíveis, vias sem saída e sinalização, desordem urbana. É absurdamente segura. Tanto quanto alguém que tenha nascido na cidade sequer pode compreender. Não há pobreza no Plano Piloto. Simplesmente porque não há espaço para isso. O principal problema que você irá encontrar são as hordas de playboys e alguns zumbis do crack. Presentes na maioria das cidades, diga-se.
Brasília é limpa, verde, cordial. As largas ruas planas e arborizadas. O charme do Lago Paranoá. Todo lugar, dentro do Plano, é perto. Supermercados, farmácias, padarias, restaurantes, bares, lojas, shoppings, parques, etc - está tudo ali, a poucos minutos. Brasília zomba do resto do mundo. Experimenta o imponderável. Está contínua e inapelavelmente na frente do seu tempo. Acolhe uma tranquilidade quase surreal.
Marca. Permanece. Desafia e torna pálido os outros lugares. Parece o “mundo de Poliana”. Não é. Dentre os inúmeros defeitos e problemas que a cidade possui, Brasília ainda chega bem perto do melhor cenário possível. Mérito de toda sua concepção e outros elementos posteriores.
É uma delícia e um perigo estar em Brasília. Conseguir quebrar o encantamento. Sair da esfera criada. Tento. Não sei se quero. A tentação é grande demais para ser negada. A cidade chama, ecoa. Faz de tudo para ser amada. Difícil resistir.
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Hora do show?
Posted by: MAngelo in Artigos/Matérias/Opinião on julho 9th, 2010

Comentei sobre o lado humano e “esportivo” do caso Bruno lá no Olímpico, neste texto aqui. Há outro, inevitável. É regra que a imprensa eleja seus fetiches e proporcione “coberturas” absurdamente massivas 24 horas sobre qualquer coisa que se transforma numa “tragédia nacional” e tenha potencial para audiência. Sempre foi assim. Sempre será. Na época do caso Isabela Nardoni, falei sobre isso aqui. Vale para o momento atual. Se encaixa para a maioria de situações assim.
Fora o papelão habitual da imprensa, há sempre um ou outro “personagem” que, claro, aproveita os holofotes para ter suas (muitas) horas de fama. O delegado Edson Moreira, no entanto, ultrapassa bastante essa média. Piorado por ser algo que interfere diretamente nas investigações e por consequencia no resultado final do processo. Alguém de importância tão grande no caso, que define os rumos a serem dados, não poderia nunca ter o tipo de comportamento que Edson Moreira tem.
Entrevistas coletivas todos os dias. Várias vezes, se necessário. Entrevistas “exclusivas” para programas específicos, como o Brasil Urgente, de Datena. Qualquer indício novo: entrevista. Qualquer coisa que possa causar frisson e ser complicada ao máximo, ele faz. Qual explicação para levar um comboio de carros com Bruno e Macarrão a atravessar Belo Horizonte para fazerem um exame de DNA que poderia ser feito onde estavam e que no fim ainda foi - por direito- negado pelos dois?
Edson Moreira tem necessidade gritante de atenção. De causar “espetáculo”. De extrair cada gota da cobertura da imprensa. Além disso: “interpreta” os depoimentos que recebe, numa clara “atuação”, pretensiosamente dramática. E “atua” como se fossem fatos o que são apenas versões. Aliás, há que se lembrar em que momento da história versões e indícios preliminares, não comprovados e duvidosos tornaram-se fatos incontestáveis, suficientes para condenar alguém e resolver a investigação com rapidez assustadora.
Todas as regras profissionais, éticas, do bom-senso, da razão, do aceitável, do respeito, da lisura, da independência e da competência são quebradas. Lastimável não apenas pelo citado aqui, mas porque este comportamento inaceitável atinge diretamente a capacidade de apuração e levantamento dos dados e o julgamento final. Para todos os lados. “Vergonha” é um termo insuficiente para definir um descalabro desses.
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Futebol, integração (!?) e as feridas expostas da América
Posted by: MAngelo in Artigos/Matérias/Opinião on julho 2nd, 2010

Das coisas boas que o futebol traz, é curioso o senso de “integração” manifesto no twitter por diferentes pessoas em relação à América Latina nesta Copa do Mundo. A recente (e dramática) classificação uruguaia para a semifinal do torneio - que não acontecia há 40 anos - foi sintomática em engrossar a torcida por nossos vizinhos. Claro que boa parte disso é efêmero, ancorado numa simpatia frágil, interesse comedido e envolvimento passageiro.
Ainda assim, simboliza algo. Lembrei de um texto que publiquei em 2007: uma breve análise do livro “As Veias Abertas da América Latina”, clássico absoluto sobre a história crítica do continente, lançado pelo escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano em 1971.
Galeano é conhecido, também, por ser fanático por futebol, tendo livros dedicados inteiramente ao tema (como “Futebol Ao Sol e À Sombra”), sendo sempre solicitado para comentar o esporte. No artigo, cito justamente nosso quase total e irrestrito desconhecimento sobre a história da América Latina, além do papel imperialista do Brasil na região. A Copa do Mundo, mesmo que brevemente, ajuda a termos um olhar mais aproximado dos vizinhos, sendo uma boa oportunidade para retomar o tema.
Por isso, republico aqui o artigo lançado originalmente no Simplicíssimo e que na verdade foi escrito por mim para debate num grupo de estudos da América Latina que fundamos na faculdade. Que sirva para mudar velhos hábitos arraigados e que mal percebemos. Ou, menos pretensiosamente, que possa suscitar um novo debate: sadio e necessário.
Eduardo Galeano: as feridas expostas da América

“…temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez…”
A primeira frase que lemos ao abrir “As Veias Abertas Da América Latina” é de uma pungência reveladora. Inquisitiva, na verdade. Dá para o leitor, senão a vergonha, um possível incômodo muito próximo do real: somos um povo alienado quanto à sua própria origem.
Quantos de nós não somos capazes de tecer longos comentários sobre a história e as vanguardas artísticas européias mas quando apontamos para a América Latina simplesmente engasgamos? Nosso quintal? Quintal dos Estados Unidos? As faces do imperialismo são muitas, inclusive aquela que se transmuta num sub-imperialismo, outorgando sobre os países do bloco, principalmente Brasil, Argentina e México, o papel de devorador de seus próprios semelhantes.
Os brasileiros, em especial, parecem literalmente de costas para o resto do continente. Ilusões de independência ou opulência desmedida, não se sabe. Apreço excessivo por se parecer estadunidense ou europeu. Estranheza quanto à língua mater – afinal, somos os únicos da região que falamos português. As possibilidades variam.
Há um comportamento típico do ignorante: ele evita aquilo que desconhece. Porque isso nada mais significa do que se expor, estar vulnerável às suas indisfarçáveis fraquezas. De fato, não é surpreendente a distância propositadamente criada entre os habitantes desta parte do globo. Vassalos, desde muito, os grilhões ainda permanecem no lugar mais difícil de serem extirpados: nossas mentes.
De nítida tradição marxista, Galeano faz uma reconstrução minuciosa da história do bloco, amparado em inúmeros estudos, dados, referências e fatos sólidos, provendo a base necessária para que suas explanações nos sejam críveis. Difícil, isto sim, contrapor aquilo que é apresentado. Resume ele:

“Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal têm-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar tem sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. (…) Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos.” (pág. 14).
Nossa ruína significou, portanto, o desenvolvimento do velho mundo, o máximo esplendor que o sistema pôde alcançar. Prata, ouro, açúcar, café, estanho, salitre, ferro, petróleo, borracha, cacau e algodão, cada um em seu ciclo, numa determinada época e ocorrendo em vários países, significaram a exploração de todas as riquezas existentes na América Latina, financiando, de modo essencial, a ascensão do capitalismo e o nível de vida que europeus e estadunidenses têm hoje.
Os recursos que uma terra ou região poderia dar, não raro, significavam a destruição completa daquela localidade. O auge e queda de Potosí, na Bolívia, Ouro Preto, no Brasil e Havana em Cuba são sintomáticos em demonstrar o quanto à sede imperialista pode devastar, em tão pouco tempo, redutos de abundância mineral e produtiva. Destino não menos trágico tiveram as principais cidades da Argentina, Peru, Equador, Chile, Uruguai, Paraguai, Venezuela, México e Haiti.

Dos 90 milhões de índios que habitavam estas terras antes da chegada dos conquistadores, sobraram apenas 3,5 milhões no impressionante espaço de um século e meio após a descoberta. Dizimados e escravizados, foi principalmente sob a pele indígena que a Europa encontrou o cenário perfeito para a sua salvação: recursos naturais em abundância e mão de obra gratuita. Segundo dados oficiais da época, que não consideram a imensa exportação clandestina para lugares como China e Filipinas, entre 1503 e 1660 chegaram ao porto de San Lucas de Barrameda, na Espanha, 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. Já a produção brasileira de ouro, no século XVIII, proporcionou à Europa um volume maior que o extraído das colônias nos dois séculos anteriores. Dez milhões de escravos africanos foram trazidos para o Brasil.
No mosaico composto por Galeano, há poucos buracos. Demonstra, de forma clara e sistemática, as diferentes formas de expropriação ilegal do continente ao longo das épocas. Intervenções diretas e agressivas nos governos, subjugação literal dos povos oprimidos e, mais recentemente, a ingerência inegável em assuntos internos dos países, além do domínio do capital estrangeiro. Números de 1968 mostraram que este capital externo controlava, no Brasil, 40% do mercado de capitais, 62% de seu comércio exterior, 82% do transporte marítimo, 67% dos transportes aéreos externos, 100% da produção de veículos a motor, 100% dos pneumáticos, mais de 80% da indústria farmacêutica, 50% da química, 59% da produção de máquinas, 62% das fábricas de autopeças, 48% do alumínio e 90% do cimento.
Este quadro se alastra por todos os outros países do bloco. O domínio do sistema bancário, também, é quase absoluto. Empréstimos do FMI e do BID, órgãos que defendem os interesses estadunidenses, são sempre acompanhados por duras exigências e cartilhas inflexíveis que afetam a soberania dos países. Entre as condições, estão, por exemplo, a obrigação de utilizar os fundos em mercadorias dos Estados Unidos e transportar pelo menos a metade para eles. Determinam a política de tarifas e impostos dos serviços, aprovam planos de obras, redigem licitações, administram os fundos, os juros, o pagamento da dívida e vigiam o cumprimento dos mesmos. Interferem até no ensino superior da região. Não se pode modificar, sem seu conhecimento prévio e permissão, as leis orgânicas ou os estatutos, impondo também reformas docentes, administrativas ou financeiras, tudo de acordo com as pautas do neocolonialismo cultural.

Não deixam brechas, ressalta Galeano:
“Empobrecidos, sem comunicação, descapitalizados e com gravíssimos problemas de estrutura dentro de cada fronteira, os países latino-americanos abatem progressivamente suas barreiras econômicas, financeiras e fiscais para que os monopólios, que ainda estrangulam cada país separadamente, possam ampliar seus movimentos e consolidar uma nova divisão do trabalho, em escala regional, mediante a especialização de suas atividades por países e por ramos, a fixação de dimensões ótimas para suas filiais, a redução dos custos, a eliminação dos competidores alheios à área e à estabilização dos mercados. As filiais das corporações multinacionais só podem apontar à conquista do mercado latino-americano, em determinadas condições que não afetem a política mundial traçada por suas casas-matrizes.”
Neste ponto, e lembrando que um dos principais problemas do livro referem-se à questão temporal, apresentando muitos dados ultrapassados e obsoletos, que carecem de uma atualização, convém resgatar o ano de 1989, fundamental tanto para a política quanto para o pensamento vigente. Após a queda do muro de Berlim e a apressada declaração de morte do comunismo, o ideal capitalista tratou logo de se solidificar.
O Consenso de Washington, conjunto de medidas englobando dez regras básicas – como disciplina fiscal, abertura comercial, investimento estrangeiro direto sem restrições, privatização das estatais e leis trabalhistas mais “leves”, na verdade prejudicando o trabalhador, formuladas por economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento de Tesouro do Estados Unidos, sob artigo do economista John Williamson, foram criadas para e seguida a risca por todos os países do bloco latino-americano da década de 90 até hoje. As “orientações” visavam a “recuperação econômica” das nações em desenvolvimento.

Outro marco de 1989 foi o aparecimento do artigo “O Fim da História”, do estadunidense Francis Fukuyama, na revista “The National Interest”. Para Fukuyama, o fim do socialismo era a prova da superioridade da ideologia capitalista e da democracia burguesa, tendo a humanidade atingindo, no final do século XX, o ponto culminante de sua “evolução”, sob todos os demais sistemas concorrentes. Como “solução final do governo humano”, o capitalismo contemporâneo decretava “o fim da história da humanidade”, a única alternativa possível e viável.
Resignar-se, portanto, à sua condição histórica “natural”, respeitando toda a herança imposta pelo imperialismo e sendo complacente com a ingerência do capital externo seria uma espécie de sugestão à América Latina, já que a solução estava dada através da cartilha recomendada.
Após 20 anos de atuação, o neo-liberalismo ainda patina em sua ineficiência e paradoxos.
Curiosa contradição histórica, considerando que os Estados Unidos pregam o liberalismo apenas para os outros, sendo rigorosamente protecionistas para consigo mesmos, transformando “a mão invisível” de Adam Smith no nada sutil big stick do inquisidor Tio Sam de cartola e dedo em prontidão.

Galeano expõe com propriedade tudo de mais intrínseco, e doloroso, que a América Latina possui nestes séculos de vida. O breve panorama traçado por ele comprova, com assustadora exatidão, aquilo que George Orwell constata ao final de “Revolução Dos Bichos”. Observando a notável semelhança adquirida entre homens e porcos, que agora andavam sob duas patas, vestiam ternos, tinham a mesma postura e os mesmos hábitos que os seus inimigos do passado, deixa entrever uma frase tristemente adequada às explanações do livro de Galeano: “todos os homens são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.”
O uruguaio termina, não por acaso, numa espécie de convocação aos habitantes do bloco, sugerindo um despertar das massas, tal qual Marx e Engels ao final do Manifesto Comunista. Diz ele:
“Enquanto o norte da América crescia, desenvolvendo-se para dentro de suas fronteiras em expansão, o sul, desenvolvido para fora, explodia em pedaços como uma granada.
O atual processo de integração não nos faz reencontrar nossa origem nem nos aproxima de nossas metas.
Não há de ser a General Motors ou a IBM que terá a gentileza de levantar, no nosso lugar, as velhas bandeiras de unidade e emancipação caídas na luta, nem hão de ser os traidores contemporâneos os que realizarão, hoje, a redenção dos heróis ontem traídos.
Os despojados, os humilhados, os miseráveis têm, eles sim, em suas mãos a tarefa. A causa nacional latino-americana é, antes de tudo, uma causa social: para que a América Latina possa renascer, terá de começar por derrubar seus donos, país por país. Abrem-se tempos de rebelião e mudança. Há aqueles que crêem que o destino descansa nos joelhos dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio candente, sobre a consciência dos homens.”
Sobrepujar a letargia e servidão de nossas próprias posturas, e pensamentos, parece-me, de fato, o primeiro passo para que isto aconteça.
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Síndrome de Pasquale
Posted by: MAngelo in Jornalismo on junho 30th, 2010

A internet é território farto para acéfalos e imbecis de toda natureza. E um dos principais hábitos destes trolls é a síndrome de tentar corrigir a escrita alheia. Reservam longo tempo para a tarefa de encontrar qualquer deslize gramatical que eles possam, pretensamente, corrigir. A internet libertou os trolls dos calabouços da irrelevância. Deu voz a todos que precisam, no auge da sua insegurança mental, tentar diminuir os outros.
Aprendi muito pouco de gramática na escola ou na faculdade. Não sou dos mais obcecados com ela. E com certeza devo cometer pequenos deslizes por aí. Aprendi a escrever lendo. Lendo muito. Sempre. Se souber de uma maneira melhor, me avise. Como jornalista, talvez devesse me preocupar até um pouco mais. Qualquer erro é potencializado pela profissão. Afinal, “jornalista não pode errar”, tem que saber tudo de gramática e também ter conhecimento sobre tudo que acontece no mundo, 24 horas por dia.
Pior que correr para tentar corrigir os outros é “corrigir” errado. Uma das palavrinhas mais traiçoeiras que conheço e que sempre causou “tumulto” é o plural de “refrão”. Grafo “refrães” há alguns anos. E já que escrevo bastante sobre música, ela sempre aparece. Não raro surge algum bastião da intelectualidade para bradar a alteração do termo para “refrões”, o mais usado, largamente difundido. Infelizmente, “refrões” não existe. As únicas formas aceitas são “refrães” ou “refrãos”. Há várias fontes por aí - incluindo os dicionários - que dizem isso. E acho a primeira grafia mais bela. Só.
Li uma vez Luís Fernando Veríssimo (o rei da assinatura de textos falsos e débeis que circulam pela internet, para horror do mesmo, imagino) dizer que, em certas ocasiões, se a “sabedoria popular” afirma algo e a gramática está errada, azar da gramática. Em alguns casos, faz sentido. Raríssimos casos.
Se a internet é alimento constante e imensurável para os trolls, azar da internet. Sigamos.

