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Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman

coutinho

Duas mortes trágicas no mesmo dia. Duas enormes perdas para o cinema mundial. A vida é cruel às vezes. E é cruel em primas diferentes, tragédias diversas, etc. Coutinho, 81, foi um dos maiores cineastas que o Brasil já teve. Após as incursões como roteirista e produtor de TV no início da carreira, nos entregou o seminal – palavra mais clichê e melhor não há – “Cabra Marcado Pra Morrer”, de 85, um marco do cinema nacional. Sua “segunda vinda”, a partir dos anos 90 é, não raro, brilhante.

Meus preferidos são “O Fim e o Princípio”, com sua incursão mezzo espontânea por histórias do Nordeste brasileiro e “Edifício Master”, o querido de muita gente por seu retrato tão humano e irresistível, além do já citado Cabra. Dos últimos, só não gosto mesmo de  “Jogo de Cena”, exercício de método e de conceito (etc) que me pareceu intragável, realmente forçado, realmente com a mão pesada da forma em detrimento do resto. Mas isso são implicâncias minhas. Recomendo o excelente texto de José Geraldo Couto, aqui. Apesar da idade avançada, morrer esfaqueado pelo próprio filho é por demais trágico para ser digerido. Extremamente influente, Coutinho era, talvez, o maior expoente do que a produção brasileira faz de melhor: documentários.

Philip-Seymour-Hoffman-Capote

Já Philip Seymour Hoffman soa chocante. Pelas circunstâncias, pela idade – somente 46 anos! – por ser o melhor ator da sua geração e por ser tão produtivo. Esse ótimo artigo da Slate define com precisão: um ator que poderia fazer de tudo e que estava apenas começando. Em papéis pequenos ou como o principal, Hoffman sempre sobrou em cena. Ainda lembro quando, em 2005, saí da faculdade e fui conferir a primeira sessão do cinema, às 14h, numa sala vazia com apenas umas 3 pessoas, para conferir “Capote”, que lhe rendeu o Oscar. De fato, é uma atuação hipnotizante, absorvendo como poucos seriam capazes a fala e os trejeitos de Truman Capote. O trabalho físico de PSH, diga-se, sempre foi uma de suas maiores qualidades.

No recente “The Master”, PSH contracena com outro gênio da mesma geração, Joaquin Phoenix, em filme de um autor que foi importantíssimo na carreira de Hoffman: Paul Thomas Anderson. Com Anderson, PSH brilhou em “Boogie Nights” e sua incursão na indústria pornô dos anos 70/80, em Magnolia, Punch Drunk Love e no já citado “O Mestre”. Mesmo em filmes menores, Hoffman deixava sua marca. No irregular “Ninguém é Perfeito”, com Robert De Niro, de 1999, ele entrega uma das melhores interpretações de uma drag queen que se tem notícia. Na comédia bobinha “Quero Ficar Com Polly”, Hoffman novamente se destaca.

Trabalhando com grandes diretores em filmes de orçamentos diversos, como Sidney Lumet, Joel & Ethan Cohen, Spike Lee, Charlie Kaufmann, Mike Nichols e outros, Hoffman conseguia se destacar enormemente desde papéis num blockbuster em “Missão Impossível”, entregando o melhor vilão da série, até em filmes independentes, como “Savages”, Hoffman era um monstro e sempre sobrava em tela. Aqui, um breve relato (e exemplo) de como Hoffman era gentil, além de tudo. E este outro, de Peter Travers, sobre a personalidade única de “Phil”. Perdê-lo por overdose em heroína, como lembrado, parece uma cena de um dos seus filmes.

Duas perdas terríveis que deixam o já combalido cinema mundial em situação ainda mais frágil.

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Documentário: “Luz” OU – o preço do “desenvolvimento”

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Ainda bem que existem documentaristas independentes para mostrar o que a mídia ignora. Uma outra abordagem sobre a cracolândia.

Texto original:

Proyecto completo en:

lefthandrotation.com/museodesplazados/ficha_luz.htm

El centro de São Paulo es un foco de resistencia política.

Bairro da Luz, estigmatizado como “cracolandia” por el poder público, resiste a un intento de gentrificación en tentativa desde los años 70. El último capítulo en la historia de la política urbana del centro histórico de São Paulo, la última estrategia, es el exterminio. Bajo el nombre de Proyecto Nova Luz, más del 30% del barrio amenaza con ser desapropiado y demolido como parte de un plan para transformar la zona y expulsar a sus actuales moradores, aquellos que luchan hoy por afirmar la existencia de ese territorio y de su cultura.

Contado a través de los testimonios de tres personas implicadas en su resistencia, este documental pretende dar voz a los que luchan por el derecho a la ciudad. Gracias Paula, Simone y Raquel, por hacernos ver la luz.”

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Lula: a história nas telas

Publico abaixo a matéria que foi capa da revista Movie de janeiro de 2010, época de lançamento do filme “Lula, O Filho do Brasil”, contendo uma entrevista que fiz com Glória Pires durante o 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e uma crítica da película. Pela primeira vez na web. Revi o filme esses dias e a impressão permanece a mesma.

Glória Pires: a grande dama do cinema nacional

Atriz, presente nos maiores sucessos de bilheteria nos últimos anos, faz seu papel principal no cinema ao interpretar a mãe de Lula

Sem ignorar outras inegáveis grandes atrizes brasileiras, é inquestionável que Glória Maria Cláudia Pires de Moraes tem cheiro de povo. Os números não mentem: nesta década, os filmes protagonizados por ela levaram mais de 10 milhões de brasileiros ao cinema. Especialmente nas parcerias com Daniel Filho: A Partilha, de 2001 e os blockbusters Se Eu Fosse Você, de 2006, e sua continuação, de 2009.

Impressionante, porém pouco se comparado aos 20 milhões de espectadores que são esperados para “Lula, O Filho do Brasil”. Pelo menos este é o desejo e a expectativa de Luiz Carlos Barreto, produtor do longa. Não sem motivo. A popularidade mundial de Lula ancora o lançamento em mais de 500 salas e facilita acordos de distribuição sendo costurados em toda América Latina. A marca, se alcançada, será quase o dobro do até agora campeão absoluto que é “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, com aproximadamente 11 milhões.

Para Glória, atriz acostumada a ser assistida por milhões de brasileiros todos os dias durante décadas na tela da Globo, esse tamanho assusta? “Assusta. Acho que se a gente fica pensando nisso, essas possibilidades que estão surgindo, travaria. Ainda bem que só estamos tendo acesso a isso agora com o filme pronto, porque se fossemos fazer sabendo de todo esse peso…não dava pra fazer nada, seria um bloqueador.”

Realmente, levar a mãe de um dos personagens mais icônicos da história do Brasil para as telas é um trabalho complicado. Dona Lindu, magistralmente interpretada por Glória, é nitidamente o eixo por onde “Lula, O Filho do Brasil” se move. Lindu personifica não só o estereótipo da mãe aguerrida, batalhadora, que teve de assumir boa parte da criação dos filhos sozinha, a exemplo de tantas histórias de outras brasileiras, como é a principal influência de Luiz Inácio. A quem o atual presidente deve parte fundamental de seu caráter. Como interpretar uma personagem real de tamanha importância mas sem muitos registros de sua personalidade? “Foi muito com os familiares. As informações foram só com eles. Não havia nada escrito sobre ela, nada gravado, apenas algumas fotos. Fomos buscar tudo nos relatos familiares: filhos, primos, sobrinhos netos.”


Os olhos de Glória brilham numa quase devoção ao papel. Nota-se, na fala da atriz, a paixão pela essência de Lindu, a profundidade com que se entregou a ela: “Eu não sabia nada dessa história. Então foi uma grande surpresa descobrir como tudo surgiu. E o que me encantou muito foi a forma como as pessoas que conheceram a Dona Lindu até hoje se emocionam ao falar dela. Do jeito dela, da positividade que ela tinha, da forma surpreendente de lidar com as adversidades, que não foram poucas.”

Dentre todas as personagens marcantes em mais de 40 anos de carreira, o que mais fascina em Lindu? “A positividade, essa forma de olhar pro futuro e caminhar, apesar de tudo. A capacidade de surpreender em suas atitudes. Ela não tinha estudo, mas uma grande intuição, uma inteligência emocional muito forte. E é maravilhoso porque tudo isso é verdade. As coisas realmente aconteceram: a enchente, a viagem de 13 dias e 13 noites, a morte dos filhos, ainda bebês, tudo isso aconteceu de fato e ela sempre com a sua maneira positiva, valente, destemida. Ela tinha um orgulho, mas não era orgulhosa. Uma retidão sem ser prepotente. Uma força sem ser resmungona. Sempre rindo, bem humorada. O resultado dessas qualidades é que a torna forte, capaz de encaminhar todos os filhos bem, com suas vidas organizadas. O amor, que é tudo que a gente pensa quando falamos de ‘mãe’, essa coisa do amor incondicional, fazer das tripas coração. Sempre com alto-astral e acho que isso tá no filme. Muito nítido”.

E como é interpretar um personagem real? Mais difícil que o comum? Como equilibrar as coisas? “Na verdade, acho que é difícil porque você tem um resultado que é real. Quando você interpreta uma pessoa real, tá recriando algo que aconteceu. Por um lado é mais fácil justamente por causa dos testemunhos que você recebe, tem um peso diferente. O tempo todo ficava pensando, enquanto fazia, que os filhos dela irão assistir ao filme. Então queria da melhor forma resgatar essa mulher para que eles tivessem um desdobramento da imagem que ficou lá atrás. Afinal de contas, o tempo cria um distanciamento muito grande e não queria interferir de uma forma contrária, oposta ao que eles me narraram. Fiz muito para os filhos. Pensando nos filhos. Respeitando o que me passaram.”


O trabalho ao lado de Cléo e Fábio Barreto, a popularidade e a retomada do cinema

Lula” também marca a primeira que vez que Glória e sua filha, Cléo, atuam juntas, dividindo a cena. O que não estava previsto: “Na verdade atuamos juntas por acaso. Não tinha no roteiro nenhuma sequencia junta, onde houvese um diálogo. O Fábio (Barreto, diretor) que criou. Era o último dia de filmagem e ele me disse ‘não posso fazer um filme com vocês duas e não ter um diálogo’. A cena acontece depois do casamento da Lourdes com o Lula. Fiquei feliz, porque claro que tem toda uma coisa afetiva. O Fábio é muito amoroso, ele se preocupa com umas coisas que ninguém se preocuparia. Ele tem essa qualidade: dentro da loucura toda ele lembrar, pensar, que não tinha nenhum diálogo nosso e criar isso. Fiquei muito feliz, acho que ela tá muito bem no filme.”

A parceria de Glória e Fábio, na verdade, é antiga. “Índia, A Filha do Sol”, de 1982, marcou a estreia dos dois no cinema. Fábio estreando na direção e Glória consagrada por sucessos recentes na TV da época como “Dancin’ Days”, de 1978 e Cabocla, de 79. A parceria se repetiria anos depois em “O Quatrilho”, de 1995, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Glória relata a proximidade entre os dois: “O Fábio é muito fácil de conviver, porque ele quer todo mundo feliz. É muito difícil isso, a não ser que as pessoas entrem nessa. E ele tem essa preocupação. Ele é muito sensível, inteligente. É um amigo querido e assim tudo fica mais fácil. Temos bastante intimidade. Ele ouve muito, não tem nenhum problema de ego. Se alguém tem uma ideia boa, qualquer pessoa que seja, e a ideia for mesmo boa, ele vai usar. Não tem esse negócio de ‘eu sou o diretor e a bola é minha’, sabe? Tem sido ótimo ao longo destes anos todos”.


E qual é, afinal, a posição de glória sobre o aspecto “político” de “Lula, O Filho do Brasil”? “Eu não acho que seja um filme político. Existe uma expectativa muito grande, que é normal. E as pessoas veem o Lula como um homem político. Mas o filme não conta esta história. Conta o que vem antes, o que ninguém conhece. Acho que é só um alarde, a maioria das pessoas sequer viu, não sabem do que se trata. Na ânsia de ter que falar alguma coisa, acabam soltando isso.”

Após ficar alguns anos sem participacões no cinema, Glória começou a acumular um filme atrás do outro, justo no período crescente de participação do cinema nacional em termos de público nas salas, que passou de 5% a uma média de 15% do mercado, chegando a 23%. A que se deve esta constante (e bem vinda) aparição de Glória no cinema? “Esse retorno é culpa do Daniel Filho (risos). Fiquei um tempo muito grande de jejum de cinema. E, a partir de A Partilha (de 2001), que tava com o Daniel há muitos anos, ele acabou me convidando pra fazer. Era uma grande fã da peça, que ficou muitos anos em cartaz e adorava a Selma, que é a personagem que ele me convidou. E depois veio Se Eu Fosse Você (2006), Primo Basílio (2007), Se Eu Fosse Você 2 (2009), todos com a direção do Daniel. Ele foi muito responsável por isso, por me trazer de volta ao cinema. E é um trabalho mais intenso, até porque dura menos tempo, dá pra fazer vários. Fiz praticamente três filmes num ano (2008): Se Eu Fosse Você 2 em abril, É Proibido Fumar (de Anna Muylaert) em julho e em dezembro comecei a preparação do ‘Lula’. Três filmes totalmente diferentes, com propostas diferentes , o que foi muito bom.”

E como ela se sente sendo uma das responsáveis por alguns dos maiores sucesso de público dos últimos anos? Ela não seria o grande ícone do cinema nacional na atualidade? “Ah, eu me sinto uma sortuda. Porque foram meus amigos que me chamaram para fazer esses filmes. Pessoas que trabalharam comigo e eu tive a sorte de ser convidada e ter esse sucesso todo. O que eu levo em conta mesmo (na hora de escolher o projeto de um filme) é o roteiro, a possibilidade daquele roteiro virar um bom filme, quem dirige, a história que estamos contando e tudo. Na verdade os temas vão de encontro a determinado momento pessoal. No cinema é mais difiícil ter essa coisa de repetir personagem, normalmente não se faz filme toda hora. Na televisão é mais normal, mas no cinema é mais difícil. O que é determinante mesmo pra mim é quem me chama e a história que será contada”

Com 9 filmes no currículo desde a chamada “retomada”, sendo parte importante dela pelo próprio “O Quatrilho”, de 95, como Glória observa o desenvolvimento do cinema nacional, a mudança da recepcão do público e da própria mídia? “Eu vejo que existe esse crescimento, até com relação a imprensa, porque ela também tem uma série de ranços, vamos dizer. Fazendo filmes com o Daniel, eu vi demais isso, porque ele mesmo já fala, a imprensa vai dizer ‘ah, lá vem o cara fazer novela no cinema’. Que é um discurso batido, velho, rançoso e que não tem nada a ver. Cinema é cinema. Se você quer ter mercado, não pode falar com uma parcela do público, tem que falar com todo mundo. É muito simplista falar que o cara faz televisão no cinema. É meio burro isso. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.”

Iniciando 2010 com o maior lançamento da história do cinema brasileiro e num papel forte e marcante como é Dona Lindu, Glória tem toda a propriedade do mundo para falar. Enquanto observa a trajetória de “Lula, O Filho do Brasil” nas telas, Glória pode analisar com calma os diversos convites que recebe para novos projetos. Uma das maiores atrizes da dramaturgia brasileira em todos os tempos se despede com um sorriso no rosto e a satisfação de ter pleno domínio da carreira. Todos querem um pouco de Glória Pires. E ela sabe muito bem o que faz.


Lula: apoteótico, brega, problemático e popular como o Brasil

Filme busca sem cessar o “melodrama épico” forjado por Fábio Barreto

O que as palmas protocolares de um teatro apinhado com quase 2 mil pessoas, numa sessão tensa, turbulenta, repleta de políticos dos mais elevados cargos do país até o povão, curioso, ansioso, depois de duas horas do filme mais caro, de maior lançamento e mais esperado do cinema brasileiro recente significam? Exatamente o que “Lula, O Filho do Brasil” é. Um filme mediano, com problemas crônicos e lapsos de cinematografia artística. Uma obra que deixa um gosto estranho na boca. As palmas, que deveriam ser efusivas, são apenas frias, corretas. A consagração absoluta não vem.

O público, cansado pelas quase 4 horas que a sessão levou (incluindo o atraso) parece mais preocupado em sair logo do Teatro Nacional, acotovelando-se com outras centenas de pessoas na saída, que saudar o elenco, a produção e a primeira dama, Marisa, ali presente. Assim foi a premiére mundial de “Lula”, em Brasília. Como o próprio Barreto admitiu na coletiva do dia seguinte, o público riu quando “tinha” que rir, se emocionou quando “tinha” que se emocionar e assistiu tudo com profundo interesse e respeito. Os objetivos, afinal, foram cumpridos com louvor. A película entrega exatamente o que se espera dela: a epopéia real de um homem pobre, imigrante, que se formou em meio a uma família destruída, enormes privações financeiras, descobriu o amor, perdeu a esposa e o filho, foi preso, assistiu a morte da mãe, batalhou, viu-se líder sindical quase por acaso e acabou como presidente do Brasil.

A teimosia. A persistência. Perseverança. Características apregoadas quase com messianismo. Dentre todas as expectativas possíveis que a produção de “Lula” gerou, na verdade, algumas são principais. Tecnicamente, os R$ 12 milhões gastos são evidentes: a fotografia consegue dar a exata medida dos cenários: do sertão ao porto de Santos. Cenas como as da enchente pela qual a família sobrevive são realistas e fogem do padrão “duvidoso” que as produções às vezes carregam. Ao mesmo tempo em que atinge resultado aceitável e com algum brilho na maioria das cenas (Fábio nunca foi exatamente um mestre das câmeras), alguns momentos extrapolam o limite da pieguice. Como o beijo entre Lula e Cléo Pires com um coração brilhante de fundo. No extremo oposto, está o ápice que é a reunião sindical de inesperadas 80 mil pessoas, reproduzida com cuidado, de criação difícil (3 dias), mesclada com computação gráfica, material de arquivo e a presença de figurantes que realmente viveram a ocasião décadas antes.


A cena é, por si só, talvez a maior representante da alma de Lula. O homem que atinge e tem a multidão na mão pelo carisma, a capacidade de liderança, de fazer com que um estádio inteiro ouça o que tem a dizer em colaboração mútua. O que teima diante de todas as adversidades, imagináveis ou não. A música, de Jaques Morelenbaum e Antonio Pinto (mesma dupla de Central do Brasil), vai na esteira da intenção obsessiva de provocar emoções, sendo bela em alguns momentos e massante na maior parte do longa.

Milhem Cortaz, como o pai, Aristides, tem participação curta porém fundamental. Glória Pires sobra em cena. É ela toda a estabilidade de Lula e, por consequencia, do filme. Entre o ainda menino que perde o dedo e corre para os braços da mãe e o líder sindicalista capaz de domar multidões, Lula perde a esposa, o filho, o pai e a mãe. É pelo trauma, pelos golpes mais duros, que a personalidade e a trajetória de Luiz Inácio se forma. Para além de seus problemas artísticos, da superficialidade e planificação com que tudo é contado (35 anos em 2 horas), de algumas escolhas infelizes, “Lula” se impõe pelos inúmeros temas relevantes que toca: imigração, darwinismo social (depois demolido), alcoolismo, família, perseverança, amor, mercado, repressão e…política.

Lula” é um filme político? A interminável pergunta. Aquilo que os produtores são obrigados a responder incessantemente. O ponto preferido da mídia, da oposição. Não do público. “Lula” é um filme “apolítico” no máximo que a história de um personagem como Luiz Inácio dá para ser. No entanto, é importante ressaltar que jamais o caráter minimamente político da obra é no sentido eleitoreiro. A princípio, inclusive, Lula é mostrado como alguém que, se não chega a ter repúdio pela política, não se interessa por ela. Esnoba, foge, teme, desconfia. É empurrado pelo irmão, Chico. O tempo todo advertido que “esse negócio de sindicato não presta”.


Após a morte da esposa é que Lula, no filme, adquire outro tom. Outra postura. Ante a política e todo o resto. Ali ele quebra o mundo da infância, a timidez, o conforto. Assume a liderança do sindicato, “pra ocupar a cabeça”. A obra é nítida em mostrar que Lula entra na política pelo escapismo. Com o objetivo inicial de superar uma perda. O que, em tese, pode soar como algo não muito positivo para o público. Assim como a acusação de que Barreto mostra Lula como “um herói sem falhas” não encontra razão. Sim, ele é tido como estudioso, adepto da não-violência, defensor da mãe, romântico, etc. Mas aparece sempre bebendo, fumando. Também xinga, se exalta. Tem comportamentos dúbios. O mínimo de humanidade está ali.

Goste-se ou não de Lula, o presidente, há que se admitir que ele nunca precisou de filme algum para vencer dois mandatos e ter o nível de popularidade altíssimo e constante. Para não dizer que a transferência de votos (para Dilma ou qualquer outro candidato) é ciência complexa, longe do simplismo que a maioria parece acreditar e que já se provou tremendamente falha no passado.

O filme termina com o salto histórico e as imagens reais da posse do primeiro mandato, em 2002, em Brasília. Nos braços do povo. Ali o melodrama épico encontra seu auge. Autêntico e cambaleante como todo o resto. Dentre todos os problemas, como filme, que “Lula, O Filho do Brasil” possui, a história é forte por si mesma. Errática e torta. Por isso, mais humana. A sensação do dever realizado se confunde com o que poderia ser e não foi. Daí a necessidade de assisti-lo como ser humano, não partidário, não ideológico. Algo que, no fim, vale a pena fazer.

Maurício Angelo

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A epifania de Terrence Malick

Terrence Malick é um dos maiores outsiders da história de Hollywood. Da geração que revolucionou o cinema estadunidense – Scorsese, Coppola, Friedkin, De Palma, mais aqui – Malick deu ao mundo “Badlands”, em 73 e “Days Of Heaven”, de 78, apresentando sua visão incomum, seu talento apurado e uma sensibilidade raríssima para as telas. Doutor em filosofia, Malick se retirou dos holofotes durante 20 anos, escrevendo roteiros eventuais, até voltar em 1998 com um dos melhores “filmes de guerra” já feitos: “Além da Linha Vermelha”. “O Novo Mundo”, de 2005, aborda de maneira claudicante o descobrimento da América.

“A Árvore da Vida” é baseado num projeto que começou a desenvolver ainda nos 70, intitulado “Q”. É o seu filme mais introspectivo, filosófico, contemplativo, abordando a origem da vida, nossas relações familiares – em especial de pai e filho, mas entre irmãos, a influência materna e a vida de um casal na década de 50 – e nossa relação com a natureza, a religião, os sentimentos, a morte, a infância e a vida adulta. Pretensão que somente um diretor como ele – a exemplo de outros raros – pode dar conta.

É curioso observar essa obra tão peculiar, tão idiossincrática, ancorada por uma estrela do porte de Brad Pitt – ao mesmo tempo um dos atores mais talentosos da sua geração e um galã que atrai milhares de desavisados aos cinemas – atingir as salas de blockbusters. Em tempo de cinema frenético, desesperado, perdido, com câmera, narrativa, ritmo e efeitos em tom de rave, bombardeando o espectador com milhares de signos por segundo, “A Árvore da Vida” não poderia ser mais que a quintessência da antítese disto.

É cinema de sensibilidade apurada, que sabe trabalhar brilhantemente o silêncio – este elemento tão fundamental e tão banido da arte contemporânea – que cria seu próprio tempo, aponta diversos caminhos, mostra vários tons em suas contradições, mudanças, anseios, dúvidas. Não dá resultados prontos. Não entrega fórmulas nem soluções simples.

O diretor consegue extrair o melhor de seus atores: Brad Pitt está firme no papel do pai severo, mas que não se furta a demonstrar momentos de afeto, em revelar suas fraquezas e angústias, em todo seu universo de amor e dureza, em manter sua família e participar da criação dos filhos. Jessica Chastain – que não por acaso, imagino, guarda certa semelhança física com a Sissy Spacek de “Badlands” – é a doçura e proteção materna, o amor puro, a dedicação plena. Sempre iluminadíssima pela fotografia, aparece como uma figura celestial – capaz de literalmente flutuar, num simbolismo nítido – plácida, de presença pacificadora.

Dentre os três filhos, impressiona a atuação de Hunter McCracken como Jack, o primogênito tão essencial para o eixo da trama, vivido por Sean Penn – em brevíssimas aparições – na vida adulta. As buscas e as transformações de Jack, e o quanto influencia seus outros irmãos e a relação entre pai e mãe, atingem o cerne do que Malick quer representar. Dele resulta boa parte das reações do núcleo daquela família.

A morte do caçula logo no início da película serve de pretexto para explorar nossa relação com Deus, a vida e as convenções religiosas: por mais que estejam sempre buscando Deus, como que tateando no vazio, os personagens nunca encontram resposta, essa figura “superior” nunca se faz presente, mas serve para ilustrar situações de ambiguidade e paradoxos constantes. Como na própria criação imposta aos filhos por Mr. O’Brien e sua noção única de moral, de como se deve ser, se comportar e do que é preciso para conseguir sobreviver neste mundo. E o sermão principal dado pelo sacerdote é de uma desesperança e dureza quase atroz, de uma honestidade transgressora, impiedosa. Traçando paralelo curioso com a súplica final de Mrs. O’Brien, repleta de límpida inocência: tenha curiosidade, esperança, ame, perdoe.

Já no início Malick nos fornece a base da sua introspeção, citando o capítulo 38 de Jó, versículo 4,7: “Where were you when I laid the foundations of the Earth, when the morning stars sang together, and all the sons of God shouted for joy?”. E aí uma ainda pequena Mrs. O’Brien – ainda mais semelhante com Spacek – conta que “as freiras nos ensinaram dois caminhos possíveis para a vida: o da graça e o da natureza. Você precisa escolher qual deles seguir”.


Grace doesn’t try to please itself. Accepts being slighted, forgotten, disliked. Accepts insults and injuries. (…) Nature only wants to please itself. Get others to please it too. Likes to lord it over them. To have its own way. It finds reasons to be unhappy when all the world is shining around it. And love is smiling through all things.”

É extremamente simbólico que a natureza – onde nos encaixamos – “queira apenas satisfazer a si mesma”.  A natureza sempre foi alvo de intensa reverência e contemplação em seus filmes, como um personagem inequívoco e necessário, ganha aqui seu maior tributo. Os 20 minutos em que Malick se vale de belíssimas imagens da atuação plena da natureza em nosso planeta, em oceanos, vulcões, florestas, montanhas, o comportamento animal, misto de imagens reais com efeitos supervisionados por Douglas Trumbull (o mesmo de 2001: A Space Odyssey) vão de encontro ao centro da vida, ilustrando não só nossa eterna pequenez e fragilidade ante o universo mas como somos influenciados e até reféns dela.

Com a quase totalidade do filme vista pelos olhos de crianças, é interessante como Malick mantém a câmera sempre baixa, como que nos obrigando a ver e sentir através dos olhos deles. Ao mesmo tempo em que aponta constantemente para o céu, em eterna dualidade. E a fotografia de Emmanuel Lubezki (o mesmo de “O Novo Mundo”) é extremamente eficaz tanto no uso da luz, fundamental para a película, quanto nas diferenças entre os ambientes externos, os longos planos de contemplação, e os momentos de intimidade, na brincadeira dos pais com os filhos, na proteção da mãe ao colocar as crianças para dormir e acordá-las, nas vezes em que O’Brien toca o piano, etc. Sem falar no uso da música, sempre capaz de acrescentar ao que vemos na tela sem pesar no tom – uma possibilidade enorme num filme dessa magnitude, mas que nunca falha ou cai em soluções fáceis.

Malick, enfim, nos apresenta sua epifania. A sua compreensão da essência da vida em toda sua leveza e seu fardo, a iluminação final do que há pouco para afirmar categoricamente. Ele nos fornece fragmentos, caminhos. E cabe a cada um tomar para si e fazer o melhor possível com isso.

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Melancholia: o 2012 de Lars Von Trier

Em algum momento da sua carreira Lars Von Trier passou a acreditar – e se auto-proclamar, diga-se – que é mesmo “o melhor diretor do mundo”. A aclamação absurda de “Dogville”, ancorada pelo menos num ótimo filme, não fez bem pra sua cabeça, seu ego e seu cinema, supervalorizado desde o surgimento com o “manifesto” Dogma 95.

Curiosamente, nos últimos anos, essa segurança em ser “o melhor do mundo” veio acompanhada por uma necessidade adolescente de criar polêmicas baratas em Cannes: em 2009 com “O Anticristo”, ao afirmar que tinha feito o filme com “60% da capacidade mental” ou novamente este ano no festival francês onde declarou “simpatia” por Hitler, tendo que se explicar até hoje. Artifícios ridículos para qualquer um, ainda mais para um diretor que se propõe ter um certo quilate. Talvez pelo receio de deixar o seu cinema falar e atrair a atenção por conta própria.

“Melancholia”, o filme de ficção científica de Von Trier, não poderia ter paralelo mais irônico com o “2012” de Roland Emmerich. Enquanto o segundo é fruto do histrionismo mais absurdo e abjeto possível de Hollywood, Von Trier, como já conhecido, prima pelo minimalismo, a construção de climas de tensão, medo, angústia, dúvida e um certo desconforto onipresente. No máximo em que um filme, em última instância, sobre a destruição da humanidade, pode ser sutil.

Kirsten Dunst consegue passar toda a aflição que lhe cabe como peso dramático central do que está por vir e soa como uma escolha melhor que Penélope Cruz, para quem o papel foi inicialmente pensado. O casamento da sua Justine com Michael (Alexander Skarsgard), que toma boa parte da película, é o prólogo em que Von Trier pode trabalhar todas as tensões do seu argumento principal. A família destruída, o casamento de realização irreal, a pseudo-alegria que logo será despedaçada, o peso das convenções sociais em situações de constrangimento cortante.

Aí brilham coadjuvantes de peso como John Hurt e Charlote Rampling. Mas a premissa, tão bem explorada por diretores com talento infinitamente maior que Von Trier, escorrega naquela gratuidade perigosa que o dinamarquês costuma entrar. O mal estar permanente de Justine, as crises, a obsessão vazia do John de Kiefer Sutherland e uma perdida Charlotte Gainsbourg, a quem a segunda metade é dedicada.  Trier consegue criar belas imagens: todas elas plásticas. A relação e influência dos astros na história é sempre óbvia e rasa demais. Não que saber de antemão o que irá acontecer seja um problema em si, especialmente num filme-catástrofe.

Mas “Melancholia” sofre com a auto-indulgência e a zona de semi-deus em que Von Trier acredita pertencer. Fornece pistas infantis: o buraco de golfe número 19, o cavalo que jamais atravessa a ponte, a súbita tomada messiânica de Claire, etc. De desconforto familiar, a agonia artificial dos personagens em nenhum momento sai da tela para atingir os espectadores com a pretensão que tem. Um filme razoável que fica abaixo do que poderia ser. Mais palatável, provavelmente, a quem se identificar com a angústia retratada. Mesmo com todas as ressalvas possíveis, a beleza da melancolia, aqui, se presta quase que totalmente ao ego megalomaníaco de Von Trier.

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Os curtas de Kléber Mendonça Filho

Kléber Mendonça Filho, que por muitos anos manteve o site Cinemascopio (atualmente em versão blog), é um dos melhores e mais lúcidos críticos de cinema do país (recomendo vasculhar os textos disponíveis no arquivo do blog), com trabalho realizado no Jornal do Commercio de Recife. Mas além do ofício de crítico (investigado por ele num documentário de 2008), Kléber é também grande realizador. Autor de diversos curtas de destaque desde a década de 90, sua visão de cinema é refinadamente crua, certeira, com humor e “reflexão” que não caem em armadilhas fáceis.

Há 1 ano Kléber colocou boa parte dos seus curtas em um pio” target=”_blank”>canal no Vimeo em alta definição, este. Estão lá “Casa de Imagem” e “Homem de Projeção” (1992), “Enjaulado” (1997, com música de Dj Dolores e Stela Campos), “A Menina do Algodão”, de 2003, “Vinil Verde”, de 2004, ganhador de vários prêmios internacionais e um mini-clássico do “terror” brasileiro, “Eletrodoméstica”, de 2004, que aborda a classe média e o sexo no Brasil dos anos 90, “Noite de Sexta, Manhã de Sábado”, de 2006 e “Luz Industrial Mágica”, de 2008. De fora apenas o já citado “Crítico” e seu curta mais recente, o estupendo “Recife Frio”, que ilustra essa página, vencedor de várias categorias do Festival de Brasília de 2009.

Para seu deleite, “Recife Frio” está disponível no Porta Curtas, absolutamente imperdível. Em 2010 Kléber abandonou – espera-se que temporariamente – o ofício de crítico para filmar seu primeiro longa, “O Som Ao Redor”. Enquanto produz o longa, Kléber atualiza um Flickr, “blog em imagens”.

Vale a pena conferir todos os curtas deste que já é um dos cineastas mais “bem resolvidos” do país. E acompanhar a expectativa para “O Som Ao Redor”, que tem tudo para ser um marco.

Ps: o Cinemascopio deu origem também a uma das melhores comunidades para debate de cinema do Brasil no orkut, que infelizmente está meio abandonada desde o ano passado. Quem quiser se juntar para reanimar aquilo, é bem-vindo.

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Filmes

O Discurso do Rei – Tom Hooper

É fácil acusar “O Discurso do Rei” de ser quadrado, tradicional, pouco ambicioso, engessado, etc, etc. Como filme, sua estrutura é totalmente convencional. Na direção, o grande mérito de Hooper é o trabalho de atores, mas aí entram 95% de crédito dos próprios, convenhamos. E aí está o grande charme da película: a “química” soberba entre Colin Firth e Geoffrey Rush, espetaculares. Bonham Carter também está longe de fazer feio. Rush mostra uma das melhores atuações de sua carreira: a certeza é que quem ficar com o Oscar de ator coadjuvante- entre ele e Christian Bale, provavelmente – estará em boas mãos.

Se o filme é convencional, vale igualmente perguntar se seria possível fazer algo melhor dentro da história, do argumento e da abordagem proposta. Difícil. Assim, podemos dizer que a obra é praticamente perfeita no que se propõe, o que não deixa de ser um mérito tremendo. É redondo, correto e sem exageros. Não há pieguice aqui, por exemplo. Como gago, posso dizer que a caracterização de Firth é assombrosa. Ouvindo um trecho real do discurso de George VI retratado no filme, pode-se perceber com que sutileza Firth absorveu os mínimos detalhes da fala do rei.

Com todas suas limitações, “The King’s Speech” é muitíssimo bem acabado: algo que, por vezes, deve ser tão valorizado quanto certos delírios.

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