Ativismo, Jornalismo

Independente precisa ser sinônimo de tosco?

Captura de tela de 2013-08-06 12:11:27

Um erro pra lá de comum quando falamos de iniciativas de “comunicação de guerrilha”, que se pretendem independentes, capazes de veicular relatos e matérias que encontram pouco ou nenhum espaço nos grandes é a tosquice extrema na maneira como o conteúdo é apresentado. Parecem que se contentam em migrar o conceito dos velhos zines para a web e que “qualquer coisa tá bom, o importante é a polpa”.

Engano. A tela acima é do Indymedia, um dos mais antigos veículos do gênero, fundado em 1999. Seu braço brasileiro, apesar de ter passado por uma mudança de layout, não fica muito atrás.

E o site parece mesmo do século XX. É praticamente ilegível, de doer os olhos, sem nenhum cuidado com a organização, clareza e hierarquia das informações. Atualmente, com os vários, excelentes e gratuitos CMS que existem para construção de sites – WordPress, Joomla, Drupal, Plone, etc – sem a necessidade de ser nenhum expert em programação, bastando um bocado de vontade, pesquisa e dedicação, é praticamente inadmissível manter um site no ar como o do Indymedia.

E aí acontece o que estamos cansados de ver em iniciativas do tipo: falar sempre para o mesmo nicho, os mesmos grupos, a galera mais radical e hardcore, caindo na vala comum não só de forma como do próprio conteúdo, com abordagens, temas, textos e premissas ultrapassadas, que não encontram eco da maneira adequada na sociedade ou, no mínimo, ficam extremamente limitados. É aquela história da própria agonia da extrema-esquerda brasileira, por exemplo. Tema que destrinchei aqui, depois das últimas eleições presidenciais.

Naquele texto, afirmei:

A extrema-esquerda se mostra totalmente incapaz de apresentar suas ideias de maneira razoável, equilibrada, atualizada, palatável para a maioria da população e num projeto minimamente possível de ser aplicado no século XXI. Assim, fica restrita ao mesmo nicho que sempre esteve, jamais avançando: estudantes universitários, adultos convictos, militantes radicais e grupos de inclinações “revolucionárias” diversas. O eterno curral. Com a diferença que as urnas mostram o achatamento cada vez maior da penetração desse discurso. E com razão.

Infelizmente, esse “problema” não parece restrito à “extrema-esquerda”. E nem acho que valha a pena entrar numa tentativa de definir o que é “extrema-esquerda” ou não. O discurso fala muito mais que a sigla do partido. E aí que é bom evitar essas armadilhas. Caso da Mídia Ninja, que está nos holofotes. Não importa que as cabeças da NINJA sejam ligados ao PT. De verdade. Ter afinidades ideológicas com um partido – ou mesmo fazer parte direta ou indiretamente das atividades dele, caso de alguns – importa pouco se você é capaz de tratar com um mínimo de honestidade intelectual o conteúdo que você produz.

Essa “afinidade” não é desculpa para uma cobertura ruim ou para a ausência de críticas. O dinheiro público, bom que se lembre, é público, não é do PT. Deve ser uma política estatal permanente, não de governo X ou Y. Não há como esconder suas preferências políticas no mundo de hoje. A “grande mídia”, quando tenta, é tremendamente infeliz nisso. Quando é transparente, é muito melhor.

Quem está no governo tem muito mais motivo para levar porrada. Por razões óbvias. O movimento “Amor Sim, Russomano Não” buscou apoiar a candidatura de Haddad? Sem nenhuma dúvida. Seus líderes tem ligação direta com ele? Sim. O objetivo de atacar Russomano, que liderava as pesquisas, era contribuir para que Haddad fosse para o segundo turno? Óbvio. Daí que não faz sentido que Bruno Torturra negue esse óbvio, como fez na entrevista para o André Forastieri.

Comecei falando de forma e enveredei para o caminho da transparência e das conexões políticas, ideológicas, jornalísticas e sociais (porque não?) que tudo isso implica. Ofertar – e o termo é este mesmo – o que você produz de maneira atraente para o público é fundamental se você almeja ultrapassar as fronteiras costumeiras. A Agência Pública é ótimo exemplo disso. Disparada a melhor referência em jornalismo investigativo feito no Brasil hoje.

Lá fora, o Adbusters é um que merece atenção, ainda que peque bastante pela fragilidade e superficialidade de muito do que divulga. Há uma série de erros, de problemas e de lacunas que são compreensíveis que a mídia alternativa tenha. Ser tosca não é um deles.

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Jornalismo

Ninjas sob ataque

Parece o Hateen, mas é parte da equipe da Mídia Ninja

Parece o Hateen, mas é parte da equipe da Mídia Ninja

Durante as manifestações dos últimos meses no Brasil um certo “movimento” emergiu e chamou atenção pela cobertura “intensa” que conseguiu fazer, transmitindo “direto do front”, pela web, o que acontecia nas ruas do país. A Mídia Ninja logo foi abraçada por boa parte da comunidade jornalística e do público “alternativo” e “independente”, ao mesmo tempo em que pouco se sabia de fato sobre ela, exceto que transmitia pelo canal – a Pós TV – do Fora do Eixo, “coletivo” que alcançou grande destaque na cena cultural nos últimos anos.

Passado o frisson, veio a ressaca. E tá todo mundo querendo entender exatamente do que se trata essa tal “ninja”. Especialistas em redes sociais e contando com ela como seu principal canal de veiculação de transmissões em tempo real, fotos, relatos, denúncias, interação com o público, etc, a NINJA tem hoje mais de 150 mil fãs no Facebook.

Atraindo a atenção da mídia “tradicional” no Brasil e no mundo, a NINJA tornou-se pauta. Só o Observatório da Imprensa já produziu alguns textos sobre o “fenômeno”. De modo geral, recomendo alguns aqui:

O jornalismo em tempo real da Mídia Ninja – Lilia Diniz

A militância e as responsabilidades do jornalismo – Silvia Moretzsohn

Sob holofotes, Mídia Ninja pede dinheiro do público para ampliar alcance

Uma entrevista com Bruno Torturra – André Forastieri

Nada vive de brisa. E é interessante as formas de financiamento que eles pensam em implementar: crowdfunding e assinatura mensal a preços módicos, nesse caso em que há grande identificação do público com os responsáveis pelo conteúdo, tem grande chance de dar certo. Já que os dois conceitos se misturam e guardam ideais semelhantes de “independência” e “revolução”, em contraponto à velha mídia.

Já se discutiu exaustivamente – e bote exaustivamente nisso – no meio independente brasileiro (coloca aí no balaio todo mundo envolvido com isso e os jornalistas em geral) sobre os problemas do “financiamento público” que o Fora do Eixo recebe e a suposta “dependência” do FDE em relação a editais e leis de incentivo federais, estaduais e municipais. Perdi a conta de quantos textos li sobre o assunto e quantas vezes (e em quantos fóruns) isso foi discutido amplamente.

Muitas vezes o FDE é atacado de maneira gratuita e exagerada. Mas isso se deve especialmente ao seu modus operandi que propriamente pela fonte dos recursos em si. Se o montante de recursos públicos injetados no FDE correspondem a menos de 10% do caixa do coletivo, como eles afirmam, há que se questionar o quão essas trocentas outras atividades realizadas são capazes de fechar os outros 90%.

O que começou focado em festivais de música, maiores ou menores, acabou se tornando uma verdadeira máquina de articulação que incluem a Casa Fora do Eixo em SP e BH, a Universidade Livre e um sem número de ideias, projetos e eventos realizados. Me preocupa menos o financiamento do FDE e mais o fato de que a sua prestação de contas nunca foi exatamente clara, transparente e precisa. O coletivo se aproveita, claro, dos frágeis mecanismos de controle que a gestão pública brasileira pratica, seja em leis de incentivo, seja no repasse da União aos municípios e em toda sorte de política, investimento e destinação de recursos, como os para a educação, por exemplo.

Me preocupa menos a fonte da grana do FDE e mais a sua postura de atacar ferozmente e muitas vezes de maneira articulada quem simplesmente ousa questionar suas práticas. O esvaziamento de quem consideram “inimigo”, o caráter de muitos dos seus integrantes, os inúmeros relatos de gente que lidou direta e indiretamente com o FDE nesse tempo todo e a verdadeira balbúrdia que são capazes de fazer quando confrontados.

Me preocupa bastante o discurso pseudo-neo-marxista – ou qualquer outro termo moderno da esquerda festiva que você quiser colocar aqui – usado para cooptar muita gente que mal sabe onde está se metendo, a que, como e porquê o que ela ouve e faz, levada pelas lideranças, têm alguma conexão com todo o resto.

A Mídia NINJA, assim como o próprio FDE no seu início, é recebida com júbilo e delírios revolucionários, é abraçada como uma “alternativa possível”, cria empatia instantânea com o público e a maioria dos jornalistas. E, da mesma forma como o FDE, trata com desprezo, arrogância e ataques quem pensa em criticá-la.

Após a fase do oba-oba, é provável que as coisas comecem a engrossar para os NINJAS. Como já começaram, e foi bem rápido. A entrevista desastrosa com o governador do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, a série de comentários nas redes sociais de gente realizando que “não é bem assim”, as reflexões de quem vive o bagulho no dia a dia.

É bem fácil e perigoso cair na velhíssima dicotomia entre “mídia tradicional” e “alternativa”, entre “dependência do mercado” e “independência financeira”. Estamos num momento em que já não faz mais sentido embarcar em tais conceitos. Nesse momento de transição, em que ninguém tem a fórmula para a nada – porque ela simplesmente não existe – e o que temos são dezenas de caminhos possíveis (e, claro, cheios de problemas), tentativas, arroubos, questionamentos, esforços de grandes e pequenos grupos, todo mundo pensando para onde ir, como fazer, como financiar.

É natural que a Mídia Ninja seja recebida com entusiasmo. Centenas – talvez milhares de colaboradores – de inúmeras formações, experiências e vivências diferentes gerando conteúdo multifacetado em todos os sentidos para um mesmo lugar, financiados de maneira igualmente plural. Soa ótimo, não? E é natural que receba uma tonelada de críticas por estar diretamente vinculada ao seio do FDE – desde financiamento e estrutura até a própria residência de boa parte dos colaboradores. Experiências de “jornalismo colaborativo, coletivo, comunitário e público” surgiram aos montes na última década na web. Poucos realmente vingaram e/ou deram em algo que deixou alguma marca.

Não há modelo. Não há garantias. Na mídia, na cultura, na indústria da informação, nos modos de produção, nos levantes sociais. Não há blindagem. Pagamos o preço por viver exatamente numa época de transição, em que tudo se modifica, se quebra e se reconstrói a todo momento.  A quarta ou a quinta onda.

É aqui que as “referências clássicas” dão as mãos com um Marshall Berman, um Alvin Toffler e as trocentas pessoas que produzem efeito direto e indireto no mundo hoje, na teoria e na prática. No fim, não ter a certeza de qual caminho seguir pode ser a melhor coisa que acontece para essa geração. Resta fazer bom proveito das ferramentas e das discussões que temos ao nosso dispor.

Update:

Bruno Torturra e Pablo Capilé no Roda Viva: nada de novo, mas vale assistir

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Jornalismo

Grupo Abril: menos jornalismo, mais educação

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2013, um ano cruel para o jornalismo. Não lembro, nos anos recentes, de tantos cortes nas redações com essa expressividade e esse alcance, apelidados carinhosamente pela classe de “passaralho”, fechamento de veículos, etc. É a tal “crise”, a eterna crise, tá sempre ruim pra quem tá lá em cima. É o tal “fim do jornalismo”, morte anunciada, blá blá blá. Para além do apocalipse e das profecias de boteco, já que a questão é muito mais séria, complexa e ampla do que se costuma discutir, vamos focar no Grupo Abril.

Com a morte de Roberto Civita, a faca tá entrando pesada. Semana passada, o grupo anunciou o fim das revistas Bravo!, Alfa, Gloss e Lola, o fim do portal Abril.com, além de demissões nas revistas Quatro Rodas, Viagem & Turismo, Placar, Men’s Health e Veja. No total, aproximadamente 150 funcionários foram demitidos e uma série de mudanças nas equipes de jornalismo, publicidade, marketing e etc foram realizadas. Leia o comunicado oficial.

O mais óbvio é que a Abril perdeu o bonde do online, não soube usar seu imenso valor agregado das publicações impressas e a qualidade dos seus profissionais para oferecer conteúdo exclusivo, relevante (e que fosse rentável) na plataforma digital e por aí afora. Não é surpresa. Poucos grupos do gênero conseguem.

Outro fator explica: a queda de 65% no lucro registrada em 2012.

O resultado representa uma queda de 65,5% em relação ao lucro líquido de 2011, que alcançou R$ 185,88 milhões.

Pesaram no resultado tanto a receita, que caiu de R$ 3,15 bilhões para R$ 2,98 bilhões, como o custo da operação, que aumentou de R$ 1,45 bilhão para R$ 1,58 bilhão.

Enquanto isso, um outro braço da operação, a Abril Educação, teve resultado totalmente oposto, atente:

A Abril Educação encerrou o último trimestre com lucro líquido de R$ 66,9 milhões, o que representa uma alta de 16% quando comparado ao mesmo período de 2011.  Já no acumulado do ano, o lucro líquido mais que dobrou atingindo R$ 100,1 milhões.

A receita líquida da companhia aumentou 8%, atingindo R$ 394,2 milhões no quarto trimestre.

O Ebtida cresceu 20% para R$ 148,6 milhões no período. A margem Ebitda ficou em 38%, quatro pontos percentuais acima do registrado em 2011.

Em julho de 2013, a Abril Educação comprou o grupo Motivo, do Recife, por R$ 100 milhões.

De um modo bem torto e por uma confluência de fatores, a Abril descobriu que a educação é muito mais rentável que o jornalismo.

Colegas se apressam em decretar “o fim da Abril” e esquecem que o poderio dos grandes grupos de comunicação é muito amplo para simplesmente virar pó. No mundo todo, o que se faz é cortar gastos, enxugar veículos, buscar novas fontes de financiamento, apostar numa comunicação multiplataforma. Como funciona no capitalismo em geral, quem irá sobreviver é quem conseguir gerenciar melhor estas questões.

 

Independente de quão precoce a mídia impressa migrou para o online, o sucesso está em entender que são suportes bem diferentes – o que levou um bom tempo para acontecer – e que, ainda que à fórceps, não basta apostar na “sinergia do arrocho”, sobrecarregando equipes inteiras que produzem conteúdo para todas as plataformas, erros comuns que vemos aos montes por aí.

 

A “morte da mídia impressa” é anunciada há pelo menos uns 10 anos. Ainda continuará de pé, e forte, e relevante. É muito mais provável que consigam se reinventar, porque tem poder financeiro para isso, do que chegarem ao fim. O online ainda vive bastante de repercutir a mídia tradicional. E, no momento, não há nenhum “fim” demasiadamente previsível, porque não se trata de apocalipse, de soluções fáceis e profecias falaciosas.
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Jornalismo

Jeffrey Wigand: o homem que sabia demais

poar01_wigand9605“The Insider” recebeu grande reconhecimento em 1999. Michael Mann vinha do ótimo “Fogo Contra Fogo”, Pacino ainda embarcava em bons projetos e Russell Crowe emendava um filme atrás do outro, antes de chegar ao Oscar por “Gladiador”, um ano depois de “The Insider”. O filme foi nomeado para 7 estatuetas mas não levou nenhuma.

Mais importante que isso é a história real de Jeffrey Wigand, ex-executivo da Brown & Williamson, a terceira maior companhia de tabaco dos Estados Unidos e a coragem que teve (e o inferno pelo qual passou) pra denunciar “práticas abusivas” da empresa, perjúrio e, enfim, ajudar a implodir uma das maiores indústrias do mundo num dos principais casos jornalísticos, políticos e empresariais das últimas décadas.

O artigo no qual o roteiro se baseou, publicado em 1996 pela revista Vanity Fair, está disponível completo online e é obrigatório para todos que se interessam por jornalismo investigativo e etc. Marie Brenner constrói um retrato fiel do labirinto kafkiano que Wigand teve que passar. Leia aqui.

A seguir, uma entrevista com Jeffrey por Charlie Rose:

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Jornalismo

Revista Mátria 2013

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Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, celebrado dia 08 de março em todo o mundo, a CNTE lança a edição 2013 da revista Mátria, que chega ao 11º ano de veiculação.

A matéria de capa aborda a situação do trabalho infantil no Brasil. Outros destaques incluem um panorama da participação feminina e do impacto que a Copa do Mundo de 2014 traz, a falta de vagas em creches de todo o país e o que pode ser feito para superar esse desafio e uma abordagem da luta política das mulheres pela situação palestina, dentro do movimento sindical e a escola como campo propício para tratar a igualdade de gênero.

Além da disponibilização online, a revista foi distribuída em milhares de escolas pelo país.

Acesse a revista completa aqui.

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Jornalismo, Tecnologia & Internet

Robert Kaiser: 20 anos de mudanças na mídia que mal foram compreendidas

Kaiser

A internet e tudo que ela trouxe ao seu redor, como campo consideravelmente novo de estudo e experiência prática, carrega na sua história uma tonelada de previsões ao longo do tempo. É curioso observar como os intelectuais, jornalistas, pensadores (etc) tentaram antecipar algumas das mudanças cruciais que estavam para acontecer. Muitas dessas previsões, claro, passavam como delírio ou erraram feito em pontos importantes. Normal.

Alguns, no entanto, acertaram bastante. Como Robert Kaiser, em 1992. Na época editor-administrativo do Washington Post, Kaiser foi convidado pela Apple a pensar sobre as transformações que poderiam acontecer e como isso impactaria toda a mídia, a forma de se fazer jornalismo, a interatividade com o usuário e como obter lucro. Kaiser apresentou seu artigo numa conferência no Japão.

O texto, disponível completo aqui, faz 20 anos este mês.

Em meio a diversas considerações, chamo atenção para duas. Kaiser pondera:

“It is widely assumed among computer people that the public will love the idea of playing editor — of organizing the information stream around personal needs and preferences to create individualized “newspapers.”

Familiar, não? Incrível observar como isso se manifestou literalmente de uma infinidade de maneiras, seja nos próprios blogs, nas redes sociais, nos agregadores de RSS, em ferramentas como o Digg, o Delicious, o Paper.li e por aí afora.

Em outro trecho, Kaiser lembra algo fundamental que muitos (muitos) veículos ainda não sabem aplicar corretamente na migração do papel para o online, na maioria das vezes replicando parcamente a estrutura do jornal no site e ignorando, afinal, muito do que foi feito e implantado até hoje. Embora isso tenha mudado bastante.

“Many at the conference talked about the way we tend to use new media first to replicate the products produced by old media — so early TV consisted of visible radio shows, for example. With this in mind, our electronic Post should be thought of not as a newspaper on a screen, but (perhaps) as a computer game converted to a serious purpose. In other words, it should be a computer product.”

Numa tacada, Kaiser lembra o principal: o jornal online é um produto novo. Não é uma réplica do papel. Daí lembramos da alegada “sinergia” que a maioria das empresas de comunicação faz, colocando seu site apenas como “algo a mais”, uma cópia de luxo e cheia de penduricalhos do jornal impresso, do fato de colocarem, muitas vezes, a mesma equipe para fazer as duas coisas, o que mostra não só a penúria geral do profissional e a pobreza (também) de mentalidade dos patrões.

Mas Kaiser, talvez numa analogia mais espontânea que técnica, de certa forma antecipa o conceito de newsgames, que somente hoje tem começado a ser aplicado de maneira mais extensiva e inteligente.

E ele também pondera sobre como ter lucro nesse novo meio, nesse novo jornalismo. Afirma:

“More interesting are packages of text, photos and film that could be used to create customized news products at many different levels of sophistication. At the top end, such a product might contain the text (or spoken text) of a Post story on the big news of the day, accompanied by CNN’s live footage and/or Post photographers’pictures, plus instantly available background on the story, its principal actors, earlier stories on the same subject, etc. All of this could be read on segments of a large, bright and easy-to-read screen (screens are also being improved at a great rate). Of course the prophets also foresee a lot of advertising on this new medium, predicting that it will have great power because of its ability to give consumers exactly what they want — all the ads for used 4-wheel-drive vehicles, or all the women’s-wear stores having sales today, or all the theaters showing “Hook,” etc. And there are countless ideas for entertainment and games. One that struck my fancy would allow kids (of all ages) to put themselves into familiar movies, actually adding new characters, new dialogue, etc.”

É recomendável ler o artigo todo para uma compreensão total. Coisa que é difícil de superar até hoje: a preguiça intelectual do leitor, na internet ou fora dela.

Ainda cambaleante, a mídia tenta descobrir qual a melhor maneira de lucrar com os seus produtos online, interativos, etc. Nenhuma fórmula única de sucesso foi – ou será – descoberta. O caminho óbvio parece, antes de tudo, conteúdo original e realmente pensado para o online. Depois, estratégias híbridas de anúncios e geração de receitas, explorando as diversas potencialidades disponíveis.

Fechar o site para acesso restrito, deixando apenas um número X de textos gratuitos para o público em geral, modelo que foi adotado recentemente pelo New York Times e Folha de São Paulo, parece mais uma tentativa desesperada de conseguir receita do que propriamente algo benéfico para veículo e público. Bom jornalismo custa caro, é fato. Ao mesmo tempo, diante da quantidade absurda de boas fontes de conhecimento gratuitas na web, o público me parece pouco disposto a pagar por informação.

Exceto quando você consegue realmente oferecer um pacote único e que valha a pena para o leitor. Ainda vamos tropeçar bastante no caminho até chegar numa solução razoável.

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A Vision for the future of newspapers – 20 years ago

Why newspapers need to get to know their readers better

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HSM Management: Brasil – presença na gestão que dá certo

Meses atrás tive a oportunidade de ser convidado pela Adriana Salles Gomes, editora da revista há 15 anos, a produzir reportagens para uma edição especial da HSM Management, a maior referência em gestão do Brasil, presente em 8 países e com veículos que incluem TV, revista, site, seminários, fóruns, expo, etc. Agora a edição especial “Brasil: presença na gestão que dá certo” chega nas bancas de todo o país junto com o volume 85 da HSM.

Traçando paralelos com a inovação brasileira na arte e em muitas práticas avançadas de conhecimento, o objetivo da revista é, segundo Marcos Braga, presidente da HSM Brasil, “apresentar conceitos e práticas brasileiras que são, ou deveriam ser, referências mundiais em gestão –isto, sob o olhar HSM, que, como o leitor sabe, é primordialmente técnico, tático e estratégico.” A própria Adriana escreveu um texto bem bacana sobre os detalhes do projeto, aqui.

Da minha parte, fui investigar as práticas de gestão da Schincariol, segunda maior cervejaria do país, 100% brasileira, com mais de 70 anos de história, 15% de participação no mercado e R$ 5 bilhões em faturamento. Para tanto, travei uma longa entrevista com Adriano Schincariol, presidente-executivo, Luiz Cláudio Taya, diretor de marketing e Américo Garbuio, diretor de desenvolvimento humano e organizacional. Com as diversas transformações, expansão, aquisição de novas marcas e mudanças estratégicas dos últimos anos, o resultado foi uma matéria bruta de 8 páginas abordando tudo de relevante dentro da Schin.

Para analisar o processo de internacionalização de empresas brasileiras, movimento cada vez mais comum e intenso, conversei com executivos da Marcopolo, IBOPE e com Sherban Cretoiu, especialista da Fundação Dom Cabral no tema. Por fim, investiguei o momento atual do empreendedorismo brasileiro, característica central da nossa economia, que começa a atingir fase de amadurecimento real. Conversei com Fernando Dolabela, professor, pesquisador, autor de vários livros e uma das maiores referências brasileiras na área. Centrando na inovação, abordei o projeto do C.E.S.A.R, de Recife. Na FIAT, contei a história do FIAT Mio, o terceiro carro conceito da empresa no Brasil, ousado na concepção e na participação do público, com depoimento de Paulo Matos, supervisor de inovação da Fiat Automóveis.

Na revista, você confere todo esse material e muitas outras matérias de gente muito competente sobre a eficiente gestão brasileira, incluindo uma análise aprofundada da nossa economia. Orgulho de fazer parte desse projeto e de poder pensar um pouco sobre o estado atual do nosso mercado e nossas práticas, em seus exemplos e problemas a resolver. Apesar de todos os gargalos conhecidos, o prognóstico é inegavelmente positivo.

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