Archive for novembro, 2008
Doente e Cansado
Posted by: MAngelo in Autorais/Literatura on novembro 25th, 2008

Subiu o elevador. 16º andar. Estava cansado. Havia despedido duas pessoas naquele dia. Embora necessário, César não gostava de fazê-lo. A consciência doía. Na verdade, nada que um remédio não resolvesse. Um para a dor, outro para dormir. Um último para controlar o stress. Viver sedado não era o problema. A sobriedade incomodava mais que o torpor.
Era de uma estupidez notável. Para ser mais preciso, César gostava de se fazer de estúpido. Poupava esforço. Sobretudo, detestava ter de explicar as coisas. Não era exatamente brilhante em sua área - trabalhava como diretor de uma universidade - nem administrando nem na educação. Mas “acima da média” não se constituía como requisito fundamental para o cargo.
(…)
, João terminou o livro em menos de uma hora. Estava entediado. Recolocou “O Mito de Sisífo” na prateleira. Gostava de Camus. Dava boa risadas com ele. Deitou na cama, mastigando uma maçã. Cuspiu a parte podre, que deixou um gosto amargo na boca.
how…
to
…dissapear
Hellen socou 5 vezes a cabeça do irmão. Havia transado sem camisinha. E nem gostava de Augusto. Fingiu orgasmo regozijando-se internamente. Em sua cabeça, humilhar o namorado dava mais prazer que entregar-se.
(i just don’t know)
O inferno era ele mesmo. Mas não compactuava com a depressão. Estava bem feliz, até. Compunha canções soturnas ao piano em dias de sol.
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trabalho-leitura-ética-responsabilidade social-ausência-dor-sono-gozo-tédio-força-ladainha-comida-repeteco-cerveja
-ciúme-solidão-impaciência-dinheiro-falta-gordura-obsessão-política-audio
-bottom-blefe-crítica-rotina-novidade-coleira-preguiça
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Os pêlos se acumulavam sob a mesa. Calor. Frio. Já não diferenciava. Não tinha importância. Muita informação. Vigor. Ar fresco. Consciência online. Só tinha vigor durante umas duas horas ao dia. Não era exatamente o suficiente. Fastio. Cansaço.
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, continuaria outra hora.
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O salário do mendigo e a escravidão moderna
Posted by: MAngelo in Política & Economia on novembro 6th, 2008

Recebo o seguinte email, já publicado exaustivamente na internet. Útil, contudo, para pensarmos algumas questões interessantes:
Quanto ganha um mendigo? E um estagiário…?
Um sinal de trânsito muda de estado, em média, a cada 30 segundos, ou seja 30 segundos no verde e 30 segundos no vermelho.
Portanto, a cada minuto, um mendigo tem 30 segundos para faturar pelo menos R$ 0,10, o que numa hora dará: 60 x 0,10 R$ 6,00. Se ele trabalhar 8 horas por dia, 25 dias por mês, num mês terá faturado:
25 x 8 x 6 = R$ 1.200,00.
Será que essa é uma conta maluca?
Bem, R$ 6,00/hora é uma conta bastante razoável para quem está no sinal, uma vez que, quem doa, nunca dá somente 10 centavos e sim R$0,20, R$0,50 e às vezes até R$1,00.
Mas assumindo que o mendigo fature a metade: R$ 3,00/hora, terá R$ 600,00 no final do mês, que é o salário de um estagiário (é claro que depende da região do país e de outros fatores, mas enfim…) com carga de 35 horas semanais ou 7 horas por dia.
Ainda assim, quando o mendigo consegue uma moeda de R$1,00 (o que não é muito raro), ele pode descansar tranqüilo debaixo de uma árvore por mais 9 viradas do sinal de trânsito, sem nenhum chefe pra aporrinhá-lo por causa disto.
Mas isto é teoria, vamos ao mundo real…
Foram entevistar uma mulher que pede esmolas, e que sempre era vista trocar seus rendimentos na Panetiere (padaria em frente ao CEFET). Então lhe perguntaram quanto ela faturava por dia. Imaginem o que ela respondeu? É isso mesmo! Ganho de R$ 35,00 a R$ 40,00 em média, o que dá (25 dias por mês) x 35 = R$ 875,00 ou 25 x R$ 40,00 = R$ 1000,00. Então, na média, ganho R$ 937,50. E ela disse que não mendiga 8 horas por dia.
Moral da História: É melhor ser mendigo do que estagiário (ou professor). E pelo visto, ser estagiário é pior do que ser mendigo…
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A tal “entrevista”, que pode suscitar dúvidas, encontra respaldo na realidade, já que pesquisas indicaram que a remuneração média de quem pede esmola em sinais é realmente por volta de R$ 900 a R$ 1.000. E ainda podem contar com bolsa aluguel.
Não sejamos simplistas. Dentre o último perfil traçado dos moradores de rua no Brasil, apenas 15,9% disseram viver de esmolas. O levantamento indica também outros dados que valem a pena serem conferidos.
A situação dos estagiários não é segredo. Ainda que o assunto mereça um post específico no futuro, não é difícil achar anúncios de vagas para estagiários que paguem de 200 a 400 reais por mês, por 6 a 8 horas diárias. “Estágio”, na verdade, é a melhor maneira que o mundo capitalista moderno conseguiu de obter mão de obra qualificada a preços irrisórios e que faça tudo que é pedido. Isso quando pagam algo, já que “estágios não remunerados” em grandes empresas são uma constante. É como se o estudante infeliz devesse se submeter a tudo pela “oportunidade de ouro” de servir aquela empresa e colocar o nome dela no seu currículo.
A nova lei de estágio ajudou, mas está longe de corrigir vários absurdos.
Quem se habilita a ir para o sinal mais próximo?
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Obama, mudanças e poder negro
Posted by: MAngelo in Política & Economia on novembro 5th, 2008

Barack Hussein Obama. Negro, nascido no Havaí, filho de pai muçulmano. Alguém com um nome e histórico desses seria o último candidato a ter alguma chance numa suposta eleição presidencial nos EUA. Curiosamente, um lema bem familiar aos brasileiros, “a esperança venceu o medo”, “change we need”, foi o mote da campanha de Obama.
Barack é filho de um economista e uma antropóloga, tendo formação em Ciências Políticas e Direito. Lutou pelos direitos civis durante toda sua trajetória e teve justamente nas doações espontâneas e no voluntariado militante boa parte dos 600 milhões de dólares para a campanha e no empenho necessário.

O frisson, o otimismo e a onda de euforia e esperança que se vê ao redor do mundo é impressionante. Todos esperam que Obama faça tudo que Bush Jr não fez: lide melhor com a questão palestina, retire as tropas do Iraque, reduza os subsídios agrícolas, dê mais atenção a questão latina nos EUA, se aproxime dos países do hemisfério sul, que consiga, em suma, fazer uma política ampla, plural, aberta ao diálogo e que trate de cada questão política, social e econômica não só com eficiência mas com “humanidade”, respeito e consideração por quem historicamente sempre foi excluído.
Não dá pra mensurar o quanto a eleição de um presidente negro impacta em infinitos fatores. Qual o simbolismo e o resultado prático disto. Obama foi massivamente apoiado pela classe artística, acadêmica e intelectual dos EUA e do mundo. Era, de forma direta ou entrementes, o candidato pelo qual todos estavam torcendo. Depois de George W. Bush, que representa a antítese de Obama (burro, trapalhão, impopular, arrogante, belicista, etc, etc, etc), dá para notar no ar o alívio que o mundo experimenta com a vitória de Obama.
Há que se lembrar que, durante a campanha, três tentativas de assassiná-lo foram descobertas e impedidas pelas autoridades responsáveis (algo muito pouco divulgado pela mídia). E não será de assustar que, após a eleição, o racismo latente (ou escancarado) mostre até onde pode chegar. Toda segurança será pouca.
Abaixo o vídeo de “Renegades Of Funk”, do Rage Against The Machine, que mostra diversos líderes negros ao longo da história, de diversas áreas. Nada mais adequado para este momento. A banda, a letra, o vídeo e a música (cover do Afrika Bambaata). Obama já está no novo panteão. Irá enfrentar um país destroçado, uma economia em recessão, a pior crise dos últimos 80 anos e um planeta com conflitos e fissuras imensas com os EUA. Uma bela herança de Bush Jr. Como a mudança prometida se manifestará, só vivendo pra saber (até onde dura a empolgação):
Recomendado:
Revista Piauí - Contra a Diversidade
O dia seguinte: as raízes da vitória de Obama
O Dono do Mundo? - Jann S. Werner
O candidato que mudou mais que uma eleição (análise da campanha publicitária de Obama) - C. Merigo
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Fernando Gabeira e a derrota da democracia
Posted by: MAngelo in Política & Economia on novembro 5th, 2008

A derrota de Fernando Gabeira nas eleições do Rio, por menos de 2% dos votos, simboliza não só a perda da oportunidade de uma das cidades mais belas e relevantes do país recuperar a dignidade da sua política, como, em última instância, indica a derrota da nossa já inexistente democracia.
Poucas vezes vi um político com tanto apoio de pessoas, digamos, inteligentes e da massa de profissionais liberais. Dos que conheço, praticamente 100% estavam torcendo por Gabeira, mesmo que não morassem no Rio.
Também pudera. Jornalista, ativista e conhecido historicamente por suas posições de “vanguarda”, ao defender, dentre outros, a liberação da maconha e a legalização do trabalho das prostitutas, Gabeira sempre foi um corpo estranho na política brasileira. Alguém que foge tanto do padrão do político nacional que se destaca por sua própria existência, felizmente ancorada por um intelecto pouco visto nos arredores de Brasília.
Pop a ponto de estampar a capa da revista Rolling Stone (com reportagem completa - e muito recomendada - disponível aqui), Fernando saiu de posição desfavorável no primeiro turno para quase se eleger prefeito do Rio baseado numa campanha limpa e com poucos recursos e extravagâncias, ao contrário de seu concorrente, Eduardo Paes. Mesmo com o discurso padrão e polidamente correto de agradecimento após a derrota, Gabeira sabe que foi vítima de mecanismos “pouco ortodoxos”.
Um movimento se organizou em torno das “peculiaridades” da eleição carioca, pedindo - utopicamente - a anulação do pleito, baseado em algumas acusações:
- Feriado adiantado pelo governo municipal, causando quase 30% de abstinência no segundo turno (recorde no país).
- Mais de 1 milhão de pessoas acabaram não votando.
- Candidatura de Paes registrada fora do prazo de desincompatiblização;
- 50 milhões de reais de despesa de campanha de Paes (e não se sabe quem bancou).
- Acusação de Paes estar ligado as milícias dos morros cariocas, que controlam o voto da população da área onde atuam.
- Uso político das UPAs (em Barra Mansa o prefeito eleito perdeu o cargo por isso) e restaurantes populares.
- Corrupção eleitoral, coação de leitores na Rocinha, ZN (região da Pavuna).
- Boca de urna por vereadores eleitos da coligação oposta.
- Campanha difamatória contra Gabeira, claramente bancada e sustentada por políticos da outra coligação (tipo Liliam Sá e Clarissa Garotinho).
O movimento está em torno do blog Pró-Democracia, que contém uma série de outras acusações, reportagens, documentos, relatos, sendo bastante recomendado uma visita.
O esforço é válido, mas parece óbvio que na Eurásia brasileira, na democracia da Cosa Nostra em que vivemos, a reeleição de Paes é apenas um sintoma dentre muitos.

