Archive for setembro, 2009
Dá pra ter pena do Fluminense?

Não, não dá. Empatar com o vice-lanterna do acachapante campeonato peruano nem parece muito. E daí que o time é formado por criadores de lhamas? Profissionalismo é uma piada, baby. 11 jogos sem vitória e o ticket vitalício para a série B.
No início do ano, muitos nomes da imprensa esportiva apostavam alto no Flu. Que era uma vergonha “um esquadrão daqueles” não chegar nem na final do Carioca. Vejamos o escrete arco-íris do último jogo:
Rafael, Mariano, Gum, Luiz Alberto e João Paulo (Alan); Diguinho, Maurício (Ruy), Conca e Marquinho; Kieza e Adeílson (Roni).
Fred (quem?) deve estar morrendo de saudade da vidinha aristocrática em Lyon, sem tiroteio na rua, rojão no treino, cobrança fungando no cangote. Se bem que foi despachado de lá…
O problema do Fluminense é o mesmo de todos os times cariocas: amadorismo absurdo. A pura e simples escrotidão. Exemplos bisonhos não faltam. Qualquer um percebe que enquanto o futebol carioca não tomar vergonha, é bem fácil para o São Paulo continuar empilhando títulos brasileiros. Daqui a pouco a sala de troféus vira um shopping. É justo? É.
Em terra de analfabetos quem tem cérebro vira rei.
Leia Mais
O único sentido íntimo das coisas…
Posted by: MAngelo in Autorais/Literatura on setembro 22nd, 2009

Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
(…)
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
( O Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro: desde sempre um dos meus poemas favoritos. Completo aqui)
Leia Mais
Nunca Mais
Posted by: MAngelo in Autorais/Literatura on setembro 21st, 2009

Nunca mais o sorriso fácil
o deleite carnal
as madrugadas perdidas
as avenidas movimentadas
.
Nunca mais o cerão, o café preto
o lixo, o ego, a mesquinharia
o metrô apinhado
nunca mais
.
Nunca mais os raios de sol, a hipocrisia
a futilidade, o torpor, o ódio
Nunca mais o quarto bagunçado, a louça suja, a facada nas costas
as aparências, nunca mais
.
As manhãs claras, a areia da praia, o cheiro de mato
Nunca mais
Nunca mais o upload, a notícia barata, o trabalho braçal
o sorriso amargo
.
Nunca mais a mentira, a falta de tesão
o almoço nas praças
a tecnologia, a fruta doce e artificial
a água que escorre
.
Nunca mais as enxentes, a roupa suja, as noites perdidas em lugares abafados
a embriaguez da cerveja, o torpor do vinho
o frio nas pernas
a ilusão do respeito
.
Nunca mais o celular, o aluguel, a utilidade
os festivais, o delivery, a dor inesperada
a sabotagem, nunca mais
o futebol
.
Nunca mais o sono inconstante
a paciência, o bonzinho
nunca mais
as segundas cinzentas
.
Nunca mais o cheiro de estrume
a certeza, a convicção, o erro
nunca mais poemas vazios, frases calculadas
Downloads, propaganda
.
Nunca mais
Nunca mais a saúde perdida, o nojo, a cobrança, a tela
Nunca mais as cores, o azul, o branco, o verde
A resignação
.
Nunca mais a filosofia, as digressões baratas, o backup
O pé de página
Nunca mais
Coisa alguma
.
Nunca mais
a verdade, a construção, o humor
nunca mais o teatro
os olhos ardendo, a xícara vazia, a hesitação
.
Nunca mais
(Poema inspirado diretamente na peça “O Mistério Bufo”, de Maiakóvski, descrita aqui)
Leia Mais
O Mistério Bufo de Maiakóvski

“Mistério-Bufo é a nossa grande revolução, condensada em versos e em ação teatral. Mistério: aquilo que há de grande na revolução. Bufo: aquilo que há nela de ridículo. Os versos de Mistério-Bufo são as epígrafes dos comícios, a gritaria das ruas, a linguagem dos jornais. A ação de Mistério-Bufo é o movimento da massa, o conflito das classes, a luta das idéias: miniaturas do mundo entre as paredes do circo.”
Nunca fui um grande frequentador de teatro. Erro grosseiro. Quanto mais se conhece, mais se apaixona. Não cabe aqui entrar na comparação teatro x cinema. São coisas muito, muito diferentes. Guardado o carinho pela sétima arte e toda sua completude por excelência, o teatro me parece algo muito mais quente, visceral, dinâmico. Óbvio. “Mistério Bufo”, do russo Maiakóvski, apresentada no momento no CCBB de Brasília, foi o ápice da minha enxuta experiência teatral.
A começar pelo interesse profundo que os autores russos sempre me despertaram. Dentre os poetas, não há dúvidas de que Maiakóvski foi um dos maiores. O espetáculo em si (desnecessário dizer que ele é extremamente recomendado) seguiu a risca a recomendação do próprio: “No futuro, todos que encenarem, desempenharem os papéis, lerem e imprimirem o MISTÉRIO BUFO, mudem o conteúdo, - façam ficar contemporâneo, moderno.”
Três atos. Luzes, painéis, rapel, acrobacias, intervenções, diversos ambientes, vídeo, música, dança: uma jornada literal vivida e degustada pelo público nos diferentes momentos e cenários da peça. Ousada, lírica, caótica. Russo, português, inglês, francês, espanhol, hebraico, italiano, difícil contar todas as línguas usadas.
A dualidade da revolução levada além dos clichês. De longe, o espetáculo mais rico em forma e conteúdo que já presenciei. O materialismo e o espiritual. O comportamento e a psiquê. Pequenas concessões cômicas ante o peso natural do tema. Recursos circenses sem estarem ali por acaso, gratuitamente. O quente e o frio. Mais atual e necessária ainda do que era em 1918.
Uma produção artística, afinal, que não te deixa sair ileso. E esta é a maior virtude que posso imaginar.
Leia Mais
São Paulo é um lugar bizarro…
Conseguem ver? As ruas sem saída, o traçado totalmente arbitrário, sinuoso, sem qualquer lógica aceitável. Uma aberração da arquitetura urbana. Acostumado à capitais planejadas como Belo Horizonte e Brasília, é assustador chegar em São Paulo. Mais ainda pela monstruosidade inerente a todos os poros da megalópole.
Caos urbano é isso aí. E a tela acima é uma das melhores regiões da capital. Dá pra imaginar o resto.
Um pouco de maldade, vamos comparar:
Auto-explicativo.
Se compensa viver na insanidade paulista? É uma pergunta cruel. Give Me A Break. Ninguém em seu perfeito estado de consciência vem pra cá.
Nuff said.
Homens Comuns
Posted by: MAngelo in Autorais/Literatura on setembro 7th, 2009

Estes dias me deparei com o lançamento recente da editora 8Inverso: as correspondências de Dostoiévski entre 1838 e 1880. Na verdade, as cartas são unilaterais. Não há contraponto. As respostas não estão presentes. As cartas traduzidas são endereçadas principalmente ao irmão, Mikhail.
A despeito destas falhas, o livro é obrigatório para os interessados pelo autor russo. Nelas, ficam expostas as entranhas de Dostoiévski. O tanto que um dos maiores gênios da literatura mundial é…um homem comum. Comum e ordinário como todos nós.
Oprimido pelo serviço militar, as doenças, a fome, a prisão, a carência, insegurança, o vício no jogo, a falta de dinheiro. Dostoiévski escreve por diversas vezes desesperado implorando por dinheiro ao pai e ao irmão. Lista todas as suas necessidades básicas, justifica o pedido por cada centavo que ele não tem para a mínima sobrevivência.
Como escritor, narra em detalhes o processo de criação das obras. Para além do perfeccionismo quase comum a todos os autores, Dostoiévski deixa claro a necessidade de fazer dinheiro com os livros. O inegável aspecto comercial. O quanto aguarda que se torne um escritor de sucesso para poder quitar as dívidas. O quanto acompanha, crítica por crítica, texto por texto, o que sai em jornais e periódicos sobre ele. Avalia os amigos. Os escritores do seu tempo: Gogol, já consagrado e Turguenev, a quem admira a princípio, tem uma série de desentendimentos e acaba se reconcicliando já no final da vida.
Definindo-se como vaidoso e ambicioso, Dostoiévski deixa entrever tudo que seria inimaginável a quem não conhece sua história, perceber. É óbvio que isto não invalida em absolutamente nada as obras que escreveu. Pelo contrário, as engrandece.
O trágico permeia o livro: além de todas as privações, o exílio na Sibéria, a prisão por conspirar contra o regime, as doenças, a epilepsia, a ordem de execução cancelada na última hora e posteriormente a crueldade do czar que manda os soldados fazerem todo o processo de execução apenas para “pregar uma peça” nos prisioneiros e anunciar a redução da pena. As mortes da esposa, da filha e do irmão no mesmo ano. O dinheiro ganho nos primeiros anos de seu reconhecimento como escritor perdido no jogo.
A inveja. A infinita insegurança. O quanto se preocupava com a opinião alheia. Um Dostoiévski frágil, atormentado, bestialmente comum. Humano. Tudo está em seus livros: cada trama, personagem, pensamento. Tudo é tirado literalmente da vida que teve.
É assustador, mesmo que óbvio, constatar estas mazelas materiais, espirituais e psicológicas, presentes em todos nós.
Ler as correspondências do autor russo é não só mergulhar no seu inferno pessoal como perceber a grandeza e a desgraça da vida. A eterna ânsia. A estupidez, o desejo e as necessidades primais. O quanto somos ridículos. E como os tais raros conseguem equilibrar isto com uma genialidade sem igual.
Fechei o livro com algumas lágrimas nos olhos e muitas feridas por cicatrizar.




