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O Discurso do Rei – Tom Hooper

É fácil acusar “O Discurso do Rei” de ser quadrado, tradicional, pouco ambicioso, engessado, etc, etc. Como filme, sua estrutura é totalmente convencional. Na direção, o grande mérito de Hooper é o trabalho de atores, mas aí entram 95% de crédito dos próprios, convenhamos. E aí está o grande charme da película: a “química” soberba entre Colin Firth e Geoffrey Rush, espetaculares. Bonham Carter também está longe de fazer feio. Rush mostra uma das melhores atuações de sua carreira: a certeza é que quem ficar com o Oscar de ator coadjuvante- entre ele e Christian Bale, provavelmente – estará em boas mãos.

Se o filme é convencional, vale igualmente perguntar se seria possível fazer algo melhor dentro da história, do argumento e da abordagem proposta. Difícil. Assim, podemos dizer que a obra é praticamente perfeita no que se propõe, o que não deixa de ser um mérito tremendo. É redondo, correto e sem exageros. Não há pieguice aqui, por exemplo. Como gago, posso dizer que a caracterização de Firth é assombrosa. Ouvindo um trecho real do discurso de George VI retratado no filme, pode-se perceber com que sutileza Firth absorveu os mínimos detalhes da fala do rei.

Com todas suas limitações, “The King’s Speech” é muitíssimo bem acabado: algo que, por vezes, deve ser tão valorizado quanto certos delírios.

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Cisne Negro – Darren Aronofsky

Disseram na comunidade do Cinemascopio que “Aronofsky parece aquele seu amigo que posta uma letra dos Engenheiros do Hawaii e ainda faz um parágrafo para “explicar” os versos”. De fato, eis aí o que incomoda profundamente no cinema do rapaz. Em 2009, escrevi que Aronofsky precisava parar como se tivesse mal de parkinson, algo como organizando uma rave cinematográfica. E apesar de ter uma cena em boate com música eletrônica regada a drogas em “Cisne Negro”, esse tique permanece “suavizado”, digamos.

Mas é sua insistência em reforçar o óbvio que compromete. É sua plena incapacidade de trabalhar com sutilezas, de sugerir com elegância, de perpassar a camada mais superficial possível. Aqui, é o jogo de espelhos onipresente, a imposição do furor sexual à Nina Sayers de Natalie Portman, a dicotomia entre o “cisne branco” e “negro” a todo momento, a transformação, o oposto da Lily de Mila Kunis.

Portman – numa magreza tão necessária para o papel quanto exagerada – está bem dentro das falhas diversas de Aronofsky. É um primor de redundância e tensão forçada a condução da trama. Portman e Cassel (que estava merecendo um papel de destaque) se movem dentro do maniqueísmo infindável do diretor. Não há nuances ou camadas aqui. Seu sentido de “progressão” é o mais básico possível. O papel da mãe de Nina, feito por Barbara Hersheys, e suas projeções, expectativas, ciúmes e disputas com a filha é novamente grosseiro e irritante.

Em suma, um ótimo argumento dirigido pelo realizador errado.

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Recomendo bravamente esse texto de João Pereira Coutinho, na Folha, sobre o filme. Certeiro.

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Bravura Indômita – Coen Brothers

Se alguns chegaram a “desconfiar” quando os irmãos Coen anunciaram que fariam o remake de “True Grit”, 2 anos atrás, o filme acabado mostra que qualquer receio estava bastante equivocado. Os próprios Coen disseram não ter visto o filme original, de 69, e sua adaptação se baseou totalmente no livro: 100% verdadeiro ou não, fato é que o Bravura Indômita dos irmãos carrega o bom DNA autoral dos dois, com o freio puxado em alguns delírios e exageros de ironia e situações non-sense costumeiras – que às vezes funcionam, outras fracassam.

O responsável por isso, provavelmente, é Steven Spielberg. Produtor executivo da película. Dá pra sentir os dedinhos de Spielberg em opções mais tradicionais, como no final explicadinho e seguindo integralmente o livro, afinal. Mas nada que comprometa: Jeff Bridges está espetacular, numa atuação muito mais merecedora do Oscar – que deve ficar mesmo com Colin Firth – que a de “Crazy Heart”. Matt Damon está firme, investindo exatamente no que lhe cabe.

O destaque mesmo é Hailee Steinfeld. Com apenas 14 anos de idade, sua Mattie Ross é magnífica, estupenda, esbanjando a personalidade adulta que o personagem pede e deixando-se entregar ao viés “menininha” apenas quando requerido e mesmo assim numa segurança arrebatadora. O filme é dela. Não só por ser o elemento central da diferenciação do western tradicional, como por todo o eixo que representa e a atuação em si.

Outro elemento fundamental de True Grit é Roger Deakins. Responsável pela fotografia da maioria dos filmes dos Coen, Deakins já é, há muito, um dos melhores diretores de fotografia do planeta. Sempre soberbo, criando imagens belíssimas seja em grandes planos seja na iluminação natural de uma fogueira noturna. Recomendo bastante esta entrevista com ele. Cenas de já raro impacto e significância ganham ainda mais com o toque artístico de Deakins. “True Grit” é um deleite para os olhos.

Filme coeso, redondo, repleto de boas atuações, ótimo roteiro adaptado e uma fotografia fantástica. Aula de como renovar um clássico.

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The Fighter – David O. Russell

Um dos melhores filmes baseados no universo do boxe – fácil – desde “Raging Bull”. Christian Bale está assombroso. Uma das melhores interpretações da sua carreira – que talvez tenha seu ápice em “Rescue Dawn”. No fim, quando o verdadeiro Dick Ecklund aparece, dá pra notar como Bale absorveu incrivelmente a malandragem, o humor, a personalidade única do sujeito.

Baseado na história real de Ecklund – ex-lutador, celebridade local por derrubar Sugar Ray Leonard na década de 70, que se torna viciado em crack – e seu irmão Micky Ward, treinado por ele e com uma carreira conturbada em virtude não só do vício e dos crimes do irmão como da família “peculiar”: 7 irmãs – literalmente “os sete demônios” – a mãe louca (Melissa Leo, indicada ao Oscar pelo papel) e o pai segurando a barra no meio de tudo. Amy Adams vive a namorada de Ward e foi igualmente indicada, tendo papel firme na película. O’Keefe, o policial-treinador, foi interpretado pelo próprio no filme, dando ainda mais credibilidade ao negócio.

Engraçado, repleto de interpretações soberbas, envolvente e sem carregar demais numa história já dramática por conta própria, “The Fighter” é certeiro no que propõe. As cenas de luta são bem realistas, fugindo do exagero da série Rocky, por exemplo. Merece todos os prêmios que receber e, principalmente, que você vá ao cinema vê-lo. O melhor do ano até agora – com boas chances de se manter lá em cima.

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Além da Vida – Clint Eastwood

O filme vale por duas cenas: a de abertura, recriando o tsunami do Oceano Índico em 2004 na qual a jornalista francesa Marie Lelay, vivida por Cécile De France, sobrevive. E pelo encontro de Matt Damon e Bryce Dallas Howard na aula de culinária, um dos momentos mais belos  – de uma química tão particular – que vi na tela grande recentemente.

Fora isso, no entanto, é dos piores filmes de Clint Eastwood. O tema é explorado de forma clichê, o roteiro é fraquinho – trabalho equivocado de Peter Morgan, responsável por O Último Rei da Escócia, A Rainha e Frost/Nixon – as histórias paralelas se desenvolvem de maneira extremamente previsível, as habilidades de “vidente” de Damon são tratadas como o apertar de um botão. Há questões interessantes aqui, porém retratadas de modo frouxo, vazio ou óbvio demais.

Mesmo as relações humanas e de cada um com seus traumas fica aquém do que um diretor como Clint poderia fazer. Se “Invictus” já era tremendamente convencional, “Hereafter” segue o declínio, depois de uma obra-prima como “Gran Torino”, sem dúvida um dos melhores filmes da última década.

Que Clint encontre seu caminho novamente.

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The Social Network – David Fincher

A era da informação, travestida há muito tempo na era da tecnologia, é uma época dominada pelos super-nerds. E o filme capta muito bem o espírito do nosso tempo neste aspecto, a já conhecida trajetória de “mente brilhante universitária lança projeto X que explode lentamente transformando-se no projeto Y até estourar no mundo todo” e valer bilhões de dólares. Atualmente, o Facebook vale mais de 500 bilhões. E nem fez sua oferta pública de ações ainda: a bolha/00 deixou lições e o Vale do Silício descobriu que ter controle total por um tempo maior não é lá exatamente ruim. O site ultrapassou os 500 milhões de usuários. Utilizando um termo caduco dos gurus da internet, é a autêntica “aldeia global” criada por aquilo que a rede oferece.

Como filme, é muito superior ao pavoroso “O Curioso Caso de Benjamin Button”, provavelmente o momento mais constrangedor da filmografia de David Fincher. Eisenberg está muito bem na pele de Zuckerberg e empresta boas tiradas ao roteiro repleto de ironias, provocações e raciocínio rápido. A película tem o mérito de retratar com propriedade o “case” mais relevante da web nos últimos anos, numa história com bons ingredientes – traições, juventude, negócios, relacionamentos, travessuras e genialidades – para a tela grande.

Mesmo assim, é cacete em boa parte do tempo e, no geral, não é grande coisa. A estrutura reunião com advogados/disputas judiciais/depoimentos mescladas com a ação do filme em si é uma solução fácil, chata e primária. Deveria passar de forma muito mais tímida em condições normais. “A Rede Social” será um bom filme para a Sessão da Tarde daqui uns 10 anos.

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