Literatura

Wabi-sabi

Novos aforismos do amigo Tiago Lucas. Aproveite.

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Será que se sentíssemos o cerébro pulsando notaríamos com maior clareza a fragilidade do pensamento?

O desejo é a única âncora do pensamento (este nosso barco furado…)

Se pensamos geometricamente, não vamos além dos trilhos; se pensamos sem a geometria, somos uma locomotiva prestes a colidir.

O amor ao próximo surge das cinzas da auto-estima.

Quando nos lançamos ao pés das mulheres é para que elas encontrem algo de valor neste mar de cinzas.

Não desdenhem o casamento: muitas vezes só um contrato nos impede de morrer em um asilo.

O “eu” é odioso, concordemos com Pascal… só nos é permitido amar os vícios dos outros.

Todo esforço da política, da moral e da técnica se volta ao único objetivo de reduzir os males da humanidade a apenas um: “Vamos bater as botas…”

Wittgenstein antes de morrer mandou dizer a seus amigos que ‘tivera uma vida maravilhosa’. Se tivesse uma segunda oportunidade teria feito, digamos, algumas ressalvas…

Toda dor física é um afluente que nos leva ao rio Styx.

Todo fracasso profissional é duplamente humilhante por se tratar de um fracasso de valior paliativo no interior de uma outra grande falência chamada falecimento.

É fato, contudo, que “memento mori” (e um picolé…) pode, em dados momentos, servir de consolo para nossos “problemas paliativos”…

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Como entender a morte das pessoas que fazem parte de nossa vida? Tome o MacBeth de Shakespeare, retire do texto Lady MacBeth, depois Duncan, depois Banquo, depois MacDuff, depois Malcom, depois s própria floresta de Dunsinane….veja o estupefato MacBeth. Não é a vida um espetáculo?

É verdade que falo da morte como se estivesse no consultório do dentista. Na sala de espera, olhando ansioso para a porta de saída. Mas, Deus, eu já paguei pelo serviço!

E não digam que a imortalidade seria tediosa! Passaria décadas dormindo com grande entusiamo!

A preguiça é a negação da morte.

Fazer nada é, antes de tudo, desdenhar a queda no tempo…

Há sempre bons argumentos contra o suicídio. Se o sujeito é jovem: “Há ainda muita água a passar por debaixo de sua ponte, meu caro!”. Se já avançou nas primaveras: “Senhor, para que tanta pressa?”.

O suicídio é sempre obra da vida. Mesmo que seja uma ação contra ela, é uma ação nela engajada. A simples vontade de não mais existir, a pulsão de morte, nos faz, como faz a maioria dos viventes, apenas comer, dormir e trabalhar…

Publicar é fazer de nossas dores e fracassos um objeto de entretenimento.

Borges ama os livros. Eu não os amo. Nem mesmo os de Borges. Mas amo o velho Borges – sujeito gentil e humilde.

Para escrever em público é necessário perder o medo de palhaço que adquirimos na infância – ou simplesmente não olhar mais no espelho.

Não se trata de odiar as letras e as artes, mas de violentamente conduzí-las de volta à fria luz da vida.

Ok. Está tudo justo e certo. Não somos fracassados e condenados, pois alguém se entretém com nossas entranhas e passa o tempo a ver nosso coração em chamas…eis aí o “glamour” das letras.

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Aforismos: a prova de que este mundo é mágico

A etimologia nos diz que: aforismo (do grego aphorismos “definição”, a partir de aphorizein “delimitar, separar”, de apó- “afastado, separado” ou “proveniente, derivado de” + horos, “fronteira, limite” e horizein “limitar”, através do latim aphorismus) é uma sentença concisa, que geralmente encerra um preceito moral.

E é nessa linguagem de força única, tão usada por filósofos como Nietzsche e Cioran, que o amigo Tiago L. Garcia, igualmente filósofo, apreciador de boa música e boa cerveja, envia essa preciosa colaboração para o Crimideia. Se delicie aí que eu me basto de cá.

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A prova de que este mundo é mágico, é o fato de que dele desaparecemos, tal qual coelhos na cartola, ou cartas na manga, sem que possamos notar…

Cabeça partida: Minha alma padece em igual proporção , de um crítico pesar pessimista e de um humor infantil e honesto…os hemisférios de meu cérebro estão divididos pois em seu lóbulo Cioran e seu lóbulo Chesterton.

Kafka, a respeito da alegria da literatura de Chesterton: “Em tempos sem Deus devemos ser alegres. É um dever”.

Sábios somos quando podemos, de fato, enxergar que existem miríades de universos (repletos de novas alegrias) além da ponta de nosso nariz…e que em nenhum deles está a “salvação”.

Representa uma excelente alegoria de nossa vida  Santo Agostinho cantando hinos de louvor a Deus enquanto utilizava o vaso sanitário.

Se Deus não existe tudo é possível… ‘tudo’inclui uma vida moral.

Não é senão com Dostoievski que aprendemos a ser humildemente críticos:

“-Turguéniev eu me desprezo deveras…mas o desprezo ainda mais.”

Há, infelizmente, na maior parte do tempo, muito menos entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode imaginar.

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A compaixão provém da vergonha de sermos privilegiadamente infelizes.

Assumir uma posição política hoje significa (invariavelmente) assumir a pose de um messias burocrata. Não lutamos por valores, mas por (ou contra) medidas e decretos. E não há como ser de outra forma (?).

É curioso que Kant encontre em sua Ética um lugar para a hipocrisia (enquanto funcionários devemos obedecer), e nenhum para a mentira (mesmo quando o assassino procura nosso amigo): Perde-se o amigo, mas não o emprego!

Lástima: A humanidade não tira férias!

Passaria a vida criticando a “Academia” se soubesse onde ela está nos Domingos à tarde.

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Uma ‘boa educação’ nos torna ‘bem sucedidos’, uma educação livre e profunda (quase) mendigos.

Os livros possuem vida própria, escrevamos nas paredes.

Lichtenberg: “Escreveu 8 livros, faria melhor se tivesse tido 8 filhos ou plantado 8 árvores.”.

Se todo escritor oportunista fosse leitor de Lichtenberg, viveríamos, por certo, em uma floresta superpovoada.

Sr. Zaratustra, livros não são escritos com sangue, mas com ketchup e groselha.

‘Kunst’ traduz de maneira bastante rigorosa meus sentimentos (minhas condolências) em relação à ‘Arte’.

A diferença entre um papagaio erudito e um papagaio intrépido, é que o primeiro pensa sobre livros, o segundo sob livros.

A felicidade de um escritor pode ser medida pela quantidade de livros que ele não precisou escrever.

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Máxima, para mim deveras útil, do Sr. Jabuti: “Se você é lerdo comece cedo.”

Para escrever algo bom e simples é necessário uma iluminação, para a ironia é necessário somente a dor…

E quem tem uma ‘pena’ quando está feliz?

É injustificado o horror da filosofia à virtualidade, ao “simulacro”: Desde quando argumentos filosóficos são ‘moedas da carteira dos fatos’?

Fazer sentir, o quanto for possível, a angústia, a injustiça, aqueles que dela não padecem, não é o mais nobre desígnio da sociologia, da literatura e mesmo da filosofia?…Virtualidades pois…

The Book is on the Table…E há dias que prefiro ler a mesa.

Sobre os diários: “Grande sabedoria” esta, a de procurar parar a locomotiva com tinta e papel.

Deveras caro Sr. Machado, o teclado da galhofa e o monitor da melancolia.

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