Literatura

A Thousand Kisses Deep

Qualquer coisa a se falar sobre Leonard Cohen é redundância. Todo hiperbolismo que posso pensar é pouco para expressar o que ele representa. Abaixo, uma humildíssima interpretação do seu poema “A Thousand Kisses Deep”, de acordo com a versão ao vivo em Londres em 2009 + uma introdução – óbvio – baseada em “Dance Me To The End Of Love”.

You came to me this morning
And you handled me like meat
You’d have to be a man to know
How good that feels, how sweet
My mirrored twin, my next of kin
I’d know you in my sleep
And who but you would take me in
A thousand kisses deep

I loved you when you opened like a
Lily to the heat
You see I’m just another snowman
Standing in the rain and sleet
Who loved you with his frozen love
His second hand physique
With all he is, and all he was
A thousand kisses deep

I know you had to lie to me
I know you had to cheat
To pose all hot and hide behind
The veils of shear deceit
Our perfect porn aristocrat
So elegant and cheap
I’m old but I’m still into that
A thousand kisses deep

I’m good at love, I’m good at hate
It’s in between I freeze
Been working out, but its too late
It’s been to late for years
But you look good, you really do
They love you on the street
If I could move I’d kneel for you
A thousand kisses deep

The autumn moved across your skin
Got something in my eye
A light that doesn’t need to live
And doesn’t need to die
A riddle in the book of love
Obscure and obsolete
Until witnessed here in time and blood
A thousand kisses deep

And I’m still working with the wine
Still dancing cheek to cheek
The band is playing Auld Lang Syne
But the heart will not retreat
I ran with Diz and I sang with Ray
I never had their sweep
But once or twice they let me play
A thousand kisses deep

I loved you when you opened
Like a lily to the heat
You see I’m just another snowman
Standing in the rain and sleet
Who loved you with his frozen love
His second hand physique
With all he is, and all he was
A thousand kisses deep

But you don’t need to hear me now
And every word I speak
It counts against me anyhow
A thousand kisses deep


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Filmes

A epifania de Terrence Malick

Terrence Malick é um dos maiores outsiders da história de Hollywood. Da geração que revolucionou o cinema estadunidense – Scorsese, Coppola, Friedkin, De Palma, mais aqui – Malick deu ao mundo “Badlands”, em 73 e “Days Of Heaven”, de 78, apresentando sua visão incomum, seu talento apurado e uma sensibilidade raríssima para as telas. Doutor em filosofia, Malick se retirou dos holofotes durante 20 anos, escrevendo roteiros eventuais, até voltar em 1998 com um dos melhores “filmes de guerra” já feitos: “Além da Linha Vermelha”. “O Novo Mundo”, de 2005, aborda de maneira claudicante o descobrimento da América.

“A Árvore da Vida” é baseado num projeto que começou a desenvolver ainda nos 70, intitulado “Q”. É o seu filme mais introspectivo, filosófico, contemplativo, abordando a origem da vida, nossas relações familiares – em especial de pai e filho, mas entre irmãos, a influência materna e a vida de um casal na década de 50 – e nossa relação com a natureza, a religião, os sentimentos, a morte, a infância e a vida adulta. Pretensão que somente um diretor como ele – a exemplo de outros raros – pode dar conta.

É curioso observar essa obra tão peculiar, tão idiossincrática, ancorada por uma estrela do porte de Brad Pitt – ao mesmo tempo um dos atores mais talentosos da sua geração e um galã que atrai milhares de desavisados aos cinemas – atingir as salas de blockbusters. Em tempo de cinema frenético, desesperado, perdido, com câmera, narrativa, ritmo e efeitos em tom de rave, bombardeando o espectador com milhares de signos por segundo, “A Árvore da Vida” não poderia ser mais que a quintessência da antítese disto.

É cinema de sensibilidade apurada, que sabe trabalhar brilhantemente o silêncio – este elemento tão fundamental e tão banido da arte contemporânea – que cria seu próprio tempo, aponta diversos caminhos, mostra vários tons em suas contradições, mudanças, anseios, dúvidas. Não dá resultados prontos. Não entrega fórmulas nem soluções simples.

O diretor consegue extrair o melhor de seus atores: Brad Pitt está firme no papel do pai severo, mas que não se furta a demonstrar momentos de afeto, em revelar suas fraquezas e angústias, em todo seu universo de amor e dureza, em manter sua família e participar da criação dos filhos. Jessica Chastain – que não por acaso, imagino, guarda certa semelhança física com a Sissy Spacek de “Badlands” – é a doçura e proteção materna, o amor puro, a dedicação plena. Sempre iluminadíssima pela fotografia, aparece como uma figura celestial – capaz de literalmente flutuar, num simbolismo nítido – plácida, de presença pacificadora.

Dentre os três filhos, impressiona a atuação de Hunter McCracken como Jack, o primogênito tão essencial para o eixo da trama, vivido por Sean Penn – em brevíssimas aparições – na vida adulta. As buscas e as transformações de Jack, e o quanto influencia seus outros irmãos e a relação entre pai e mãe, atingem o cerne do que Malick quer representar. Dele resulta boa parte das reações do núcleo daquela família.

A morte do caçula logo no início da película serve de pretexto para explorar nossa relação com Deus, a vida e as convenções religiosas: por mais que estejam sempre buscando Deus, como que tateando no vazio, os personagens nunca encontram resposta, essa figura “superior” nunca se faz presente, mas serve para ilustrar situações de ambiguidade e paradoxos constantes. Como na própria criação imposta aos filhos por Mr. O’Brien e sua noção única de moral, de como se deve ser, se comportar e do que é preciso para conseguir sobreviver neste mundo. E o sermão principal dado pelo sacerdote é de uma desesperança e dureza quase atroz, de uma honestidade transgressora, impiedosa. Traçando paralelo curioso com a súplica final de Mrs. O’Brien, repleta de límpida inocência: tenha curiosidade, esperança, ame, perdoe.

Já no início Malick nos fornece a base da sua introspeção, citando o capítulo 38 de Jó, versículo 4,7: “Where were you when I laid the foundations of the Earth, when the morning stars sang together, and all the sons of God shouted for joy?”. E aí uma ainda pequena Mrs. O’Brien – ainda mais semelhante com Spacek – conta que “as freiras nos ensinaram dois caminhos possíveis para a vida: o da graça e o da natureza. Você precisa escolher qual deles seguir”.


Grace doesn’t try to please itself. Accepts being slighted, forgotten, disliked. Accepts insults and injuries. (…) Nature only wants to please itself. Get others to please it too. Likes to lord it over them. To have its own way. It finds reasons to be unhappy when all the world is shining around it. And love is smiling through all things.”

É extremamente simbólico que a natureza – onde nos encaixamos – “queira apenas satisfazer a si mesma”.  A natureza sempre foi alvo de intensa reverência e contemplação em seus filmes, como um personagem inequívoco e necessário, ganha aqui seu maior tributo. Os 20 minutos em que Malick se vale de belíssimas imagens da atuação plena da natureza em nosso planeta, em oceanos, vulcões, florestas, montanhas, o comportamento animal, misto de imagens reais com efeitos supervisionados por Douglas Trumbull (o mesmo de 2001: A Space Odyssey) vão de encontro ao centro da vida, ilustrando não só nossa eterna pequenez e fragilidade ante o universo mas como somos influenciados e até reféns dela.

Com a quase totalidade do filme vista pelos olhos de crianças, é interessante como Malick mantém a câmera sempre baixa, como que nos obrigando a ver e sentir através dos olhos deles. Ao mesmo tempo em que aponta constantemente para o céu, em eterna dualidade. E a fotografia de Emmanuel Lubezki (o mesmo de “O Novo Mundo”) é extremamente eficaz tanto no uso da luz, fundamental para a película, quanto nas diferenças entre os ambientes externos, os longos planos de contemplação, e os momentos de intimidade, na brincadeira dos pais com os filhos, na proteção da mãe ao colocar as crianças para dormir e acordá-las, nas vezes em que O’Brien toca o piano, etc. Sem falar no uso da música, sempre capaz de acrescentar ao que vemos na tela sem pesar no tom – uma possibilidade enorme num filme dessa magnitude, mas que nunca falha ou cai em soluções fáceis.

Malick, enfim, nos apresenta sua epifania. A sua compreensão da essência da vida em toda sua leveza e seu fardo, a iluminação final do que há pouco para afirmar categoricamente. Ele nos fornece fragmentos, caminhos. E cabe a cada um tomar para si e fazer o melhor possível com isso.

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Filmes

Melancholia: o 2012 de Lars Von Trier

Em algum momento da sua carreira Lars Von Trier passou a acreditar – e se auto-proclamar, diga-se – que é mesmo “o melhor diretor do mundo”. A aclamação absurda de “Dogville”, ancorada pelo menos num ótimo filme, não fez bem pra sua cabeça, seu ego e seu cinema, supervalorizado desde o surgimento com o “manifesto” Dogma 95.

Curiosamente, nos últimos anos, essa segurança em ser “o melhor do mundo” veio acompanhada por uma necessidade adolescente de criar polêmicas baratas em Cannes: em 2009 com “O Anticristo”, ao afirmar que tinha feito o filme com “60% da capacidade mental” ou novamente este ano no festival francês onde declarou “simpatia” por Hitler, tendo que se explicar até hoje. Artifícios ridículos para qualquer um, ainda mais para um diretor que se propõe ter um certo quilate. Talvez pelo receio de deixar o seu cinema falar e atrair a atenção por conta própria.

“Melancholia”, o filme de ficção científica de Von Trier, não poderia ter paralelo mais irônico com o “2012” de Roland Emmerich. Enquanto o segundo é fruto do histrionismo mais absurdo e abjeto possível de Hollywood, Von Trier, como já conhecido, prima pelo minimalismo, a construção de climas de tensão, medo, angústia, dúvida e um certo desconforto onipresente. No máximo em que um filme, em última instância, sobre a destruição da humanidade, pode ser sutil.

Kirsten Dunst consegue passar toda a aflição que lhe cabe como peso dramático central do que está por vir e soa como uma escolha melhor que Penélope Cruz, para quem o papel foi inicialmente pensado. O casamento da sua Justine com Michael (Alexander Skarsgard), que toma boa parte da película, é o prólogo em que Von Trier pode trabalhar todas as tensões do seu argumento principal. A família destruída, o casamento de realização irreal, a pseudo-alegria que logo será despedaçada, o peso das convenções sociais em situações de constrangimento cortante.

Aí brilham coadjuvantes de peso como John Hurt e Charlote Rampling. Mas a premissa, tão bem explorada por diretores com talento infinitamente maior que Von Trier, escorrega naquela gratuidade perigosa que o dinamarquês costuma entrar. O mal estar permanente de Justine, as crises, a obsessão vazia do John de Kiefer Sutherland e uma perdida Charlotte Gainsbourg, a quem a segunda metade é dedicada.  Trier consegue criar belas imagens: todas elas plásticas. A relação e influência dos astros na história é sempre óbvia e rasa demais. Não que saber de antemão o que irá acontecer seja um problema em si, especialmente num filme-catástrofe.

Mas “Melancholia” sofre com a auto-indulgência e a zona de semi-deus em que Von Trier acredita pertencer. Fornece pistas infantis: o buraco de golfe número 19, o cavalo que jamais atravessa a ponte, a súbita tomada messiânica de Claire, etc. De desconforto familiar, a agonia artificial dos personagens em nenhum momento sai da tela para atingir os espectadores com a pretensão que tem. Um filme razoável que fica abaixo do que poderia ser. Mais palatável, provavelmente, a quem se identificar com a angústia retratada. Mesmo com todas as ressalvas possíveis, a beleza da melancolia, aqui, se presta quase que totalmente ao ego megalomaníaco de Von Trier.

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