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Sobre feminismo, legitimidade e exageros

Não há discussão sobre o quanto nosso mundo é machista, falocentrista, desigual, estúpido e incrivelmente limitado no trato social. Não é preciso ser nenhum especialista ou estudioso para se dar conta disso. Basta viver com um mínimo de sensibilidade. Basta saber perceber as características de nossa sociedade. Essa capacidade, no caso de nós, machos, é muitas vezes soterrada pelo próprio meio em que vivemos, é verdade.

Eu sei, meu amigo. Você foi estimulado desde que nasceu a exibir seu pau por aí. Foi ensinado que passar a mão nas menininhas do colégio é o máximo. Foi criado sendo levado a exalar sexo e comprovar sua “macheza” em cada segundo da sua vida. Seu pai, provavelmente, a exemplo do meu, era um álcoólatra sem vergonha que vivia em puteiros, traía sempre, desrespeitava e batia na sua mãe. Você, como quase todos os meninos, deve ter sido levado para um bordel por volta dos 12 anos para ter logo sua “iniciação sexual”.

Foi levado a bradar suas “façanhas sexuais” antes de ter realizado qualquer coisa. A dizer que seu pau é maior do que realmente é. A perseguir e defenestrar os gays. A acreditar que ter prazer anal é “coisa de viado”. Mesmo que seja uma zona erógena reconhecidamente poderosa. E mesmo que você esteja permanentemente louco pra fazer sexo anal com sua namorada/etc. A dizer que “não namora” com certa menina se ela fez “x ou y” mas adoraria realizar o que aparentemente “renega”. Que ter sentimentos – e demonstrá-los – ser sensível, carinhoso e atencioso, cuidar um pouco melhor da aparência,  demonstrar o mínimo de fraqueza, fragilidade, te torna “menos homem”. A fingir que “saiu por cima” em cada relacionamento. A lista é longa.

Sem dúvida, viver tentando provar sempre que é um “machão heterossexual tradicional” deve ser um peso enorme. Insuportável. Em suma, você cresceu num mundo em que a dominação masculina e a subestimação e humilhação da mulher é um fato entranhado na sociedade. Fato que vem mudando de forma lenta. Muito mais lenta do que o desejado. Eu entendo porque você age e pensa como um “macho padrão”. Mas não o eximo da responsabilidade de permanecer nesta até hoje. De não ter conseguido sobrepujar essa casca asquerosa criada. A culpa é só sua, amigo. Eu tive sorte: minha mãe se separou quando tinha 5 anos e cresci cercado por mulheres, ela, minha irmã, várias tias e primas. Tenho duas sobrinhas lindas e a terceira está chegando. Meus modelos masculinos, em geral, foram os autores e pessoas que me inspiraram. Aprendi logo a lavar minha louça, fazer minha própria comida, cuidar das minhas coisas, me virar. Dar valor a cada mínima coisa. A respeitar sempre. Me relacionei com mulheres inteligentes, difíceis e livres sexualmente. Não tive introjetado todos os vícios (de pensamento) e comportamento danoso que a imensa maioria dos pais legam aos filhos.

Falo da minha geração – homens em meados dos 20 aos 30 anos – e vale o mesmo para as anteriores. Sobre as gerações mais recentes, tenho dúvida do quanto isto realmente mudou, embora o planeta e a sociedade tenham mudado profundamente em 20 anos. E não, nós não sabemos como é ser mulher. Como é ter que lutar por cada coisinha no mundo do trabalho, em casa, na vida íntima, no simples ir e vir sem ser incomodada. Conviver com o assédio sexual e moral. Ganhar menos. Não ser respeitada pelo simples fato de estar sozinha em algum lugar. Correr mais riscos de assalto. Estar mais sujeita a agressões físicas e verbais. Ter que exigir continuamente respeito e condições minimamente igualitárias. Não, nós não sabemos.

Tudo isto para chegar no movimento feminista – extremamente legítimo e infelizmente necessário – e seu principal erro: tentar uma “equidade” desmedida em todos os aspectos e tratar o homem como inimigo. Esquecendo que, para além das questões de direito mais do que necessárias, somos diferentes. E mais que isso: seria ótimo se elas pudessem ser melhores que nós. Tratei sobre isso (analisando um caso específico) num post aqui mesmo nesse blog em abril de 2010. Naquele texto, escrevi:

Mulheres, grosso modo, dirigem melhor, governam melhor, administram melhor, etc, etc. De modo que a sadia participação feminina em todas as questões da humanidade – no política, no trabalho, no trânsito… – sem dúvida contribui para melhorarmos um pouco.

Daí que fui tomado quase por um alívio ao ler os textos da Bete Davis e Srta. Bia sobre os mitos do feminismo (aqui e aqui).  São fundamentais por esclarecer boa parte do maior equívoco das feministas. Bete fala da importância do masculino e do feminino na criação dos filhos (e, porque não, na vida em si) e das diferenças inerentes. Bia ataca o cerne da coisa. Destaco dois trechos.

“Quando você ver alguém comentando sobre um bando de mulheres rindo num programa de tv porque um cara teve seu pênis decepado pela esposa, saiba que isso não é feminismo. (…) A filósofa francesa Françoise Collin descreveu o movimento feminista como (…) um movimento plural, sem hierarquia, dogmas, controle ou estruturas centralizadas, que não defende uma verdade, mas está em permanente processo de construção de uma agenda que evolui e se modifica.”

Para além da sua imensa legitimidade, isso é importante para evitar alguns exageros do feminismo. A patrulha que se é criada. Onde tudo, absolutamente tudo, é interpretado como “machismo”. Dizer que gosta de mulher que cuida bem do cabelo, por exemplo, pode se transformar numa “imposição machista em que a mulher precisa estar sempre bem cuidada para o homem independente do trabalho, do momento, etc”. Sinceramente, aí o machismo está em quem pensa da segunda maneira. Se uma mulher dissesse qualquer coisa parecida sobre um homem, não causaria reação nenhuma. Como não deve causar. Gostos e preferências cada um tem os seus e, havendo respeito, cada um resolve como lidar com eles.

Outro ponto é evitar o sentimento de vingança e revanchismo barato. Compreensível, mas desnecessário. Do tipo “se os homens fazem x, y e z eu preciso fazer também”. Porque, como dito, no geral não temos coisas boas a passar. Não somos exemplo de nada. E essa guerrinha acéfala não leva a lugar algum tampouco contribui para melhorar a sociedade e as relações. Se o homem x faz alguma coisa que você não gosta, não aceita e não concorda, evite o mané. Ignore. Não tente fazer igual a ele, se rebaixando ao mesmo comportamento.

Da mesma maneira, como lembrado pela Bete Davis, é bom sempre valorizar cada coisa  – dos dois lados – mas um homem que divide as tarefas domésticas, cozinha, é cavalheiro, etc, não pode ser endeusado. É apenas a divisão natural do trabalho, do cuidado, do empenho. É fato que muitos homens, coitados, ainda não sabem como lidar com esse protagonismo da mulher na sociedade, com as inúmeras conquistas dos últimos anos, com a tomada de rédeas. Estão assustados, tontos, sem saber o que fazer. Azar dos que não conseguem entender. Vivenciar uma ruptura é sempre momento de confusão, de tatear o semi-desconhecido.

Quando digo que o feminismo é “infelizmente necessário” significa que a sua própria existência indica que há uma injustiça, uma desigualdade para reparar. Melhor que não tivesse. Mundo utópico, porém possível. Como disse Jen Nedeau num artigo sobre um possível “pós-feminismo” (em tradução livre por mim):

Num mundo em que as mulheres ainda precisam alcançar salários igualitários, ainda encaram violência sexual, representação desigual no governo, no mercado e na educação superior, ainda tentam atingir padrões de beleza impossíveis e não tem suporte de saúde adequado – é impossível dizer que o feminismo está morto. Dizer isto na essência é reverter os esforços históricos com o falso véu da igualdade atual. Infelizmente, fingir que há igualdade quando ela ainda não foi alcançada é o pior que uma mulher pode fazer para o futuro do movimento pelos direitos das mulhres. Talvez é tempo de dizer que o pós-feminismo está morto e o feminismo continua a viver.

Dentro do espectro amplo de discussões históricas e da quantidade absurda de bom material disponível, é um erro reduzir a questão em uma guerrinha de sexos desnecessária, o tipo de erro que vejo tanto por aí. É um erro tratar o homem como inimigo. E um erro maior ainda a generalização brutal cometida, caindo numa patrulha que não traz nada de positivo para ninguém. As mulheres podem contribuir enormemente para este mundo se tornar um lugar melhor para se viver se evitarem os vícios e o legado pútrido que o homem padrão deixou até hoje. Desperdiçar essa oportunidade por um revanchismo vulgar é um desperdício inimaginável. Precisamos ir muito além disso.

Artigos citados no texto:

#MitosFeminismo – Srta. Bia

Feminismo Faz Bem – Bete Davis

Is Feminism Dead? An Overview of Post-Feminism – Jen Nedeau

Turning Stereotypes Into Artistic Strengths (imagem) – Karen Rosenberg

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8 thoughts on “Sobre feminismo, legitimidade e exageros

  1. Olá! Sou parte do coletivo de Blogueiras com a Bia e a Bete Davis, hehe. Tudo bom? Achei muito bacana vc abordar aqui o tema do feminismo, trazer a perspectiva masculina – ou uma perspectiva masculina – é sempre legal. Mas gostaria de ressaltar aqui um pequeno desencontro d einterpretação…

    Os textos que vc referiu da Bia e da Bete não estão descontruindo mitos “do feminismo” mas mitos “sobre o feminismo”. Também fiz um texto com o mesmo assunto pra blogagem coletiva (www.mulheralternativa.net) onde ressalto justamente que a idéia do feminismo é justamente que ninguém tenha nem vantagem nem desvantagem nenhuma na sociedade por ser homem ou por ser mulher.

    Fiquei com a impressão de que você tem uma visão ainda não muito clara do que é o feminismo, quando você diz que o feminismo quer “tentar uma “equidade” desmedida em todos os aspectos e tratar o homem como inimigo.”. Se você vê alguém que concorda com isso e se diz feminista, pode acreditar que a própria pessoa não sabe o que é feminismo, pois essas atitudes não são nada feministas, hehehehe….

    Os chamados “exageros”, “revanchismos” e “vinganças” que você cita aqui (e que acontecem para algumas mulheres, feministas ou não) não são características do feminismo, não. O que o feminismo e nós feministas queremos é simplesmente que, caso uma mulher ou homem decida levar sua vida do jeito X, Y, ou Z, ninguém a/o impeça simplesmente porque consideram que esse jeito de levar a vida (usar cabelos curtos ou compridos, calças ou vestidos, etc) não é adequado ao gênero/sexo. Não sei se ficou mais claro, hehehe… 🙂 Queria que vc pudesse ler o texto no meu blog e ver se ajuda também a entender melhor o que, afinal de contas, é o feminismo hoje. 🙂

    Eu pessoalmente não acho ruim haver diferenças culturais, além das biológicas, entre homens e mulheres (como pintar as unhas por exemplo) mas elas só não podem se tornar uma limitação nem uma obrigação, entende?

  2. Correndo risco de apanhar das amigas feministas (rs), concordo em parte que às vezes há um exagero que faz com que se veja machismo em tudo, no entanto esse nosso comportamento machista é tão arraigado que se mostra em gestos muito pequenos, p. ex, quando a mãe fala pro filho que ele está chorando feito mulherzinha. Não é patrulhamento, mas para mudar um comportamento de séculos e séculos a gente tem que começar a observar as mínimas coisas. Por exemplo, eu costumo falar quando estou dirigindo e vejo algumas manobras bem antas que ” só pode ser mulher” . Bom, muitas vezes não é, e meus filhos, com quem eu sempre converso sobre feminismo, é que me chamaram a atenção. Isso não é patrulhamento, é busca de uma mudança real de parâmetros de comportamento.
    Por último, a campanha da du loren que está sendo condenada por muitas feministas pode parecer uma coisa pequena, mas não é. o homossexualismo feminino entre duas mulheres bonitas não é discriminado, se forem “2caminhoneiras” ou pior, 2 homens desperta reações e essas pessoas não se acham homofóbicas. Daí que essa propaganda embute 2 preconceitos – machismo e homofobia.
    De resto, quero dizer que é muito raro ver um homem falando bem, e tão bem, sobre feminismo, machismo e igualdade. Adorei muito o texto. to fã, bjs.

  3. Maurício Angelo says:

    Ei Marília,

    Li teu post. E antes de tudo coloco aqui para que os leitores possam ler também: http://www.mulheralternativa.net/2011/07/casada-depilada-maquiada-de-unhas.html

    Acho que concordamos em tudo, só existindo aqui um pequeno ruído de comunicação normal. 🙂 Eu abordei justamente os equívocos que costumam – costumam – aparecer no meio do “feminismo”, que na verdade é um termo que abriga um espectro bem amplo de comportamentos, pensamentos, tendências, etc. E creio que a melhor definição seja a ressaltada pela Srta. Bia e que eu fiz questão de citar no meu post. Recomendo também o outro artigo citado – mais na linha “do que é o feminismo hoje” – http://news.change.org/stories/is-feminism-dead-an-overview-of-post-feminism

    Sim, estas diferenças não podem se tornar uma obrigação nem uma limitação tampouco servir para “julgamento social” como feito muitas vezes pelos homens.

    Bete, o que você lembrou foi comentado pela Ana Elisa Ribeiro (@anadigital) no Facebook e eu respondi que é bem complicado eliminar totalmente esse comportamento de “macho padrão”. Por ser tão entranhado desde o primeiro segundo de vida. E coloco eu mesmo no balaio. Além do machismo feminino, tão comum e tão grave. Mal comparando (mal comparando mesmo), é quase como o cristianismo. Mesmo sendo ateu, é difícil extirpar expressões como “pelo amor de Deus”, “ave maria”, “nossa senhora” e além disso um verniz cristão escondido sob outros assuntos. É um processo longo.

    No mais, Bete, obrigado. 🙂 Bjs.

  4. Oi Maurício, até conversei com a Marília que fiquei confusa do meio para o final do texto. Porque uma das coisas que é preciso separar é o movimento das pessoas. Existem pessoas chatas em todo lugar, essas pessoas vão sempre ser monotemáticas sejam elas feministas, socialistas, comunistas, liberais, etc.

    Então, quando você diz: “A patrulha que se é criada. Onde tudo, absolutamente tudo, é interpretado como “machismo”. Eu ouço essa crítica a mim várias vezes. E sei que tem horas que sou realmente chata, insisto para as pessoas tentarem enxergar a questão. Eu não sei se interpreto tudo como machismo, mas estou num trabalho sério de apurar o olhar sobre isso. Então, para mim o feminismo não tem uma patrulha que vê tudo como machismo, uma das principais funções dele é apontar e questionar o machismo. Então, acho que muitas vezes depende da interpretação individual, uma pessoa que acha que o mundo tem que ser como é, vai achar meu blog chatíssimo e vai achar que vejo machismo em tudo.

    Acho que faltou só isso, direcionar as críticas do final do texto a determinadas pessoas e não ao movimento como um todo. Porque como eu coloquei no meu post, o feminismo é um movimento extremamente plural, qualquer crítica feita a ele tem que focar no tempo e no espaço. Fora que qualquer movimento que pretende questionar o status quo ganha a antipatia de muita gente, aposto que tem um monte de gente que acha o MST um saco porque “Eles só sabem falar de invadir terra”. O que não é verdade, pois o movimento é muito complexo, com seus erros e acertos, mas há toda uma construção legítima social e cultural presente.

    Achei super bacana você querer fazer um post sobre isso, ler sobre sua experiência e criação ao lado de tantas mulheres. Mas infelizmente isso não é sinônimo de ter uma educação mais feminista, há muitas mulheres que criam filhos extremamente machistas, pois acham que homem e mulher tem que ter papéis definidos na sociedade. Mas é interessante que mesmo dentro do feminismo há muita discordância e muitos questionamentos, tem várias feministas que não concordam com algumas das minhas idéias, mas no fim a gente se une em torno de alguns ideais maiores. Obrigada por fazer esse post e participar da conversa.

  5. Muito bom ver um texto sobre feminismo vindo de outra pessoa.
    Também sou feminista e fico feliz em ver que outros blogueiros vejam a legitimidade do movimento.
    Como as meninas bem colocaram, exageros as vezes acontecem, mas é meio “gato escaldado tem medo de água fria”, muitas de nós já passaram por alguma situação de preconceito e se sentiram diminuídas pelo fato de sermos mulheres.
    Mas estamos sempre procurando rever nossos conceitos e fazendo novos questionamentos.

    Gostei mesmo do texto.

  6. Carolina says:

    Olá, achei o texto muito interessante.
    Sou nova no tema feminismo e estou pesquisando sobre o tema para compreendê-lo melhor. Com certeza irei ver os links postados.
    Eu percebi, como Bia mencionou, que há diferentes posições e isso me intriga, por isso que quero pesquisar mais para compreender melhor o tema.
    As críticas e toda a visão negativa me intrigam e me confundem também. Eu tenho uma dificuldade de compreender os motivos e argumentos, as vezes fico com um pé atrás se o argumento é verdadeiro ou não.
    Logo que conheci o movimento, eu tive essa sensação de ver machismo em tudo, e até em meus atos e pensamentos. Mas ao mesmo tempo eu não sei se isso é um exagero ou não. Ainda tenho muito que aprender e textos apra ler.
    Muito obrigada pelas explicações fornecidas no texto.

  7. Rafaela says:

    Gostei muito do texto porque ele não é óbvio, e empírico porque vc observou e chegou à sua própria teoria….achei linda sua história, profunda e verdadeira…acredito que daria um belo livro…..um homem que tenta entender o que uma mulher passa…….seria uma bela literatura. …De QQ forma eu acredito que apesar dos detalhes bem explicados para as meninas. Em essência vc entendeu o que vem a ser o movimento feminista. Acredito que nós mulheres precisamos apoiar a causa uma das outras….ainda há muita competitividade e visões extremistas que dividem e enfraquecem o movimento…. O que deve imperar é este respeito ao ser humano está sempre deve ser a base de tudo. Há muitas brigas entre mulheres por migalhas…..o que realmente desejamos lá no fundo. Devemos nos questionar se nossas ações nos levam ao que queremos.

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