Arte

Inhotim: o coice e o engodo da arte contemporânea

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É difícil escapar do superlativo para falar de Inhotim. “O maior museu a céu aberto do mundo” exala grandiosidade por cada metro quadrado. De cara, parece a Xanadu de Charles Foster Kane, a fortaleza do personagem vivido por Orson Welles no clássico “Cidadão Kane”, de 1941. Esta foi a primeira impressão que tive ao pisar lá, em 2011. No caso, o nosso Charles Foster Kane é o empresário Bernardo Paz, 63 anos, bilionário da siderurgia. Especulações afirmam que Inhotim tenha consumido mais de R$ 500 milhões, num espaço de mais de 2.000 hectares, com a maior coleção de palmeiras e uma das maiores coleções botânicas do Brasil, espaço que abriga obras de 500 artistas brasileiros e estrangeiros, recebeu mais de 250 mil visitantes em 2011, tem mais de 1.000 funcionários e deve receber um complexo que envolve 10 hotéis, anfiteatro para 15 mil pessoas, um aeroporto e até “lofts” para quem quiser viver lá.

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Em pouco tempo, Inhotim se tornou um dos destinos turísticos mais visitados do Brasil, transformando a economia de Brumadinho, que fica a 60 km de Belo Horizonte. Bernardo, o estereótipo do que podemos chamar de “excêntico”, tem opiniões fortes sobre a arte moderna em contraposição à arte contemporânea. Segundo ele, nesta entrevista:

A arte passou por cem anos em que não se transformou em processo educativo nem cultural. Quem era Picasso? Um devasso que gostava de mercado, gostava de comércio, ia à galeria e perguntava qual quadro estava vendendo mais. Aí, fazia mais dez. Assim foi a arte moderna. Não ensinou nada a ninguém.”

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Já a contemporânea seria uma arte crítica:

Aí, entrou Duchamp, primeiro exemplar da arte contemporânea. Entrou com uma curiosidade, a arte passou a ser uma curiosidade. E, da curiosidade, ela passou à crítica. Hoje, toda a arte contemporânea é crítica. Em todos os sentidos: crítica na ecologia, na religião, na situação política, nas questões sociais. Ela exalta os benefícios criados, critica e destrói a sociedade atual, tentando criar uma sociedade melhor. Você passa por Inhotim e entra no Através. O que é o Através? Uma simplificação das dificuldades da vida. Você pisa em cacos de vidro, vai atravessando um monte de obstáculos para chegar ao outro lado. O que significa isso? Você enxerga o outro lado, mas não vai reto.”

Há boas matérias com Paz aqui, aqui e aqui.

De fato, a arte contemporânea busca o choque, o confronto, quer criticar, refletir, induzir a uma experiência legítima, um happening, quer que você se envolva com ela, experimente o que ela consegue provocar. Neste sentido, para uma arte que demanda tanto espaço e se relaciona diretamente com o ambiente em que está inserida, Inhotim é perfeito. Já que várias instalações e obras foram pensadas exatamente para aquele lugar.

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Na ânsia desesperada em provocar, no entanto, a arte contemporânea também é frívola, rasteira, extremamente pretensiosa e vazia. “Restore Now”, do suiço Thomas Hirschhorn, recentemente incorporada numa nova galeria de Inhotim, reúne ferramentas de oficinas em tamanho família, reproduções de livros de filósofos como Derrida, Deleuze, Foucault e outros, imagens de corpos mutilados e uma crítica infantil na imagem do próprio artista dançando atrás de um manequim com um livro gigante de Foucault do lado. A “paródia”, a “provocação”, mesmo a “zombaria”, neste caso, serve para um tipo de “arte” que se perde exatamente no que tenta abordar.

Há diálogos incessantes com a morte, a grandiosidade, o megalomaníaco, as barreiras – Tunga, Cildo Meireles – os medos e anseios, a nossa relação conturbada com a natureza – Giuseppe Penone, Chris Burden – a carne, as vísceras e o mítico – Adriana Varejão – o abstrato, a potência e o poder do som – Cardiff & Miller – a cosmococa de Hélio Oiticica e seu convite a mergulhar – literalmente – na cultura pop do século XX, seja na piscina amarela com John Cage de fundo, seja nas redes, colchões e espumas com Jimi Hendrix e Luiz Gonzaga. E muito mais.

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Como reflexo da arte contemporânea, as galerias, os morros, as instalações e a natureza exuberante de Inhotim são um coice e um engodo. Um mimo para a classe A que se converteu em inevitáveis projetos para a comunidade. A megalomania de um bilionário excêntrico que gosta de arrotar pobreza (vide entrevistas). Você não sai ileso de Inhotim, claro. É o reino do paradoxo em que estamos metidos no século XXI. Te atrai e te suga para uma experiência sem volta. É belo, caótico, profano e reverente. Distorce símbolos tradicionais apenas para explorá-los. Te pega pela jugular e te faz sentir num jardim irreal, numa experiência que, em última instância, você é a própria cobaia da arte. 

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