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“Surpresa”: somos muito melhores do que fomos ensinados a acreditar

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Desde sempre, o brasileiro é ensinado a crer que somos absolutamente incompetentes em organização, administração, em prover infraestrutura adequada, produzimos pouco e que tudo nesse país, resumindo, é uma bandalheira sem limites, que estamos muito abaixo do resto do mundo e que pagamos impostos demais e recebemos de menos.

Esse discurso é muito interessante para uma classe abastada repleta de privilégios – isenção fiscal aos milhões e bilhões, financiamento federal pra lá de generoso, dívidas que são roladas a perder de vista, falta de respeito às leis trabalhistas – gente que sonega, rouba, lucra altíssimo com “essa bandalheira toda que tá aí”, gosta de espernear ao menor sinal de redução de seus ganhos históricos e por aí afora. Taí a desindustrialização que não me deixa mentir, tema para outro post.

Tomamos como exemplo a Copa do Mundo: o fracasso absoluto e a vergonha que passaríamos diante do mundo, alardeado exaustivamente por toda a imprensa durante os últimos anos, “subitamente”, transformou-se num evento de sucesso fora e dentro e dos estádios. Esportivamente já celebrada como uma das melhores Copas de todos os tempos (média de gols, qualidade dos jogos) e também pela estrutura, pelo povo, etc.

Daí que esse editorial da Folha é didático. O “torneio de surpresas” que, opa, tá dando muito certo mas, err, bem, tivemos um probleminha no som, chilenos invadiram a sala de imprensa do Maracanã – coisas minúsculas e irrelevantes e tudo de organização da FIFA, lembrem-se – resultam no famoso engolir à seco a história toda.

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E é preciso que gringos venham para cá para dizer que nossos aeroportos são tão ou mais eficientes e rápidos que os aeroportos mundo afora – taí o Alexis Lalas, referência do futebol dos EUA – para a tigrada reconhecer. Síndrome maior do complexo de vira-lata não há: somente após a validação estrangeira é que passamos a ver certa coisa com outros olhos. Foi sempre assim e há poucos indicativos que passará a ser diferente. Em eventos, serviços e na música, no cinema, no diabo a quatro.

“Só no Brasil” é que erros acontecem, “só no brasil” é que as coisas podem não funcionar perfeitamente, “só aqui” é que isso e aquilo ocorre, “o horror”, “o horror”, se apressa em gritar a elite dominada pelo senso comum mais rasteiro e previsível. E aí qualquer mínimo problema, qualquer contratempo, por mais irrelevante que seja, é tratado com alarde e ranger de dentes. A mesma mídia está aí nos oferecendo exemplos diários e fartos disso.

Nos Estados Unidos, o ápice do capitalismo funcional por excelência e ficando na esfera esportiva, sempre tido como exemplo máximo de competência e organização, conseguiu, na final do Super Bowl, tido como o evento esportivo mais importante do país, vitrine pro mundo, ACABAR A ENERGIA, atrasando e muito o espetáculo midiático todo. Há pouquíssimo tempo, nas finais da NBA, maior liga de alcance mundial dos EUA, o sistema de ar-condicionado do San Antonio Spurs DEU PANE e jogadores foram obrigados a disputar a partida acima dos 30 graus (quando se joga abaixo dos 18), fazendo com que Lebron James, maior astro da NBA, passasse mal de desidratação, com cãibras, saindo do jogo carregado.

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Caso algo minimamente parecido acontecesse por aqui, o escarcéu seria geral e infinito, textos e mais textos, comentários e mais comentários seriam gerados sobre o “vexame histórico”, a “inaceitável” organização, o maldito “jeitinho brasileiro”, tascando o selo vira-lata de inferioridade perante o mundo. Mas não. Foi lá. Em momentos chaves das ligas esportivas mais milionárias e visadas do planeta, no país exemplar “que deve servir de modelo sempre”. Acontece, né? Nem um pio.

Luiz Caversan, na Folha, pergunta:

“”Algum caro economista aí é capaz de me dizer como faço para calcular o prejuízo que os arautos do pessimismo e do mau humor, ‘black blocks’ e cia. à frente, causaram ao país?

Por conta de tudo o que não foi feito, tudo o que deixou de ser investido para gerar receita, com tudo o que se poderia ter sido oferecido, vendido para torcedores, turistas, comitivas e quetais, tendo como temática a Copa, e não foi. Quanto?”

Bota na conta da mídia. Pode botar na nossa conta. O terrorismo incansável – e acéfalo, com pouquíssima base no mundo real – é grande responsável por tudo isso. Não foi a primeira vez e não será a última. As eleições de 2002 são outro exemplo óbvio.

E você, talvez, está revoltado com “os gastos abusivos realizados pelo governo brasileiro com a Copa do Mundo”? Saiba que os 11.5 bilhões de dólares gastos em projetos de transporte, infraestrutura e nos próprios estádios, representam somente 0.7% – ZERO PONTO SETE PORCENTO – do que foi investido no Brasil entre 2010 e 2014. Matéria do Wall Street Journal. 

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Governos municipais e estaduais, no entanto, excederam bastante sua previsão de gastos para a Copa. Caso de Belo Horizonte e Mato Grosso, como mostra a matéria. De vez em quando é bom entender um pouco de gestão compartilhada – ou tripartite, em termos oficiais.

Óbvio, tudo isso não significa que todos os nossos problemas se resolveram e nossa abissal desigualdade social, etc, etc, etc. Não se trata de ser mero ufanista e pacheco. Muitas outras coisas estão sendo feitas para mudar isso. Significa somente reconhecer o estado das coisas em que estamos metidos. O desserviço prestado pela imprensa, que coloca o público e o cidadão como o último interessado do que produz, porque tem muitos outros interesses prévios para atender – e sabemos muito bem quais são.

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