Política & Economia

A esquerda sofre a maior derrota nas eleições 2014

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Seja qual for o resultado do segundo turno, o que se entende por “esquerda brasileira” já passa pelas eleições de 2014 como a maior derrotada do pleito. Por mais que a polarização seja questionada, dada a guinada para o centro de PSDB e PT, a verdade é que existe, sim, diferenças essenciais entre os principais partidos do país.

No final das eleições de 2010, produzi um especial com alguns artigos. Entre eles, “A agonia da extrema-esquerda”, “A encruzilhada da direita”“A elasticidade do efeito Marina”“O jeito Aécio de governar” e “Além de Lula”.

Considerando apenas os partidos de esquerda, a queda é brutal: o “fenômeno” Heloísa Helena teve 6,5 milhões de votos em 2006 (terceiro lugar naquelas eleições), quatro vezes mais que Luciana Genro, também pelo PSOL, conseguiu em 2014. Apesar de todo o barulho nas redes sociais, de toda a sua participação incisiva nos debates, levantando pautas que nenhum outro candidato, com exceção de Eduardo Jorge, poderiam encarar abertamente: aborto, LGBT, drogas, etc. Em termos de corrida presidencial, o PSOL encolheu absurdamente em 8 anos. Na conta de 2010, os partidos tradicionais de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCO) somaram 1,2 milhão de votos.

Neste pleito, Luciana Genro, Zé Maria, Mauro Iasi e Rui Costa Pimenta, somados, alcançaram 1,8 milhão de votos, puxados pelo bom desempenho de Luciana (o dobro de Plínio em 2010, ainda que quatro vezes menos que Heloísa Helena em 2006).

Outras observações:

  • Dilma perdeu 4,4 milhões de votos (43,2 contra 47,6 em 2010)
  • O PSDB somou 1,7 milhão de votos a mais (34,8 de Aécio contra 33,1 de José Serra em 2010)
  • Marina Silva, considerando o aumento de 7 milhões de eleitores, permaneceu praticamente estagnada, com leve alta, saindo de 19,6 milhões em 2010 para 22,1 em 2014.
  • Impressiona a adesão que o discurso homofóbico de Levy Fidelix conquistou, saindo de 57,9 mil votos em 2010 para 446,8 mil em 2014, aumento de quase 800%, disparado a maior diferença entre o desempenho anterior e o atual.
  • Pastor Everaldo e seu discurso neo-liberal freak angariou 780 mil votos. Eduardo Jorge, que representa um partido confuso, que poderia ser classificado de centro, apesar de algumas posições progressistas, ficou com 630 mil votos.

Se tirarmos a excrescência do crescimento exponencial de Fidelix, o PT tem muitos motivos para repensar algumas práticas, sua relação histórica com a militância e as centrais sindicais, que se afastaram do partido durante o governo Dilma. A derrota clamorosa do partido em Pernambuco, terra de Lula, onde não elegeu sequer um deputado federal, é o sintoma mais evidente.

O desempenho pífio em São Paulo, onde Geraldo Alckmin se reelegeu com quase 60% dos votos válidos, Alexandre Padilha alcançou somente o terceiro lugar, com 3,8 milhões de votos, José Serra venceu Eduardo Suplicy para o Senado, acabando com três mandatos consecutivos do senador e Dilma amargou uma diferença de 44,2% para Aécio contra 25,8% dela, ou 4 milhões de votos a menos, representando quase toda a perda de 2010 para cá, é muito significativo. Na câmara estadual, apesar dos 22 deputados eleitos pelo PSDB e 14 pelo PT, além dos 14 deputados federais do PSDB e 10 do PT, os tucanos alcançaram a maioria dos deputados campeões de votos. No total, o PT foi o que mais perdeu deputados federais em todo o país, 18. O PSDB o que mais ganhou, passando de 44 para 55.

Em 2010, no texto sobre Marina Silva, afirmei:

Qualquer afirmação sobre a sua influência nas eleições, portanto, precisa ser cuidadosa. Marina tomou uma nova frente, com certeza fez muito mais do que imaginou que fosse conseguir. Ao contrário de Heloísa Helena, que sumiu do mapa político nacional em 4 anos e amargou o fracasso de não conseguir se eleger sequer senadora por Alagoas em 2010, tudo indica que Marina seguirá tendo papel importante na vida política nacional e, provavelmente, firmará sua posição como liderança absoluta do ambientalismo no Brasil.

É pouquíssimo provável que aceite algum ministério no governo Dilma. Se conseguir manter-se atuante e agregar novas forças ao jogo político (que ela reluta em fazer), sua candidatura pode ganhar corpo interessante se quiser vir novamente em 2014. Ficando no PV ou não.

Independente das possibilidades, Marina tem tempo e é inteligente o suficiente para definir os melhores passos da sua vida política. Sua presença de destaque em 2010, indubitavelmente, foi positiva para o país. Ela pode conseguir um pouco mais.

O problema é que Marina não fez absolutamente nada em 4 anos. Seu maior feito foi ter sido incapaz de reunir as assinaturas necessárias para a criação do seu partido, Rede Sustentabilidade, num país em que praticamente qualquer um consegue isso. Sua opção foi aceitar a posição de vice no PSB de Eduardo Campos, gerando uma chapa curiosa, em que as propostas assinalam para um partido “socialista de direita”. Apesar de toda a comoção natural com a morte trágica de Eduardo, sua crescida súbita nas pesquisas, chegando a “empatar” com Dilma no primeiro turno e supostamente vencê-la no segundo, de acordo com os institutos, Marina Silva acabou tendo o mesmo desempenho de 2010. Testado e reprovado em duas ocasiões consecutivas, incluindo a atual eleição com “tudo favorável”, é razoável afirmar que este foi o fim das pretensões maiores de Marina no quadro político nacional.

O “súbito crescimento” de Aécio, na verdade, é menos devido a sua notória melhora nos debates (cabe lembrar que Aécio jamais havia participado de qualquer debate televisivo nas suas eleições anteriores para governador e senador), evoluindo muito do primeiro ao último, da campanha em si e na imagem que procurou vender, mas principalmente na cota histórica que o PSDB sempre teve, além do sentimento anti-PT generalizado. Ainda que tenha crescido em comparação com Serra de 2010, como já dito, o desempenho de Aécio é bem inferior ao de Alckmin em 2006, que conquistou 40 milhões de votos (sem uma terceira força tão polarizada como Marina Silva, diga-se).

Vejamos o que escrevi sobre Aécio em 2010:

Resta Aécio Neves. A raposa imprevisível. O único nome da direita capaz de fazer frente ao governo em 2014.

Aécio tem trunfos: o fator Tancredo Neves, os 8 anos de governo em Minas, segundo maior colégio eleitoral, com maciça aprovação, a menor rejeição que seu nome tem em São Paulo comparado a Serra e Alckmin, a capacidade de transmitir um conceito de “centro”, dado ao “morde e assopra”, a fazer oposição “generosa e firme”. Se aproximando de Lula e batendo de leve quando achava que tinha de bater. A velha malícia mineira.

Neves acaba de dar entrevista para a Folha defendendo uma “refundação do PSDB”. Quer que o partido “assuma o seu passado sem vergonha, realce a importância que as privatizações tiveram para o país, defina com larga antecedência um plano de governo”. O que posso dizer é: boa sorte com isso. Aécio será, disparado, o principal nome da oposição no governo Dilma. Aparecerá muito na mídia, que “o adora”. Preparando o terreno para 2014. Aécio pode ainda, dada sua forte relação com líderes importantes do PSB – a terceira força do governo atual, com 8 governadores, etc – cooptar o PSB para o lado do PSDB, criando uma coligação mais forte contra PT/PMDB.

É exatamente a situação que se assinala agora: a ala do PSB mais a favor de uma aliança com Aécio tende a vencer a opção do presidente do partido, Roberto Amaral. Marina, que é historicamente do PT, ministra de Lula, deve apoiar Aécio impondo condições, tentando conquistar algo para além da neutralidade declarada em 2010, que não gerou capital político nenhum para ela. No entanto, é altamente questionável a capacidade de transferência de votos pessoal de Marina Silva para o seu eleitorado, tão heterogêneo, tão misto, com interesses e motivações diversos. O único político capaz de realmente garantir transferência de votos no Brasil hoje é Luís Inácio Lula da Silva. Como 2010, quando a maioria dos votos de Marina migrou para Serra, deve acontecer o mesmo em 2014.

Em suma, o segundo turno coloca, de novo, PT e PSDB frente a frente, lidando com suas heranças, feitos e erros acumulados nos últimos 20 anos. Assusta o quanto o sentimento anti-PT, baseado em generalismos e platitudes que não encontram corpo no mundo real, como a suposta pecha de “corrupto”, algo até brando quando comparado o histórico de corrupção de FHC, o mensalão mineiro, os comprovados escândalos do metrô em SP, os desvios de Aécio Neves e Anastasia em Minas Gerais na saúde e educação, o aeroporto para a família de Aécio em Cláudio (MG) e por aí afora. Nem o próprio Aécio parece capaz de abordar o que fez como Senador, num mandato nulo em que dedicou a tecer críticas genéricas ao governo e viajar para o Rio de Janeiro. Resta as suas “realizações no governo de Minas Gerais”, altamente questionáveis, como o aumento absurdo da dívida do estado e o aumento superior a 52,3% nos índices de homicídio entre 2002 e 2012, contra a sua balela de “choque de gestão”.

Nada indica que o segundo turno será capaz de subir o nível e debater diferenças de propostas ao invés de corrupção e alianças espúrias. As “mudanças” exigidas pelas ruas em 2013 tiveram pouco ou nenhum impacto prático nos governadores e senadores já eleitos, nos segundos turnos desenhados e nos deputados vencedores. Como afirma o Diap, o Congresso será o mais conservador desde 1964, o que dificulta bastante a possibilidade de mudanças reais e reformas estruturais nos próximos 4 anos, seja com Dilma ou Aécio.

É a prova de que sobra muito oba-oba e um show de “reivindicações” sem nenhuma profundidade, faltando muita educação política, consciência histórica, noção de pacto federativo e penetração nas camadas mais profundas da política e administração pública na população em geral. Com isso, perdemos todos.

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