Ativismo

33 homens

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33 homens doparam, estupraram de todas as formas possíveis e mantiveram em cárcere privado uma menina de 16 anos. Não satisfeitos, precisaram exibir o horror nas redes sociais. 33.

O choque que a notícia causa – porque precisa ser chocante, diante da magnitude de absurdos em que estamos imersos, bombardeados a cada segundo de informações, imagens e coisas por todos os lados – dá lugar a uma infinidade de significados.

Ver a mídia e várias figuras relativizarem o ocorrido não surpreende. O estupro sempre foi a barbárie socialmente aceita. A barbárie institucionalizada. E a barbárie que fingimos não ver porque fala muito mais sobre nós do que gostamos de admitir.

E aí precisamos falar da participação da mídia nos episódios diários de violência e abuso. Precisamos falar sobre a espetacularização da barbárie e da vaidade doentia na sociedade e nas redes sociais. Os criminosos só postaram (vejam o acúmulo de absurdos contidos no fato) porque estavam certos da impunidade, porque agiam com normalidade diante do que fizeram e porque precisavam contar e se exibir. Exibir o troféu que a sua dominação criminosa, física e psicológica propiciou. Exibir para ganhar o aplauso de outros javalis.

Precisamos falar sobre a cultura de competição onipresente que o capitalismo provoca. Sobre a necessidade de se autoafirmar pela força, em ser “aprovado” pelos demais. Da busca incessante em ser o mais forte, o melhor, o maioral, não importa quais as circunstâncias para isso. Os clubes masculinos, em todas as suas instâncias, foram criados e estão aí para isso, desde que o mundo é mundo.

Precisamos falar sobre o aumento exponencial da pornografia hardcore, em que mulheres são submetidas às mais diversas formas de humilhação e violência física para delírio dos homens ao alcance de um clique. E do impacto que isso tem na nossa vida sexual.

Precisamos falar sobre a anuência do papai, dos tios e todas as figuras masculinas adultas quando o menino submete a empregada à sua iniciação sexual, uma forma de estupro enraizada na cultura brasileira.

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Precisamos falar sobre os modelos que são exaltados, as figuras que dominam a política, os holofotes, as igrejas, as ruas, a internet, o abismo que está regurgitando na nossa cara o lixo que atiramos para dentro dele, fugindo da nossa responsabilidade. Como se diz, se homem engravidasse, o aborto seria feito no caixa eletrônico.

A cultura do estupro é milenar. A sua exaltação também. Episódios como esse servem para nos lembrar do quão atrasados estamos. Do quão é necessário um debate franco e permanente para mudar essa cultura de uma vez por todas, para evitar que dezenas de milhares de mulheres sejam violentadas, estupradas, agredidas, humilhadas e mortas todos os anos. No Brasil e no mundo.

Sobre o significado de cada ato de covardia e barbárie que nós, homens, praticamos no dia a dia. Eu não quero viver na canalhocracia.

Nós, todos nós, somos os mortos.

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> No Brasil, 1 pessoa é estuprada a cada 11 minutos. Foram 47,6 mil estupros registrados em 2014.

> Entre 2010-2014, um quarto de todas as gestações no mundo acabou em aborto. O percentual caiu nos países desenvolvidos, de 39% em 1990-1994 para 28% em 2010-2014. Por outro lado, mudou pouco nos países em desenvolvimento, de 21% para 24% no mesmo período. Contudo, a proporção de gravidez encerrada em aborto aumentou na América Latina e no Caribe (de 23% para 32%), Ásia Central e Meridional (de 17% para 25%) e África Austral (de 17% para 24%).

Criminalização do aborto é fator que mantém Brasil longe dos Objetivos do Milênio da ONU.

> A cada dois dias, uma brasileira (pobre) morre por aborto inseguro, um problema de saúde pública ligado à criminalização da interrupção da gravidez e à violação dos direitos da mulher. Estima-se em até 1 milhão de casos de aborto por ano no Brasil.

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