Gonzo

A pior coisa que eu já li

wilbl88

Os jornais populares promoveram a sobrevida do jornalismo: a oportunidade de manter equilibrado os números de vendas no país entregando publicações calcadas na violência, no “mundo de celebridades”, no esporte e no sexo, somada a um custo baixíssimo: de 25 a 50 centavos. O Super Notícia, de Belo Horizonte, adotando tal estratégia, tornou-se o jornal mais vendido do Brasil. Crescendo gradativamente, conquistou a impressionante marca de 300 mil exemplares diárias em agosto de 2007 (hoje deve estar um pouco acima disto). Mais aqui e aqui.

A discussão é interessante mas deve ser tema de outro artigo. A “pior coisa que eu já li” não é o jornal em si, mas uma “coluna” publicada ontem, no dia 27.10.08, do “jornalista” Manoel Lobato. Reproduzo aqui o texto na íntegra (os grifos e destaques são meus):

Depoimento de uma futura psicóloga

Recebo o seguinte fax: Sou estudante do curso médio e vou fazer vestibular para me tornar psicóloga. Pretendo ser diplomada em psicologia (ahhhh!!). Tenho dom para essa profissão. Já leio alguns compêndios sobre o tema, sem compromisso com a escolaridade. Sou psicóloga particular, sem diploma ainda. Sou tida pelos professores como super-dotada na inteligência. Eu quis falar na TV, mas o programa foi cancelado. Quero dar meu depoimento a respeito da personalidade de Lindembergue, o rapaz de 22 anos que fez o maior seqüestro do Brasil: cem horas, sim, senhoras. Vocês são minhas leitoras do momento, de modo que entendam lá o amor do moço. Eu também sou adolescente e sofro por causa do abandono do meu namorado de 32 anos, divorciado. Ele é estudado, bacharel em direito. E me deixou. Amor é uma palavra que serve para qualificar sentimentos vários. De trás pra frente, a palavra é Roma. Lida desse jeito é outro modo de lidar com neurolingüistica. Muitos mestres dão palpite na TV. Uma psicóloga falou que “haviam duas pessoas sequestradas”. Não “haviam”. O verbo haver fica no singular: havia. São singulares as regras gramaticais da língua portuguesa. Minha professora me ensinou isso. Um comentarista da TV disse: “Fazem quatro dias de sequestro”. Não “fazem”. O verbo fazer, no caso, fica impessoalizado: “Faz quatro dias de sequestro”.

Lindembergue nasceu na Paraíba, mas veio para São Paulo, ainda menino. Acho que ele já foi torneiro mecânico. Que significa isso? Significa que quem sai do Nordeste e vem para São Paulo pode tornar-se sequestrador ou presidente da República (!!!). Cada pessoa tem seu destino. Eu também comecei o namoro com 12 anos. Mamãe me dizia que menino é quem torce o pepino. São frases em sentido figurado. Vocês, que são senhoras, já foram crianças. De novo: cem horas, minhas senhoras, de amor e de ódio. Se vocês lerem a palavra “ódio” de trás pra frente, lerão: “Oi, dó!”. Amor e ódio: oi, dó e Roma.

Li num compêndio de filosofia que Empédocles foi o primeiro filósofo a usar a idéia de amor no sentido cósmico e metafísico, considerando o amor uma luta. A palavra agonia também sugere luta, combate. Minha professora é quem falou isso, vem do grego. Decorei umas tiradas de um compêndio sobre amor. Exemplo: depois de muitas definições e elogios ao amor num livro chamado “Banquete”, aos quais devem ser acrescidos os temas de “Pedro”, Platão quer provar que o amor é o sentimento perfeito. “Ágape” em grego quer dizer banquete ou amor. Acho que vem daí a Santa Ceia, comida e sentimento fraterno. Sei lá. Falo sem saber. Escrevo o que me ensinaram.

O amor é querer alguma coisa. O amante quer a posse, como o Lindembergue, aí ele endoidou porque não conseguiu a perfeição. Sei lá. Escrevo o que vem na minha cachola de menina que vai ser psicóloga. Quero que as senhoras, que me lêem, se lembrem de minha mãe que é uma senhora. Cem horas não senhoras. Trocadilhar não é escrever a verdade. QUE É A VERDADE? É DA DREV. EDADREV É VERDADE ÀS AVESSAS.

Meu namorado me ensinou que o ditado certo é o seguinte: desde menino é que se torce o pepino. Acho que Lindembergue torceu o pepino em criança, então ficou aloprado, como diria o Lula.”

Em uma palavra: MEDO!! Quando li isso a primeira vez, parei no caminho para retomar o fôlego. Releiam. Espalhem. Imprimam. Distribuam. Deve ser o texto mais genial escrito por um brasileiro (a) no século XXI. Ah, “o Brasil é um país onde a gente precisa explicar ironia”.

Uma das possibilidades pensadas foi que a menina tenha problemas mentais. É compreensível. O texto, por si só, sublime, único, paradoxal, primor de conceitos e “investigação psicológica”, tem vida própria. Mais doente deve ser o jornalista, ao publicar isto. Talvez ele tenha achado bacana. Uma “opinião interessante” de uma “menina que vai ser psicóloga”. Nunca se sabe. Talvez esteja num nível intelectual muito avançado para que eu possa compreender.

Em homenagem, o texto estréia a seção “gonzo” aqui no Charade You Are. Merece. O jornal mais vendido do Brasil tem, de fato, muito a oferecer.

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