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A ditadura da criança

Bertrand Russel, um dos maiores intelectuais do século XX (vamos resumir assim), era filho de pais aristocráticos: um duque e uma viscondessa. Com a morte prematura dos dois, foi criado pelos avós, igualmente abastados, óbvio.

Portanto, Russel é um exemplo perfeito de alguém nascido “em berço de ouro”, que teve todos os mimos e benefícios possíveis. De alguém acostumado a ter uma vida que 99% da população sequer poderia sonhar na miserenta Inglaterra vitoriana (e das décadas seguintes). Nada muito diferente do mundo de hoje, em boa parte dos lugares.

Felizmente, nem todo aristocrata era uma besta completa. O que apenas ilustra que ser paparicado pelo papai e pela mamãe não é desculpa para a estupidez. Russel escreveu muita coisa na área de exatas que eu não faço a mínima ideia. Deixo para meus amigos engenheiros me explicarem, quando necessário. E assim o faço, com eles, em campos que não dominam. É a vida. Todos ganham.

Anos atrás, vi “O Elogio ao Ócio”, de Russel, na prateleira da biblioteca e não resisti. Um título tentador desses só poderia ter coisa boa. Não há dúvida de que todo ser humano precisa do ócio para fazer coisas gostosas e que acrescentem algo. Ou pra não fazer nada. É essencial. Ou “a ave que choca os ovos da experiência”, se você quiser uma citação famosa de Walter Benjamin. Este texto por exemplo. Não existiria sem ele.

Como escritor (dizer filósofo acho restrito demais) Russel é de uma clareza assustadora. A lucidez expressa em linhas precisas, longe da baboseira prolixa que muitos do ramo gostam de regurgitar. Aliás, aqui preciso ficar com Chomsky. Segundo ele, se alguém não consegue explicar o seu pensamento com clareza, em termos de compreensão razóavel para todos, é motivo suficiente para desconfiar do negócio. Falei sobre isso aqui.

Em um dos artigos daquela compilação, Russel discorre sobre a ditadura da criança em que vivemos. Isso referindo-se a décadas atrás. Hoje, 2010, não é preciso ser nenhum gênio para perceber que as coisas estão muito piores.

Após esbarrar no texto de Vinícius Duarte, “o leite com pêra e o futuro do mundo”, lembrei do tema que me incomoda há anos. No império do politicamente correto, a criança virou uma espécie de pequena divindade. Tudo é permitido. Tudo é válido. Todos os desejos devem ser atendidos. São intocáveis, puras. Dá-se a desgraça.

Não defendo o espancamento de seres indefesos, pra ficar claro. Mas havia um tempo (até a minha geração, pelo jeito) que o negócio era bem simples: aprontou, o coro come. Fez besteira? Vai apanhar. Desrespeitou os pais, familiares, fez birra desnecessária, sabotou o colega, castigo. Vai sofrer as consequencias de cada ato indevido. Aprender a dar valor a tudo que tem e respeitar o que precisa ser respeitado.

Nunca matou ninguém (não falo de casos extremos, repito, que é crime e abuso) e é praticado desde as primeiras eras da história da humanidade. Com uma certa margem de erro, a criança crescia com noções bem claras do que era apropriado ou não. Em suma, virava gente o mais rápido possível.

Não é o que acontece hoje. Dar um tapa no filho pode ser considerado agressão, denunciado pelo vizinho e ir parar na cadeia. Exagerado mas verossímil. São intocáveis. O que pedem, ganham. A ordem se inverteu: os pais que obedecem a criança. Tem tudo na mão. O resultado é esse que podemos conferir aos milhares por aí. Crescem e a coisa só piora. Quem nunca teve base de coisa alguma não pode tornar-se um ser humano decente. Dá pra sentir os efeitos disso em cada situação onde se convive com gente estranha: da fila do banco até as boates, da faculdade ao clube, do trabalho ao trânsito, etc.

É o óbvio ululante que a criança precisa e implora por limites durante toda sua vida. O politicamente correto extirpou a chance de criar os filhos com liberdade. Claro, com a exceção: nem todo pai é escravo, nem todo filho fica sem uma base. O que essa geração mimada 2.0 que não sabe respeitar absolutamente nada ainda vai causar no mundo é bem fácil de imaginar.

Se “evoluímos” tanto – em termos comportamentais – o retrocesso parece andar quase sempre na mesma medida. Onipresente “admirável mundo novo”. Sorria.

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2 comentários sobre “A ditadura da criança

  1. tiago garcia disse:

    Fala velinho, mas sabe que o Ellias Canetti escreveu em sua biografia que o Russel era um imbecil? Ele escreveu que enquanto a Inglaterra estava sendo bombardeada durante a Segunda Guerra ela participava de festas chiques, não ajudava em nada (muitos dos intelectuais da época ajudavam os bombeiros e coisas do gênero). Escreveu que o cara era maldoso até o osso (certamente o Canetti exagerou na dose, mas fiquei surpreso)

    Não conhecia este ‘Elogio ao ócio’ do Russel.Li faz pouco tempo o ‘Elogio da Preguiça’ do Paul LaFarge, cunhado do Marx. Ele defende que as pessoas ( e não os trabalhadores rs.) não devem lutar politicamente pelo direito ao trabalho mas pelo direito ao ócio. O livro se auto-proclama um elogio ao Deus do faire-néant (o Deus do fazer-nada rs.).

    Cara sobre a educação dos putos rs. Sou defensor do bom e velho castigo pra pensar na vida – bater não acho legal porque não é uma punição que faz a criança dimensionar suas ações – se ela apanha a punição elimina a culpa e a questão encerra aí.

    Velinho, apareça vc tmb lá no “TAF!” oras! :0)

  2. MAngelo disse:

    Qualquer um que taxar Russel de “imbecil” n merece crédito comigo. Essa discussão da vida ativa e passiva do intelectual já é outro papo, né? Sempre muito discutível.

    Outra que acho é que rixas histórias, de picuinhas do ser humano e coisas do tipo, acabam sempre tomando uma dimensão enorme nesse meio, pioradas pelo distanciamento natural de tempo e de quantas vezes é contada, mesmo que de fontes diretas ou confiáveis, é difícil analisar.

    Pra mim, Russel omisso ou não – duvido que alguém tenha como averiguar isto a fundo e também até que ponto isto é determinante em alguma coisa – nao invalida em nada seu pensamento. Este, específico, e do post seguinte.

    =)))

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