Política & Economia

Requiem para o sonho americano: Noam Chomsky e os princípios da concentração de riqueza e poder

Requiem-For-An-American-Dream

Noam Chomsky é, sem dúvida, um dos intelectuais mais influentes e prolíficos dos últimos 100 anos. Figura central em diversas áreas do conhecimento que, não bastasse todo seu trabalho, tem um dom raro: o de conseguir ser extremamente didático, lúcido e sensato para diferentes tipos de público sem ser simplista.

E este dom fica evidente neste espetacular documentário “Requiem For The American Dream”, de 2016, disponível no Netflix. Em meros 70 minutos, Chomsky dá uma verdadeira aula sobre a economia, política e a sociedade do nosso tempo, baseado em 10 princípios da concentração de riqueza e poder, algo profundamente interligado e que explica todas as crises passadas, como pavimentamos o caminho para chegarmos até aqui e as crises e possibilidades que virão. Afinal, as crises não são somente parte intrínseca do capitalismo, como também representam o sinal mais inequívoco de que o sistema está sadio e funcionando, como disse Marx e Berman.

Através de uma série de entrevistas, realizadas durante 4 anos, Chosmky explica cada um destes princípios:

1. Reduzir a democracia: como uma das maiores preocupações dos “pais fundadores” da sociedade americana, expresso na Constituição e na criação do Senado, a exemplo de James Madinson, era proteger os ricos do “excesso” de democracia, criando mecanismos para que ela “não fugisse do controle”.

2. Moldar a ideologia: o documento “A Crise da Democracia” da Comissão Trilateral, citado por Chomsky, é exemplar nisso.

3. Redesenhar a economia: como o aumento exponencial da participação das instituições financeiras na economia, em detrimento da produção, somada com a desregulação do mercado a partir dos anos 70, potencializada nas décadas posteriores e a elevação do conceito de “insegurança do trabalhador” – celebrado por Alan Greenspan – servem de base para a situação atual.

4. Dividir o fardo: de que maneira o estado de bem estar social dos anos 50 e 60 e a melhora das condições de vida da população foi corroído ao longo do tempo, significando menos impostos para os ricos, que habilmente conseguiram fazer com que a maioria do povo arcasse com os custos básicos da sociedade, enquanto a desigualdade atinge picos históricos hoje em dia.

5. Atacar a noção de solidariedade: obedecendo a máxima de “tudo para mim, nada para os outros” de Adam Smith, como a educação pública e a previdência social foram atacadas e diminuídas, ainda que largamente usada pelas classes A e B no passado e base de sustentação do desenvolvimento da sociedade americana. Partindo desses exemplos, Chomsky mostra como o capitalismo atua para minar nossa capacidade de sentir empatia e solidariedade com o outro, conquistando nossas mentes e nos fazendo refém do egoísmo mais tóxico e abjeto possível.

6. Deixar reguladores atuarem em causa própria: o crescimento absurdo do lobby e como as pessoas escolhidas para definir a legislação são as mesmas que usufruem dela em praticamente todas as áreas da economia e da sociedade.

7. Financiar as eleições: grandes corporações financiando as campanhas presidenciais caríssimas que geram governantes que ficam na mão delas, em um círculo vicioso absurdo. Soa familiar, não?

8. Manter o povo na linha: o ataque ao sindicalismo e todas as organizações de trabalhadores. De que  forma eles eram parte essencial da resistência à exploração e ao abuso e, com o tempo, foram minados, seja diretamente pelo governo, seja pelas próprias organizações, que trataram de demonizar profundamente a atuação sindical, chegando a somente 7% de trabalhadores privados sindicalizados hoje.

9. Criar e propagar o consumismo: de que forma a propaganda, de maneira bem engenhosa e eficaz, tratou de criar gerações de consumidores com pouco ou nenhum senso crítico, um roteiro que todos conhecemos bem.

10. Marginalizar a população: “marginalizar” no sentido de excluir o povo das discussões principais, da participação democrática, minando o controle social e gerando cidadãos apolíticos que se engalfinham num ódio à política e ao governo absolutamente cego que, claro, compromete os maiores interessados na melhoria da sociedade: o próprio povo.

Nada disso é novidade, mas a capacidade de Chosmky em mostrar de maneira concisa e didática o seu impacto, somado ao arquivo histórico dos realizadores, faz com que esse documentário seja um excelente resumo de tudo aquilo que é central para o mundo em que vivemos.

Standard
Política & Economia

A desigualdade comprova: o capitalismo falhou para 99% da humanidade

desigualdade

O relatório mais recente da Oxfam, ONG que é a maior referência mundial no tema, confirma o que a própria Oxfam e tantos especialistas e analistas sérios (Paul Krugman, Thomas Piketty e outros) vem repetindo e estudando nos últimos anos: o mundo nunca esteve tão desigual, a crise de 2008 aprofundou o lucro do 1% mais rico da população, a igualdade de gênero é uma realidade distante e a evasão fiscal e o lobby são instrumentos fartamente usados para potencializar esses lucros irreais e piorar sistematicamente a situação de quem está na base da pirâmide. Destaquei alguns pontos essenciais do relatório completo, disponível aqui.

  • Em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade. Esse número representa uma queda em relação aos 388 indivíduos que se enquadravam nessa categoria há bem pouco tempo, em 2010.
  • A riqueza das 62 pessoas mais ricas do mundo aumentou em 44% nos cinco anos decorridos desde 2010 – o que representa um aumento de mais de meio trilhão de dólares (US$ 542 bilhões) nessa riqueza, que saltou para US$ 1,76 trilhão. 
  •  Ao mesmo tempo, a riqueza da metade mais pobre caiu em pouco mais de um trilhão de dólares no mesmo período – uma queda de 41%.
  •  Desde a virada do século, a metade da população mundial mais afetada pela pobreza ficou com apenas 1% do aumento total da riqueza global, enquanto metade desse aumento beneficiou a camada mais rica de 1% da população.
  • O rendimento médio anual dos 10% da população mundial mais afetados pela pobreza no mundo aumentou menos de US$ 3 em quase um quarto de século. Sua renda diária aumentou menos de um centavo a cada ano.
  •  Segundo uma estimativa recente, riquezas individuais que somam US$ 7,6 trilhões – equivalentes a mais que o produto interno bruto (PIB) combinado do Reino Unido e da Alemanha – estão sendo mantidas offshore atualmente.
  • A instituição observou ainda que a distância salarial entre os gêneros também é maior em sociedades mais desiguais. É interessante observar que 53 das 62 pessoas mais ricas do mundo são homens. 
  • Em todo o mundo, o impacto ambiental médio do 1% mais rico da população mundial pode ser até 175 vezes mais intenso que o dos 10% mais pobres. 
  • Os salários dos diretores executivos das maiores empresas norte-americanas aumentaram em mais da metade (54,3%) desde 2009, enquanto os dos trabalhadores permaneceram praticamente inalterados. O diretor executivo da maior empresa de informática da Índia ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa. As mulheres ocupam apenas 24 dos cargos de direção executiva das empresas listadas na Fortune 500. 
  • A evasão fiscal é um problema que está se agravando rapidamente. A Oxfam analisou 200 empresas, entre as quais as maiores do mundo e as que são parceiras estratégicas do Fórum Econômico Mundial, e verificou que nove de cada dez delas estão presentes em pelo menos um paraíso fiscal. Em 2014, os investimentos de empresas nesses paraísos fiscais foram quase quatro vezes maiores do que em 2001.
  • Quase um terço (30%) da riqueza dos africanos ricos – que totaliza US$ 500 bilhões – é mantido em paraísos fiscais offshore. Estima-se que essa prática custe US$ 14 bilhões por ano em receitas fiscais perdidas para os países africanos. Esse valor é suficiente para oferecer serviços de saúde que poderiam salvar a vida de 4 milhões de crianças e empregar professores em número suficiente para que todas as crianças africanas pudessem frequentar uma escola.
  • O setor financeiro tem crescido mais rapidamente nas últimas décadas e é atualmente responsável por um de cada cinco bilionários. Nesse setor, a diferença entre salários e benefícios e o valor efetivamente agregado à economia é maior do que em qualquer outro. Um estudo realizado recentemente pela OCDE revelou que países com setores financeiros inchados caracterizam-se por uma maior instabilidade econômica e uma desigualdade maior. Não há dúvida de que a crise das dívidas públicas provocada pela crise financeira, por resgates de bancos e pela subsequente adoção de políticas de austeridade tem afetado mais intensamente as pessoas pobres. O setor bancário permanece no cerne do sistema dos paraísos fiscais; a maioria da riqueza mantida offshore é gerida por apenas 50 grandes bancos.
  • Empresas farmacêuticas gastaram mais de US$ 228 milhões em 2014 em atividades de lobby em Washington. Quando a Tailândia decidiu emitir uma licença compulsória para uma série de medicamentos essenciais – uma disposição que garante a governos a flexibilidade necessária para produzir medicamentos localmente a um preço bem mais baixo, sem a necessidade de obter a permissão do titular da respectiva patente internacional –, essas empresas pressionaram com sucesso o governo dos Estados Unidos para incluir a Tailândia em uma lista de países que poderiam sofrer sanções comerciais.

CZKXam9WIAAMqF3

SOLUÇÕES PROPOSTAS PELA OXFAM

  • Garantir o pagamento de um salário digno aos trabalhadores e fechar a distância das bonificações dos executivos: aumentando o salário mínimo para que se torne um salário digno; garantindo a transparência na relação salário-lucro; e protegendo os direitos dos trabalhadores à sindicalização e à greve.
  • Promover a igualdade econômica das mulheres e seus direitos: oferecendo compensação pela prestação de cuidados não remunerados; eliminando a distância salarial entre os gêneros; promovendo direitos iguais de herança e de titularidade de terras para as mulheres; e melhorando a coleta de dados para avaliar como mulheres e meninas são afetadas por políticas econômicas.
  • Controlar a influência de elites poderosas: estabelecendo registros obrigatórios de atividades de lobby e normas mais robustas para conflitos de interesse; garantindo que informações de boa qualidade sobre processos administrativos e orçamentários sejam publicamente divulgadas e facilmente acessíveis; reformando o ambiente regulatório, com ênfase na promoção da transparência governamental; separando empresas do financiamento de campanhas; e adotando medidas para fechar as “portas giratórias” entre grandes empresas e o governo.
  • Mudar o sistema global de P&D e de fixação de preços para medicamentos para que todos tenham acesso a medicamentos adequados e acessíveis: negociando um novo tratado global de P&D; aumentando investimentos em medicamentos, incluindo em medicamente genéricos acessíveis; e excluindo normas de propriedade intelectual de acordos comerciais. O financiamento de P&D deve ser desvinculado da fixação de preços de medicamentos para romper os monopólios das empresas e garantir um financiamento adequado para atividades de P&D em torno de terapias necessárias e a acessibilidade dos produtos resultantes.
  • Dividir a carga tributária em bases justas: diminuindo o peso da carga tributária sobre o trabalho e o consumo e aumentando essa carga sobre a riqueza, o capital e a renda decorrente desses ativos; aumentando a transparência dos incentivos fiscais; e adotando impostos nacionais sobre grandes fortunas.
  • Adotar medidas progressistas em relação aos gastos públicos para combater a desigualdade: priorizando políticas, práticas e gastos que aumentem o financiamento de sistemas públicos de saúde e educação no sentido de combater a pobreza e a desigualdade em nível nacional. Abrindo mão de promover reformas não comprovadas e impraticáveis baseadas na lógica do mercado nos sistemas públicos de saúde e educação e ampliando a prestação de serviços essenciais por parte do setor público e não do privado.
Standard
Ativismo

Peter Sunde: “não existe internet livre”

Captura de tela de 2015-12-18 12:23:18

Peter Sunde é um dos fundadores do Pirate Bay, o agregador de torrents mais famoso dos anos 00, o símbolo da internet livre e do compartilhamento de arquivos. Condenado em 2009 e preso em 2014, a experiência de Sunde diz muito do estado de coisas atual. Destaco dois trechos dessa ótima entrevista para a Vice: 

“Não temos uma internet livre. Estamos perdendo privilégios e direitos o tempo inteiro. Não ganhamos nada em setor algum. A tendência é uma só: uma internet cada vez mais controlada e fechada. Isso tem um impacto enorme na nossa sociedade. Se você tem uma internet mais oprimida, você tem também uma sociedade oprimida. E deveríamos nos focar nisso. Nunca vimos tanta centralização, desigualdade e capitalismo extremos. Porém, de acordo com o marketing feito por gente como Mark Zuckerberg e empresas como o Google, tudo é feito para ajudar a rede aberta e promover democracia, e por aí vai. Ao mesmo tempo, são monopólios capitalistas. É como confiar no vilão pra fazer boas ações. É bizarro.

(…)

Penso que para vencer a guerra, primeiro precisamos entender o que é a luta e pra mim está claro que lidamos com algo ideológico: o capitalismo extremo em voga, o lobby extremo em voga e a centralização do poder. A internet é só uma peça em um quebra-cabeça ainda maior. E o lance com o ativismo é que preciso agir na hora certa para ganhar atenção e tudo mais. Mandamos muito mal nisso. Paramos a ACTA, mas então ela voltou com outro nome. Na época, já tínhamos gasto todos nossos recursos e atenção do público com aquilo. O motivo pelo qual foco no mundo real é porque a internet o emula. Estamos tentando recriar uma sociedade capitalista na internet. Logo, a internet tem servido de combustível para a chama capitalista ao fingir ser algo que te conectará ao mundo todo mas que, no final, tem interesses capitalistas. Observe as maiores empresas do mundo, todas tem base na internet. Veja o que elas vendem: nada. O Facebook não tem produto. O Airbnb, maior rede de hotelaria do mundo, não tem hoteis. Uber, a maior empresa de táxis mundial, não tem nem táxis. A quantidade de funcionários nessas empresas está mais reduzida que nunca e os lucros, por sua vez, maiores. Apple e Google ganham de petroleiras fácil. Minecraft foi vendido por 2,6 bilhões de dólares e o WhatsApp por uns 19 bilhões. São quantias absurdas de dinheiro trocadas por nada. Por isso a internet e o capitalismo se amam tanto.”

Sunde tem um ponto e está corretíssimo na sua avaliação. O recente bloqueio do Whatsapp no Brasil ilustra PERFEITAMENTE isso. Zuckerberg, que é dono do Whatsapp, se apressou em afirmar que “este é um dia triste para o Brasil” e “estamos” – risos – “lutando por uma internet independente”. É no mínimo “curioso” que uma empresa que colabora pesadamente com o governo dos EUA (assim como todas as outras) fornecendo dados dos usuários e que também usa cada letra que você escreve e cada click que você dá para filtrar a timeline, direcionar anúncios, etc, se negue a fornecer dados de um criminoso para a justiça brasileira (o que gerou a estapafúrdia interrupção temporária do Whatsapp).

Claro, nosso Marco Civil (apesar de erroneamente atacado no episódio) é patético. Claro, o que não falta é juiz fazendo “juizices” pra aparecer. Claro, é um absurdo que só acontece porquê ainda somos capitanias hereditárias. Mas serve pra esfregar na sua cara de quem parece viver em uma realidade paralela o óbvio ululante: não existe internet livre nem nunca existiu.

Essa é uma história sem mocinhos. O doc “Citizen Four”, sobre Edward Snowden e o vazamento de informações sobre as práticas da NSA mostra, desenhadinho, que isso nunca foi teoria da conspiração. Há uma estrutura gigantesca construída e mantida com esse único foco: espionar o usuário e manter todas as informações que circulam na internet bem controladas. Eles fazem o que querem e nós trabalhamos gratuitamente gerando conteúdo para eles. É 1984 aperfeiçoado. Quem controla o presente, controla o passado e o futuro.

Ter isso em mente é fundamental para não cairmos em falácias muito bem construídas de quem tenta se vender como o oposto do que realmente é.

Standard
Política & Economia

Mapa mostra a desigualdade social e a “democracia racial” no Brasil

mapabrasilgeral

Trabalho sensacional do grupo pata, esse Mapa Racial do Brasil (usando dados do IBGE) mostra a sabida e profunda desigualdade social do Brasil, assim como (sempre bom lembrar) expõe o ridículo da “democracia racial” usada por Gilberto Freyre e outros, segundo a qual nós seríamos “menos racistas e mais tolerantes” que outros países e por aí afora. Para consultar e guardar.

Separei alguns exemplos de regiões específicas que mostram como os negros são excluídos das áreas nobres das cidades:

Distrito Federal

maparacialbrasilia

Rio de Janeiro

maparioracial

São Paulo

maparacialsp

Salvador

maparacialsalvador

Recife

maparacialrecife

Como foi feito?

O que você está vendo é um mapa interativo de distribuição racial no Brasil. Através dele é possível observar a distribuição geográfica, densidade demográfica, e diversidade racial do povo brasileiro. Cada um dos pontos no mapa representa uma pessoa¹. O local e cor dos pontos são baseados nos dados do Censo IBGE de 2010 disponível online; cada cor no mapa representa uma das opções de raça possível no referido censo.

O censo fornece, entre outras coisas, dados georreferenciados (distribuídos em setores censitários, a menor unidade geográfica da pesquisa) sobre a raça auto-declarada por cada cidadão brasileiro.

Em poucas palavras, o mapa foi gerado posicionando aleatoriamente no espaço de cada setor censitário os pontos/pessoas que pertenciam ali. Como os setores censitários são, via de regra, unidades geográficas relativamente pequenas, este método proporciona um resultado bastante fiel da distribuição racial no espaço.

A motivação para esse projeto adveio da falta de visualizações geográficas da população, que frequentemente são realizadas com base em divisões geográficas artificiais, como municípios ou estados. Queríamos um método eficaz e fácil de visualizar os dados obtidos pelo censo.

O mapa foi criado pos nós da pata, a inspiração e a base do código utilizado para gerar o mapa vieram de Dustin Cable, um ex-pesquisador do Cooper Center for Public Service da University of Virginia, e autor de um mapa racial dos Estados Unidos. Ele, por sua vez, foi inspirado por Brandon Martin-Anderson do MIT Media Lab, e Eric Fischer, mapmaker/programador.

¹ Ou quase: por questões de segurança, não são divulgados os dados de setores censitários com menos de cinco domicílios.

Os pontos

Cada um dos mais de 190 milhões de pontos no mapa representa um cidadão brasileiro. Devido à escala do mapa, cada ponto é menor que um pixel na maioria dos níveis de zoom disponíveis. Isso quer dizer que o que você vê são na verdade aglomerado de pontos (e, consequentemente, de pessoas), a não ser que esteja visualizando em um zoom alto suficiente para focar em cidades ou bairros.

Cada cor diferente representa uma das raças que os cidadãos podiam escolher no censo. Verde são pardos, vermelho são pretos, azul são brancos, marrom são indígenas, e amarelo são, bem, amarelos… (vale sempre dizer que esta é a terminologia adotada pelo IBGE).

Leia mais.

Standard
Política & Economia

O seletivismo do brasileiro e a demonização do Estado

1447193346_169410_1447194031_noticia_normal

 

Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (IPEA), lança em breve o livro “A Tolice da Inteligência Brasileira”, em que explica, didaticamente, as bases do pensamento nacional e como ele foi construído historicamente.

Um pequeno exercício que mostra como isso é claríssimo: a demonização do estado e o endeusamento do mercado “como reino de todas as virtudes”, como Jessé assinala nesta entrevista ao El País.

Diz ele:

“Toda essa exploração de classe é escondida e transformada em um conflito construído, irreal, que não existe, entre Estado e mercado. Porque o Estado precisa do mercado para sua sobrevivência, e vice-versa. Mercado e Estado são uma coisa só, mas, no Brasil, você demoniza o Estado e monta o mercado como reino de todas as virtudes. Não existe crime no mercado. Essa coisa de o brasileiro ser inferior tem um lugar específico entre nós desde Sérgio Buarque: o Estado. É a tal tese do patrimonialismo. Há uma elite que, só no Estado, rouba a sociedade como um todo, como diz Raymundo Faoro. Então se cria um conflito artificial.”

Como isso se manifesta? Temos o exemplo perfeito nesta notícia do jornal Valor Econômico de 18 de novembro: Sonegação subtrai 500 bilhões ao ano:

Cerca de R$ 500 bilhões devem deixar de entrar nos cofres públicos neste ano por causa da sonegação de impostos, o equivalente a 18,5 vezes o orçamento do bolsa família em 2015. As estimativas são do sistema batizado de sonegômetro, elaborado pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) com base em cruzamentos de dados principalmente da Receita Federal.

Repito: 500 BILHÕES DE REAIS EM SONEGAÇÃO DE EMPRESAS PRIVADAS. Um crime gravíssimo, lembre-se. Qual a reação do brasileiro? Os comentários postados na página do Valor Econômico ilustram bem. Alguns selecionados:

Otávio Toledo É um dinheiro que fica em circulação , movimentando a economia e não abarrotando cofres de políticos e partidos ladrões !

Flavio Novaes Não tenho dúvidas que estes 500 bilhões, está sendo muito melhor empregado, do que se estivesse na mão dos bandidos. E outra coisa que este valor somado a já insana carga tributária, praticamente caracterizaria efeito de confisco, o que também é proibido pela Constituição.

Paulo Teixeira Corrijam a matéria: “Sociedade consegue proteger 500 bilhões por ano de serem levados pelo Governo saqueador de riquezas”

Cardoso C Joab Opa….precisamos dobrar essa meta, 500 bi por ano a menos para a mafia estatal ainda é pouco.

Bruno Santos O título deveria ser:
Governo tenta roubar mais 500 bilhões do povo e não consegue.

Gustavo Vieira de Moraes Sonegação hoje é ato de desobediência civil! Um ato de responsabilidade ante nosso triste futuro.

Armando 500 bilhões a mais em poder de compra e a menos em poder de corrupção

Todos extensamente aprovados por outros usuários através de centenas de curtidas. Quantas e quantas vezes você já ouviu este mesmo discurso por aí? Quantas e quantas vezes você se deparou com alguém defendendo “a privatização de todas as empresas, a entrega da saúde e da educação na mão do mercado para ‘resolver isso tudo que está aí’ e que ‘só assim’ conseguiríamos entregar serviços adequados para a população”? Eu perdi a conta.

Outro ponto excelente da entrevista do Jessé:

Todos os conflitos brasileiros tendem a ser silenciados. A classe média, que se põe como campeã da moralidade, no fundo explora o trabalho de uma ralé, de uma classe de excluídos, que presta todo tipo de serviço a ela — serviços que nem as classes médias europeia ou norte-americana têm. É um exército de escravos, no fundo, para prestar, a baixo custo, serviço na sua casa, cortar a sua grama, fazer comida, cuidar do seu filho. Isso é uma luta de classes. A luta de classes é silenciosa, por recursos escassos. Todos recursos, materiais e ideais, são escassos. Não é só a casa, o carro, a mercadoria, mas o reconhecimento, o prestígio, a beleza, o charme. Isso tudo é escasso. Há uma luta de todos contra todos em relação a isso, mas algumas classes monopolizam o acesso a esses recursos: o 1% e seu sócio menor, que é uma classe média de 20%, que monopoliza o capital cultural e tem um estilo de vida europeu em um país como o Brasil. O restante tem de lutar por isso.

(…)

Essas pessoas defendem um tipo de liberalismo amesquinhado que tem a ver com a imagem negativa do brasileiro. Isso começa com o Gilberto Freyre, em 1933, quando se substitui o racismo científico, fenotípico, por um racismo cultural. A base desse raciocínio é o “complexo do vira-lata”, como chamava Nelson Rodrigues. Supõe-se que existam sociedades superiores, compostas por indivíduos superiores moral e cognitivamente, que estariam nos Estados Unidos e na Europa. Lá, haveria um Estado só público, que não é privatizado por ninguém. Isso é um completo absurdo, fácil de ser destruído. Mas quando essas interpretações se tornam naturalizadas, os fatos não importam mais. O que os grandes pensadores dizem é que a privatização do Estado é uma singularidade brasileira, e nós acreditamos nisso. Há um sequestro da inteligência do povo brasileiro montado por grandes intelectuais. A grande interpretação do Brasil é só uma, que une personalismo e patrimonialismo.

Mais didático que isso, impossível.

Standard
Jornalismo

Ministério da Verdade

12250247_10204663738585011_1185215025_o

O crime ambiental da Vale cometido em Mariana e em toda a extensão do Rio Doce, até o Espírito Santo, gerou um site próprio para discutir todas as questões relativas ao acontecimento e do cenário da mineração no Brasil e no mundo. Lançado na última quinta-feira (12/11), o site busca analisar de maneira independente e apartidária a situação, além de repercutir temas relevantes ao episódio. Há muito acontecendo por lá e no facebook. O site, digamos, é um “spin-off” desse blog, lançado em 2007 e naturalmente também com o seu conceito inspirado em George Orwell, assim como tudo relativo aos domínios Crimideia.

Acesse o site e leia as matérias

Acompanhe no Facebook

Standard
Jornalismo

Assessoria de imprensa: o que mudou em 10 anos?

Alunas de jornalismo do Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte, me procuraram para falar um pouquinho sobre os desafios e as mudanças da área nos últimos 10 anos, tempo em que atuei desde o ramo musical/produção/instituições (BDMG Cultural, Oficina G3, AES Brasil, etc) até economia (Banco Central do Brasil, CGDC, Tesouro Nacional), passando pela educação (CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e saúde (Ministério da Saúde), entre outros.

Agradecimentos à Nathália Guimarães e Rafaela Bragança, que fizeram a entrevista e o vídeo abaixo. Publicado originalmente em No Plural.

1- Você trabalha na área de assessoria há 10 anos. Ao longo desse tempo, quais as mudanças ocorridas na área você pode destacar?

Especialmente, se tivesse que destacar uma única mudança importante, seria: o surgimento de agências de nicho. Seja em mídias digitais, seja em assessoria política, de entretenimento, esportiva e por aí afora. Elas já existiam antes, mas se multiplicaram.
A popularização da internet, claro, colocou novos agentes no jogo.

2- Dentre essas mudanças, quais você poderia classificar como positivas na profissão? E negativas?

Apesar de ainda contar com muitos amadores que fazem um trabalho de nível flagrantemente baixo, dá pra dizer que as assessorias cresceram e se profissionalizaram. Assessoria e comunicação corporativa é uma das principais áreas da comunicação no Brasil hoje. A vinda de muitos profissionais experientes das redações e de outras funções melhoraram a gestão de equipe, a definição de estratégias e as interseções com as diversas atividades possíveis de uma assessoria: comunicação interna, clipping, redes sociais, mídias digitais, publicidade, rádio, media training, gestão de crise, consultoria, apuração e briefings, relacionamento com jornalistas, criação e divulgação de pautas e releases, análise de mídia, etc.
Muitas vezes, uma “assessoria” será responsável por tudo isso e/ou participará da definição dessas estratégias e influenciará na atuação de cada uma dessas frentes.

3- Você já assessorou desde uma banda gospel muito conhecida no país até um banco renomado. Quais as adaptações você teve de fazer ao longo de sua carreira, para assessorar diferentes tipos de empresas?

Se o jornalista é conhecido como “o especialista em generalidades”, ou seja, fala um pouco sobre tudo e sobre nada com profundidade (um clichê que, goste-se ou não, aplica-se à profissão), a armadilha é dúbia: especializar-se em uma área ou ser um bom jornalista em vários assuntos.
Por mais paradoxal que seja, creio que o melhor caminho é um meio termo. No meu caso, migrei de uma ligação mais forte com a produção cultural (seja em eventos, bandas, instituições, etc) para a economia e política, inicialmente escrevendo matérias sobre temas diversos e posteriormente assessoria. Mas também assessorei grandes instituições nas áreas de educação e saúde.
Então creio que o principal desafio é saber se adaptar aos diferentes desafios e oportunidades, absorvendo as peculiaridades de cada área.

4- Quando a internet se tornou um dos meios de comunicação e informação mais utilizados do país, isso refletiu na maneira de assessorar? Facilitou ou dificultou os métodos da assessoria de imprensa?

Facilitou por tornar mais fácil o envio de pautas, o acesso ao mailing list, o contato por profissionais da área, os debates e tudo mais. Ao mesmo tempo, com a saturação, com assessorias achando que basta enviar sugestão de pauta via email para centenas e milhares de contatos, virando spam, cresce a importância de um trabalho personalizado e focado, de uma assessoria capaz de realmente criar relacionamento e saber explorar as potencialidades do cliente, sabendo também a hora de dizer não.

5- Atualmente, estamos no ápice de uma crise narrativa no jornalismo, ocasionando a falta de empregos em redações. Os jornalistas estão recorrendo à assessoria como profissão? Isso pode fazer com que a área torne-se mais concorrida?

Sem dúvida. A assessoria, já há algum tempo, não só é a área que tem mais vagas como é a que paga melhor. Com isso, muitos profissionais mais experientes tem migrado das redações, seja pela onda infinita de demissões e diminuição de salários, para liderar, chefiar ou serem consultores de assessorias em áreas específicas. Além disso, para quem tá começando, a assessoria de imprensa talvez seja a área mais interessante. Ficar mais concorrida é uma consequência natural.
No entanto, ressalte-se a importância de também atuar como jornalista, produzindo conteúdo (seja para impresso, online, rádio, etc), facilitando não só a transição como o relacionamento do outro lado do balcão.

6- Você acredita que o mercado da assessoria está crescendo ou retrocedendo? Há mais procura de empresas públicas ou privadas?

Estável. Há grande equilíbrio entre setor público e privado. Com a crise, que não poupa ninguém, as assessorias tem encolhido ou reduzido salários. É um péssimo momento para o governo federal, que impacta também no repasse de recursos para estados e municípios. Com arrecadação menor em todas as frentes, a comunicação sempre sofre. Mais que outras áreas, já que costuma ser uma das primeiras a serem cortadas.
No entanto, as empresas há muito já reconheceram a importância de contar uma assessoria presente e eficiente. E sempre tem espaço no mercado para quem consegue se diferenciar.

7- O que você diria que são características necessárias para o jornalista que queira atuar nessa área?

Muito jogo de cintura, rs. Saber produzir conteúdo relevante e também saber dizer não para o cliente que, muitas vezes, insiste numa divulgação inadequada, de um produto ou informação pouco atraente para os veículos. Assessoria não pode se pautar pela quantidade (conseguindo espaços mínimos em veículos irrelevantes para encher clipping), mas na real efetividade e no real interesse que a divulgação X ou Y pode ter na empresa.
Além disso, preparar o cliente para as diversas situações em que ele pode estar envolvido. Um bom media training é fundamental. Assim como gestão de crise, cada vez mais necessário no governo ou em grandes organizações.
No caso de empresas de menor porte, saber desenvolver uma estratégia adequada para as pretensões do cliente, administrando também a angústia por resultados e posicionando-o diante da realidade, não alimentando expectativas irreais.

8- Durante seus 10 anos de profissão, quais foram os principais desafios?

Não é fácil adaptar-se a diferentes áreas, realidades, tamanhos, conceitos, expectativas, temas, egos, administrar a pressão por resultados, o stress do dia a dia no atendimento com jornalistas de todo o país, desde os especializados até aqueles que não fazem a mínima ideia do tema que estão trabalhando e também querem informação.
Assessoria pode ser tão ou mais dinâmica que redação, seja ela qual for (online, impresso, etc). Cada cliente irá te desafiar a enfrentar novas realidades, desfavoráveis ou não e é preciso desenvolver a capacidade de se alinhar rapidamente ao meio em que se está inserido.

Standard