Política & Economia

Esquerdismo, doença infantil

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A passagem da blogueira cubana Yoani Sanchez pelo Brasil deixou a mídia toda em polvorosa. Pudera. Yoani foi entrevistada por quase todo mundo, foi atacada por manifestantes em Feira de Santana, visitou a Câmara dos Deputados com pompa e circunstância e por aí afora. De tão onipresente, tornou-se um assunto chatíssimo de discutir. Ontem, assisti a entrevista que ela concedeu ao programa Roda Viva. E gostei sobremaneira da maioria das respostas dela. Sóbria, consciente, precisa, sem cair nas diversas armadilhas fáceis que prepararam pra ela, respondeu toda pergunta com bastante competência. No entanto, eu nunca achei os textos do seu blog grande coisa.

Mas o que realmente me incomoda e o que é interessante disso tudo é o que a passagem de Yoani revela do esquerdismo infantil que se alastra pela web afora. Já faz muitos anos que essa postura tomou conta de muita gente. É profundamente lamentável que, hoje, estejamos entre a abordagem viciada da direita, representada por alguns veículos de mídia, e esse esquerdismo acéfalo presente em blogs, redes sociais e outros canais. É aquele papo nojento de “blogueiros progressistas” e “PIG – Partido da Imprensa Golpista”, historinha criada e propagada por aí.

Para quem me lê ou me conhece, parece claro que, se fosse me enquadrar em alguma orientação política, claramente seria “de esquerda”. Daí que, também por isso, me incomoda sobremaneira o que vejo acontecer. É uma saraivada de fetiches do esquerdismo mais rasteiro: Yoani foi “acusada” de ser “agente da CIA”, “financiada pelo governo americano” e outras bobagens.

Essa gente – vocês sabem quem são – é incapaz de ter algum “olhar crítico” e “alguma lucidez” para sobre o governo Lula/Dilma, o qual me considero grande admirador, inclusive. O problema é se comportar como fã, como troll, não aceitando opiniões em contrário e atacando quem discorda em manada. Impressiona também a capacidade de defenderem a administração Fidel/Raúl Castro com unhas e dentes, colocando-os sempre como vítimas dos Estados Unidos e ignorando uma série de coisas indefensáveis que acontecem em Cuba. Há os que já visitaram a ilha e, como turistas, naturalmente, encaram as coisas com olhos de fantasia. Eu prefiro ficar com o relato de quem viveu de fato as coisas como elas são, o que vai muito além de Yoani.

É pena que tenhamos que ficar sempre restritos à este dualismo de última categoria. Entre a “direita golpista” e o “esquerdismo infantil”. Gente que parece não enxergar que o mundo é infinitamente mais complexo e “multifacetado” do que eles são capazes de acompanhar e debater.

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Para Além do Capital – István Mészáros

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“O mais importante estudo sobre o pensamento político e econômico de Marx – especialmente de O capital e dos Grundrisse –, Para além do capital, a monumental obra do filósofo húngaro István Mészáros, chega finalmente ao Brasil. Este livro, com o qual a Boitempo comemora o seu centésimo título, leva-nos a revisitar a obra marxiana de explicação do capital e de sua dinâmica, reconhecendo sua grandiosidade e também suas lacunas. Para além do capital passa em revista velhos conceitos, como o de que não há alternativa ao capital e ao capitalismo, e lança luz nova sobre questões atuais, permitindo-nos redescobrir Marx como um pensador do presente e do futuro.”

De graça, aqui.

De nada.

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A agonia da extrema-esquerda

Não há dúvidas sobre quem saiu mais derrotado dessa eleição: a extrema-esquerda. Por pior e mais inadequado que o termo seja, ainda é ele que, talvez, expresse melhor a posição em que estes grupos se encontram. Num tempo em que o PT se tornou praticamente um partido de centro, absorvendo muito da ideologia e das práticas da direita (e sendo muito bem-sucedido nisto), deixando o PSDB-DEM vazios, tontos, sem contra-argumentar, querendo se aproximar da “esquerda” – tema que merece outro post – é quase uma anomalia falar em “extrema-esquerda”.

É nela, no entanto, que está presente os últimos redutos do pensamento “socialista”, “comunista”, “trotskista”, etc, etc. E que foi massivamente derrotada nas urnas: Plínio de Arruda Sampaio, com todo barulho que conseguiu fazer, na internet, na mídia e pelas oportunidades que teve (debate na Globo no primeiro turno, chegando a milhões de pessoas), abocanhou míseros 886 mil votos. Uma lástima, brutalmente inferior a vários candidatos a deputado federal, para não falar em vários candidatos a senador derrotados. Somar o resto da tropa também não ajuda muito: Zé Maria, do PSTU, 84 mil votos, Ivan Pinheiro, do PCB, 39 mil e Rui Costa Pimenta, do PCO, 12 mil votos (insuficiente até para se eleger vereador em muitas cidades do país). No total: 1 milhão e 21 mil votos.

Em 2006, Heloísa Helena, pelo PSOL, teve 6,5 milhões de votos, ficando em terceiro lugar no primeiro turno. 4 anos depois, pasmem, não conseguiu sequer se eleger senadora por Alagoas, ficando com 417 mil votos, menos da metade do segundo colocado, Renan Calheiros, com 840 mil. Juntando todos os partidos de “extrema-esquerda”, em 2010, o resultado na eleição de deputados estaduais, federais e senadores é igualmente pífio.

Porque, afinal, o discurso esquerdista caiu tanto na “preferência” do eleitor? Porque ele se mostra totalmente incapaz de atingir a população? De conseguir penetrar, ser visto pelo menos com curiosidade, atenção, de gerar interesse, crítica, debate? Os motivos são muitos. O principal é a canseira da ladainha do discurso repetido infinitamente há décadas. É como se, não importa o que aconteça e quanto o mundo e o país mude, o discurso é sempre o mesmo. E é até hoje porque as “bases” do pensamento socialista, de fato, nunca foram implantadas por aqui. E os problemas que, em tese, o socialismo quer combater, “pioram” com o passar do tempo. Isto no campo primário da discussão. A realidade é outra.

Minha formação, notadamente, é “esquerdista”. Não só como me “formei” no campo teórico como minha própria vida sempre me compeliu para tanto. Daí que, por mais que os principais partidos do Brasil no momento – PT, PMDB, PSB, PV (aka Marina Silva), PSDB e DEM – sejam mais ou menos de centro, o atual governo ainda conserva práticas de esquerda inegáveis que, afinal, não teria como abandonar. Mas para a extrema-esquerda, tudo é traição. Tudo é “se deixar subjulgar pelas forças do neoliberalismo” e etc. O discurso retrógrado de Plínio, usado por Lula em 89, poderia ser o mesmo em 75, 98, por aí afora.

A extrema-esquerda se mostra totalmente incapaz de apresentar suas ideias de maneira razoável, equilibrada, atualizada, palatável para a maioria da população e num projeto minimamente possível de ser aplicado no século XXI. Assim, fica restrita ao mesmo nicho que sempre esteve, jamais avançando: estudantes universitários, adultos convictos, militantes radicais e grupos de inclinações “revolucionárias” diversas. O eterno curral. Com a diferença que as urnas mostram o achatamento cada vez maior da penetração desse discurso. E com razão.

Numa política progressivamente personalista, a extrema-esquerda vive (mal e porcamente) de “explosões de votos” como a de Heloísa Helena em 2006. Algo frágil, sem continuidade e que, como vimos, não leva a nada. É a impossibilidade de reconhecer a administração eficaz do capitalismo, como o PT fez e vem fazendo, com todas suas falhas, injustiças, distorções, lacunas, etc. É o bla-bla-blá incansável de quem se coloca quase numa realidade paralela do resto da população, por mais que alguns apontamentos sejam corretos e necessários. O falatório vazio, sem eco e ressonância.

Como maior derrotada desta eleição, a extrema-esquerda brasileira precisa se reestruturar urgentemente – na teoria e na prática – se não quiser desaparecer de vez e atingir a irrelevância completa. Algo que está bem perto de acontecer.

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Futebol, integração (!?) e as feridas expostas da América

Das coisas boas que o futebol traz, é curioso o senso de “integração” manifesto no twitter por diferentes pessoas em relação à América Latina nesta Copa do Mundo. A recente (e dramática) classificação uruguaia para a semifinal do torneio – que não acontecia há 40 anos – foi sintomática em engrossar a torcida por nossos vizinhos. Claro que boa parte disso é efêmero, ancorado numa simpatia frágil, interesse comedido e envolvimento passageiro.

Ainda assim, simboliza algo. Lembrei de um texto que publiquei em 2007: uma breve análise do livro “As Veias Abertas da América Latina”, clássico absoluto sobre a história crítica do continente, lançado pelo escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano em 1971.

Galeano é conhecido, também, por ser fanático por futebol, tendo livros dedicados inteiramente ao tema (como “Futebol Ao Sol e À Sombra”), sendo sempre solicitado para comentar o esporte. No artigo, cito justamente nosso quase total e irrestrito desconhecimento sobre a história da América Latina, além do papel imperialista do Brasil na região. A Copa do Mundo, mesmo que brevemente, ajuda a termos um olhar mais aproximado dos vizinhos, sendo uma boa oportunidade para retomar o tema.

Por isso, republico aqui o artigo lançado originalmente no Simplicíssimo e que na verdade foi escrito por mim para debate num grupo de estudos da América Latina que fundamos na faculdade. Que sirva para mudar velhos hábitos arraigados e que mal percebemos. Ou, menos pretensiosamente, que possa suscitar um novo debate: sadio e necessário.

Eduardo Galeano: as feridas expostas da América


“…temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez…”

A primeira frase que lemos ao abrir “As Veias Abertas Da América Latina” é de uma pungência reveladora. Inquisitiva, na verdade. Dá para o leitor, senão a vergonha, um possível incômodo muito próximo do real: somos um povo alienado quanto à sua própria origem.

Quantos de nós não somos capazes de tecer longos comentários sobre a história e as vanguardas artísticas européias mas quando apontamos para a América Latina simplesmente engasgamos? Nosso quintal? Quintal dos Estados Unidos? As faces do imperialismo são muitas, inclusive aquela que se transmuta num sub-imperialismo, outorgando sobre os países do bloco, principalmente Brasil, Argentina e México, o papel de devorador de seus próprios semelhantes.

Os brasileiros, em especial, parecem literalmente de costas para o resto do continente. Ilusões de independência ou opulência desmedida, não se sabe. Apreço excessivo por se parecer estadunidense ou europeu. Estranheza quanto à língua mater – afinal, somos os únicos da região que falamos português. As possibilidades variam.

Há um comportamento típico do ignorante: ele evita aquilo que desconhece. Porque isso nada mais significa do que se expor, estar vulnerável às suas indisfarçáveis fraquezas. De fato, não é surpreendente a distância propositadamente criada entre os habitantes desta parte do globo. Vassalos, desde muito, os grilhões ainda permanecem no lugar mais difícil de serem extirpados: nossas mentes.

De nítida tradição marxista, Galeano faz uma reconstrução minuciosa da história do bloco, amparado em inúmeros estudos, dados, referências e fatos sólidos, provendo a base necessária para que suas explanações nos sejam críveis. Difícil, isto sim, contrapor aquilo que é apresentado. Resume ele:


“Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal têm-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar tem sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. (…) Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos.” (pág. 14).

Nossa ruína significou, portanto, o desenvolvimento do velho mundo, o máximo esplendor que o sistema pôde alcançar. Prata, ouro, açúcar, café, estanho, salitre, ferro, petróleo, borracha, cacau e algodão, cada um em seu ciclo, numa determinada época e ocorrendo em vários países, significaram a exploração de todas as riquezas existentes na América Latina, financiando, de modo essencial, a ascensão do capitalismo e o nível de vida que europeus e estadunidenses têm hoje.

Os recursos que uma terra ou região poderia dar, não raro, significavam a destruição completa daquela localidade. O auge e queda de Potosí, na Bolívia, Ouro Preto, no Brasil e Havana em Cuba são sintomáticos em demonstrar o quanto a sede imperialista pode devastar, em tão pouco tempo, redutos de abundância mineral e produtiva. Destino não menos trágico tiveram as principais cidades da Argentina, Peru, Equador, Chile, Uruguai, Paraguai, Venezuela, México e Haiti.

Vista aérea da atual Potosí

Dos 90 milhões de índios que habitavam estas terras antes da chegada dos conquistadores, sobraram apenas 3,5 milhões no impressionante espaço de um século e meio após a descoberta. Dizimados e escravizados, foi principalmente sob a pele indígena que a Europa encontrou o cenário perfeito para a sua salvação: recursos naturais em abundância e mão de obra gratuita. Segundo dados oficiais da época, que não consideram a imensa exportação clandestina para lugares como China e Filipinas, entre 1503 e 1660 chegaram ao porto de San Lucas de Barrameda, na Espanha, 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. Já a produção brasileira de ouro, no século XVIII, proporcionou à Europa um volume maior que o extraído das colônias nos dois séculos anteriores. Dez milhões de escravos africanos foram trazidos para o Brasil.

No mosaico composto por Galeano, há poucos buracos. Demonstra, de forma clara e sistemática, as diferentes formas de expropriação ilegal do continente ao longo das épocas. Intervenções diretas e agressivas nos governos, subjugação literal dos povos oprimidos e, mais recentemente, a ingerência inegável em assuntos internos dos países, além do domínio do capital estrangeiro. Números de 1968 mostraram que este capital externo controlava, no Brasil, 40% do mercado de capitais, 62% de seu comércio exterior, 82% do transporte marítimo, 67% dos transportes aéreos externos, 100% da produção de veículos a motor, 100% dos pneumáticos, mais de 80% da indústria farmacêutica, 50% da química, 59% da produção de máquinas, 62% das fábricas de autopeças, 48% do alumínio e 90% do cimento.

Este quadro se alastra por todos os outros países do bloco. O domínio do sistema bancário, também, é quase absoluto. Empréstimos do FMI e do BID, órgãos que defendem os interesses estadunidenses, são sempre acompanhados por duras exigências e cartilhas inflexíveis que afetam a soberania dos países. Entre as condições, estão, por exemplo, a obrigação de utilizar os fundos em mercadorias dos Estados Unidos e transportar pelo menos a metade para eles. Determinam a política de tarifas e impostos dos serviços, aprovam planos de obras, redigem licitações, administram os fundos, os juros, o pagamento da dívida e vigiam o cumprimento dos mesmos. Interferem até no ensino superior da região. Não se pode modificar, sem seu conhecimento prévio e permissão, as leis orgânicas ou os estatutos, impondo também reformas docentes, administrativas ou financeiras, tudo de acordo com as pautas do neocolonialismo cultural.

"The return of the flame" de Rene Magritte

Não deixam brechas, ressalta Galeano:

“Empobrecidos, sem comunicação, descapitalizados e com gravíssimos problemas de estrutura dentro de cada fronteira, os países latino-americanos abatem progressivamente suas barreiras econômicas, financeiras e fiscais para que os monopólios, que ainda estrangulam cada país separadamente, possam ampliar seus movimentos e consolidar uma nova divisão do trabalho, em escala regional, mediante a especialização de suas atividades por países e por ramos, a fixação de dimensões ótimas para suas filiais, a redução dos custos, a eliminação dos competidores alheios à área e à estabilização dos mercados. As filiais das corporações multinacionais só podem apontar à conquista do mercado latino-americano, em determinadas condições que não afetem a política mundial traçada por suas casas-matrizes.”

Neste ponto, e lembrando que um dos principais problemas do livro referem-se à questão temporal, apresentando muitos dados ultrapassados e obsoletos, que carecem de uma atualização, convém resgatar o ano de 1989, fundamental tanto para a política quanto para o pensamento vigente. Após a queda do muro de Berlim e a apressada declaração de morte do comunismo, o ideal capitalista tratou logo de se solidificar.

O Consenso de Washington, conjunto de medidas englobando dez regras básicas – como disciplina fiscal, abertura comercial, investimento estrangeiro direto sem restrições, privatização das estatais e leis trabalhistas mais “leves”, na verdade prejudicando o trabalhador, formuladas por economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento de Tesouro do Estados Unidos, sob artigo do economista John Williamson, foram criadas para e seguida a risca por todos os países do bloco latino-americano da década de 90 até hoje. As “orientações” visavam a “recuperação econômica” das nações em desenvolvimento.


Outro marco de 1989 foi o aparecimento do artigo “O Fim da História”, do estadunidense Francis Fukuyama, na revista “The National Interest”. Para Fukuyama, o fim do socialismo era a prova da superioridade da ideologia capitalista e da democracia burguesa, tendo a humanidade atingindo, no final do século XX, o ponto culminante de sua “evolução”, sob todos os demais sistemas concorrentes. Como “solução final do governo humano”, o capitalismo contemporâneo decretava “o fim da história da humanidade”, a única alternativa possível e viável.

Resignar-se, portanto, à sua condição histórica “natural”, respeitando toda a herança imposta pelo imperialismo e sendo complacente com a ingerência do capital externo seria uma espécie de sugestão à América Latina, já que a solução estava dada através da cartilha recomendada.

Após 20 anos de atuação, o neo-liberalismo ainda patina em sua ineficiência e paradoxos.

Curiosa contradição histórica, considerando que os Estados Unidos pregam o liberalismo apenas para os outros, sendo rigorosamente protecionistas para consigo mesmos, transformando “a mão invisível” de Adam Smith no nada sutil big stick do inquisidor Tio Sam de cartola e dedo em prontidão.


Galeano expõe com propriedade tudo de mais intrínseco, e doloroso, que a América Latina possui nestes séculos de vida. O breve panorama traçado por ele comprova, com assustadora exatidão, aquilo que George Orwell constata ao final de “Revolução Dos Bichos”. Observando a notável semelhança adquirida entre homens e porcos, que agora andavam sob duas patas, vestiam ternos, tinham a mesma postura e os mesmos hábitos que os seus inimigos do passado, deixa entrever uma frase tristemente adequada às explanações do livro de Galeano: “todos os homens são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.”

O uruguaio termina, não por acaso, numa espécie de convocação aos habitantes do bloco, sugerindo um despertar das massas, tal qual Marx e Engels ao final do Manifesto Comunista. Diz ele:

Enquanto o norte da América crescia, desenvolvendo-se para dentro de suas fronteiras em expansão, o sul, desenvolvido para fora, explodia em pedaços como uma granada.

O atual processo de integração não nos faz reencontrar nossa origem nem nos aproxima de nossas metas.

Não há de ser a General Motors ou a IBM que terá a gentileza de levantar, no nosso lugar, as velhas bandeiras de unidade e emancipação caídas na luta, nem hão de ser os traidores contemporâneos os que realizarão, hoje, a redenção dos heróis ontem traídos.

Os despojados, os humilhados, os miseráveis têm, eles sim, em suas mãos a tarefa. A causa nacional latino-americana é, antes de tudo, uma causa social: para que a América Latina possa renascer, terá de começar por derrubar seus donos, país por país. Abrem-se tempos de rebelião e mudança. Há aqueles que crêem que o destino descansa nos joelhos dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio candente, sobre a consciência dos homens.”

Sobrepujar a letargia e servidão de nossas próprias posturas, e pensamentos, parece-me, de fato, o primeiro passo para que isto aconteça.

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Lula: o implacável

A cada vez que Lula é referendado por uma importante publicação estrangeira os estoques de diazepam vem abaixo em redutos da elite como Higienópolis, em São Paulo, e Lago Sul, em Brasília. O stress se dá não porque o governo Lula tenha necessariamente “atrapalhado” a vida da classe média alta – até o contrário – mas porque a ojeriza, o ódio e a revolta pelo reconhecimento internacional alcançado por ele e pela história (maiúscula) que fez no Brasil são notórios.

Quando veículos como a Time, um dos pilares da imprensa estadunidense, elege Lula como o líder político mais influente do mundo, há significado aí. O exato paradoxo por um veículo como a Time, repito, reconhecer Lula. Pro bem e pro mal. Em 2009 o mesmo Lula já havia sido celebrado “personagem do ano” por jornais como o espanhol El País e o francês Le Monde. Obama se derrama em elogios. Sarkozy não fica atrás. Lula é ouvido atentamente e com respeito em todos os fóruns mundiais que participa. É admirado e exaltado em todas as partes do globo.

A direita se rasga em incredulidade. Como pode? Como um “nordestino semi-analfabeto” conseguiu tanto? Porque FHC, nosso modelo de presidente e intelectual perfeito, sociólogo “respeitado”,  homem “culto”, não chegou nem perto? Sinto informar: é uma guerra perdida.

Deve ser realmente assustador “acordar” e perceber que as regras do jogo não são mais impostas com tanta facilidade como eram antes. Que a manipulação do povo não é tão fácil e simples como se acostumaram em mais de 500 anos de história.

Precisamos entender que a eleição de Lula e o subsequente governo com muito mais acertos que deslizes é uma legítima tortura psicológica contínua para a direita desse país. Precisamos compreender que a eleição de alguém como Lula, com o perfil de Lula, de onde e como ele veio, o que ele é, não pode em nenhuma circunstância ser aceita pela oligarquia brasileira. É a antítese de tudo que eles conhecem e tudo que eles vivem. É o inimigo ideológico, físico, social e político da velha elite.

Nunca antes na história desse país (há) um presidente foi tão massacrado, enxovalhado, caluniado e perseguido pela mídia. A Veja, órgão oficial da direita, abandonou qualquer vislumbre de jornalismo político sério desde que a vitória de Lula se anunciava. De lá pra cá são quase 10 anos em que o maior veículo impresso do país (mais de 1 milhão de exemplares por edição se você considerar válidos os números publicados) tenta, sempre, derrubar o governo. É muita incompetência.

A reeleição foi um golpe duríssimo: no auge da crise e dos “escandâlos” via-se a oportunidade ideal para derrubar de vez o barbudo incômodo. O linchamento constante não deu resultado. O ódio cresceu. A sensação de impotência. A simples incredulidade. O pesadelo. Comportamento reproduzido em menor grau e com mais sutileza por todos os maiores jornalões do país.

Mas a mídia impressa é brincadeira de criança perto do poder e alcance da televisão. Aí que Lula nunca foi exatamente massacrado pelas grandes redes de TV. A mensagem vem sempre sutil, subliminar, insinuante. Sutil para quem não consegue reconhecer, claro. E com muito menos efeito do que antes. Mensagem neutralizada porque a vida da população de classes C, D e E “simplesmente” melhorou muito nos anos de governo Lula.

Não há o que negar: nunca tantos empregos com carteira assinada foram criados (milhões e milhões), tantas pessoas saíram da pobreza, tanta gente voltou a ter o que comer, onde estudar – desde o ensino básico, médio, técnico e superior – tantas oportunidades foram criadas em todas as esferas possíveis. Além da óbvia empatia e do discurso feito de um autêntico representante do povo – coisa que jamais tivemos – para o povo.  O que faz toda diferença.

O parágrafo acima pode sugerir que vivemos num paraíso. Essa é a imbecilidade mais óbvia que deve ocorrer à cabeça de alguém. Claro que estamos infinitamente distantes de alcançar um nível de educação aceitável, uma distribuição de renda justa, de melhorar consideravelmente a segurança pública, o sistema de saúde precário, etc, etc. Não se resolvem 502 anos de exploração e bandalheira em 8. Ainda assim avançamos muito.

Isto posto, é preciso ressaltar também que Lula migrou para um governo de centro para conseguir se eleger. Abandonou o discurso radical, a aparência desleixada, fez acordos com o FMI, se comprometeu com banqueiros e grandes empresários, fez toda a cartilha neoliberal. Pasmem, com mais competência. Pasmem, conseguindo ao mesmo tempo introduzir programas, mudanças e transformações benéficas também para o povo. Com preocupação e projetos “populares”, projetos estes fundamentais e de impacto imediato na vida de milhões de pessoas, que simplesmente não aconteciam antes. Talvez esteja aí a grande sabedoria de Lula: entrar no sistema para agir dentro dele.

Por mais que um governo a princípio “de esquerda” cometa ações e se incline para práticas “de direita”, neoliberais, etc, ele sempre (repito: sempre), terá um trabalho social, de distribuição de renda e de criar meios para que quem não tem condições de alcançar as coisas, comece a ter. Essa é a diferença principal entre governos de mentalidades diferentes num tempo em que “ideologias” são coisas ultrapassadas e que mudam de acordo com o interesse.

As transformações centrais de consciência, acesso e qualidade da informação – ainda que tímidas – já serviram para que manipulações simplórias e “verdades absolutas” espalhadas pela mídia sofressem questionamentos imediatos e ferrenhos. O suficiente para mudar algo no jogo. O bastante para já ter alterado as eleições de 2006. E mais ainda em 2010.

Lula não é herói – talvez o mais perto disso que chegaremos – e, claro, não é santo. Nem nunca fez questão de tentar ser. “Detalhe” importante sempre esquecido propositadamente. O que explica o sucesso de Lula é que ele conseguiu fazer um governo moderno – na melhor sentido da palavra – sem cair em desgraça, conquistando coisas importantes para todos os setores da sociedade. Empresários, banqueiros e especuladores não têm do que reclamar, assim como o campo social nunca foi tratado com tanta atenção e eficiência. Lula conseguiu construir uma equipe que administrou o capitalismo como nenhuma outra. Atravessou com danos bem menores que os possíveis a maior crise desde 1929. Fez muito em 8 anos para quem recebeu toda uma herança nefasta nas mãos.

A comparação – inevitável – entre ele e FHC é cruel: Lula humilhou o tucano em todos os campos possíveis. Ex “companheiros”, ironia. Quem acompanha a mídia lembra bem o tratamento que as derrapadas e desmandos da trupe tucana, as mudanças de constituição, a corrupção, tinham: sempre atenuadas, escondidas. Os “feitos”, exaltados à última potência. Ao mesmo tempo que as besteiras do PT tomam proporção imediata de escândalo mundial e impeachment. E as conquistas e transformações positivas sempre tratadas com desdém. Qualquer criança de 3 anos é capaz de perceber essa diferença brutal de tratamento entre os governos nos últimos 20 anos.

Para quem passou fome, enfrentou pobreza extrema, morte da esposa e filho prematuramente, ditadura, cadeia, morte da mãe, desabamento da casa, pai distante e toda uma infância/adolescência/início da vida adulta tão conturbada, sempre tendo que, literalmente, lutar muito para viver, lidar com a mídia provou ser tarefa menor para Lula.

Matéria após matéria, capa após capa, chamada após chamada tentam, desesperadamente, desqualificar e atacar Luiz Inácio desde sempre. Ao mesmo tempo em que passou por cima disso tudo e se tornou o melhor governo da história do país. E que conquistou – sempre incompreensível para a oligarquia – o respeito e admiração da mídia estrangeira, não contaminada, de outros ares e outra cabeça. Lula é implacável. Fez história. E não há nada, absolutamente nada, que qualquer um possa fazer para apagar isso. Haja remédio e tranquilizante para fazer a direita (e companhia) dormir com um barulho desses.

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Teatro

O Mistério Bufo de Maiakóvski

Mistério-Bufo é a nossa grande revolução, condensada em versos e em ação teatral. Mistério: aquilo que há de grande na revolução. Bufo: aquilo que há nela de ridículo. Os versos de Mistério-Bufo são as epígrafes dos comícios, a gritaria das ruas, a linguagem dos jornais. A ação de Mistério-Bufo é o movimento da massa, o conflito das classes, a luta das idéias: miniaturas do mundo entre as paredes do circo.”

Nunca fui um grande frequentador de teatro. Erro grosseiro. Quanto mais se conhece, mais se apaixona. Não cabe aqui entrar na comparação teatro x cinema. São coisas muito, muito diferentes. Guardado o carinho pela sétima arte e toda sua completude por excelência, o teatro me parece algo muito mais quente, visceral, dinâmico. Óbvio. “Mistério Bufo”, do russo Maiakóvski, apresentada no momento no CCBB de Brasília, foi o ápice da minha enxuta experiência teatral.

A começar pelo interesse profundo que os autores russos sempre me despertaram. Dentre os poetas, não há dúvidas de que Maiakóvski foi um dos maiores. O espetáculo em si (desnecessário dizer que ele é extremamente recomendado) seguiu a risca a recomendação do próprio: “No futuro, todos que encenarem, desempenharem os papéis, lerem e imprimirem o MISTÉRIO BUFO, mudem o conteúdo, – façam  ficar contemporâneo, moderno.”

Três atos. Luzes, painéis, rapel, acrobacias, intervenções, diversos ambientes, vídeo, música, dança: uma jornada literal vivida e degustada pelo público nos diferentes momentos e cenários da peça. Ousada, lírica, caótica. Russo, português, inglês, francês, espanhol, hebraico, italiano, difícil contar todas as línguas usadas.

A dualidade da revolução levada além dos clichês. De longe, o espetáculo mais rico em forma e conteúdo que já presenciei. O materialismo e o espiritual. O comportamento e a psiquê. Pequenas concessões cômicas ante o peso natural do tema. Recursos circenses sem estarem ali por acaso, gratuitamente. O quente e o frio. Mais atual e necessária ainda do que era em 1918.

Uma produção artística, afinal, que não te deixa sair ileso. E esta é a maior virtude que posso imaginar.

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Entrevistas

Comunismo – Questões Básicas

A vida é engraçada. Sem esperar, me vi adentrando numa discussão sobre Marx na comunidade “Post Rock N’ Roll”, do Orkut. Daí, fui pesquisar em meus arquivos alguns dos diálogos que tive anos atrás com um amigo, já entrevistado aqui neste blog. Daniel Delfino, filósofo, sociólogo, marxista and street fighting man, ipsis litteris. Num destes emails, o que reproduzo abaixo, datado de 31.05.05 minha proposta foi justamente de fazer algumas “questões básicas” sobre o comunismo para ele, incluindo aquele tipo de pergunta e “acusações” mais óbvias que o senso comum faz, o clichê do clichê, como o básico do básico. Uma introdução, enunciação. Com perguntas aparentemente mais óbvias do mundo, mas que geraram respostas fundamentais para que se possa vir começar a compreender o que este tal barbudo alemão disse e algumas destas implicações ao longo do tempo. Em negrito, minhas perguntas, e, em sequência, as respostas de Daniel.

MA: Você falou em Marx, eu tinha lido uns escritos dele um tempo atrás e agora voltei a ler.

Daniel Delfino: Nada substitui a leitura dos originais quando se quer conhecer o pensamento de determinado autor. Entretanto, no caso de Marx, não se trata de um autor que se possa ler por curiosidade inocente (ainda que literariamente seus textos sejam muito atraentes e de leitura prazerosa), uma vez que as conseqüências de seu pensamento ainda fazem parte do mundo político de hoje. A obra de Marx é uma espécie de campo minado. Há leituras e releituras, revisões e restaurações atravancando o caminho. Para que o estudo da obra de Marx seja produtivo, é recomendável que se tomem algumas precauções. A primeira delas é que se conheça o lugar de cada obra na trajetória biográfica do autor em questão: com que Marx estava envolvido quando escreveu cada texto. A segunda é que se conheça o momento em que cada obra foi publicada: a maior parte dos livros de Marx foi publicada postumamente. Isso significa, que a maioria dos “marxistas” não leu Marx! Isso é especialmente grave quando se considera que esses “marxistas” andaram fazendo revoluções sem terem lido obras filosóficas fundamentais, o que ajuda a explicar, ao menos parcialmente, as limitações dessas revoluções. Vista por esse ângulo, a obra de Marx estava destinada a ter uma repercussão muito posterior à época de sua elaboração, quando, à medida que vai sendo publicada e conhecida, abre as portas para medidas práticas que se aproximam mais do sentido do projeto marxiano original. Por se tratar de uma proposta de revolucionamento total da sociedade, é compreensível que o seu impacto tenha sido lento, acidentado e oscilante. Por falar em oscilação, é óbvio para qualquer um que, no momento atual, a obra de Marx não está em evidência, mas em eclipse. O que remete para a questão seguinte.

Compreendi melhor do que na primeira vez.

Lukács descreveu o fenômeno da decadência ideológica da burguesia como uma característica inescapável da época moderna, capaz de determinar as possibilidades do conhecimento da realidade social. Grosso modo, os pensadores burgueses são incapazes de entender a realidade social enquanto estiverem presos ao que Marx chamava de “o ponto de vista da economia política”, ou seja, à idéia de que o mercado é o único horizonte possível de sociabilidade. Eles são incapazes não porque não sejam inteligentes o bastante, ou por desonestidade pessoal e má fé, mas por uma questão de determinação social. Se não admitem a possibilidade da superação do sistema do capital, tornam-se cegos para suas contradições, e passam a girar em círculos, condenados a explicações parciais. Incapazes de incorporar as descobertas de Marx, regridem aos filósofos a ele anteriores. Até mesmo Hegel torna-se “perigoso”, por causa da dialética, o que os obriga a voltar a Kant. O pensamento burguês pós-marxista é, na verdade, pré-marxista, pois é kantiano. E Kant é o filósofo que estabelece a separação entre os fenômenos e a essência, de modo que a totalidade do mundo, a “coisa em si” torna-se fundamentalmente ininteligível. A “coisa em si” do capital é ininteligível pelo pensamento burguês. E os pensadores burgueses não explicam a sociabilidade do capital não por uma questão de incompetência, limitação pessoal ou má vontade, mas porque, se o fizessem, teriam de condenar a iniqüidade do sistema, ou seja, deixariam de ser burgueses.

Por outro lado, a simples adesão formal “exterior” ao marxismo não é garantia de que se abram os olhos para uma compreensão abrangente e profunda da realidade. Tal compreensão foi alcançada pelo próprio Marx não por uma adesão formal a algum método mágico, como a formidável dialética de Hegel, mas porque ele utilizou-se desse método para resolver as questões concretas em que estava envolvido. Quanto mais envolvido está um pensador nas questões concretas de sua sociedade, mais capaz ele se torna de desvendar os mecanismos fundamentais de sua época.

Mas antes de entrar em sua filosofia propriamente dita, gostaria de lhe fazer umas perguntas. O senso comum é de que a ideologia comunista é maravilhosa, perfeita e linda na teoria mas impossível na prática. Isto tem fundamento?

O senso comum entende o comunismo como uma espécie de “receita de bolo” a ser aplicada sobre a sociedade para ser “testada” como uma opção entre várias outras numa prateleira. Um “modelo” que já vem pronto, caindo do céu para ser aplicado por um grupo de dirigentes “iluminados”, para “ver no que dá”. O comunismo é justamente o contrário, ele significa que o próprio senso comum deve tomar a direção de sua vida no plano econômico, político e cultural. Ele não vem pronto, pois trata-se de um processo interminável de auto-desenvolvimento da humanidade. Evidentemente, o equívoco do senso comum não é uma ilusão sem pé nem cabeça. A ilusão tem um fundamento concreto, que é a experiência histórica do comunismo. Existiram regimes que foram chamados “comunistas”. Esses regimes caíram, logo, para o senso comum, trata-se de um fracasso, de algo que foi “testado”, e que se provou “impossível na prática”. Se foi dito que o comunismo é o oposto daquilo que o senso comum pensa, a conseqüência necessária é de que aqueles regimes não eram comunistas.

O que significa ser comunista hoje em dia?

Existem hoje regimes de governo que se intitulam ainda “comunistas”. Existem partidos políticos que se dizem comunistas. Existem grupos e tendências sectárias que se dizem portadoras da chama do “comunismo”. Existem herdeiros das experiências “comunistas” fracassadas que têm como projeto reviver essas experiências exatamente como elas aconteceram. Existem, em número maior, “comunistas” que se desiludiram com aquelas experiências e se intitulam simplesmente “esquerdistas”, “marxistas”, “humanistas”, etc; entendendo que o “comunismo” realmente fracassou e que não se deve mais ter a ambição de transformar a sociedade inteira, mas apenas tentar melhorá-la cosmeticamente. E existe, ainda, uma minoria, dentre os quais me incluo, que tenta resgatar o sentido original do projeto comunista, para desvinculá-lo das experiências “comunistas” fracassadas e reativar o seu sentido humano emancipador.

Existe, enfim, uma grande confusão dentro do campo teórico-político do comunismo. Dentre as pessoas que se dizem participantes do campo do comunismo (ou do marxismo, da esquerda, do humanismo, do trabalho), o balanço daquelas experiências fracassadas ainda não foi devidamente feito. O movimento comunista está atualmente dividido, fragmentado, desorientado, mas não está morto. Porque não se trata de uma idéia, mas de uma possibilidade objetiva posta na realidade, que pode se concretizar ou não. Ele é, por isso, tão atual como sempre foi. A grande questão é como viabilizá-lo.

Que implicações isso traz?

É claro que as implicações de se denominar comunista hoje em dia são graves. Quem assume esse rótulo corre o risco de trazer para os seus ombros o peso de ter que explicar o fracasso das experiências “comunistas” históricas. Corre o risco de ser chamado de stalinista, dinossauro, totalitário, etc. É um risco do qual até hoje eu não sei como escapar. Ainda não encontrei uma palavra substituta adequada para designar aquilo que entendo por comunismo. Para o senso comum, essa palavra tem uma conotação mais negativa do que positiva. Esse balanço é parcialmente correto, em função do fracasso dos regimes descendentes do stalinismo, mas é também incorreto, pois muitas das lutas mais heróicas que aglutinaram os melhores expoentes da humanidade no século XX foram travadas por portadores da bandeira comunista. Como se desvencilhar do legado negativo do stalinismo sem também jogar fora a herança de nomes como Rosa Luxemburgo, Gramsci, Che, etc.? A palavra está carregada de significação negativa, mas anda carrega uma forte carga de identificação com as causas populares mais legítimas e mais prementes. Como sinalizar positivamente a adesão a essas causas sem uma palavra de significado tão forte e agregador? Na falta dessa palavra, não resta outra alternativa a não ser explicar, cada vez que tratar do tema, que o comunismo não é aquilo que existiu naqueles países, etc. E a partir dessa distinção tentar explicar o que ele seria.

Porque resultou em regimes tão atrozes como Rússia, China e Cuba?

O comunismo não é aquilo que existiu na Rússia, China e Cuba, etc. Mas, se não é, por que se acredita que seja? O fato de que o comunismo não tenha existido naqueles países não significa que as experiências que ali transcorreram não têm nada a ver com o comunismo. As experiências daqueles países têm uma relação inquestionável com o comunismo. Mas é preciso explicar qual é o sentido dessa relação. Para explicar o que aconteceu com aqueles países, seria preciso referir-se a especificidades históricas um tanto labirínticas que excedem o espaço aqui disponível. O que se pode tentar fazer, com a ressalva de que se trata de uma violência teórica arriscada, é delimitar o que há de comum nesses fracassos.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o comunismo, tal como era pensado pelos ativistas teóricos e políticos do início do século XX, era visto como uma transformação que deveria se dar em um nível mundial e a partir dos países centrais do capitalismo, nunca circunscrito territorialmente e temporalmente a países isolados. Mas foi justamente o inverso o que aconteceu e do modo mais dramático. Muitos países se tornaram “comunistas” logo na seqüência de guerras mundiais: Rússia (1917), China (1949); e de processos violentos de descolonização: Cuba, Vietnã, etc. Logo, eram países pobres e devastados. Na luta para defender o poder conquistado, os melhores quadros do movimento comunista foram massacrados. Para manter a máquina governamental em funcionamento, os dirigentes dos PCs chamaram para os partidos os técnicos do capitalismo, engenheiros, administradores, etc. Esses elementos não comprometidos com o movimento, assim como uma vasta gama de oportunistas, arrivistas, corruptos em geral, se transformou na inchada burocracia stalinista, a folclórica “nomenklatura”, constituindo-se numa aristocracia acima dos trabalhadores. Ao invés de ser exercido diretamente pelos trabalhadores, o poder constituiu-se de forma apartada, superior e hostil a eles. O Partido, que viria a ser o instrumento desse poder degenerou num instrumento de poder em si, por força das pressões materiais das sociedades atrasadas em que chegou ao poder. Os regimes stalinistas são a forma congelada de um sistema que tão somente havia iniciado a ruptura com o capitalismo, nas condições mais emergenciais, excepcionais e desviantes possíveis, transformado oportunisticamente por força do cerco imperialista em modelo inquestionável da sociedade futura, obstaculizando objetivamente a construção do comunismo interna e externamente tanto quanto o próprio imperialismo. E por que, então, o comunismo não se realizou nos países avançados onde “deveria”? Mais determinante na história do comunismo do que a vitória da Revolução Russa (embora esta tenha se mostrado mais decisiva para a conformação do século XX) foi a derrota da revolução na Alemanha, por exemplo. Essa é a verdadeira questão, talvez até mais importante, que não poderá ser esgotada aqui, mas tão somente sinalizada em uma das questões seguintes.

Até que ponto o status quo pode ser mudado?

A questão está de ponta cabeça. Na verdade a formulação correta deveria ser “de que modo o ‘status quo’ DEVE ser mudado”. Não existe um “status quo” historicamente inalterável. A história não tem fim, ela é feita pelos homens. Está em suas mãos mudá-la, (ou deixá-la como está). Pensar o oposto seria incorrer em dois erros: anti-historicismo (o mundo e a humanidade são sempre iguais e não podem ser qualitativamente modificados); e mecanicismo (o “status quo” é uma máquina com lógica própria, inacessível ao ser humano). Anti-historicismo e mecanicismo são defeitos necessários da ideologia capitalista, a qual estabelece que a “natureza humana” é egoísta e individualista (um absurdo histórico) e que o mercado é um “mecanismo neutro” de administração das relações produtivas (uma mentira com fins políticos). Ironicamente, o próprio Marx é acusado por seus detratores burgueses de ser anti-historicista e mecanicista, uma curiosa forma de ocultar o pecado que eles mesmos cometem. Teremos oportunidade de discutir isso em algumas das questões seguintes.

É possível sair do capitalismo?

No espírito da resposta anterior, não apenas é possível como é também necessário e urgente. O capitalismo não existiu desde sempre. Assim como foi criado, pode ser destruído. O capitalismo não é o fim da história, uma determinação inscrita na “natureza humana”. É um sistema de controle sócio-metabólico, indubitavelmente o mais poderoso, dinâmico e abrangente que já existiu, mas ainda assim, é apenas uma mera criação humana. O capitalismo precisa da humanidade para continuar existindo. O homem não precisa do capitalismo. Assim como a humanidade vivia antes dele, poderá continuar a viver depois.

Essa é uma primeira resposta no plano filosófico dos princípios ontológicos. No plano concreto, é preciso determinar a afirmação de que “o capitalismo precisa da humanidade”, pois nessa dependência está a fragilidade do sistema. O capitalismo precisa da humanidade para se utilizar dela de DETERMINADO MODO. Precisa de braços para a produção, mas precisa remunerar esses braços abaixo do seu valor para se apropriar da mais-valia. Precisa de consumidores, mas não pode distribuir renda para que todos consumam. Precisa do Estado para manter a lei e a ordem necessárias ao processo de reprodução societal, mas as megacorporações não podem se submeter às regulamentações do Estado para continuar lucrando. Precisa do Estado para organizar racionalmente a vida social, mas não pode criar um único Estado global, do que resulta uma série de contradições subalternas: a que opõe os grandes Estados capitalistas entre si nas grandes disputas diplomáticas, estratégicas e comerciais; a que opõe o conjunto dos Estados subdesenvolvidos ao bloco dos Estados capitalistas centrais; a que opõe as aspirações de cada povo em particular à própria incapacidade de seu Estado nacional de viabilizá-las em face do poder do capital global. Precisa de desempregados para manter baixo o preço da força de trabalho, mas não tem solução aceitável para impedir que as massas desempregadas se destruam na fome, na doença e no crime. Precisa desenvolver a ciência e a tecnologia, mas não pode permitir que sejam usadas para resolver diretamente os problemas humanos (reduzindo drasticamente e globalmente o tempo de trabalho e distribuindo as conquistas como qualidade de vida). Precisa fabricar armas, (o complexo industrial consome trilhões de dólares e é capaz de destruir a vida na Terra centenas de vezes), mas é incapaz de produzir comida, roupa, remédios, moradia, cultura, etc, para pelo menos 4/5 da humanidade (e diante desse monumental fracasso civilizacional do capitalismo, a queda do “comunismo” empalidece como um simples tropeço). Precisa produzir bens de consumo, (carros, eletroeletrônicos, luxo, etc), mas o faz desperdiçando recursos e destruindo o meio ambiente.

O capitalismo precisa da humanidade, mas para continuar a destruí-la. A condição sine qua non para a subsistência do capital é a reiterada negação das potencialidades humanas. Logo, de modo inverso, a condição para a sobrevivência da humanidade é a superação do capital.

Sabe, tudo que eu queria é que Marx estivesse certo, de que o capitalismo seria um sistema auto-destrutivo.

Como foi dito na resposta anterior, o capitalismo é de fato auto-destrutivo, mas em sua destrutividade ele arrasta consigo a humanidade inteira. Logo, Marx estava certo ao antever a autodestruição do sistema. Tristemente certo. Mas ele estava tragicamente errado ao calcular a escala de tempo na qual tal fato se daria. Tendo morrido em 1883, ele antevia a construção do comunismo como um processo que se arrastaria por décadas de penosos sacrifícios, idas e vindas. Hoje descobrimos que se arrastará por séculos. É claro que esse erro de cálculo tinha suas razões históricas e objetivas, como teremos ainda oportunidade de ver adiante.

Esse erro nada desprezível não invalida a perspectiva marxiana global, mas reafirma-a dramaticamente. Marx afirmou, sim, que o sistema é auto-destrutivo mas nunca afirmou que dessa hecatombe emergiria automaticamente o comunismo como uma realidade pronta. Se o fizesse, seria anti-historicista e mecanicista. Na concepção marxiana, a história é um processo aberto e nunca fechado. A luta de classes não se chama “luta” por acaso, mas justamente porque se trata de uma disputa. Como qualquer disputa, constitui-se de vitórias e derrotas parciais. A persistência do capitalismo é uma vitória das classes que assumem a função subjetiva de personificações do capital e uma derrota para o restante da humanidade. Essa derrota pode prosseguir indefinidamente. A barbárie é um poço sem fundo. No limite, podemos chegar ao deserto do real de “Matrix”, com os homens fornecendo diretamente energia para as máquinas.

A vitória da humanidade não está assegurada mecanicamente por nenhuma sorte de “astúcia da razão”. A ordem de reprodução sócio-metabólica do capital tende inercialmente a permanecer inalterada se não for enfrentada como um todo, com seus múltiplos componentes articulados reforçando-se mutuamente: Estado, mercado, ideologia, moral, etc.. Criar uma ordem alternativa significa romper essa inércia dos componentes que se auto-reforçam mutuamente em direção a uma nova lógica onde os interesses humanos sejam efetivamente contemplados. Enfrentar o sistema como um todo não significa destruir todos os seus componentes de uma só vez, mas encontrar as brechas para romper o dique da opressão, desencadeando uma nova dinâmica objetiva que se imporá por si mesma. Uma vez que o jogo virar ao seu favor, a nova dinâmica histórica produzirá um mundo qualitativamente diferente. É nessa perspectiva que se pode vislumbrar, na autodestruição do sistema, a reconstrução da humanidade.

Será que estamos presenciando a sobre-vida dele?

Com certeza estamos presenciando a sobre-vida do sistema. Sobre-vida é um conceito extremamente adequado para descrever a situação atual. O capitalismo vive hoje a fase terminal de sua crise estrutural permanente. A crise estrutural se manifesta com o aguçamento de todas as contradições expostas anteriormente nas questões anteriores, contradições insolúveis dentro dos marcos do sistema. As contradições são insolúveis, mas o sistema cegamente tenta administrá-las por meio de seus mecanismos de deslocamento político-ideológicos (guerras, recolonizações, planos econômicos, mistificações midiáticas, etc). As tentativas de solucionar por tais meios paliativos desesperados os problemas fundamentalmente inadministráveis da lógica do capital resultam inevitavelmente no aprofundamento desses mesmos problemas, à maneira de alguém que, para cobrir de terra os buracos que deixou atrás de si, cava novos buracos cada vez maiores. A crise estrutural, com todos os sintomas anteriormente levantados, é uma determinação histórica objetiva que se materializa nas últimas três décadas do século XX, colocando desafios cada vez mais dramáticos para a humanidade que terá de conviver com eles. Essa situação é qualitativamente diferente daquela na qual Marx projetava a implosão do sistema numa escala de tempo que se media em décadas. No século XIX o capitalismo já trazia em si os germes de todas aquelas contradições, facultando a Marx a oportunidade de sumariá-las magistralmente em “O Capital”. Mas apenas alguns desses germes estavam plenamente desenvolvidos num sistema que apenas acabara de alcançar sua forma plena de maturação no cenário geograficamente restrito da Europa Ocidental, devendo ainda experimentar uma longa trajetória de lutas para se impor globalmente. A contradição mais evidente era aquela que opunha superprodução e subconsumo. O capitalismo remunerava muito pobremente a mão-de-obra e obtinha com isso uma violenta margem de mais-valia absoluta. Mas essa mais-valia não era inteiramente consumida pelos capitalistas, pois o próprio mercado de bens de consumo duráveis ou de luxo era subdesenvolvido (ainda não existia, por exemplo, o automóvel de passeio) e sim reinvestida em mais produção. O século XIX é delimitado economicamente por duas revoluções industriais que aumentaram substancialmente as forças produtivas sociais.

Quanto mais aumentava a produção, maior era a crise de subconsumo. Essas crises se manifestavam de duas formas: explosivamente em ciclos econômicos de depressão em seguida às ascensões (crises cujo maior exemplo foi a de 1929); e gradualmente na tendência constante de queda da taxa de lucro que obrigava as corporações a se tornarem cada vez maiores.

Era nesse marco histórico que Marx vislumbrava a queda do sistema. Não estava em seu horizonte histórico vislumbrar objetivamente as soluções encontradas pelo capital para sua crise fundamental latente, ao longo do século XX. Basicamente, encontraram-se meios de se consumir o excesso de produção: guerras (duas Guerras Mundiais), armamentos (complexo industrial militar/Guerra Fria), desperdício (consumismo do “american way of life”) e um pouco de distribuição de renda (o “wellfare state” europeu). As soluções temporários providas por essas válvulas de escape permitiram deslocar provisoriamente as contradições do sistema, evitando a eclosão de sua crise estrutural. A eficiência de tais válvulas de escape se esgotou inevitavelmente num momento histórico que se pode situar aproximadamente a partir de 1970. Logo, neste início de século XXI, estamos em plena sobre-vida do sistema.

Quando finalmente irá implodir?

A questão não é quando o sistema implodirá. O sistema implodiu, mas ainda não afundou, como um Titanic que ainda não sabe que foi atingido pelo iceberg. E mais importante do que “quando” é DE QUE MODO o sistema implodirá. Como foi dito em questões anteriores, a simples implosão do sistema não é a garantia imediata da subseqüente emancipação da humanidade. O projeto comunista não se limita à dimensão negativa de rejeitar o atual sistema e postular sua destruição, mas necessita de uma inescapável dimensão positiva e propositiva, a necessária construção de alternativas viáveis de administração racional dos intercâmbios sócio-metabólicos humanos.

O chamado “comunismo” fracassou porque não foi capaz de remover o modo de articulação das relações produtivas profundamente incrustado desenvolvido pelo capital. Os países “comunistas” de fato derrubaram o capitalismo, mas não derrubaram o capital, que se define como sistema de produção alienado. O trabalhador soviético era tão alienado quanto o capitalista, pois não tinha em suas mãos nenhum poder substantivo sobre o mecanismo de produção social. Uma alternativa comunista minimamente viável terá como tarefa inescapável a devolução aos sujeitos sociais de seus poderes econômico-políticos alienados pelo capital e pelo Estado. Sem a efetiva administração social por parte dos produtores associados, articulados em instâncias de decisão radicalmente democráticas em nível local, nacional e mundial, qualquer tentativa de revolução não passará de um golpe de uma vanguarda “iluminada” condenada a repetir o fracasso da burocratização stalinista. A administração dos produtores associados terá como parâmetro a medida do tempo disponível como meio de articulação racional dos recursos tecnológicos e materiais herdados, em direção a uma forma superior de relacionamento homem-natureza/indivíduo-sociedade. Nos termos de uma alternativa construtiva de auto-organização dos trabalhadores e apenas assim, a implosão do sistema resultará em algo positivo.

Torço e espero contribuir de alguma forma para que isso aconteça.

O espírito da coisa é justamente esse: a tarefa não será de nenhum dirigente “iluminado”. Como foi dito no início, é possível falar em comunismo apenas na perspectiva do indivíduo social enriquecido por novas relações sócio-econômicas, políticas e culturais de autonomia e auto-organização coletiva, em contraste com a limitada perspectiva do individualista-egoísta da ética capitalista.

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