Literatura

Verei Você No Lado Escuro Da Lua

Publicado originalmente em 17 de Agosto de 2006, no Simplicíssimo.

“Breathe, breathe in the air, don’t be afraid to care”.

Poucas coisas no mundo me tocam tanto quanto o Pink Floyd. Bom, eu não quero ser demasiado chato (e tenho que fazer um esforço tremendo para não sê-lo), contudo, creio ser desnecessário fazer aquela introdução básica dizendo quem é a banda. Se você não os conhece, realmente não deves ter estado na Terra nos últimos quarenta anos. Na pior das hipóteses, e ainda que não saiba, os refrães de “Another Brick In The Wall Pt. II” e “Wish You Were Here” devem ser familiares a você. Sim, o Floyd é a banda do “hey, teacher!”, porca miséria!

“Is there anybody out there?”

Perdi a conta de quantas vezes chorei ouvindo, assistindo, lendo, escrevendo e pensando sobre eles. Na verdade, olhando bem para trás, posso dizer que a sua música praticamente me salvou do suicídio. Não a toa que, parafraseando Matrix, não acho nenhum exagero chamar Roger Waters de “meu Jesus Cristo pessoal”. Faz um bom tempo que eu respiro, como, bebo e trabalho com música. Uns cinco ou seis anos. Dezenas de estilos diferentes, centenas e centenas de bandas, milhares e milhares de composições. Nada se assemelha a eles. Não o digo simplesmente no sentido de sua sonoridade ser única, há várias outras bandas que também conseguiram este status.

“I don’t need no arms around me /I don’t need no drugs to calm me/I have seen the writing on the wall/Don’t think I need anything at all/All in all it was all just bricks in the wall”.

A magnitude do “nada se assemelha a eles” é incalculável. O Floyd não toca progressivo, space rock, psicodélico ou qualquer outra coisa semelhante. Eles tocam Pink Floyd. Alcançam o conceito máximo em praticamente todos os pontos imagináveis: técnica, simplicidade, sentimento, letras, arte gráfica, arranjos, harmonia, solos, concepções estéticas, concertos, inovação. E mais: foram os pioneiros em várias coisas. Ensinaram o público a ouvir música, colocaram a indústria sob seu domínio – ditando os rumos da mesma como queriam.

“You lock the door, and throw away the key, there’s someone in my head, but it’s not me”.

Faz pouco mais de um mês que perdemos Syd Barret. Roger Keith Barret foi membro fundador ao lado de Roger Waters e o líder do grupo em seu início. Pintor, compositor, ator, poeta e lunático de carteirinha, foi embebido em LSD que Barret, nos primeiros anos de Floyd, inovou a música e as apresentações ao vivo para sempre, deixando forte influência em seus colegas. O vocalista seria afastado ainda em 68 por abusos de drogas e uma certa predisposição à esquizofrenia, que estava comprometendo os shows do grupo. Syd morreu em sua casa, aos 60 anos, por complicações causadas por diabete. Seu corpo foi cremado em Cambridge, Inglaterra, conforme sua vontade.

“Shine on, you crazy diamond”.

Ingressar no mundo e na atmosfera que obras como “The Piper At The Gates Of Dawn” (o debut totalmente capitaneado por Syd), “Meddle”, “Dark Side Of The Moon”, “Wish You Were Here”, “Animals” e “The Wall” proporcionam é indescritível. A poesia, lucidez, perspicácia e ironia das letras da banda sempre foram reflexo direto de sua sonoridade e experimentos artísticos. Além de inspiração e tema de longas reflexões pelos fãs. Ou floydianos, como queiram.

Impressionante constatar como gerações e mais gerações se sucedem, sempre descobrindo o som da banda, apaixonando-se, se interessando e dando continuidade ao legado. O maior prazer de um artista deve ser observar este carinho, respeito e admiração nunca se extinguir, mas, pelo contrário, atingir a imortalidade indestrutível.

“Us, and them, and after all we’re only ordinary men”.

Grande parte das coisas que faço está impregnada de sua influência. Há desde toques subjetivos até os mais explícitos. Nenhum outro grupo exerce poder e atração tão grande sobre mim. Nenhuma outra banda me inspira tanto respeito. Waters, em especial, sempre definiu com maestria os sentimentos, anseios, aflições e conflitos do ser humano, além de possuir um tino crítico apuradíssimo (dotado de intensa e gostosa ironia). O considero, sem dúvida, como um dos melhores escritores da segunda metade do século XX. Ele, George Orwell e Hermann Hesse são três das pessoas as quais me senti mais próximo ao longo da vida. Aquela simbiose rara, de perfeita cumplicidade, afeto e compreensão.

“Over the mountain watching the watcher/(…)/Knowledge of love is knowledge of shadow/(…)/Set the controls for the heart of the sun”.

Se eu fosse descrever, não o faria tão bem. Mesmos minhas interpretações póstumas não seriam tão belas e sucintas. É claro que o significado de determinado escrito sempre acaba sendo dado por quem o interpreta, por quem se relaciona com ele. E os adaptamos a certo momento, aquilo que nós queríamos que significasse.

“And you run and you run, to catch up with the sun, but it’s sinking”.

Deve ser um pouco dessa coisa paterna. Waters perdeu o pai aos quatro meses de idade, morto na Segunda Guerra Mundial. Eu, praticamente, nunca tive. Ele, ainda, sofreu com a superproteção materna. E tinha que se criar naquela Inglaterra odienta e hipócrita do pós-guerra.

“Mama’s gonna make all of your nightmares come true/Mama’s gonna put all of her fears into you”.

Família é sempre a mesma coisa. “Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira”, disse Tolstoi. Alguém discorda? Tenho sempre a mesma sensação. Um pouco alucinógena, explosiva, insegura, descrente…

“One of these days, i’m going to cut you into little pieces”.

Quando se passa por muitas desgraças, você espera qualquer coisa. Quando se vive no limite, tudo toma outro contorno. E não há como compreender. Ou você é meu cúmplice, ou não é. Pode mandar a cavalaria, eu agüento.

“You have to be trusted by the people that you lie to/So that when they turn their backs on you/You’ll get the chance to put the knife in”.

Então, corra coelhinho, corra. É onde vivemos. Que deus você quer servir? Faça troça de tudo. Banque o espertalhão. Assuma a personalidade que melhor lhe convir. Jure lealdade à sua própria ignorância.

“O.K.,just a little pin prick/There’ll be no more aaaaaaaah!/But you may feel a little sick”.


“The Wall”, em especial. A trilha sonora de minha vida. Uma das peças mais fortes e ácidas que conheço. Profética, eu diria. Este texto, obviamente, está recheado de citações de várias músicas do Floyd. Mantive o idioma original para não ferir o ritmo, a harmonia e a construção das idéias. É incrível. Há dezenas de outras composições que merecem serem citadas. E é um eterno prazer descobrir suas múltiplas aplicações. Apenas mais um tributo. Desnecessário. Grato, recolho-me. Por hora. 


“And everything under the sun is in tune, but the sun is eclipsed by the moon”.

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Literatura

Sugestões Para Atravessar Agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções – úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade… Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

(Caio Fernando Abreu, O Estado de São Paulo, 06/08/95)

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Jornalismo – Nas Entrelinhas Do Caos

Eu nunca tive ilusões com o jornalismo. Nunca achei que fosse encontrar um mercado fácil, um curso empolgante, que fosse me maravilhar e ter orgasmos múltiplos a cada aula, cada matéria. Jamais tive a esperança de adentrar uma redação, ter algum talento/esforço/dedicação/interesse reconhecidos, colocar em prática o ideal (suspeito) de “servir à sociedade” e salvar o mundo. Não dou pra super-homem. A realidade é – e sempre foi – um pouco menos colorida. Talvez o jornal não seja preto-e-branco à toa.

Também nunca “decidi” que seria jornalista. Não foi uma decisão mecânica nem um sorteio dentro de um guia do estudante qualquer. Processo natural que culminou num caminho estranhamento óbvio. Sou tarado por informação. Extremamente curioso. Com sede de saber, um pouco mais, daquilo que gosto. Desde novo, a partir dos 10 anos – que me lembro bem – viciado em games e, posteriormente, cinema e música, comprava religiosamente, todo mês, revistas relacionadas a estes assuntos.

E costumava sonhar com jornais prontos frequentemente. Quando ia dormir pensando muito em algo ou querendo saber o resultado de alguma coisa, ou mesmo de modo esporádico, visualizava, perfeitamente, no sonho, toda a matéria de um jornal ou revista, lendo atentamente e acordando achando que aquilo era real! Depois veio, mais forte, a música. E o profundo interesse por ela. Lia, pesquisava, descobria, ouvia, trocava, vivenciava. Paralelo à música, a literatura. Gordinho, tímido, introspectivo, calado, rato de biblioteca, gamer, fascinado por todo aquele universo novo que se desdobrava.

Daí, não sei como nem onde, porque, quem, quando, comecei a escrever. Sem nenhuma pretensão, passei a escrever texto sobre música. Tentando compreender, interpretar e analisar as bandas que ouvia. Para publicá-las na internet, foi um passo. Gradativamente, melhorei, amadureci e me formei na mesma medida em que praticava a escrita, ora, na prática. E aprendi coisas simples na brincadeira: jornalista não é formado, cria-se. E que interesse, pesquisa, curiosidade, cara de pau, leitura, confiança, humildade e determinação são mais do que fundamentais. A faculdade foi conseqüência. Escrever textos bestas como este, também. Aprendi que nada acontece se você não fizer com que aconteça.

Eu nunca tive ilusões. Portanto, nunca me decepcionei. Às vezes, cometo erros propositais, provoco, insisto e bato de frente. Se eu não tiver o prazer de me divertir e incendiar, não tem graça. O engraçado é que o jornalismo, muitas vezes, transita entre o profundamente aborrecido e insuportável, e a imensa satisfação e desejo. Sejamos francos, na mídia tradicional, o jornalismo está morto. Para não ser tão rigoroso, digamos que uns 10% do que é produzido vale – muito – a pena. E tudo aquilo de bom que é feito me faz continuar a acreditar nessa profissão tão maltratada.

Ninguém, em sã consciência, optaria por uma carreira dessa: má remuneração, muitas horas de trabalho, mercado saturado, inchado, insuportável, reino dos jabás, da democracia da cosa nostra, da puxação de saco, disponibilidade quase integral para o veículo, superiores tiranos, nenhuma regulamentação, consciência de classe inexistente e sindicato inoperante, código de ética totalmente desrespeitado, dificuldade de ascensão na carreira, meio infestado de amadores, possibilidades de emprego escassas, estágios não remunerados, mais de 30 mil profissionais formados no país, expectativa média de 10 anos de atuação para os bravamente persistentes, mão de obra gradativamente mais barata, pouco reconhecimento, alta rotatividade e o mercado local, pasmem, ainda mais ingrato e restrito que outros países do mundo.

Afinal, o que leva um ser humano em suas perfeitas faculdades mentais a se formar em jornalismo? Juro que não sei responder a esta pergunta. Talvez uma parte entre iludida com ideais de fama, glamour, sucesso, dinheiro (a realidade de 3% da classe). Outros apenas por ser uma das opções que tinha em mente, curiosidade, sorteio. Outros tantos, ainda, de fato bem intencionados, querendo fazer um bom trabalho dentro do “quarto poder”. E outros, simplesmente, porque não se imaginam fazendo outra coisa na vida – parcela dos quais me incluo. Mas sei que a possibilidade é simplesmente, real.

Pior. No jornalismo, muitas pessoas atuam porque acham que podem fazer o trabalho que um profissional faria. Afinal, escrever, está aí, ao alcance de todos. Um release, uma notícia, uma “crítica”, uma matéria, uma entrevista…todos acham que com um pouco de interesse consegue “dar conta”, levando muita gente que passou longe de uma formação acadêmica a atuar na área e roubar vagas de quem, em tese, deveria as estar ocupando. Há um problema sério nisso: jornalismo, realmente, não se aprende na universidade. Ela não chega a ser inútil, mas o principal, a parte funcional da profissão, que nos é ensinado na teoria e na prática, não chega a ser um mistério. É inconcebível (e a sociedade não aceita, bem como os conselhos de cada profissão não permitem, órgão inexistente no jornalismo) que um engenheiro, médico, professor, advogado, economista, etc, atuem sem terem um diploma. Além de ser uma profissão que se regulamentou tarde, herdando muitos profissionais antigos, formados na prática, todo mundo acha que pode fazer o trabalho que um jornalista faz.

Vai piorar: muitos cursos superiores, seguindo as mudanças das normas do MEC, passarão a ser de apenas 2 anos, englobando somente a parte técnica do jornalismo e excluindo as disciplinas “humanas”, de formação, reflexão, teoria, cultura. Além de isto aumentar a velocidade com que supostos “profissionais” são jogados no mercado, ainda destrói a já precária formação acadêmica de um repórter. Se ter a capacidade de pensar e refletir, o arcabouço teórico e o background cultural já são predicados escassos, os verdadeiros macacos que sairão destas instituições conseguirão a proeza de estar incontáveis níveis abaixo dos símios que hoje são formados. O grosso, as “técnicas” do jornalismo são tão óbvias e fáceis que muitas vezes, pra mim, tornam-se insuportáveis. É preciso descer alguns níveis, transmutar-se num ser um pouco mais burro do que já é para fazer tal matéria. E isto é difícil. Parece engraçado, ou exagero, mas não é. A inteligência, no jornalismo, não é muito bem vinda (muito menos do que seria saudável ou se gostaria de admitir).

Se o prospecto é ruim, e tende a se agravar, só me resta parafrasear o REM: este é o fim do mundo, como o conhecemos, e eu NÃO me sinto muito bem.

Mas não é só apocalipse que resta.

Na verdade, além de utópico e um pouco masoquista, o jornalista encontra alguns benesses na profissão, mas, sobretudo, há o prazer de escrever, conhecer, divulgar, encontrar coisas novas, excitantes, desafios diários entre a pressão, o mau humor, os goles de café, a saúde que vai pro ralo e o salário risível no fim do mês. Mesmo com tudo, consegue ser uma profissão fascinante, divertida, curiosa, recompensadora.

Há pessoas que tem isso no sangue. Que nasceram com palavras correndo em suas veias. Com uma sede impetuosa de conhecimento, informação, cultura…e de compartilhar isto. Como sempre, o que não encontra muita racionalidade, a paixão explica. Uma parte de inclinação, também.

Vivemos em dias estranhos, disse Jim Morrison há mais de 40 anos atrás. Atualmente, isto parece mais “verdadeiro” do que nunca. Há que se ter persistência, desejo, ímpeto, força…e competência, ânimo. Crescer dando murro em lâmina. E melhorar com isso. Não sei como a equação se resolve, repito, “é como se você pegasse o ontem, o hoje, e o amanhã”. Não dá pra dizer o que irá acontecer. E esta, afinal, é a graça da vida.

“Strange days have found us
Strange days have tracked us down
Theyre going to destroy
Our casual joys
We shall go on playing
Or find a new town

Yeah!

Strange eyes fill strange rooms
Voices will signal their tired end
The hostess is grinning
Her guests sleep from sinning
Hear me talk of sin
And you know this is it

Yeah!

Strange days have found us
And through their strange hours
We linger alone
Bodies confused
Memories misused
As we run from the day
To a strange night of stone”

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Literatura, Música

O Som e o Silêncio

Minha relação com o som, talvez, seja a coisa mais importante e vital que existe. [Este é o meu hiperbolismo falando alto]. Mas um hiperbolismo nem tão exagerado assim. Minha mãe diz que cantou para mim desde os primeiros dias de vida. Que contava histórias quando ainda estava no ventre. E, não só estudos científicos comprovam o quanto isto influencia positivamente e tem influência sobre um bebê, como eu acredito e sinto isto, intensamente. Minha vida, sem som, não existiria. E não é só porque “gosto muito” – eufemismo – de música. Não falo somente de notas musicais, de estruturas, arranjos e harmonias diferentes que suscitam as mais variadas sensações, gostos e impressões.

Talvez o parágrafo mais feliz que eu tenha escrito foi este, quando tentei “resumir”, brevemente, o que “música” significa:

Música, para mim, é extensão do corpo, dos sentidos, da mente, das angústias, desejos, aspirações. É inquieta por natureza. É uma linguagem ampla, poderosa e universal. É puramente matemática ao mesmo tempo que abstrata. Rígida porém livre. Organizada em sua estrutura apenas para ser decomposta e digerida por cada um de maneira peculiar. Mexe com o racional e as emoções. O cérebro e a alma. Traz infindas possibilidades, deixando sempre um impacto por onde passa. É nossa face mais metódica, mas também indefinível e ilimitada. É D’us, em sua essência. É a maior força que tenho notícia.

Este aforismo exemplifica, em parte, aquilo que é a essência dessa relação tão íntima, bem como do modo como enxergo, hoje, o “trabalho” de “crítico”. É absurdo, inimaginável e incompreensível, para Maurício Gomes Angelo, ficar limitado a um único estilo. Ter, em seu cardápio, seus momentos, sua vida, tipos limitados de manifestação sonora. Se criamos rótulos, não só por uma necessidade humana de compreensão, organização, manipulação e parâmetros mínimos de referências, bem como para a indústria, é apenas para nos guiar, para “dar um nome” aquilo.

Há tanta coisa para ser explorada, tanto para se descobrir, degustar, sentir. Uma música para cada tempo. Muitos sentimentos para cada música. Há que se ter cuidado em se ouvir determinadas obras: elas mudam, drasticamente, de acordo com o momento, a hora, a iluminação, as cores, os sentimentos prévios, o aparato técnico usado para, se de olhos fechados ou abertos, se de fone de ouvido ou não, se mecanicamente ou ao vivo, se sozinho ou acompanhado. É impressionante o quanto ela se altera, se transforma, se revela, se esconde, demonstra suas inúmeras e praticamente inesgotáveis facetas. Não seria assim com tudo? Cada coisa, cada momentum de nossa vida não teria suas condições, suas mudanças e seu próprio universo sensível? Creio que sim. Na maioria das vezes, a música serve apenas como um complemento para uma situação qualquer. Está ali, ponto. Em outras, conseguimos ouvi-la. E em outros casos, raros, penetramos e vivemos nela.

Creio que eu tenha aprendido a desfrutar, respeitar e descobrir, a meu modo, a brutalidade de um metal extremo, o suingue de um samba, o virtuosismo do jazz, as inúmeras texturas do “pop”, o rock explodindo em tesão, tensão e atitude, a amplitude de uma peça clássica, a alma do blues, o balanço do funk, a desintoxicação do soul, a beleza de uma mpb, a transcendência corporal do trance, o universo multifacetado e em erupção da música eletrônica, a experimentação e o envolvimento do progressivo, a urgência do hip-hop, a força sensível das divas e trovadores solitários, a adrenalina e o estalar de um metal “tradicional”, o aconchego da bossa nova e a capacidade infinda que todos estes citados, além de inúmeros outros “estilos”, fundidos ou não, colaborando entre si ou radicalmente convencionais, o poder que eles tem de gerar algo novo, ou de apenas embalar-nos em suas entranhas.

Ao mesmo tempo que o som, em si, é como o ar para mim, o silêncio também o é. Como que o silêncio, ou seja, a ausência total de qualquer ruído, tem a sua sonoridade especifica, a sua forma de atuar, também faz parte da música, da vida, é necessário e pungente, pode ser mais agressivo e implacável que qualquer manifestação furiosa. O silêncio ecoa. Completa. Faz-se presente. É sensível, forte, intenso. Destaca-se. Às vezes, penso que desconheço coisa mais poderosa que ele.

O mundo é barulhento demais. O barulho destrói nossa capacidade de pensar. As pessoas falam muito, falam sem pensar, por falar, forçosa e desnecessariamente. Profundo desperdício de energia vital. O barulho, a grosso modo, simboliza o contrário de introspecção. E, para refletir, ela é necessária. A introspecção é, portanto, inflamável. Processando e florescendo a experiência. O único lugar onde suporto uma multidão ruidosa é em shows de música. Se parássemos de falar tanto, talvez viveríamos melhor, teríamos a oportunidade de perceber coisas que nunca antes percebemos.

Se parássemos de falar…ouviríamos. Seríamos capazes de notar maiores nuances do som, do ambiente, das coisas. Até mesmo as cores, a natureza, os sentimentos…o outro. A nós mesmos. Observar melhor o que nos rodeia. O silêncio torna o barulho perceptível. Permite repensar, criticar, refletir, analisar, graduar, sentir.

Somente aprendendo a respeitar e admirar o silêncio teremos a capacidade, mínima, de compreender nosso íntimo e o mundo circundante. De olhar para o outro sem pressa, analisando as sutilezas e peculiaridades da vida humana. Bem como de absorver a música em toda sua essência e possibilidades. Onde, por um lapso, o “sentido” passa a existir. Ou a ausência dele.

Abençoado seja.

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Literatura

Mulheres

“A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo.” (Flaubert)

Parte-se de uma premissa. E temos a liberdade de levá-la para onde quisermos. A criação, quando sai do artista, torna-se de domínio público. É uma abertura perigosa. Admite excessos, devaneios. No fundo, admite tudo. O que não quer dizer que todas são adequadas. Esta é a graça da vida. Relações, de que natureza for, nunca se encerram em si mesmas, mas abrem infindas e suculentas possibilidades.

A analogia é perfeita e válida. Quando se passa muito tempo no casulo, nada melhor que a sensação de voar pela primeira vez. O que sai é um novo ser: renascido, belo e vívido. Com algumas cicatrizes, naturalmente. Porém impetuoso, prestes a descobrir e experimentar tudo que desejar.

Não sou santo. Não sou o exemplo do homem perfeito, do cidadão de bem, do cavalheiro encantado presente no imaginário popular: um ser demasiado servil, submisso, fraco, sem personalidade, vivendo para outra pessoa antes de si mesmo. Não sou nem nunca serei. E já não me interesso por quem deseja um. É um péssimo sinal.

Tenho em mim todos os defeitos e muitos, muitos outros. Sou insuportavelmente chato, ranzinza, crítico, mesquinho, instável, bobo. Sou feio, pobre e outsider. Ou seja: a antítese da antítese do desejável. E é maravilhoso sê-lo assim. Já tenho problemas suficientes sendo o que sou. Tentando ser apenas um homem.

De todas as mulheres que atualmente fazem parte da minha vida, seja em que grau ou de que modo for, nenhuma, de fato, me toca. As coisas são diferentes. Sobretudo, é indescritível a sensação de poder relacionar-se com todas elas. Com quem quer que seja.

Vejo um sem número destas que de fato mexem com minha libido cotidianamente. Várias transeuntes, doces desconhecidas, silhuetas atraentes, rostos duma beleza irreparável – no máximo que a imperfeição pode ser. Nutro paixões relâmpago de dez segundos cada. Num curtíssimo espaço de tempo, posso imaginar toda uma vida, toda uma possibilidade ao lado daquela mulher adorável que acabara de lançar olhares esguiamente provocantes – e como elas adoram fazê-lo!

É sempre curioso, e naturalmente estúpido, quando pensamos no que a nossa vida seria se não tivéssemos algo. Se não morasse onde moro, se não tivesse passado naquele lugar naquele instante, ido a aquele show, se não conhecesse aquela pessoa, lido aquele livro, visto determinado filme, se não estivesse solteiro. Impressionante observar como os acontecimentos se desencadeiam, gerando resultados póstumos sequer imagináveis. Eis porque viajar me é tão agradável. Adentra-se num universo onde tudo é novo, e possível.

Minha solteirice, no momento presente, me foi tão fundamental nos últimos meses, trouxe coisas tão positivas e abriu-me (como continua abrindo) experiências fantásticas. Sem ela, estou certo que muito disso não teria acontecido. E não falo somente do carnal, não mesmo.

Há vantagens fabulosas na monogamia. Vantagens intrínsecas. Contudo, não se trata de substituí-la pela poli, mas de não ter compromisso algum. De estar constantemente aberto a tudo. Também não é ser fiel a si mesmo, pois este ser imutável e soberano não existe, mas de viver tendo a liberdade de desfrutá-la.

Amores, paixões, atrações, empatias, sintonias, química, seja lá do que queiram chamar, existem dezenas, de vários tipos diferentes: o que nutro por determinada mulher não é o mesmo que nutro por outra. O que me agrada nesta não é semelhante ao que me atrai na seguinte. O que busco aqui não é igual ao dali. E a imensa maioria delas encerra-se em pequenas virtudes e charmosas peculiaridades. Nada mais. Como abarcar tudo numa só? É possível, sim, porém improvável. Tão difícil quanto saciar uma alma impetuosa. Especialmente numa fase em que ela está em constante combustão.

De tudo aquilo que posso sentir, não me resta dúvidas de que o amor pelo intelecto é o mais profundo e sólido deles. O mais embriagante, nefasto e perigoso. O único capaz de prender-me e gozar de minha pura admiração, respeito e carinho. Não só a admiração prévia – a primeira das paixões, segundo Descartes – como tudo de indescritivelmente bom que ela traz. Melhor que isso: as desavenças, faíscas e discussões são, ainda que desagradáveis, ricas e interessantes. Se posso citar uma vulnerabilidade amorosa, é esta. Felizmente, todas que a tentarem simular, se não rechaçadas já numa primeira instância, serão identificadas brevemente.

Experiências. Happenings. Muitas delas estão guardadas, intocáveis a meu modo. Algumas de fato foram únicas e tiveram um impacto real e palpável em minha vida. Por mais que farpas, atritos, desentendimentos, brigas, desfechos traumáticos (etc) possam ter ocorrido, guardo com imenso carinho e consideração aquilo que é só nosso, os momentos sublimes, fugazes e indestrutíveis que são apenas do casal e nada pode manchar. Sem contar tudo aquilo que nutrimos um pelo outro, e que é exclusivo dos dois. Ponto.

A atração carnal tem, também, seus encantos. Aquela coisa absurda de pele. Da libido desenfreada, pura e simples. E é estupidamente gostoso e fugaz, por natureza. Experimentar dos dois é sempre válido.

A frase de Flaubert que abre este texto expressa com amplitude, em poucas palavras, o que acho fundamental para a existência: ter tesão pela vida. Continuar descobrindo. Sempre. Não só no campo “físico”, mas pessoas, lugares, sabores, amizades, músicas, livros, autores, filmes, idéias, sensações, desafios, situações. Estar, permanentemente, aberto ao que se apresenta e, mais que isso, fazer acontecer. Não se trata de auto-ajuda. Mas de atitude. Para que a vida, em suma, aconteça, é necessário ter desejo por ela, ter vontade de realizar as nossas aspirações e lidar com as novas que surgem. É saber – e buscar – ter “o pasmo essencial” apregoado por Pessoa. É como a equação shakesperiana, respondida por Hesse, se resolve: ser é ousar ser. Passagem que teve impacto ímpar em minha vida. Pois a letargia é a morte. Nossa única certeza é a impermanência. E a inconstância, o mais previsível dos estados.

Relações humanas, parece-me, são o campo mais complexo que podemos tentar entender. Justamente porque não há nada, absolutamente nada sólido que nos une uns aos outros: e cada vez menos. Na brincadeira da modernidade, vamos nos tornando bem mais fruto do nosso tempo do que gostaríamos de admitir. Eu, inclusive. O perigo de se lidar com máscaras, é acabar as introjetando. E aturdir-se de modo contínuo, principalmente sobre si mesmo.

Mas não há nenhum padrão, nenhum juízo de moral, nenhum caminho pré-estabelecido a se seguir, nada mensuravelmente “bom” ou “ruim” nesta “história”. A vida, felizmente, não é uma ciência exata. E eis, sob todas as outras, a maior graça que ela nos proporciona.

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