Política & Economia

Mexeu com a carrolatria, mexeu com todos

CONGESTIONAMENTO EM SP

Por Maurício Angelo

Crescemos acreditando que o carro é uma das maiores paixões do brasileiro, um símbolo da vida nacional, motivo de orgulho, carinho, status, poder e ostentação. Que o carro ocupa papel central na vida das famílias, na comodidade, no lazer. Que é o meio de locomoção essencial, indispensável. Gerações cresceram endeusando Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e tantos outros, ídolos máximos, martelados incessantemente pela mídia.

A indústria automotiva nacional é um dos maiores símbolos do nosso “desenvolvimentismo”, do pujante “milagre econômico”. FIAT, FORD, VOLKSWAGEN, CHEVROLET…todas recebidas com pompa e circunstância, com inúmeros incentivos fiscais dos governos federal, estadual e municipal…assim como nos últimos anos foram implantadas fábricas da NISSAN, MERCEDES, HYUNDAI, CHERY e por aí afora.

Para incentivar o consumo e facilitar o acesso, o governo do PT reduziu sistematicamente o IPI e deu certo durante muito tempo. Contra todo tipo de planejamento, a indústria automotiva bateu recorde atrás de recorde nos últimos anos, inundando as ruas com centenas de milhares de veículos, entupindo as vias não só das principais cidades do país, mas também das médias e pequenas. Os veículos se popularizaram e toda a cadeia que lucra absurdamente com eles nas ruas sorriram de orelha a orelha. O resto que se dane.

Daí que o surto de indignação coletiva que ganha corpo neste primeiro trimestre de 2015, babando raivosamente nas ruas e nas redes sociais o impeachment de Dilma Rousseff tem, na verdade, pouquíssimo a ver com os desdobramentos da Operação Lava Jato, gerando uma verdadeira devassa nas contas e nos contratos da Petrobrás nos últimos 30 anos.

O que realmente gerou o estopim da indignação foi o aumento significativo no valor do combustível, que subiu em média R$ 0,22 centavos para a gasolina e R$ 0,15 para o diesel. Aí, meu amigo, não tem uma viva alma que não tenha esperneado. “Ameaçar” o deus automóvel é um pecado grande demais para ser perdoado. Encarecer esse objeto de adoração do brasileiro é jogar ácido na ferida. Podemos ficar sem água na torneira, mas aceitar o aumento de combustível, jamais!

Não importa que a mídia brasileira tenha batido duramente no governo por não repassar as variações do preço do petróleo para a população, vide essa manchete educativa da Veja: “Defasagem do preço da gasolina faz Petrobras perder R$ 14 bi em 2013”. Repetindo: o governo apanhava por SEGURAR O PREÇO da gasolina. E apanha agora, novamente, por repassar o prejuízo. Não importa que o petróleo encontra-se em uma das maiores crises da sua história, com o barril abaixo dos R$60 dólares, menos da metade de uma média dos últimos anos. Que a situação gere problemas em todos os países do globo. Os Estados Unidos, por exemplo (aqui e aqui).

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O mundo inteiro está em alerta. Não importa que, mesmo afundada numa crise institucional sem precedentes, numa investigação que atinge todos os partidos da política brasileira, em descobertas de abusos que vem desde a década de 90 (e 70, 80…), a Petrobrás ainda alcance resultados técnicos exuberantes.

Lembra Jânio de Freitas:

Se a Petrobras ainda estivesse sob a ação ignorada e tranquila de gatunos, a realidade dos últimos 11 meses seria assim: suas ações em altas cotações na Bolsa, bafejadas pelo crescimento da produção a despeito da queda de preço do petróleo, os corruptos embolsando seus ganhos com a segurança de sempre, e bancos e corretoras festejando em vez de derrubar os dirigentes da empresa. (…) Essa Petrobras “levada à destruição” conseguiu em 2014, portanto quando os diretores a destruíam, o recorde da produção de derivados com 2,17 milhões de barris de petróleo por dia. O sexto recorde anual seguido, sendo este último, deduz-se, de produção fantasmagórica.

Ontem [4/2] se teve a notícia de que a Petrobras recebeu o OTC-2015, o Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, “o mais importante para operadoras off-shore”. O prêmio foi em reconhecimento ao “conjunto de tecnologias desenvolvidas para a produção na camada pré-sal.

Não é a corrupção que indigna o brasileiro. Sublinhe-se: que ela deve ser investigada minuciosamente e punida com tudo que estiver disponível, não se discute. Seja quais nomes estiverem envolvidos, de que partido for. A história de corrupção na Petrobras apenas reforça ainda mais a necessidade e a importância da Lava Jato.

Mas o que realmente revolta o brasileiro é ver o seu Deus ameaçado. Em bom texto de julho do ano passado, Ricardo Alexandre conta uma história muito didática e pertinente:

Na época em que dirigi a revista Trip, organizei uma entrevista entre o jornalista americano Tom Vanderbilt, especializado em trânsito, e o sociólogo niteroiense Roberto Da Matta. “No Brasil, o carro é um dos principais símbolos das pessoas bem sucedidas”, disse o Roberto da Matta, autor do belo livro Fé em Deus e Pé na Tábua (Rocco) na qual associa nossa idolatria ao carro à herança dos tempos coloniais nos quais escravos levavam seus senhores nas liteiras, como na foto que ilustra este post. “Para redefinir esse papel seria necessário redefinir o modo como criamos a identidade social do sucesso”.  Tom Vanderbilt lembrou que a palavra “pedestre” é sinônimo de “banal” e “tosco”. “Isso remonta aos tempos da cavalaria: se você não estivesse montado, seria considerado inferior. Nós depreciamos andar a pé mesmo antes do carro”. Ou seja, em terra do “doutor fulano”, do “você sabe com quem você está falando”, quem está de carro só pode ser alguém melhor do que eu, que estou a pé, ou de ônibus. Pode passar, dotô, desculpe atravessar o caminho de vossa senhoria.

Mexer com a carrolatria do brasileiro gera uma reação instantânea, ainda alimentada pelos resquícios das últimas eleições, pelo sentimento acéfalo anti-PT que corre no imaginário popular do brasileiro de classe média, incluindo esse mesmo brasileiro que foi alçado a ela por este mesmo governo. Mexer com a carrolatria inflama o terceiro turno, obsessão da oposição desde o primeiro minuto que o resultado final das eleições foi anunciado (e já falamos disso aqui).

A corrupção endêmica na Petrobrás é, também, uma oportunidade para vermos como essa adoração ao automóvel e todos os movimentos da indústria e da sociedade nos últimos anos, fortemente potencializados pelo PT, pode se voltar não só contra ele, mas contra qualquer visão razoável de mundo, que ainda celebra uma indústria que luta contra a obsolescência, que tenta se readequar aos novos tempos, investindo pesado em inovação e tecnologia nos últimos anos para, quem sabe, conseguir permanecer em pé e relevante frente todos os desafios ambientais inescapáveis. Desafios dos quais o petróleo é um dos principais.

Tentar entender todas as camadas da questão é um exercício muito mais trabalhoso do que o senso comum está acostumado a entregar. Como diz o ditado, de onde não espera nada, é de lá que não sai nada mesmo.

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Política & Economia

O ódio contra a democracia e o mito da cordialidade brasileira

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Por Maurício Angelo

Tempos de ânimos inflamados são ótimos para uma questão em particular: revelar, em última instância, o que realmente pensa certos setores da sociedade. Ou o que, de fato, aquele seu conhecido, colega, amigo, familiar, apoia. Se a polarização, seja qual for, é sempre vítima de sua própria característica de extremismo, do seu maniqueísmo simplificador, é também necessária numa época em que seguidos atentados contra a democracia se multiplicam pelo país.

O PSDB ir ao Tribunal Superior Eleitoral questionar o resultado das eleições é simbólico no ódio arraigado que a direita sente pelo processo democrático. Se lembrarmos ainda que boa parte das “provas” exigidas pelo partido são de consulta pública – como os boletins de cada urna eletrônica – e o restante é enviado para os próprios partidos através de solicitação, além do pedido ser baseado – pasmem! – em denúncias de redes sociais (como esta, infantil e prontamente desmascarada) temos um novo marco vergonhoso para os tucanos carregarem como herança.

Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia em 2008, professor, articulista e um dos mais respeitados nomes da área econômica no mundo, tem uma opinião bem incisiva sobre isso:

A direita política sempre se sentiu incomodada com a democracia. Por melhor que esteja a situação dos conservadores nas eleições, por mais generalizado que seja o discurso em favor do livre mercado, sempre há um medo no fundo de que o povo vote e ponha no Governo esquerdistas que cobrem impostos dos ricos, deem dinheiro a rodo para os pobres e destruam a economia.

(…)

E o que um plutocrata pode fazer então?

Uma das respostas é a propaganda: dizer aos eleitores, com frequência e bem alto, que o fato de sobrecarregar os ricos e ajudar os pobres provocará um desastre econômico, enquanto que reduzir os impostos dos “criadores de emprego” nos trará prosperidade a todos. Há uma razão por que a fé conservadora na magia das reduções de impostos se mantém, por mais que essas profecias não se cumpram (como está acontecendo agora mesmo no Kansas): há um setor, magnificamente financiado, de fundações e organizações de meios de comunicação que se dedica a promover e preservar essa fé.

(…)

A terceira resposta consiste em garantir que os programas governamentais fracassem, ou nunca cheguem a existir, para que os eleitores nunca descubram que as coisas podem ser feitas de outra maneira.

É quase revigorante que tenhamos um economista deste calibre capaz de resumir de maneira tão clara e didática um óbvio pantanoso, que muitas vezes fica escondido atrás de uma ciência social absurdamente contaminada por interesses difusos e bem específicos, que ditam verdades absolutas bem moldadas numa rapidez assustadora.

Na prática, é o que explica a tentativa desesperada do PSDB de questionar a sua derrota democrática. Nas ruas, é o que leva alguns mentecaptos – menos de 3 mil em todo o país – a fazer passeatas pedindo intervenção militar e o impeachment de uma presidenta reeleita, sem o mínimo de concretude capaz de ancorar tal absurdo.

O que 3 mil pessoas representam num universo de 200 milhões? Quase nada. Ou muito, se você considerar a votação recorde de Jair Bolsonaro – 464 mil votos – e seus três filhos também presentes na política: Flávio Bolsonaro, deputado estadual no RJ, com 160 mil votos, Eduardo Bolsonaro, deputado federal em SP (e que foi armado para a passeata) com 81 mil votos, além de Carlos, vereador no Rio de Janeiro. É muito, se você considerar os 446 mil votos de Levy Fidelix e os 780 mil do Pastor Everaldo. Os 400 mil votos de Marco Feliciano. Os 254 mil votos de Coronel Telhada, deputado estadual mais votado em SP. E os exemplos seguem.

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Muito se disse, com razão, que o Brasil não tem “50 milhões de eleitores na ‘elite’, brancos, de direita, etc”, considerando a votação recorde de Aécio Neves. É a pura verdade. Ainda que o senador concentre quase 80% dos eleitores entre a elite – tão raivosa e, em sua maioria, tão acéfala, como visto nas ruas e nas opiniões ao longo da campanha – a votação de Aécio vai muito além deles, colocando no balaio uma classe média insatisfeita (e não nos esqueçamos que a classe média tem muitas subdivisões), o argumento fácil da “alternância de poder” e o ódio contra o PT tão alimentado por essa mídia propagandista, lembrada por Krugman e por aí afora.

O que leva alguém a pedir a volta da ditadura militar? Um profundo desconhecimento histórico? A mais abissal e incurável estupidez? Uma cretinice difícil de ser compreendida? Uma sanha autoritária que, diga-se, gostam de imputar ao outro? É típico da direita, como foi o modus operandi de Aécio e o PSDB durante as eleições, de cometer alguns absurdos, como tentar um golpe midiático através da Veja sem nenhuma prova – e já há a possibilidade do depoimento de Youssef sequer ter existido – chegando ao cúmulo de espalhar boatos sobre o envenenamento do doleiro no dia da eleição (quão canalha pode ser isso?) e acusar o PT de fazer campanha sórdida, como Aécio fez na abertura do último debate na Globo. É o duplipensar orwelliano em sua essência. Resumidamente, “o poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que tenha se tornado inconveniente”. Aécio Neves é um mestre do duplipensar.

Quem pede intervenção militar e quem questiona a democracia não pode mais ser tratado como coxinha alienado, tem que ser tratado como inimigo. É um tipo muito perigoso que, lentamente, através de seus representantes oficiais, está sempre pronto para golpear a democracia e/ou tornar a governabilidade o mais difícil possível.

Leandro Karnal, historiador e professor de história cultural na Unicamp, conseguiu resumir de forma brilhante alguns mitos brasileiros, como a “democracia racial” de Gilberto Freyre e o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda. Afirma Leandro:

Em plena ditadura, na escola, cantávamos “as praias do Brasil ensolaradas” onde Deus plantara mais amor e onde “mulatas brotam cheias de calor”. Nesse Éden tropical e erótico, nada se falava sobre repressão a dissidentes. E, combinação maravilhosa: o céu nos sorria e a terra jamais tremia.

Os momentos de polarização política, como 1935 (Intentona Comunista) ou 1964 (golpe militar), foram retratados na versão oficial e conservadora como infiltração de doutrinas estrangeiras de ódio. Era o marxismo pantanoso em meio a um povo cristão e pacífico. Foram os primeiros momentos nos quais a elite pátria pensou em “nós”, ou seja, os pacifistas que queriam construir uma país de progresso e prosperidade, contra “eles”, os grevistas, sindicalistas, agitadores e outros que insistiam em inocular no corpo nacional o vírus do dissenso. “Nós” correspondia aos patriotas, aos que só desejavam a paz. “Eles” correspondia à cizânia e aos cronicamente insatisfeitos. Sempre fomos bons em pensamentos maniqueístas, em dualismos morais perfeitos. Ninguém é católico por séculos e emerge ileso desse destino…

E ele lembra o quanto somos violentos, “ao dirigir, nas ruas, nos comentários e fofocas, ao torcer, ao votar”, o quanto o conceito de guerra civil foi limado dos nossos livros de história e nossas querelas eram tratadas como picuinhas regionais, a escravidão abolida na pena dourada de uma princesa, o quanto o outro é sempre o representante antípoda do que considero errado, enquanto navego num mar calmo de retidão moral.

Mas o ódio apresenta outra função interessante. Ela aplaina as diferenças do meu grupo. O ódio, como vários ditadores bem notaram, serve como ponto de união e de controle. O ódio é gêmeo xifópago do medo, e pessoas com medo cedem fácil sua liberdade de pensamento e ação. O ódio é uma interrupção do pensamento e uma irracionalidade paralisadora. Como pensar é árduo, odiar é fácil. Se a religião é o ópio do povo para Marx, o ódio é o ópio da mente. Ele intoxica e impede todo e qualquer outro incômodo.

O ódio, teoriza Leandro, tem muito do fator infantil: a democracia só é boa se consagra o candidato que defendo, do contrário, é ruim e precisa ser questionada. Os fatos são selecionados não pelo espírito crítico, mas por uma decisão prévia tomada internamente.

Seria bom perceber que o ódio fala muito de mim e pouco do objeto que odeio. Odeio não porque sinta a total diferença do objeto do meu desprezo, mas porque temo ser idêntico. Posso perdoar muita coisa, menos o espelho. Mas o ódio é feio, um quasímodo moral. A ira continua sendo um pecado capital. Assim, ele deve vir disfarçado da defesa da ética, do amor ao Brasil, da análise econômica moderna.

É assim que a extrema-direita e os radicais de ocasião tentam impor seu delírio autoritário, seu desprezo pela democracia, seu desespero em ver, sistematicamente, algumas das principais decisões nacionais fugir das suas mãos.

Para quem passou 500 anos ditando cada centímetro da vida brasileira em todos os campos de atuação possíveis, da economia e política até a cultura e o comportamento, é mesmo muito difícil aceitar que “esses esquerdinhas” no poder tenham o protagonismo atualmente, ainda que ameacem muito pouco – ou quase nada – os privilégios e o padrão de vida que essa parcela da população sempre gozou.

Pelo contrário, ver o governo tratar como prioridade quem sempre foi excluído é o suficiente para despertar uma ira absurda, aquela birra raivosa da criança que não aceita o espaço do outro. Ainda assim, não podemos trata-los como tal. Cada febre autoritária precisa ser combatida com o empenho necessário que só uma aula permanente de história pode, pouco a pouco, começar a esclarecer.

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Jornalismo

A responsabilidade jornalística e a regulação da mídia em xeque

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Não é de hoje que a chamada “grande mídia” brasileira é questionada por aderir de maneira bem contundente, ainda que disfarçada, quase nunca de modo deliberado, a uma candidatura específica. Do emblemático debate de 1989 entre Lula e Collor, ainda hoje um incômodo para a Rede Globo, esta mídia – representada especialmente pela Globo, maior emissora da América Latina, os jornalões como Estadão, Folha de S. Paulo, O Globo, Estado de Minas e todo o Diários Associados e a editora Abril, através de títulos como a Veja – opta, não raro, por atropelar elementos básicos do código de ética jornalístico.

Apelidada simbolicamente de “PIG – Partido da Imprensa Golpista” por blogueiros majoritariamente de esquerda nos anos 00/10 – e lembremos aqui que a esquerda nunca foi algo homogêneo e restrito a poucas linhas de pensamento, mas o oposto – a grande mídia sempre tendeu a revelar posições muito mais duras em momentos agudos da nossa história. Em toda eleição presidencial isso fatalmente ocorre. Os acontecimentos de 2014 não podem ser ignorados por uma classe jornalística séria, minimamente preocupada com a representatividade e credibilidade do seu ofício, levando-nos, novamente, ao inevitável e interminável debate da regulação dos meios de comunicação.

A mídia citada, com posição bem definida nas manchetes que escolhe, nas chamadas veiculadas, nos subtítulos destacados, nas fotos que seleciona, no lead determinado, no tom geral das matérias escritas, nos “especialistas” ouvidos e personagens citados, ultrapassou todo o limite da razoabilidade jornalística especialmente com a capa da revista Veja publicada (e antecipada) na última quinta-feira, baseando-se em supostas declarações de um doleiro que assinou um acordo de delação premiada e com a credibilidade no mínimo altamente questionável se levarmos em conta outros acordos já quebrados por ele, outras histórias passadas inventadas e a própria, digamos, “natureza” da sua “profissão”.

A capa, provavelmente o panfleto mais caro da campanha de Aécio Neves – cabe lembrar que um ex-diretor da revista foi para a campanha do tucano – é digna do material mais sórdido que se pode produzir numa disputa eleitoral. Sem nenhuma prova, Veja tentou única e exclusivamente minar a candidatura de Dilma Rousseff nas vésperas do pleito. E recebeu resposta maiúscula e imediata da presidenta no seu último programa eleitoral. Seu alcance, muito além dos leitores em si da matéria, mas atingindo todos os pontos de venda de bancas, shoppings, supermercados e tudo mais, é típico material de campanha, prontamente condenada pelo TSE.

Ainda que Alberto Youssef tenha, de fato, falado o que a revista supostamente divulgou, isso novamente não prova nada. Apenas acusações vazias que a revista tratou de usar por um histórico já vexatório de capas e matérias desde que o PT assumiu o poder, indo contra sua história de, até os anos 90, ser uma revista equilibrada, de típica classe média centro-direita, que ainda praticava jornalismo. A Folha de S. Paulo encampou a denúncia, repercutida no Jornal Nacional pós-debate na Globo, dando muito espaço para a resposta de Dilma, veiculada na campanha e no próprio debate.

Como jornalista, independente de qual função você exerça e em qual veículo trabalhe, é vergonhoso ignorar a tentativa inaceitável e anti-democrática da revista apenas como “mais um deslize de uma mídia que, ‘todos sabem’, persegue o governo”. Sem dizer no pouquíssimo questionamento que as “acusações” de Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, sob sigilo de justiça, tem recebido. Cabe, oportunamente, lembrar breves trechos do código de ética jornalística:

Art 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.
Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:
I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;
(…)
III – obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração;
Art. 12. O jornalista deve:
I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;
II – buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;

Fica muitíssimo claro, portanto, como a Veja atuou e atua, considerando ainda os interesses mais do que deliberados por trás da matéria. O recente episódio nos leva de volta para o necessário debate da regulação dos meios de comunicação no Brasil, sistematicamente adiada pelos governos com medo da represália da mídia, que se apressa em engrossar o coro de “censura”, “ditadura” e “controle”, esquecendo seu próprio passado de apoio à ditadura e a própria natureza da proposta de regulação.

É claríssimo que a grita geral dos seus donos baseia-se num princípio muito transparente: evitar a perda de todos seus privilégios acumulados durante décadas. Acabar com o feudo e com a carta branca que possuem para fazer literalmente o que bem entenderem, incluindo a profunda precarização do trabalho, conhecida muito bem pelos jornalistas, seja nos salários exíguos, muitas vezes abaixo do piso e tabela base, seja nas absurdas condições de terceirização, contratando como pessoa jurídica profissionais que ficam sem nenhum direito trabalhista. Farra que deve acabar em breve.

Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Argentina, Uruguai, Reino Unido, França, Espanha, Portugal…para citar alguns exemplos, todos possuem algum tipo de regulação e/ou regulamentação (importante diferenciação, aqui) sobre os meios audiovisuais e impressos. No Brasil, o coletivo Intervozes promove um debate sério sobre a questão, entre tantas outras entidades, sindicatos e a federação dos jornalistas.

Dilma não me parece disposta a arcar com os custos enormes que uma proposta concreta sobre o tema traz. Se o PT já é acusado, de modo acéfalo e delirante pelos pitbulls midiáticos de plantão de realizar “censura” e “perseguir” – tadinhos – a mídia, é de se imaginar o custo de imagem imediato que algo assim acarreta. O problema é só um: ele precisa, urgentemente, ser enfrentado. As eleições de 2014 foram o estopim definitivo para demonstrar isso. Não só a regulação, mas a revisão de todas as concessões audiovisuais.

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Não é preciso ser muito esperto para saber que pouquíssimas famílias controlam a mídia no país. Entre as dezenas de matérias disponíveis, cabe um resuminho da BBC, de 2011:

O mercado de mídia no Brasil é dominado por um punhado de magnatas e famílias.

Na indústria televisiva, três deles têm maior peso: a família Marinho (dona da Rede Globo, que tem 38,7% do mercado), o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Edir Macedo (maior acionista da Rede Record, que detém 16,2% do mercado) e Silvio Santos (dono do SBT, 13,4% do mercado).

A família Marinho também é proprietária de emissoras de rádio, jornais e revistas – campo em que concorre com Roberto Civita, que controla o Grupo Abril (ambos detêm cerca de 60% do mercado editorial).

Famílias também controlam os principais jornais brasileiros – como os Frias, donos da Folha de S.Paulo, e os Mesquita, de O Estado de S. Paulo (ambos entre os cinco maiores jornais do país). No Rio Grande do Sul, a família Sirotsky é dona do grupo RBS, que controla o jornal Zero Hora, além de TVs, rádios e outros diários regionais.

Famílias ligadas a políticos tradicionais estão no comando de grupos de mídia em diferentes regiões, como os Magalhães, na Bahia, os Sarney, no Maranhão, e os Collor de Mello, em Alagoas.

Acrescente aí a família Saad, da Bandeirantes. Cada grupo desse controla não só os “veículos principais”, como dezenas de afiliadas (117 só da Rede Globo), jornais, rádios, revistas e sites Brasil e mundo afora. Lembre-se das dezenas de concessões dadas para estas famílias antes, durante e depois da ditadura militar, concessões que duram décadas e asseguram o monopólio. Lembre-se do dono da Jovem Pan e um dos sócios do Grupo Estado em passeata pró-Aécio, do dono do Estado de Minas no palanque com o candidato tucano…os exemplos são inúmeros.

Em ótimo artigo, Venício Lima lembra:

Apesar de a Constituição rezar que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (parágrafo 5º do artigo 220), apenas uns poucos grupos privados controlam os meios de comunicação diretamente ou indiretamente através de “redes” de afiliadas cuja “formação” não obedece a qualquer regulação.

É por isso que, apesar de a Constituição rezar que “os Deputados e Senadores não poderão firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes” (alínea ‘a’ do inciso I do artigo 54), muitos deles mantêm vínculos com empresas privadas concessionárias do serviço público de radiodifusão, numa viciosa circularidade que inviabiliza a aprovação de projetos que regulem as normas e princípios constitucionais sobre a comunicação social no Congresso Nacional.

É por isso que, apesar de a Constituição rezar que as outorgas e renovações de concessões, permissões e autorizações para o serviço público de radiodifusão sonora e de sons e imagens devem “observar o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal” (artigo 223), a imensa maioria das concessões, permissões e autorizações de radiodifusão no país continua a ser explorada por empresas privadas.

Outro debate necessário é a destinação de verbas de publicidade do governo federal. Ainda que a Globo tenha diminuído sua participação em 11 pontos percentuais desde 2000, a TV recebeu R$ 5,9 bilhões do governo neste período. Veja os gráficos (clique para ampliar):

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A distribuição dos meios que mais recebem recursos revela que a TV aumentou sua fatia, enquanto os jornais encolheram (clique para ampliar):

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Matéria do Terra com Lula, no final do seu mandato, em 2010, mostra, ainda na época, o que Lula pensava e o que planejava para o período 2010-2014. Diz o texto:

Para Lula, críticas à falta de liberdade na área de comunicação, mais do que injustas, não têm sentido. Ele diz duvidar que outros países tenham mais liberdade de informação do que o Brasil:

-Nesse momento do Brasil, falar em falta de liberdade de comunicação? Eu duvido. Eu quero até que vocês coloquem em negrito isso aqui. Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo.

O presidente se mostra disposto a um duro embate com setores da mídia:- A verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais.

“No Brasil – foi o Cláudio Lembo que disse isso para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada”, cobra Lula.

O presidente sinaliza que mudanças nessa área deverão ser discutidas no Congresso Nacional e poderão ser viabilizadas no próximo governo:

-O Brasil, independentemente de que de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável.

Avançamos nada ou muito pouco (apesar da regionalização, outro fator muito importante, veja detalhes no site da SECOM). Enquanto o governo se recusar a levar adiante esse debate, pedido por entidades de classe e movimentos sociais, continuaremos refém de meia dúzia de famílias que tem um lado muitíssimo claro, apenas não tem a decência de assumi-lo antes, durante ou depois de qualquer eleição.

Crimes cometidos pela imprensa, como é o caso de Veja, não podem ficar impunes. O que pode parecer óbvio para nós, jornalistas, nem sempre o é para a maioria da população. Mesmo entre os profissionais observa-se um surto de omissão misturada com o receio de “represália dos patrões”, o conhecido “passaralho”, o famoso “cale a boca e cumpra as regras da empresa”. Algo pouco digno do ofício jornalístico e muito mais próximo da cretinice absoluta, do esvaziamento de ideias e da velha oligarquia que domina o Brasil – um clichê tão batido quanto incômodo e verdadeiro.

Diante de tudo isso, a omissão, se algum dia o foi, já não é mais uma opção aceitável. De todos os lados envolvidos.

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Política & Economia

O que realmente explica a vitória do PT no Nordeste

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Novamente, após a vitória da presidenta Dilma Rousseff pela reeleição com 3,5 milhões de votos a mais que o adversário, Aécio Neves, a xenofobia e o ódio gratuito contra o Nordeste, decisivo no pleito com mais de 70% dos votos para Dilma, voltou a aparecer nas redes sociais.

Velhas ideias elitistas de separação “norte” e “sul” e “uso político” do Bolsa Família – apesar de São Paulo ser o segundo estado que mais recebe recursos do Bolsa Família (atrás somente da Bahia) e ter se mostrado reduto absoluto do PSDB, diga-se – ecoaram. Não somos um país dividido, mas um mosaico, como mostra o gráfico das eleições presidenciais nos municípios, abaixo. Dilma também venceu em Minas Gerais, superando Aécio Neves em sua própria “casa” – uma resposta contundente do povo de MG ao seu ex-governador e atual senador – além de vencer no Rio de Janeiro e alcançar votações muito próximas no Espírito Santo e Rio Grande do Sul.

Mas o que realmente explica a massiva votação que o PT recebe do Nordeste nas últimas 4 disputas pela presidência? O Bolsa Família – programa em que 76% das pessoas que recebem trabalham com carteira formal e mais de 1,6 milhão de famílias já abriram mão espontaneamente do benefício – decifra sozinho esse “fenômeno”? Seria a popularidade absurda de Lula, um pernambucano?

Os dados e fatos abaixo, compilados por mim em reportagens diversas dos últimos 4 anos (links aqui), mostra o quanto o estado se desenvolveu absurdamente na economia, na educação, na saúde, nos investimentos que atrai, na força do seu mercado, na inclusão social e mudança da pirâmide de renda. O quanto o governo do PT (2003-2014) transformou a região muito, mas muito além do Bolsa Família, beneficiando todos os extratos da população nordestina e colocando no mapa uma região historicamente negligenciada.

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Leia também: A responsabilidade jornalística e a regulação da mídia em xeque

É claro que o Nordeste ainda tem muito para avançar, no controle da violência, nos indicadores sociais e econômicos e cresce acima da média brasileira justamente porque passou tanto tempo esquecido e tem tanto para melhorar. Responsabilidade compartilhada entre a União, estados e municípios.

O mérito inegável do Partido dos Trabalhadores, que uma parcela felizmente minúscula da população, repleta de ódio e estupidez, prefere ignorar, é colocar a região de volta no caminho de protagonista do Brasil.

 Emprego, renda, crescimento e desenvolvimento social

  •  Em 2002, 4,8 milhões de nordestinos tinham emprego formal. No final do ano passado, eram 8,9 milhões.
  • Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre 2001 e 2012, o nordestino teve o maior ganho de renda entre todas as regiões, o que fez com a participação da base da pirâmide social caísse 66% para 45% –ou seja, mais de 20 milhões de pessoas deixaram a pobreza.
  • Com mais de um quarto da população brasileira, a classe média no Nordeste foi engrossada em 20 pontos percentuais na última década, alcançando 42% dos habitantes.
  • A classe A também ganhou agregados e saltou de 5% para 9% desde 2002.
  • O poder de compra dos nordestinos já chega quase a 450 bilhões de reais, valor que corresponde à economia de países como Peru e República Checa.
  • O programa de cisternas levou mais de 1 milhão de reservatórios de água para pessoas carentes.
  • O Luz Para Todos beneficiou mais de 7 milhões de pessoas somente no Nordeste, com mais de R$6 bilhões de investimento na região.
  • Na última década, entre 2003 e 2013, o Nordeste cresceu mais do que a média nacional, com avanço de 4,1% ao ano, enquanto o país ficou na marca de 3,3%. Números divulgados pelo Banco Central (BC) apontam que a região responde por 13,8% da economia nacional.
  • Isso representa um crescimento de 41% em 10 anos, ante 33% da média nacional.
  • Em 2012, por exemplo, a economia local cresceu o triplo da brasileira.
  • Segundo cálculos do Banco Central, a economia nordestina cresceu 2,55% no segundo trimestre de 2014, na comparação com o primeiro, que já havia mostrado expansão de 2,12%.São taxas sem paralelo no restante do país. Nenhuma das demais regiões obteve dois trimestres consecutivos de alta, e as taxas, mesmo quando positivas, foram bem mais modestas. Pela medição do IBGE, a economia do Brasil encolheu 0,2% de janeiro a março e 0,6% de abril a junho.
  • O Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste crescerá 2,6% em 2014, muito acima da média nacional.
  • O Nordeste criou 1,04 milhão de postos de trabalho no primeiro trimestre de 2014, o que representa quase 60% do total de vagas abertas em todo o Brasil, segundo dados do IBGE.
  • Além de ter apresentado o maior resultado em termos de geração de vagas no primeiro trimestre de 2014, a formalização na região também é forte e tem colaborado para a intenção de consumo se manter em níveis elevados, avaliou Bentes. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram alta de 2,2% no emprego formal no Brasil em 12 meses até abril. No Nordeste, o avanço é de 3,3%, com destaque para o comércio e os serviços.
  • Levantamento da Firjan aponta que, na última década, 97,8% dos municípios nordestinos apresentaram crescimento do IFDM (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal).

 Educação e Saúde

  •  Em 2000, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o Nordeste tinha 413.709 universitários. Em 2012, esse número saltou para 1.434.825. Com isso, a região ultrapassou o Sul e passou a segunda com maior número de estudantes do ensino superior –20% do total–, atrás apenas do Sudeste.
  • Nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, 18 universidades federais foram abertas –sete delas no Nordeste, todas fora das capitais.
  • A região tem conseguido fazer subir o número de pessoas com 18 anos ou mais nas universidades. Formados, eles passarão a ganhar 15,7% a mais por ano de estudo, segundo o Data Popular.
  • O SUS [Sistema Único de Saúde] está presente em todos os municípios nordestinos, principalmente com suas equipes de PSF [Programa de Saúde da Família], e o ensino fundamental é praticamente universalizado.

 Bolsa Família

  •  Em 2013, o Bolsa Família deve repassar 25 bilhões de reais para mais de 13,8 milhões de famílias, metade delas no Nordeste. Na região, quatro em cada dez famílias recebem o benefício social, com valor médio de 152 reais por mês.
  • De acordo com estudo recentemente divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Bolsa Família tem efeito multiplicador de R$ 2,40 sobre o consumo final das famílias, por isso setores como comércio e serviços – formado no Nordeste, principalmente por pequenos negócios -, que atendem esse consumidor final, são os mais beneficiados. Além disso, o levantamento mostra que cada real investido no programa gera um retorno de R$ 1,78 para a economia.

 Agricultura

  •  Até 2022, segundo projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Brasil plantará cerca de 70 milhões de hectares de lavouras e a expansão da agricultura continuará ocorrendo no bioma Cerrado. Somente a região que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia terá, nesse mesmo período, o total de 10 milhões de hectares, o que representará 16,4% da área plantada e deverá produzir entre 18 a 24 milhões de toneladas de grãos, um aumento médio de 27,8%. Estamos falando do Matopiba, região considerada a grande fronteira agrícola nacional da atualidade.
  • O Matopiba é peça-chave para o desenvolvimento da agricultura e para a segurança alimentar do País. “O investimento na produção sustentável na região do Matopiba será fator de segurança alimentar para o Nordeste, assolado por secas que matam as plantas de sede e os animais de fome”, apontou o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, que prevê com o crescimento do agronegócio um valioso desenvolvimento social para a região.
  • A agricultura familiar é responsável pela produção dos principais alimentos consumidos pela população brasileira: 84 % da mandioca, 67% do feijão; 54 % do leite; 49 % do milho, 40 % de aves e ovos e 58 % de suínos.
  • No Nordeste a agricultura familiar é responsável por 82,9 % da ocupação de mão de obra no campo. 

 Tecnologia

  •  O Porto Digital, em Recife (PE), já perdura por mais de uma década gerando cerca de 6 mil empregos em quatro centros de pesquisa de tecnologia, quatro multinacionais, além das startups que também estão sediadas ou possuem escritórios no parque. Foram aproximadamente R$ 90 milhões investidos na reforma da zona portuária da capital.
  • De acordo com um estudo feito em 2010, o Porto Digital fatura quase R$ 900 milhões por ano, engloba quase 500 empreendedores em seu parque e paga salários acima de R$ 2,5 mil. A maior parte de sua mão de obra possui ensino superior e pelo menos um segundo idioma. Atualmente, o Porto Digital se caracteriza por oferecer alta taxa de empregos ao público jovem: 35% dos trabalhadores de lá têm entre 17 e 25 anos.
  • Na maior parte, as empresas que estão instaladas no parque são voltadas para o desenvolvimento de software para gestão empresarial, soluções para o mercado financeiro e para a área de saúde, mas também há startups que desenvolvem games, sites e intranets empresariais e ainda controle de trânsito e mecanismos de segurança patrimonial.
  • Grandes empresas como Microsoft, IBM, Samsung e Motorola possuem bases instaladas no parque, sendo que a Motorola mantém o único centro de verificação e integração de teste de software para celulares da marca no mundo – um investimento de US$ 20 milhões da fabricante estadunidense.
  • No parque, a maior parte das companhias atua na oferta de serviços de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) – são 147 empresas neste setor, das pouco mais de 200 que têm base no pólo. 89% das empresas no Porto Digital são matrizes.
  • Campina Grande, na Paraíba, é um dos 74 pólos tecnológicos do país, mapeados pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anproteca). Concilia todos os predicados necessários: uma centena de empresas de TI, mil empregos gerados e o maior número proporcional de PhDs do Brasil – 600.
  • Nos últimos anos, o setor alavancou para 43 países as exportações de software e hardware, que vão de bancos de dados de alta complexidade às mais simples recicladoras de cartuchos. Entre seus clientes estão nomes como HP, Nokia, Petrobras e Interpol, a polícia internacional para o crime organizado. 
  • Ao menos 250 novas mentes aportam todos os anos para preencher as vagas de Ciência da Computação e Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Nos próximos cinco anos, um contingente de quase mil cérebros inundará o mercado local de tecnologia da informação (TI).

Consumo e crédito

  •  Pesquisa do Data Popular, citada pela EXAME, aponta que o potencial de vendas no Nordeste, durante os próximos 12 meses, soma 1,2 milhão de imóveis, 1,6 milhão de carros e 1 milhão de motos. O levantamento ainda indicou que os nordestinos estão cada vez mais sofisticados. A região concentra a maior intenção de compra do país em itens como notebooks, smartphones e tablets.
  • Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que a Intenção de Consumo das Famílias (ICF) caiu 7,4% na média do Brasil quando se compara junho deste ano com igual mês de 2013. Nesta mesma base, a ICF cresceu 4,3% no Nordeste, para 135 pontos, o nível mais alto entre as regiões e o único resultado ainda crescente.
  • O Nordeste foi a região em que as operações de crédito das empresas mais cresceram entre 2007 e 2011. Dados do Banco Central apontam que, enquanto que no Brasil foi registrado um aumento de 126%, chegando a R$ 1,044 trilhão, as empresas nordestinas responderam por uma expansão de 200%, somando R$ 121 bilhões.
  • No que se refere ao pequeno varejo e atacado, o Nordeste detém 27% do número de lojas do Brasil, concentradas na Bahia, Pernambuco e Ceará, que juntas somam 69% do faturamento da região.
  • Salvador ocupa a quinta posição do ranking de Potencial de Consumo, IPC MAPS 2011, ficando atrás de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba, com R$ 38 bilhões de potencial de consumo.
  • A indústria de bebidas também está aquecida na região, onde o consumo de cerveja cresceu 10,2% desde 2010, ante 4,9% no resto do país.

 Investimento, mercado e infraestrutura

  • A transposição do Rio São Francisco está 63% concluída, empregando 11.500 pessoas e beneficiará 390 municípios em quatro estados: Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte em 470km de canais.
  • Dezenas de empresas já estão realizando ou realizam investimentos significativos na região, com instalação de novas fábricas, polos de desenvolvimento e novos projetos.
  • Em Goiana, a 60 quilômetros de Recife, no norte de Pernambuco, um novo polo farmacoquímico deve ser concluído até 2016. Numa área de 287 hectares, estão sendo instaladas 11 empresas de remédios e biotecnologia — um investimento total de 1 bilhão de reais que criará 1443 novos empregos.
  • Entre as companhias que vão desembarcar na região estão Hemobrás, Normix, Vita Derm, Hair Fly, Rishon, Brasbioquímica, Luft Logistics, White Martins, Quantas Biotecnologia, Biologicus e Multisaúde.
  • No início do ano, a Ambev inaugurou uma nova fábrica na mesma cidade, um investimento de 725 milhões de reais que gerou 1 000 empregos.
  • Na Bahia, a Heineken amplia a operação da fábrica de Feira de Santana, enquanto o  Grupo Petrópolis, fabricante das cervejas Itaipava e Petra, abriu em novembro sua primeira fábrica nordestina em Alagoinhas e uma segunda fábrica em Itapissuma (PE). A empresa já está contratando para os 600 postos que serão criados.
  • Um dos segmentos mais favorecidos pelo aumento de renda no Nordeste foi a indústria de alimentos e bebidas, o que tem atraído empresas como Nissin Ajinomoto, Mondelez, Natto e Companhia Brasileira de Sorvetes. Só em Pernambuco, 22 grandes fabricantes desembarcaram nos últimos seis anos.
  • E oito novas fábricas ficarão prontas até o ano que vem — um investimento total estimado em 2,8 bilhões de reais, com a geração de mais de 6 500 empregos diretos. A pernambucana GL Empreendimentos — de massas e biscoitos — inaugura em julho sua nova indústria de alimentos, um investimento de 143 milhões de reais.
  • Com grande potencial de ventos, o Nordeste é o principal centro da produção de energia eólica no Brasil. Apesar de nova, essa é a fonte de energia que mais cresce no país. “Os investimentos só começaram há cerca de quatro anos, mas já cresceram 1 500%”, afirma Elbia Melo, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). A região é responsável por 78,3% da capacidade de geração de energia eólica no Brasil, com 132 parques considerados aptos, em operação ou em testes. Além deles, 58 parques eólicos estão em construção e outros 263 já foram contratados nos leilões energéticos. A previsão é que a energia eólica gere 80 000 postos de trabalho em toda a sua cadeia produtiva só no Nordeste.
  • No ano passado, Camaçari recebeu a fábrica da gigante chinesa  JAC Motors, um investimento de 900 milhões de reais que permitiu a geração de 3 500 empregos diretos e 10 000 indiretos.
  • A indústria automotiva decolou no Nordeste com o anúncio da instalação da fábrica da Fiat em Pernambuco, há três anos. Para garantir a produção de 40% da demanda de peças e componentes da montadora, está sendo criado o Parque de Fornecedores no Polo Automotivo de Goiana, na região metropolitana de Recife.
  • São 16 empresas — globais e nacionais — que ocuparão 12 edifícios nos quais serão produzidas 17 linhas de componentes. Em uma área construída de 270 000 metros quadrados, o Parque de Fornecedores ficará junto à fábrica da multinacional italiana, em um modelo integrado de produção.
  • Ao todo, o Polo Automotivo vai gerar 8 000 empregos diretos até o fim de 2015. Cerca de 4 000 dessas vagas serão criadas apenas nas fornecedoras de autopeças, que reúnem empresas como Magneti Marelli/Faurecia, Lear, Adler e Pirelli. A Fiat, por sua vez, vai contratar 600 profissionais de nível superior ainda neste ano.
  • Estimativas que apontam investimentos na casa de R$ 6 bilhões no segmento de hotelaria e turismo para a região. O FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste), administrado pelo BNB (Banco do Nordeste do Brasil) programou investimento de mais de R$ 500 milhões à edificação de novos estabelecimentos do setor hoteleiro.
  • A cadeia produtiva do petróleo também está aquecida no Nordeste, e a indústria naval é uma das que mais têm contratado. Com investimentos simultâneos ocorrendo em diversos estados, o setor deverá gerar cerca de 15 000 empregos diretos na região, com boas oportunidades para engenheiros navais, cujos salários estão cotados entre 5 000 e 14 000 reais.
  • O grande símbolo do deslocamento da indústria naval do Sudeste para o Nordeste é o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), sediado no Complexo de Suape, em Pernambuco, desde 2008 e com uma carteira de investimentos de 8,1 bilhões de dólares. O estaleiro conta com 6 200 empregados e deve chegar a 7 000 até o fim deste ano.
  • O Porto de Suape, que teve um aporte de R$ 1,2 bilhão em investimentos, cresceu 26% em 2012 e empregou 60 mil pessoas.

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Política & Economia

A esquerda sofre a maior derrota nas eleições 2014

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Seja qual for o resultado do segundo turno, o que se entende por “esquerda brasileira” já passa pelas eleições de 2014 como a maior derrotada do pleito. Por mais que a polarização seja questionada, dada a guinada para o centro de PSDB e PT, a verdade é que existe, sim, diferenças essenciais entre os principais partidos do país.

No final das eleições de 2010, produzi um especial com alguns artigos. Entre eles, “A agonia da extrema-esquerda”, “A encruzilhada da direita”“A elasticidade do efeito Marina”“O jeito Aécio de governar” e “Além de Lula”.

Considerando apenas os partidos de esquerda, a queda é brutal: o “fenômeno” Heloísa Helena teve 6,5 milhões de votos em 2006 (terceiro lugar naquelas eleições), quatro vezes mais que Luciana Genro, também pelo PSOL, conseguiu em 2014. Apesar de todo o barulho nas redes sociais, de toda a sua participação incisiva nos debates, levantando pautas que nenhum outro candidato, com exceção de Eduardo Jorge, poderiam encarar abertamente: aborto, LGBT, drogas, etc. Em termos de corrida presidencial, o PSOL encolheu absurdamente em 8 anos. Na conta de 2010, os partidos tradicionais de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCO) somaram 1,2 milhão de votos.

Neste pleito, Luciana Genro, Zé Maria, Mauro Iasi e Rui Costa Pimenta, somados, alcançaram 1,8 milhão de votos, puxados pelo bom desempenho de Luciana (o dobro de Plínio em 2010, ainda que quatro vezes menos que Heloísa Helena em 2006).

Outras observações:

  • Dilma perdeu 4,4 milhões de votos (43,2 contra 47,6 em 2010)
  • O PSDB somou 1,7 milhão de votos a mais (34,8 de Aécio contra 33,1 de José Serra em 2010)
  • Marina Silva, considerando o aumento de 7 milhões de eleitores, permaneceu praticamente estagnada, com leve alta, saindo de 19,6 milhões em 2010 para 22,1 em 2014.
  • Impressiona a adesão que o discurso homofóbico de Levy Fidelix conquistou, saindo de 57,9 mil votos em 2010 para 446,8 mil em 2014, aumento de quase 800%, disparado a maior diferença entre o desempenho anterior e o atual.
  • Pastor Everaldo e seu discurso neo-liberal freak angariou 780 mil votos. Eduardo Jorge, que representa um partido confuso, que poderia ser classificado de centro, apesar de algumas posições progressistas, ficou com 630 mil votos.

Se tirarmos a excrescência do crescimento exponencial de Fidelix, o PT tem muitos motivos para repensar algumas práticas, sua relação histórica com a militância e as centrais sindicais, que se afastaram do partido durante o governo Dilma. A derrota clamorosa do partido em Pernambuco, terra de Lula, onde não elegeu sequer um deputado federal, é o sintoma mais evidente.

O desempenho pífio em São Paulo, onde Geraldo Alckmin se reelegeu com quase 60% dos votos válidos, Alexandre Padilha alcançou somente o terceiro lugar, com 3,8 milhões de votos, José Serra venceu Eduardo Suplicy para o Senado, acabando com três mandatos consecutivos do senador e Dilma amargou uma diferença de 44,2% para Aécio contra 25,8% dela, ou 4 milhões de votos a menos, representando quase toda a perda de 2010 para cá, é muito significativo. Na câmara estadual, apesar dos 22 deputados eleitos pelo PSDB e 14 pelo PT, além dos 14 deputados federais do PSDB e 10 do PT, os tucanos alcançaram a maioria dos deputados campeões de votos. No total, o PT foi o que mais perdeu deputados federais em todo o país, 18. O PSDB o que mais ganhou, passando de 44 para 55.

Em 2010, no texto sobre Marina Silva, afirmei:

Qualquer afirmação sobre a sua influência nas eleições, portanto, precisa ser cuidadosa. Marina tomou uma nova frente, com certeza fez muito mais do que imaginou que fosse conseguir. Ao contrário de Heloísa Helena, que sumiu do mapa político nacional em 4 anos e amargou o fracasso de não conseguir se eleger sequer senadora por Alagoas em 2010, tudo indica que Marina seguirá tendo papel importante na vida política nacional e, provavelmente, firmará sua posição como liderança absoluta do ambientalismo no Brasil.

É pouquíssimo provável que aceite algum ministério no governo Dilma. Se conseguir manter-se atuante e agregar novas forças ao jogo político (que ela reluta em fazer), sua candidatura pode ganhar corpo interessante se quiser vir novamente em 2014. Ficando no PV ou não.

Independente das possibilidades, Marina tem tempo e é inteligente o suficiente para definir os melhores passos da sua vida política. Sua presença de destaque em 2010, indubitavelmente, foi positiva para o país. Ela pode conseguir um pouco mais.

O problema é que Marina não fez absolutamente nada em 4 anos. Seu maior feito foi ter sido incapaz de reunir as assinaturas necessárias para a criação do seu partido, Rede Sustentabilidade, num país em que praticamente qualquer um consegue isso. Sua opção foi aceitar a posição de vice no PSB de Eduardo Campos, gerando uma chapa curiosa, em que as propostas assinalam para um partido “socialista de direita”. Apesar de toda a comoção natural com a morte trágica de Eduardo, sua crescida súbita nas pesquisas, chegando a “empatar” com Dilma no primeiro turno e supostamente vencê-la no segundo, de acordo com os institutos, Marina Silva acabou tendo o mesmo desempenho de 2010. Testado e reprovado em duas ocasiões consecutivas, incluindo a atual eleição com “tudo favorável”, é razoável afirmar que este foi o fim das pretensões maiores de Marina no quadro político nacional.

O “súbito crescimento” de Aécio, na verdade, é menos devido a sua notória melhora nos debates (cabe lembrar que Aécio jamais havia participado de qualquer debate televisivo nas suas eleições anteriores para governador e senador), evoluindo muito do primeiro ao último, da campanha em si e na imagem que procurou vender, mas principalmente na cota histórica que o PSDB sempre teve, além do sentimento anti-PT generalizado. Ainda que tenha crescido em comparação com Serra de 2010, como já dito, o desempenho de Aécio é bem inferior ao de Alckmin em 2006, que conquistou 40 milhões de votos (sem uma terceira força tão polarizada como Marina Silva, diga-se).

Vejamos o que escrevi sobre Aécio em 2010:

Resta Aécio Neves. A raposa imprevisível. O único nome da direita capaz de fazer frente ao governo em 2014.

Aécio tem trunfos: o fator Tancredo Neves, os 8 anos de governo em Minas, segundo maior colégio eleitoral, com maciça aprovação, a menor rejeição que seu nome tem em São Paulo comparado a Serra e Alckmin, a capacidade de transmitir um conceito de “centro”, dado ao “morde e assopra”, a fazer oposição “generosa e firme”. Se aproximando de Lula e batendo de leve quando achava que tinha de bater. A velha malícia mineira.

Neves acaba de dar entrevista para a Folha defendendo uma “refundação do PSDB”. Quer que o partido “assuma o seu passado sem vergonha, realce a importância que as privatizações tiveram para o país, defina com larga antecedência um plano de governo”. O que posso dizer é: boa sorte com isso. Aécio será, disparado, o principal nome da oposição no governo Dilma. Aparecerá muito na mídia, que “o adora”. Preparando o terreno para 2014. Aécio pode ainda, dada sua forte relação com líderes importantes do PSB – a terceira força do governo atual, com 8 governadores, etc – cooptar o PSB para o lado do PSDB, criando uma coligação mais forte contra PT/PMDB.

É exatamente a situação que se assinala agora: a ala do PSB mais a favor de uma aliança com Aécio tende a vencer a opção do presidente do partido, Roberto Amaral. Marina, que é historicamente do PT, ministra de Lula, deve apoiar Aécio impondo condições, tentando conquistar algo para além da neutralidade declarada em 2010, que não gerou capital político nenhum para ela. No entanto, é altamente questionável a capacidade de transferência de votos pessoal de Marina Silva para o seu eleitorado, tão heterogêneo, tão misto, com interesses e motivações diversos. O único político capaz de realmente garantir transferência de votos no Brasil hoje é Luís Inácio Lula da Silva. Como 2010, quando a maioria dos votos de Marina migrou para Serra, deve acontecer o mesmo em 2014.

Em suma, o segundo turno coloca, de novo, PT e PSDB frente a frente, lidando com suas heranças, feitos e erros acumulados nos últimos 20 anos. Assusta o quanto o sentimento anti-PT, baseado em generalismos e platitudes que não encontram corpo no mundo real, como a suposta pecha de “corrupto”, algo até brando quando comparado o histórico de corrupção de FHC, o mensalão mineiro, os comprovados escândalos do metrô em SP, os desvios de Aécio Neves e Anastasia em Minas Gerais na saúde e educação, o aeroporto para a família de Aécio em Cláudio (MG) e por aí afora. Nem o próprio Aécio parece capaz de abordar o que fez como Senador, num mandato nulo em que dedicou a tecer críticas genéricas ao governo e viajar para o Rio de Janeiro. Resta as suas “realizações no governo de Minas Gerais”, altamente questionáveis, como o aumento absurdo da dívida do estado e o aumento superior a 52,3% nos índices de homicídio entre 2002 e 2012, contra a sua balela de “choque de gestão”.

Nada indica que o segundo turno será capaz de subir o nível e debater diferenças de propostas ao invés de corrupção e alianças espúrias. As “mudanças” exigidas pelas ruas em 2013 tiveram pouco ou nenhum impacto prático nos governadores e senadores já eleitos, nos segundos turnos desenhados e nos deputados vencedores. Como afirma o Diap, o Congresso será o mais conservador desde 1964, o que dificulta bastante a possibilidade de mudanças reais e reformas estruturais nos próximos 4 anos, seja com Dilma ou Aécio.

É a prova de que sobra muito oba-oba e um show de “reivindicações” sem nenhuma profundidade, faltando muita educação política, consciência histórica, noção de pacto federativo e penetração nas camadas mais profundas da política e administração pública na população em geral. Com isso, perdemos todos.

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