A coletiva da Vale e o cinismo do capitalismo

Acabou agora a coletiva da Vale, 22 dias após o rompimento da barragem em Mariana. Repito: 22 longos dias. E daí lembro de uma matéria da HSM (uma revista que tem como principal público a elite executiva do Brasil) que li ontem. Caso os dirigentes da Vale tivessem lido a matéria (o que é provável), veriam lá: Por que as empresas continuam falhando na gestão de crises? Porque falham em 5 pontos essenciais:

1) Admitir rapidamente que existe um problema e que ele precisa ser examinado com cuidado. (algo que a Vale não fez)
2) Dedicar tempo para conhecer os fatos. (sem ser tempo demasiado).
3) NÃO NEGAR O ENVOLVIMENTO/RESPONSABILIDADE da empresa (algo que a Vale continua fazendo).
4) Não subestimar a magnitude do problema (algo que a Vale tmb segue fazendo).
5) Comprometer-se a realizar uma avaliação rápida, mas completa. (algo que não fizeram).

O que se tira da coletiva é o autêntico caldo do cinismo, que é, talvez, o alimento basal do capitalismo. O cinismo consiste em fazer o público acreditar que as suas ações de “redução de dano”, “responsabilidade” e “sustentabilidade” (essa palavrinha que nos acostumamos) são na verdade esforços hercúleos empreendidos por uma empresa ciente do seu papel e que faz tudo que está ao seu alcance para não só minimizar os impactos da sua atividade, como ir além, entregando muito mais do que recebe. Tudo de maneira extremamente bem publicizada, lavada, veiculada e sorridente.

Este é o roteiro que toda grande empresa, no Brasil e no mundo, segue. Na “crise” ou fora dela. Diante de um desastre dessa magnitude ou no dia a dia. O capitalismo precisa do cinismo institucional porque é fundamental para a sua manutenção que ele conquiste os corações e mentes das pessoas.

É fundamental que ele consiga comprar não só a aprovação, como a adoração do “público”. E isto acontece tanto de maneira descarada quanto sutil. Fazer o “stakeholder” (outra palavrinha mágica do mercado) elevá-lo ao status de deus, a ponto de defendê-lo em todas as situações possíveis, incluindo as mais absurdas. Algo que estamos vendo o tempo todo desde o primeiro dia do rompimento da barragem.

É uma luta inglória em que o poderio econômico amplifica as falácias ao grau da histeria. Cada bravata é proferida com uma normalidade assustadora porque já se sabe da complacência do lado de lá. Cada falha estrutural apontada é recebida com um desprezo técnico disfarçado de correção formal. Uma das dirigentes da Vale chega a dizer que “a presença de amido no caldo de rejeitos pode ajudar no processo de recuperação do Rio Doce”. Um rio que, comprovadamente, está morto e estéril. O mesmo caldo que destruiu todo tipo de vida que encontrou pelo caminho. A Vale é uma das maiores empresas do mundo. Assim como a BHP. Com a “nanica” Samarco, representam R$ 869 bilhões em ativos totais. A luta está ganha na origem. É verdade que o mundo vem mudando e o Brasil também. Os acontecimentos desta semana mostram isso.

Mas também é verdade que “catástrofes são transformadas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento”. Essa frase de Marshall Berman, que gosto sempre de repetir porque, creio, resume de forma brilhante o capitalismo. Acontece o tempo todo. Está acontecendo agora no Rio Doce e no Espírito Santo. Aconteceu na crise de 2008 e em todas as crises anteriores. Aconteceu em todo tipo de “desastre” em todo lugar do mundo, desde sempre.

O cinismo é o rejunte do capitalismo. É o que dá liga, forma e conteúdo para todas as suas estratégias, muito bem embaladas para consumo imediato. A própria ideia de “cinismo” fica comprometida quando estamos permanentemente nos deliciando com ele. Nós somos os mortos.

Maurício Angelo

Jornalista e escritor. Capixaba, mineiro por formação, radicado em Brasília. Cubro temas relacionados a conflitos socioambientais, políticas públicas, Amazônia, mineração e direitos humanos.

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