Fundação Renova é braço das mineradoras e atua sem transparência nem diálogo com os moradores

Por Alice Maciel na Agência Pública

“Nós não reconhecemos a Fundação Renova como representante ou reparadora dos danos dos atingidos”, diz a representante da Comissão dos Atingidos de Barra Longa (MG), Simone Maria da Silva. “A Renova fica tentando passar uma imagem de que ela está amparando o ser humano, e o que está mais abandonado dentro desse processo todo aí é o ser humano. Ela não está nem aí pra gente”, comenta o agricultor Marino D’Ângelo Júnior, membro da Comissão de Atingidos de Paracatu de Cima (MG). “A gente fala aqui que não existe Renova, é tudo Samarco”, conta o motorista Cristiano José Sales, que integra a Comissão de Atingidos de Bento Rodrigues (MG). “Por mais que eles queiram dizer que a Fundação Renova é independente, ela não é. No fundo, ela não é”, enfatiza o promotor de justiça da Comarca de Mariana, Guilherme de Sá Meneghin.

A Fundação Renova foi criada para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, a partir de um acordo firmado, a portas fechadas, entre BHP Billiton Brasil, Vale, Samarco, os governos federal, do Espírito Santo, de Minas Gerais e entidades governamentais, sem a participação dos atingidos. Ela passou a atuar sete meses após o desastre, em novembro de 2015, que matou 19 pessoas, arrasou comunidades, provocou um estrago imenso na bacia do rio Doce e em seu entorno e levou a lama de rejeitos de minério até o oceano Atlântico. O Estatuto Social da Renova diz que a entidade “é dotada de autonomia administrativa, patrimonial, financeira e operacional”. Em seu site, em suas redes sociais e em panfletos distribuídos aos atingidos a fundação se define como uma organização “autônoma e independente”.

Não é bem assim. Até o ano passado, os serviços administrativos da fundação eram executados pela Samarco. É o que mostra a prestação de contas de 2016 e 2017 da entidade, a que a Pública teve acesso exclusivo na Promotoria de Tutela de Fundações, do Ministério Público de Minas Gerais. De acordo com o documento, a Samarco era responsável pelos serviços financeiros, tecnologia da informação, compras e pelo departamento pessoal da Renova. Ou seja, a Samarco administrava o dinheiro que transferia para a fundação, além de cuidar das contratações. Atualmente, 20% do quadro de pessoal da Renova é formado por ex-servidores das empresas que a sustentam.

Funcionários que ocupavam cargos de confiança da Vale e Samarco assumiram postos de alto escalão na organização. O gerente de relações institucionais da Renova, William Sarayeddin, foi gerente de assuntos externos e gerente de comunicação e assuntos corporativos da Vale, onde trabalhava desde 2006. A gerente de recursos humanos da entidade, Juliana Souto, era coordenadora do RH da Samarco no Espírito Santo. O gerente de comunicação, Cristiano Diniz Cunha, também trabalhou no setor de comunicação da Vale. “Pessoas que usavam uniforme da Samarco em um dia no outro estavam com o da Renova”, destaca Cristiano José Sales, da Comissão de Atingidos de Bento Rodrigues, a comunidade destruída pela lama. “Só mudou o nome de Samarco pra Renova, mas são os mesmos funcionários”, faz coro Odete Cassiano, que integra a Comissão dos Atingidos de Barra Longa.

A Renova tem também em seu quadro de pessoal ex-servidores de cargos estratégicos dos governos de Minas e do Espírito Santo. A ex-chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Planejamento e Gestão Lígia Maria Alves Pereira representava o governo mineiro em uma Câmara Técnica, responsável por auxiliar o Comitê Interfederativo a fiscalizar as ações da Renova. Desde fevereiro, ela é gerente de território na Renova. Mais recentemente, em julho, a fundação contratou o ex-diretor-presidente do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado do Espírito Santo (Iema) Jader Mutzig para assumir as relações institucionais da entidade.

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