Somos todos (da) Samarco

O tsunami de lama que se abateu sobre Minas Gerais tem, infelizmente, mais camadas do que o discurso, muitas vezes simplista, dos ativistas de primeira hora e dos bem intencionados comentaristas, que, como eu, se deixaram levar pela justa onda de indignação que se seguiu ao imenso crime ambiental cometido pela Vale/BHP/Samarco que soterrou um subdistrito de Mariana, matou pessoas e um dos maiores rios de Minas Gerais.

Nosso primeiro impulso, naturalmente, é o de pedir a punição exemplar dos culpados, na forma da lei, o justo ressarcimento às famílias por tudo que perderam, a condenação da Samarco e de suas controladoras a pagar pela recuperação do Rio Doce e de todas as áreas atingidas pela negligência criminosa com que exercem suas atividades. Mas isso não basta. A punição dos culpados é, apenas, o mínimo, e trará à sociedade uma satisfação algo transitória. Continuaremos a ser assombrados por outras barragens prestes a romper, por novos tsunamis de lama, pela possibilidade de vermos outros Bentos Rodrigues serem riscados do mapa, de forma súbita, impiedosa.

Nos primeiros dias que se seguiram à lama, tive a oportunidade de conversar com alguns moradores das regiões atingidas. Ao passo que todos lamentavam profundamente por tudo que perderam, alguns, não todos, hesitavam, ainda, em responsabilizar a Samarco.  Uma senhora idosa, de Paracatu de Baixo, me disse que a empresa não teve culpa, “que ninguém faria uma coisa dessas de propósito”. Um morador de Bento foi ainda mais longe, afirmando que a empresa errou, mas “fazer o quê? Se eles quebrarem, Mariana também quebra.” O jovem pai de família estava, de certa forma, antecipando alguns dos termos da vergonhosa chantagem que as mineradoras envolvidas no ocorrido tem utilizado para tentar se evadir das responsabilidades que lhe cabem.

Se o poderio da Samarco sobre a cidade de Mariana já havia ficado claro logo após o apocalipse de lama – com representantes da empresa e voluntários uniformizados da Vale se esforçando para tomar a frente do atendimento às vítimas e recebendo, da Prefeitura, amplo aval para tanto -, a ingerência da empresa sobre a cidade adquiriu proporções ainda mais preocupantes nos últimos dias. A área, onde outrora se encontrava Bento Rodrigues, foi isolada por uma barreira da Polícia Militar, que, a pretexto de um risco iminente de rompimento da barragem Germano, não deixa nem mesmo os antigos moradores do local se aproximarem, mas franqueia o acesso a funcionários da Samarco, permitindo, conforme ótima análise apresentada pelo programa humorístico CQC, da Band, que “o principal suspeito cuide da cena do crime”. Os hotéis onde as vítimas se encontram abrigadas estão, também, sob o controle da empresa, que impõe aos atingidos “horários de visitação”, com rígido controle de entrada e saída de pessoas.

Paralelamente a isso, um movimento em defesa da empresa, chamado “Somos Todos Samarco”, começou a ganhar corpo na cidade, enquanto outros grupos protestavam pela responsabilização da empresa. O movimento alega que a Samarco é a responsável por vários empregos em Mariana e região e que tem empreendido, também, ações sociais e sugere, com o slogan “Fica Samarco”, que a empresa, caso seja responsabilizada em toda a extensão do dano que causou, vai deixar a região. Se a iniciativa surgiu por ação direta ou indireta da empresa, o que é provável, não se pode negar que a chantagem colou: muitos dos moradores de Mariana que dependem, direta ou indiretamente, da empresa, aderiram ao movimento e acusam os militantes de estarem, indevidamente, interferindo na vida e na economia da região. “O que vocês querem, que o povo daqui venda miçangas?”, pergunta, retoricamente, um defensor da empresa, em uma discussão em uma rede social.

A Samarco é responsável, em Mariana, por cerca de 4000 empregos diretos e 3000 indiretos, além de ser uma das maiores pagadoras de impostos destinados ao município. O Prefeito da cidade, Duarte Júnior, chegou a admitir, em entrevista, que, se ele falasse em fechar a Samarco, estaria falando em fechar a Prefeitura. A empresa, por seu turno, tem acenado com a possibilidade de demissões em massa, despertando, em um número considerável de moradores de Mariana, o medo do desemprego ou de uma recessão prolongada.

Pode-se falar, ainda, em uma série de empregados da empresa que, mesmo diante da incomensurável destruição causada pela negligência criminosa da Samarco, ainda sentem orgulho de ali trabalhar, comprando, acriticamente, todo o discurso de “responsabilidade social” originado da assessoria de comunicação da empresa. Discurso alimentado, por anos, com prêmios corporativos de duvidoso mérito e com “obras sociais” que, muitas vezes, nada mais são do que obrigações de “compensação ambiental”, previstas em leis e em termos de ajuste, mas que servem de outdoor para propagandear a suposta preocupação socioambiental da empresa.

O esforço de chantagem que a Samarco empreende, alimentando o medo da população e exercendo todo o controle possível, tanto sobre as vítimas do crime que cometeram, quanto sobre as áreas afetadas, é alimentado, ainda, pela suspeita timidez das declarações de algumas autoridades políticas e pela vergonhosa subserviência de outras. Antes mesmo que a lama secasse, o Secretário de Desenvolvimento de Minas Gerais, Altamir Rôso, declarou, em evento patrocinado pela FIEMG, que a Samarco foi também uma vítima do rompimento da barragem, defendendo, ainda, que a fiscalização ambiental deveria ser exercida pelo setor privado. O governador Fernando Pimentel, que tem, ultimamente, defendido que a responsável pelo rompimento da barragem foi, sim, a própria Samarco, chegou a dar uma entrevista coletiva na sede da empresa, atitude de um simbolismo trágico. O ex-governador Aécio Neves, em visita a Mariana, alegou que “aquele não era o momento de procurar culpados”, evadindo-se de dar um posicionamento efetivo sobre o caráter criminoso daquilo a que se tem, erroneamente, chamado de “acidente”. A presidenta Dilma demorou uma semana para visitar o local onde ocorreu uma das maiores catástrofes ambientais da história do país. Isso não diz apenas da quantidade obscena de dinheiro que o setor da mineração despeja, sempre, em campanhas políticas, mas, também, de um certo sentido de “inevitabilidade da tragédia” que nos querem empurrar goela abaixo, em um país que, com a economia estacionada na dependência de commodities, precisaria da extração mineral predatória para sobreviver.

O ridículo de determinados discursos apologéticos à empresa que circulam por aí chegam ao cúmulo da canalhice ou da desinformação quando tentam empurrar, para todos os brasileiros, a responsabilidade por esse modelo econômico de rapina. “Se você usa um carro, você também é culpado”, dizem por aí. “Se você joga lixo na rua, não pode culpar a Samarco”, alegam outros, do alto do inexpugnável palanque da superioridade moral. Ninguém havia sido devidamente informado que o minério utilizado na feitura de um carro havia sido extraído em procedimentos técnicos cujos principais elementos foram a ganância das empresas e a dócil e a subserviente desídia daqueles que deveriam fiscalizar a atividade. As duras críticas a esse modelo eram sempre ocultas da população como um todo, taxadas de radicais, de delírios de ecochatos e, agora, ao que parece, são erroneamente empregadas em discursos que, paradoxalmente, pretendem manter, apenas, o atual estatuto da mineração intocado neste país.

A maneira como a Samarco sequestrou Mariana é um retrato medonho de como a mineração predatória sequestrou o país. Não se vê por aí absolutamente nenhuma figura política ligada aos partidos da ordem, apresentando, para Mariana, que seja, um plano sólido de diversificação da economia, de requalificação da mão de obra da cidade. Experiências mundiais nesse sentido podem ser vistas na cidade mineradora francesa de Lens, historicamente marcada pelas chagas da extração de carvão, ou na cidade basca de Bilbao. Não são experiências perfeitas e, em ambos os casos, acabaram favorecendo a gentrificação das regiões, mas algo, ainda que diverso, poderia ser tentado.

Lembremos, ainda, que, além dos políticos e partidos, boa parte do setor que se qualifica como formador de opinião, de artistas a professores universitários, tem sua atuação condicionada e dependente de financiamento de empresas como a Vale; que os jornais têm a Vale como anunciante; que, até mesmo o fotógrafo Sebastião Salgado, dono de uma ONG ligada ao Rio Doce e que apresentou, recentemente, um projeto de revitalização do rio, tem projetos financiados pela Vale. Explica-se, talvez, a partir daí, o foco simplesmente humanitário e ambiental que se dá à questão em diversos discursos.

Com a política, a cultura, os projetos das universidades, inclusive públicas, nas mãos dos grupos financeiros responsáveis pelo que ocorreu em Mariana; com municípios inteiros dependentes economicamente desses grupos, não é exagero dizer que, sim, muitos de nós Somos Samarco, direta ou indiretamente. Por isso não basta apenas punir; é preciso punir e repensar muitas de nossas estruturas para que o pior não volte a acontecer.

Publicado originalmente no Pautando Minas

Pedro Munhoz

Pedro Munhoz é mineiro de Belo Horizonte, advogado, bacharel em história e estudante de jornalismo.

3 thoughts to “Somos todos (da) Samarco”

  1. O que me ocorre, ainda, é que a população de Mariana tem seus empregos vinculados à Samarco e não quer perder esses recursos. Mas, e o rastro de destruição deixado em outros municípios e nas vidas de outros milhares de cidadãos, que não são “beneficiários” da Samarco?

  2. Sem entrar no mérito da exploração predatória, a economia de Mariana depende antes do minério do que da Samarco. No pior dos cenários, troca a empresa!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *