
Para o bem e para o mal. Se reerguer depois de uma eliminação, sempre dolorosa, seja qual for, é um mal necessário. Para não dizer que não falei antes, repito trechos do que escrevi aqui nesse blog em 18 de fevereiro de 2010, entremeado com uma análise atual:
“O Flamengo tem um problema histórico: não respeita time pequeno. Por não respeitar, quase sempre acaba se complicando.”
Sim, La U é um time pequeno, claramente inferior ao elenco do Fla e de todos os brasileiros na Libertadores. Pequeno como seu estádio e a mentalidade de sua “torcida”, atirando objetos contra o adversário. Tipo de coisa que acontece na Libertadores desde sempre em todos os países da América Latina e a patética Conmebol nunca faz absolutamente nada. Deve ser “parte” da “mística” do evento permitir atitudes anti-desportivas.
O Flamengo não entrou em campo no primeiro jogo no Maracanã. Sonolento, teve uma pane geral parcialmente solucionada apenas no segundo tempo. Assim como teve outra pane contra o Corinthians no Pacaembu nos primeiros 45 minutos. É o que o colega Rica Perrone analisou bem: o Fla pediu pra cair em vários momentos e sempre recuperou. Contra o Universidad, não.
“Quanto mais pressionado e desafiado, mais o time rende. Mais leva o jogo a sério.”
Depois da inexplicável sonolência no Maraca, aconteceu justamente o que disse acima. A mudança de postura, de atitude, de pegada e de vontade de jogar bola no Chile foi totalmente outra. Vacilou num único momento: o gol que deu para o adversário, abrindo espaço para o jogador avançar até onde queria, sem ninguém para combater e Bruno totalmente perdido. Pimba. Foi o suficiente. Correu atrás, meteu outro logo depois, pressionou, caiu na catimba, desespero, o de sempre. Não deu. O Flamengo precisa ainda reaprender a jogar Libertadores. Enquanto entrar em campo como se estivesse disputando o carioca, perderá sempre.
Isso passa, aliás, pela cultura e estilo do futebol do Rio: o jogo largado, “tranquilo”, na maciota, levado como uma partida de fim de semana, só que profissional. Basta ver que o estado tem apenas dois títulos da Libertadores: Flamengo em 81 e Vasco em 98. O primeiro um dos melhores de todos os tempos. O do Vasco, excelente e inquestionável. Mas não é preciso um time histórico para ganhar a Liberta. Não é preciso estar muito acima da média pra levar o caneco. A história do torneio comprova. A quantidade de times ridículos que já o venceram, apenas nos últimos 10 anos, é incrível. Com postura, com pegada, com foco, marcação implacável e sangue nos olhos, não é preciso ser gênio.
“É óbvio que o Flamengo precisa de pelo menos 2 zagueiros. Um pra ser titular, de peso, e outro pra reserva. Não pode depender da guarda de Maldonado, nem da eterna fase ruim de Angelim e Álvaro. David e Fabrício, apesar de mais novos e mais altos, ainda não inspiram confiança.”
Surpresa: a defesa foi o pior ponto do time durante toda a temporada. Alertei em fevereiro, quando era flagrante, e não fizeram nada. “Ah, ganhamos o Brasileiro com esta zaga, dá pra levar a Liberta”. Não, não dá. Como um time que bate cabeça e toma 2, 3 dos pequenos do Rio pode ir tranquilo para uma competição continental com uma defesa dessas? Passou sufoco na primeira fase e a pane absoluta no Rio contra La U cobrou o preço. Falta visão para a diretoria, falta gente que entende de futebol, falta menos oba-oba.
“Se levamos o campeonato mais difícil do mundo nos pontos corridos, o mata-mata da Liberta dá também”. Não dá. A zona eterna do clube sempre atrapalha: demite técnico, vaza briga entre jogadores, o melhor armador do time fica no banco por briguinhas com dirigentes, manda embora o homem forte do futebol e ninguém vem para o lugar. “Vamo que dá, tá dando certo. Quando não der mais, aí vemos o que fazer”. Quando Patrícia Amorim vai cumprir a promessa de bater de frente com os sangue-sugas históricos do Fla e profissionalizar o futebol definitivamente? Não é simples, eu sei. E tudo indica que não será fácil. Falta muita coisa para que tenhamos que nos preocupar apenas com o campo.
“O desempenho do time na Libertadores na última década foi pífio. Saiu na primeira fase em 2002 e foi eliminado de forma trágica para Defensor em 2007 e América-MEX em 2008. Os rubro-negros estão escaldados e cautelosos. O tetra carioca, se vier, ótimo. Mas é a Liberta que preocupa. Não chegando ao título, ser eliminado de forma digna já seria um avanço.”
Foi digno, sim. “Caímos em pé”, como diz o clichê. Dava pra ter sido bem melhor. Os vários “detalhes” do primeiro e segundo jogo contra La U não dão pra engolir. Principalmente a postura. O Flamengo, mestre em complicar o fácil, mestre em perder para si mesmo, conseguiu novamente. Quem sabe a participação constante na competição, se vier acompanhada com um mínimo de profissionalismo administrativo, dê em alguma coisa. Fato é que essa foi a Liberta mais fácil dos últimos tempos. Inter x SPFC é a final antecipada. Quem passar precisará de muito esforço, mas muito esforço mesmo, para não levar o título em cima de Chivas ou La U. O tipo de vacilo que só o Flamengo consegue dar.
“E todo mundo sabe que depois da Copa do Mundo, Adriano, Love e cia deixam o barco. O Brasileirão será guerrilha total.”
Como previsto mais de três meses antes, tudo aconteceu. E, pelo visto, acontecerá. A diretoria já dormiu e perdeu Zé Roberto, quase fechado com o Fla, para o Vasco. Love vai embora com certeza e fez bem o seu papel, como legitimo rubro-negro que é (algo importante na disposição e no brilho do cara). Adriano foi fundamental no título brasileiro e se acomodou em 2010. Sentiu o peso, na seleção e no clube. Quem mais vai embora? Quem vem? Quais juniores serão promovidos novamente ao time principal? Erick Flores, Lenon, Jorbison, Galhardo, Camacho, Vítor Saba? Lourenço não deve ser efetivado. Foi tão perdido este quanto Andrade. Há poucas opções decentes no mercado. A bagunça é quase completa, salvo a base do time desde 2006.
O Flamengo evoluiu absurdamente nos últimos 5 anos. Os resultados, os títulos, o time e as disputas mostram isso. Está no caminho certo. Falta muito trabalho para ir além. É ajustar este mastodonte, do peso dos seus 35 milhões de torcedores. A guerrilha está só começando.
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