category: Copa do Mundo 2010
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Pra quem gosta de “curiosidades”  a Copa da África foi um banquete: pela primeira vez um time europeu venceu o torneio fora do seu continente. Primeira vez que o país anfitrião cai na primeira fase. Pela primeira vez tivemos uma final sem Brasil, Itália, Alemanha ou Argentina. A Europa fica na frente da América do Sul em número de títulos (10 x 9), o que não acontecia desde 1954. O novo campeão saiu na final mais violenta da história.

Após uma primeira fase tenebrosa, o nível melhorou bastante a partir das oitavas. A Espanha acabou fazendo campanha idêntica a Grécia na Eurocopa 2004: venceu todos os jogos decisivos por 1 x 0. Resultados pobres e medíocres da seleção que não jogou o melhor futebol do Mundial. A Alemanha ficou com o posto, indiscutivelmente. Holanda e Espanha, no entanto, foi uma final justa: apostava muito no time holandês, desde o início. Chances incríveis desperdiçadas por Robben – duas sozinho na cara do gol – e um descuido com contribuição do juiz na prorrogação (foi falta em Elia, erro que originou o contra-ataque fatal espanhol – levaram o título para a – não mais – “amarelona”.

Perseguição injusta. A verdade é que a Espanha pouquíssimas vezes teve time para disputar o título. Quando tinha, caia frente os grandes. Logo na primeira final conseguiu o feito. A Holanda segue sendo a “melhor seleção do mundo” que nunca ganhou a Copa. Injustamente.

Jabulani, vuvuzela, saída precoce de Itália e França, escorregadas fatais de Argentina, Brasil e Alemanha. Valorização da juventude: expressa principalmente em Alemanha e Gana, respectivamente com 7 e 11 jogadores de até 23 anos. Surpreendente para a primeira, nem tanto para a segunda (poderio nos Mundiais de base de Gana já exposto aqui). Pena que o time africano desperdiçou a chance de ser a primeira equipe do continente a chegar até a semifinal. O penalti perdido por Gyan abriu caminho pelo retorno do Uruguai entre os 4 primeiros, com uma equipe que foi muito mais longe do que o talento que tinha. E o principal jogador, Fórlan, acabou levando o de “melhor do torneio”.

Alemanha e Gana tem a base de boas equipes já para mais 2 Copas. O Brasil obrigatoriamente renovará a sua, jogando uma Copa com imensa pressão. Renovação tanto pelos jogadores de idade mais avançada que sairão do time quanto pela forçada de barra de Ricardo Teixeira. A oportunidade de levar uma equipe jovem já para essa Copa, preparando para a competição em casa foi desperdiçada. O que não impediria de ter bons resultados, como comprova a Alemanha.

No fim, um torneio melhor que o esperado. E com alta dose de ineditismo, sempre saudável, fugindo do roteiro padrão das últimas Copas. Nossa vez de colocar a casa em ordem e, independente do resultado dentro de campo, tentar aproveitar os investimentos bilionários para melhorar a vida das cidades e dar um belo impulso na economia do país. Algo muito mais importante que qualquer taça.

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Dunga foi o maior nome dessa Copa para o futebol brasileiro. E quando o técnico aparece mais que o próprio time, é sinal inequívoco de que muito está errado. No saldo final, esse papo de que o maior “legado” de Dunga é “recuperar” o amor a camisa, o envolvimento do torcedor e etc soa como a pior retórica ufanista de quinta categoria que foi traço marcante do técnico desde sempre. Não engulo essa. Não importa o que aconteça, o Brasil sempre irá parar com a Copa. A população sempre irá sofrer, se exaltar e vibrar com o torneio. É histórico, tá no sangue. Os jogadores que estão lá representam parte disso. No clichê do clichê, são menores que todo o resto.

O regime militar e a política do bom mocismo implantada por Dunga provaram um fracasso retumbante. Não apenas porque isso não combina com o futebol brasileiro, não influi em nada no jogo e gera mais problemas que qualquer outra coisa. Ou algum adulto saudável gosta de ficar sem sexo por imposição alheia? Ou precisar fingir ser “santinho”, como o pobre Felipe Melo, que declarou antes do Mundial: “precisava fingir ser cristão e de família pra garantir minha convocação”, enquanto se esbaldava em farras extra-conjugais e toda sorte de prazer carnal que o dinheiro e a fama proporcionam.

Comportamento e regime de concentração não fazem vitória ou derrota. O resultado define tudo: se ganha, tudo é perdoado. Se perde, tudo influenciou. As farras homéricas e as baladas irrestritas da Copa de 2002 foram assumidas sem um pingo de constrangimento por Roberto Carlos e cia. Mas fomos campeões. O paraíso é ali. A cornucópia de 2006 foi erroneamente escolhida como a principal razão pelo fiasco da equipe. O resultado foi a excrescência chamada Dunga.

“Comprometimento”, “coerência” e “bom comportamento” eram, agora, o sentido da existência do futebol brasileiro. Nunca foram. Nunca serão. A liberdade e o tratamento que se dá ao time influi muito pouco no resultado final, como provam a bonita festa entre Maradona e a seleção argentina. Eliminados de forma humilhante com um massacre pouco visto entre duas seleções tradicionais em Copas.

O Brasil foi menos pior. A “melhor defesa do mundo” – e realmente é uma das – exaltada por todos depois do jogo com o Chile, selou o destino. É futebol. Acontece. Júlio César, Lúcio e Juan não ficam menores por isso. Felipe Melo, como dito, sim, era o “Dunga de Dunga”. Com menos eficiência e futebol no pé. Ou seja: desastre anunciado. Cria do Flamengo, Melo nunca foi além de um jogador normal. Em nenhuma temporada da sua carreira. A obsessão dunguística em achar alguém com as mesmas características explicam a convocação, digna de psiquiatra.

Mas óbvio ululante que Felipe Melo não é o culpado de nada. A mania de se achar os “injustiçados” antes da Copa (Neymar, que não mudaria nada, Ganso, que admitiu que precisava (e fez) cirurgia durante a Copa, também) e vilões depois dela (o próprio Dunga, a trupe veterana de 2006, etc) é apenas reflexo do maniqueísmo e do pensamento de cérebro de mostarda que a vala comum sempre teve.

Em certas ocasiões, há times melhores que o nosso. Mais equilibrados, mais talentosos. Nesta Copa, caso de Holanda, Alemanha e Espanha. Mesmo assim, poderíamos perfeitamente ter matado o jogo no primeiro tempo com um 2 ou 3 a 0. Perdeu porque errou mais, como geralmente acontece com quem erra muito no futebol. Ainda mais num jogo de alto nível e tensão. Ponto. Precisamos de renovação e etc etc pra próxima Copa. Sim, normal. Como acontece em todo final de Mundial com todas as seleções.

A principal função de um técnico do Brasil é convocar bem e atrapalhar o mínimo possível. Dunga falhou miseravelmente em todas elas. E se a imprensa é chata, inconveniente, burra e perseguidora, Dunga caiu na besteira de entrar no jogo e demonstrar toda sua tosquice, rancor, ignorância e despreparo. Não tem nada de bonito aí para nenhum dos lados.

A pressão em 2014 será absurda. Não dá pra esperar nada menos que o Brasil jogue o futebol que sabe. Se perder por isso, não será nenhuma tragédia, como nunca é. Diferentes gerações – brilhantes ou pragmáticas – que venceram ou fracassaram, provam que o futebol está muito além destas fórmulas e juízos estreitos de pensamento. O erro mais imperdoável de Dunga foi ter tirado o prazer de curtimos a seleção brasileira. É muito melhor perder ou ganhar com um time em que possamos nos reconhecer. O rico treinador não é culpado de nada, afinal. Futebol não é matemática. Felizmente. E estaremos vidrados em 2014 como sempre estivemos. Chega de se preocupar com o que não vale a pena. Até breve.

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Pouca coisa explica a condição de “favorita” que a Inglaterra geralmente tem em toda Copa do Mundo. Aliás, apenas uma: o marketing e a babação desmedida pela falida Liga Inglesa. O “fascínio” pelo futebol europeu vai bem além do razoável: jogadores no máximo medianos chegam aqui como “craques”. O brasileiro gosta muito do que vem de fora, é inegável. E nem precisa ser europeu pra isso. Somos verdadeiros vassalos mentais quanto a qualquer coisa estrangeira.

Fora o controverso título de 66, ganho em casa e com generosa contribuição da arbitragem, a Inglaterra conseguiu ficar entre os 4 primeiros da Copa apenas outra vez, em 1990 na Itália, quando perdeu a decisão do terceiro lugar para a dona da casa. Ou seja, o time inglês nunca colocou medo em ninguém e tampouco fez qualquer coisa, em 80 anos de história do torneio, que justificasse isso. Só de 1966 pra cá o máximo que a Inglaterra conseguiu foi resultado igual ou inferior a Bulgária, Turquia, Coréia do Sul, Suécia, Portugal, Polônia, Croácia e Bélgica. E antes de 66 sequer chegou nas finais.

É um autêntico coadjuvante e apenas acaba de confirmar isso em 2010. Jogadores pretensamente alardeados como Rooney, Lampard e Gerrard não jogaram nem 10% da bola que o marketing atribui a eles. Fora as principais forças, como Brasil, Itália, Alemanha e Argentina, a Inglaterra perde para Holanda, França, Uruguai, Hungria (vice em 38 e 54) e Tchecoslováquia (atual República Checa, vice em 34 e 62) na soma de resultados expressivos. A insignificância inglesa é tão grande que até na Eurocopa, em 13 edições, o máximo que a Inglaterra conseguiu foi dois terceiros lugares: em 68 e 96.

O time inglês, portanto, faz parte do terceiro escalão do futebol mundial. E tem muito chão pela frente se quiser começar a mudar isso. É bom se acostumar com a ideia.

Guardian: Five reasons why England were embarrassed by Germany (preste atenção nos comentários)

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Estando apenas no seu segundo mundial profissional (2006 foi a estreia, eliminada contra o Brasil nas oitavas) Gana finalmente faz valer seu ótimo retrospecto em mundiais das categorias juvenis, como o sub-17 e sub-20. Adversário conhecido (e temido) das Copas do Mundo destas categorias, de 1991 pra cá Gana raramente esteve fora dos 4 primeiros.

A escrita começou com o título sub-17 em 1991 na Itália. Foi bi-campeã em 1995 (no Equador) e teve dois vice-campeonatos: 93 e 97. Foi terceira em 1999 e quarta em 2007. No sub-20, conquistou o vice em 1993 e 2001, o quarto lugar em 1997 e finalmente foi campeã do Mundial ao vencer o Brasil ano passado, em torneio disputado no Egito.

A estranha demora em conseguir migrar desse retrospecto fantástico nas seleções de base para Mundiais profissionais acaba de atingir o ápice em 2010: Gana se consagra como (até aqui) o time africano que obteve melhor resultado em Copas do Mundo, se igualando a Camarões em 1990 e o surpreendente Senegal em 2002. Na Copa Africana de Nações, o país tem 4 títulos (63, 65, 78 e 82), foi terceiro lugar em 2008 e tem o vice-campeonato de 2010, quando perdeu para o Egito, a maior força do continente com 7 conquistas, seguido justamente por Gana e Camarões com 4.

Ou seja, a classificação da equipe para as quartas de final está longe de ser por acaso e é amparada por longo retrospecto positivo em torneios importantes. Feito que fica ainda maior por ser a única equipe africana a ainda resistir no primeiro Mundial organizado no continente.

Isto se reflete em jogadores novos e com nítido potencial como Gyan (24, do Rennes da França), Adiyah (20, no Milan), Ayew (20, no Arles da França), Asamoah (21), Jonathan Mensah (19, Udinese)  e Vorsah (22, do Hoffenhein) e outros com participação ativa em times europeus como Appiah (Bologna, ex-Juventus), Muntari (Inter de Milão), Essien (Chelsea), Sarpei (Bayer Leverkusen) e John Mensah (Lyon) explicam o sucesso da equipe.

Dá gosto ver uma seleção assim, ainda distante de ser uma das principais forças do futebol mundial, mas com qualidade e aplicação o suficiente para ir longe. A (boa) equipe do Uruguai, que aprendeu novamente a jogar bola e não só bater, que se cuide.

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Pelo que esta Copa vem mostrando até agora, muita gente. Pela primeira vez na história o campeão e o vice da edição anterior caem na primeira fase. Lanternas de seus grupos e com uma das piores campanhas de cada uma em Mundiais. A França não foi exatamente surpresa: pela forma como se classificou, pelo time fraco e pelos problemas internos que se atingiram o ápice numa sequencia de farpas e acontecimentos que nunca vi na história do futebol, muito menos em seleções (se recusar a treinar?).

Já a Itália pecou no seu principal trunfo histórico: a defesa. Basta lembrar que dos 3 gols que tomou contra a Eslováquia, 2 foram por bobeadas crassas da defesa: uma bola entregue num passe errado bizarro e uma desatenção inacreditável num lateral. Verdade também que o time teve dois gols anulados: um difícilimo por ser em cima da linha, o outro num impedimento inexistente. 1 gol que seria suficiente para se classificar e toda a história e toda análise que fizermos aqui ser curiosa. Futebol é isso: detalhe e muitas vezes injustiça.

Com a primeira fase quase chegando ao fim, não dá pra perdoar: esta Copa é feia demais. O nível técnico ruim permitiu que, por exemplo, uma seleção semi-amadora como a Nova Zelândia (que só chegou na Copa porque a Austrália foi disputar as eliminatórias asiáticas) saísse do torneio – pasmem – invicta. Só isso já seria o suficiente para desqualificar a competição.

Com quase todas as seleções com medo de jogar futebol, anda sobrando pra Brasil, Argentina e Holanda o vislumbre de ir um pouco além da mediocridade geral. Pouco, muito pouco para o que é, em tese, o maior e melhor torneio de futebol do mundo. Podemos ter o campeão mais fraco de todos os tempos. Coisas do futebol moderno.

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