
Há tantas camadas e questões pulsantes no eterno imbróglio que vem rondando Adriano, o Flamengo e agora Vágner Love nos últimos tempos que chega a ser perigoso produzir algo breve demais. Já disse em outras ocasiões que a invasão da privacidade (seja do “famoso” ou do homem comum) é um dos maiores males da vida moderna. Nem sempre fomos tão interessados pela vida particular de cada um e tampouco precisavámos dar satisfação (ao governo, à sociedade, etc) sobre tudo que fazemos. Melhor que tivesse continuado assim.
Na cobertura da mídia, pouca novidade: enterrada como sempre em fofocas, especulações, disse-me-disse, tentando extrair cada gota de polêmica possível e impossível de tudo que cerca Adriano e cia. De um lado, normal: pelo tamanho do Flamengo, pela paixão que é o futebol, por serem jogadores de seleção, por todo dinheiro, público e mídia que geram. O que não é justificativa pro samba do crioulo doido sem fim, como exemplo maior é a recente “reportagem” de Leslie Leitão para o jornal O Dia.
Esportivamente falando, como jogador profissional, empregado, que ganha muito bem para cumprir suas obrigações (treinos, etc), a vida particular de Adriano deveria virar notícia quando começasse a atrapalhar o profissional. Que é o que vem ocorrendo: faltou a metade dos treinos do Flamengo na temporada, ficou de fora de jogos importantes e etc.
Sim, um copo de cerveja na mão de Adriano vira alcoolismo. Ou o fato de admitir que toma duas/três vezes por semana. Algo normal e que, se moderadamente, não afeta seu desempenho como jogador. A vida do “Imperador” virou um conto grego de orgias infindáveis, traições, acessos de fúria, relações com traficantes e o que mais as “evidências” ou a imaginação mandar. Uma vez que a linha do aceitável e do respeito é cruzada, tudo é permitido. Tudo vem a tona. Mesmo que esse tudo seja “nada”.
Vágner Love flagrado recentemente em festa de traficantes é o corolário da história toda. Sobre isso, o amigo Vinícius Duarte externou exatamente o que penso aqui. Love e Adriano, hoje estrelas internacionais de salários astronômicos, nasceram e cresceram em comunidades carentes do Rio de Janeiro. Tem amigos que trilharam histórias distintas e até hoje fazem questão de frequentar os mesmos locais. Nada que seja um problema em si. É fácil para qualquer membro da classe média cristã (para usar um estereótipo e muito além disso) condenar os dois.
Da minha parte, acho simplesmente burrice se expor tanto, dar tanta brecha e procurar confusão, direta ou indiretamente, tumultuando suas vidas e carreiras. Adriano, principalmente. Todos sabem que ele adora balada, mulheres e álcool. E que se comporta como se estivesse de férias no Rio de Janeiro, com o aval do clube. Enquanto ele resolvia as partidas e era artilheiro do campeonato brasileiro, tudo bem.
Quando começa a afetar o rendimento, o mundo cai. É aquela história: se ele conseguisse comparecer a maioria dos treinos, estivesse em forma e fazendo seus gols como normalmente faz alguém daria tanta importância pro que faz fora dos gramados? Certo que não. A cobrança não pode virar caça. A notícia não deve tornar-se uma devassa na vida alheia. Algo que, convenhamos, ninguém escapa.
Em discussões, inclusive por jornalistas esportivos em programas de televisão, por exemplo, discute-se a velha máxima de que é preciso “dar exemplo”. A fama, a responsabilidade, as milhões de crianças que tem seus ídolos do futebol como espelho. Acho uma linha de raciocínio muito frágil, leviana e errônea, até. Ninguém é obrigado a dar exemplo. Mesmo aparecendo em rede nacional todo dia e ganhando – literalmente – milhões por mês para fazer seu trabalho. Ninguém perguntou se algum deles quer ser exemplo.
E, além, acreditar que as atitudes de Adriano e cia podem realmente definir o caráter e o futuro de alguém é, no mínimo, de uma “rasteirização” absurda. A maioria das celebridades, aliás, nunca foram exemplos de coisa alguma. Esportistas, músicos, atores, etc, normalmente fazem o que bem entendem e tem uma vida de arrepiar qualquer defensor de uma “normalidade” indefinível, inexistente, falsa. O mundo nunca foi melhor ou pior por conta disso. Nunca fez diferença – e seguirá não fazendo – afinal.
Dentre outras coisas, cobrar de celebridades o “exemplo” ou a responsabilidade pela formação de crianças (e sabe-se lá mais o que) é se esquivar de todo o resto que realmente importa.
O circo de horrores que se transformou a vida pública e privada de Adriano e Vágner Love diz muito de nossa pouca capacidade de percepção e do quanto estamos sempre prontos a mostrar os dentes e patrulhar o que mal sabemos. Típica situação onde todos perdem e o que é realmente relevante – como o que aconteceu com os 9 milhões pagos para uma empresa fantasma no jogo Brasil x Portugal - sempre cai no esquecimento.