Política & Economia

O seletivismo do brasileiro e a demonização do Estado

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Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (IPEA), lança em breve o livro “A Tolice da Inteligência Brasileira”, em que explica, didaticamente, as bases do pensamento nacional e como ele foi construído historicamente.

Um pequeno exercício que mostra como isso é claríssimo: a demonização do estado e o endeusamento do mercado “como reino de todas as virtudes”, como Jessé assinala nesta entrevista ao El País.

Diz ele:

“Toda essa exploração de classe é escondida e transformada em um conflito construído, irreal, que não existe, entre Estado e mercado. Porque o Estado precisa do mercado para sua sobrevivência, e vice-versa. Mercado e Estado são uma coisa só, mas, no Brasil, você demoniza o Estado e monta o mercado como reino de todas as virtudes. Não existe crime no mercado. Essa coisa de o brasileiro ser inferior tem um lugar específico entre nós desde Sérgio Buarque: o Estado. É a tal tese do patrimonialismo. Há uma elite que, só no Estado, rouba a sociedade como um todo, como diz Raymundo Faoro. Então se cria um conflito artificial.”

Como isso se manifesta? Temos o exemplo perfeito nesta notícia do jornal Valor Econômico de 18 de novembro: Sonegação subtrai 500 bilhões ao ano:

Cerca de R$ 500 bilhões devem deixar de entrar nos cofres públicos neste ano por causa da sonegação de impostos, o equivalente a 18,5 vezes o orçamento do bolsa família em 2015. As estimativas são do sistema batizado de sonegômetro, elaborado pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz) com base em cruzamentos de dados principalmente da Receita Federal.

Repito: 500 BILHÕES DE REAIS EM SONEGAÇÃO DE EMPRESAS PRIVADAS. Um crime gravíssimo, lembre-se. Qual a reação do brasileiro? Os comentários postados na página do Valor Econômico ilustram bem. Alguns selecionados:

Otávio Toledo É um dinheiro que fica em circulação , movimentando a economia e não abarrotando cofres de políticos e partidos ladrões !

Flavio Novaes Não tenho dúvidas que estes 500 bilhões, está sendo muito melhor empregado, do que se estivesse na mão dos bandidos. E outra coisa que este valor somado a já insana carga tributária, praticamente caracterizaria efeito de confisco, o que também é proibido pela Constituição.

Paulo Teixeira Corrijam a matéria: “Sociedade consegue proteger 500 bilhões por ano de serem levados pelo Governo saqueador de riquezas”

Cardoso C Joab Opa….precisamos dobrar essa meta, 500 bi por ano a menos para a mafia estatal ainda é pouco.

Bruno Santos O título deveria ser:
Governo tenta roubar mais 500 bilhões do povo e não consegue.

Gustavo Vieira de Moraes Sonegação hoje é ato de desobediência civil! Um ato de responsabilidade ante nosso triste futuro.

Armando 500 bilhões a mais em poder de compra e a menos em poder de corrupção

Todos extensamente aprovados por outros usuários através de centenas de curtidas. Quantas e quantas vezes você já ouviu este mesmo discurso por aí? Quantas e quantas vezes você se deparou com alguém defendendo “a privatização de todas as empresas, a entrega da saúde e da educação na mão do mercado para ‘resolver isso tudo que está aí’ e que ‘só assim’ conseguiríamos entregar serviços adequados para a população”? Eu perdi a conta.

Outro ponto excelente da entrevista do Jessé:

Todos os conflitos brasileiros tendem a ser silenciados. A classe média, que se põe como campeã da moralidade, no fundo explora o trabalho de uma ralé, de uma classe de excluídos, que presta todo tipo de serviço a ela — serviços que nem as classes médias europeia ou norte-americana têm. É um exército de escravos, no fundo, para prestar, a baixo custo, serviço na sua casa, cortar a sua grama, fazer comida, cuidar do seu filho. Isso é uma luta de classes. A luta de classes é silenciosa, por recursos escassos. Todos recursos, materiais e ideais, são escassos. Não é só a casa, o carro, a mercadoria, mas o reconhecimento, o prestígio, a beleza, o charme. Isso tudo é escasso. Há uma luta de todos contra todos em relação a isso, mas algumas classes monopolizam o acesso a esses recursos: o 1% e seu sócio menor, que é uma classe média de 20%, que monopoliza o capital cultural e tem um estilo de vida europeu em um país como o Brasil. O restante tem de lutar por isso.

(…)

Essas pessoas defendem um tipo de liberalismo amesquinhado que tem a ver com a imagem negativa do brasileiro. Isso começa com o Gilberto Freyre, em 1933, quando se substitui o racismo científico, fenotípico, por um racismo cultural. A base desse raciocínio é o “complexo do vira-lata”, como chamava Nelson Rodrigues. Supõe-se que existam sociedades superiores, compostas por indivíduos superiores moral e cognitivamente, que estariam nos Estados Unidos e na Europa. Lá, haveria um Estado só público, que não é privatizado por ninguém. Isso é um completo absurdo, fácil de ser destruído. Mas quando essas interpretações se tornam naturalizadas, os fatos não importam mais. O que os grandes pensadores dizem é que a privatização do Estado é uma singularidade brasileira, e nós acreditamos nisso. Há um sequestro da inteligência do povo brasileiro montado por grandes intelectuais. A grande interpretação do Brasil é só uma, que une personalismo e patrimonialismo.

Mais didático que isso, impossível.

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