﻿{"id":1108,"date":"2011-03-21T15:44:09","date_gmt":"2011-03-21T17:44:09","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1108"},"modified":"2011-03-21T19:53:22","modified_gmt":"2011-03-21T21:53:22","slug":"a-tragedia-japonesa-transmutada-em-oportunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1108","title":{"rendered":"A trag\u00e9dia japonesa transmutada em oportunidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1109\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/bp1.jpg\" alt=\"\" width=\"554\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/bp1.jpg 990w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/bp1-300x197.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 554px) 100vw, 554px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(<a href=\"http:\/\/www.boston.com\/bigpicture\/2011\/03\/massive_earthquake_hits_japan.html\" target=\"_blank\">Kyodo News\/Associated Press &#8211; The Big Picture<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Jap\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds rico que pode se financiar a custos relativamente baixos no mercado externo. Num cen\u00e1rio positivo de recupera\u00e7\u00e3o, <strong>esse choque terr\u00edvel pode fazer o pa\u00eds superar duas d\u00e9cadas de crescimento decepcionante.&#8221;<\/strong> (Mohamed El-Erian, presidente da gestora de investimentos Pimco, na edi\u00e7\u00e3o 988 da revista Exame).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o surpreende a afirma\u00e7\u00e3o de Mohamed: dentro da extensivamente conhecida l\u00f3gica do capital, \u00e9 isto mesmo. O terceiro pior terremoto da hist\u00f3ria, que atingiu 9 graus na escala Richter e at\u00e9 agora deixou <strong>8.649 mortos e 13.261 desaparecidos<\/strong>, dever\u00e1 cobrar tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/economia\/mundo\/noticias\/reconstrucao-do-japao-mobilizara-numeros-astronomicos\" target=\"_blank\">uma conta de at\u00e9 <strong>235 bilh\u00f5es de d\u00f3lares<\/strong> na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds,<\/a> prevista para no m\u00ednimo 5 anos. <strong>4% do PIB que parece &#8220;dinheiro de saqu\u00ea&#8221;<\/strong> para a terceira maior economia do mundo, que at\u00e9 agora <strong>despejou mais de 330 bilh\u00f5es de euros atrav\u00e9s do Banco do Jap\u00e3o para &#8220;evitar o p\u00e2nico dos investidores&#8221;<\/strong>. O capitalismo v\u00eddeo-financeiro n\u00e3o pode sofrer, afinal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frieza dos n\u00fameros, a qual estamos t\u00e3o acostumados, parece obliterar a capacidade de pensar e se envolver: um dos efeitos colaterais de um mundo obcecado com a capacidade t\u00e9cnica. Os mortos e desaparecidos s\u00e3o s\u00f3 dados a mais. Como sempre, ap\u00f3s um per\u00edodo de grande depress\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que a economia japonesa viva o maior &#8220;ciclo de crescimento&#8221; dos \u00faltimos 20 anos, como afirmou Mohamed. E isto, afinal, \u00e9 bom. \u00c9 o que o capital nos diz. \u00c9 como ele trata a quest\u00e3o. O frisson do crescimento sob qualquer par\u00e2metro \u00e9 outro fetiche da nossa sociedade, lembrado <a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=518\" target=\"_blank\">aqui<\/a>. <strong>Somos ensinados a acreditar que &#8220;crescer \u00e9 sempre bom&#8221;<\/strong>, n\u00e3o importa o que esteja por tr\u00e1s disso. Ou seja: devemos ficar contentes pela recupera\u00e7\u00e3o japonesa. A trag\u00e9dia, no fim, ser\u00e1 boa para o pa\u00eds e o mundo. Certo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 outro caso flagrante do duplipensar orwelliano:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cControle da realidade\u201d, chamava-se. Ou, em Novil\u00edngua, \u201cduplipensar\u201d. (..)\u00a0Saber e n\u00e3o saber, ter consci\u00eancia de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, <strong>defender simultaneamente duas opini\u00f5es opostas, sabendo-as contradit\u00f3rias e ainda assim acreditando em ambas;<\/strong> usar a l\u00f3gica contra a l\u00f3gica, repudiar moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardi\u00e3o da democracia; esquecer tudo quanto fosse necess\u00e1rio esquecer, traze-lo \u00e0 mem\u00f3ria prontamente no momento preciso, e depois torna-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o pr\u00f3prio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsci\u00eancia e ent\u00e3o tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. At\u00e9 para compreender a palavra \u201cduplipensar\u201d era necess\u00e1rio usar o duplipensar.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 incr\u00edvel como esse conceito de Orwell \u00e9 t\u00e3o presente e cabe para um sem n\u00famero de situa\u00e7\u00f5es. Tudo isso \u00e9 algo que Marx, com todas suas falhas e lacunas, definiu precisamente quase 200 anos atr\u00e1s. A ess\u00eancia do capitalismo, grosso modo, continua a mesma. Diz ele: &#8220;A burguesia n\u00e3o pode sobreviver sem revolucionar constantemente os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o, e com eles as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, e com eles todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. (&#8230;)<strong> Revolu\u00e7\u00e3o ininterrupta da produ\u00e7\u00e3o, cont\u00ednua perturba\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, intermin\u00e1vel incerteza e agita\u00e7\u00e3o, distinguem a era burguesa de todas as anteriores.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.duplipensar.net\/artigos\/2005-Q2\/capitalismo-democracia.html\" target=\"_blank\">Em 2005, no auge do sentimento inflamado dos meus 17 para 18 anos, escrevi este artigo tra\u00e7ando paralelos entre Marx, Berman, a democracia e o mundo moderno. <\/a> No que agora vejo necess\u00e1rio completar com outra cita\u00e7\u00e3o de Berman presente naquele texto. Necess\u00e1rio porque ela define com lucidez absoluta muito do que vivemos. A afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente no fundamental &#8220;Tudo Que \u00c9 S\u00f3lido Desmancha no Ar &#8211; a aventura da modernidade&#8221;:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossas vidas s\u00e3o controladas por uma classe dominante de interesses bem definidos n\u00e3o s\u00f3 na mudan\u00e7a, mas na crise e no caos. \u201cIninterrupta perturba\u00e7\u00e3o, intermin\u00e1vel incerteza e agita\u00e7\u00e3o\u201d, <strong>em vez de subverter esta sociedade, resultam de fato no seu fortalecimento. Cat\u00e1strofes s\u00e3o transformadas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento e a renova\u00e7\u00e3o; <\/strong>a desintegra\u00e7\u00e3o trabalha como for\u00e7a mobilizadora e, portanto, integradora. O \u00fanico espectro que realmente amedronta a moderna classe dominante e que realmente p\u00f5e em perigo o mundo criado por ela \u00e0 sua imagem \u00e9 aquilo por que as elites tradicionais (e, por extens\u00e3o, as massas tradicionais) suspiravam: uma estabilidade s\u00f3lida e prolongada. Neste mundo, estabilidade significa t\u00e3o somente entropia, morte lenta, uma vez que nosso sentido de progresso e crescimento \u00e9 o \u00fanico meio que dispomos, para saber, com certeza, que estamos vivos. <strong>Dizer que nossa sociedade est\u00e1 caindo aos peda\u00e7os \u00e9 apenas dizer que ela est\u00e1 viva e em forma.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 exatamente dentro disso que o pensamento de Mohamed se enquadra. A grande quest\u00e3o do capitalismo &#8211; e por isso ele \u00e9 t\u00e3o forte &#8211; \u00e9 que se alimenta do seu pr\u00f3prio caos para sobreviver. \u00c9 parte fundamental das suas engrenagens. Uma capacidade admir\u00e1vel, de ast\u00facia infinita. <strong>Toda crise severa &#8211; como a mundial de 2008 &#8211; abalos menores (que acontecem frequentemente em economias diversas, como a grega e espanhola no momento), agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas (Egito, L\u00edbia, Costa do Marfim), movimentos populares (Fran\u00e7a em 2005-2007) e trag\u00e9dias naturais como o terremoto do Chile em 2010 e agora o do Jap\u00e3o. Tudo isso \u00e9 absorvido e transformado. \u00c9 tratado como &#8220;oportunidade para o crescimento&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 temor que ele n\u00e3o regurgite como esperan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 desafios e abalos pol\u00edticos, econ\u00f4micos, sociais e naturais que ele n\u00e3o coloque dentro da sua m\u00e1quina de &#8220;mudan\u00e7a e desenvolvimento&#8221;. Uma m\u00e1 not\u00edcia: est\u00e1 ficando cada vez mais caro. O custo n\u00e3o s\u00f3 financeiro, mas &#8220;pessoal&#8221;, de postura e imagin\u00e1rio coletivo. A crise financeira de 2008 colocou subitamente os EUA como &#8220;Estados Unidos Socialistas da Am\u00e9rica&#8221;, com toda a sociedade pagando o preju\u00edzo dos ricos, como afirmou Nouriel Roubini. As contradi\u00e7\u00f5es e paradoxos s\u00e3o cada vez mais evidentes. A medida que a classe m\u00e9dia avan\u00e7a e a educa\u00e7\u00e3o melhora nos pa\u00edses &#8220;emergentes&#8221;, a popula\u00e7\u00e3o vai lentamente aprendendo a pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos \u00e0 beira de um colapso energ\u00e9tico, ambiental, com alimentos perto da escassez num futuro do pr\u00f3ximo e v\u00e1rias outras quest\u00f5es que conhecemos bem. A ascens\u00e3o de uma nova classe m\u00e9dia em pa\u00edses como Brasil, China e \u00cdndia, almejando os n\u00edveis de consumo do mundo &#8220;desenvolvido&#8221;, <strong>coloca a pr\u00f3pria &#8220;sustentabilidade&#8221; (risos) \u00a0do capitalismo em crise.<\/strong> Ao lentamente diminuir o abismo de desigualdade social, base central da sua exist\u00eancia, ele coloca em risco sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de &#8220;solu\u00e7\u00e3o \u00fanica para a sociedade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No melhor cen\u00e1rio poss\u00edvel, nosso vasto conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, em constante amplia\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 capaz de gerar novas possibilidades de energia, padr\u00f5es de consumo e solu\u00e7\u00f5es diversas otimizando todo o arcabou\u00e7o arcaico que ainda vivemos. Mesmo que a demanda por a\u00e7o, min\u00e9rio e petr\u00f3leo, por exemplo, ainda v\u00e1 crescer absurdamente com isso. \u00c9 se equilibrando entre as necessidades e as demandas exigidas pela sociedade que o capitalismo tenta entregar o m\u00ednimo de condi\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel de vida. Muito avan\u00e7ado em boa parte do planeta e um esc\u00e1rnio na outra metade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste cen\u00e1rio, vamos continuamente nos adaptar, inserindo preceitos e solu\u00e7\u00f5es diversas, seja do socialismo seja de qualquer corrente de pensamento e pr\u00e1tica que podemos recorrer. N\u00e3o acredito no colapso total: est\u00e1 previsto um investimento recorde para os pr\u00f3ximos 20 anos.<strong> Ser\u00e3o 24 trilh\u00f5es de d\u00f3lares investidos na capacidade produtiva em 2030, o dobro da atual. <\/strong>Se tudo correr bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O capitalismo \u00e9 muito s\u00e1bio em entregar aquilo que precisamos, a come\u00e7ar pelo dom\u00ednio total dos nossos anseios, vontades, desejos e mentalidade pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social. A nossa sociedade est\u00e1 sempre perto do fim ao mesmo tempo que nunca esteve t\u00e3o bem: o desenvolvimento real dos \u00faltimos 50 anos n\u00e3o encontra precedentes na hist\u00f3ria. At\u00e9 quando ser\u00e1 poss\u00edvel viver assim e at\u00e9 quando a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o do sistema dar\u00e1 conta do que ele mesmo produz \u00e9 uma d\u00favida que s\u00f3 podemos responder na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos confortavelmente anestesiados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Kyodo News\/Associated Press &#8211; The Big Picture) &#8220;O Jap\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds rico que pode se financiar a custos relativamente baixos no mercado externo. 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