﻿{"id":1247,"date":"2011-10-29T15:31:14","date_gmt":"2011-10-29T17:31:14","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1247"},"modified":"2011-10-29T15:40:29","modified_gmt":"2011-10-29T17:40:29","slug":"lula-a-historia-nas-telas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1247","title":{"rendered":"Lula: a hist\u00f3ria nas telas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1248\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/50428212.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"805\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/50428212.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/50428212-223x300.jpg 223w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publico abaixo a mat\u00e9ria que foi capa da revista Movie de janeiro de 2010, \u00e9poca de lan\u00e7amento do filme &#8220;Lula, O Filho do Brasil&#8221;, contendo uma entrevista que fiz com Gl\u00f3ria Pires durante o 42<span><em>\u00ba <\/em><\/span> Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro e uma cr\u00edtica da pel\u00edcula. Pela primeira vez na web. Revi o filme esses dias e a impress\u00e3o permanece a mesma.<\/p>\n<p><strong>Gl\u00f3ria Pires: a grande dama do cinema nacional<\/strong><\/p>\n<p align=\"LEFT\"><em><span lang=\"pt-BR\">Atriz, presente nos maiores sucessos de bilheteria nos \u00faltimos anos, faz seu papel principal no cinema ao interpretar a m\u00e3e de Lula<\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Sem ignorar outras ineg\u00e1veis grandes atrizes brasileiras, \u00e9 inquestion\u00e1vel que Gl\u00f3ria Maria Cl\u00e1udia Pires de Moraes tem cheiro de povo. Os n\u00fameros n\u00e3o mentem: nesta d\u00e9cada, os filmes protagonizados por ela levaram mais de 10 milh\u00f5es de brasileiros ao cinema. Especialmente nas parcerias com Daniel Filho: A Partilha, de 2001 e os blockbusters Se Eu Fosse Voc\u00ea, de 2006, e sua continua\u00e7\u00e3o, de 2009.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Impressionante, por\u00e9m pouco se comparado aos 20 milh\u00f5es de espectadores que s\u00e3o esperados para \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d. Pelo menos este \u00e9 o desejo e a expectativa de Luiz Carlos Barreto, produtor do longa. N\u00e3o sem motivo.  A popularidade mundial de Lula ancora o lan\u00e7amento em mais de 500 salas e facilita acordos de distribui\u00e7\u00e3o sendo costurados em toda Am\u00e9rica Latina.  A marca, se alcan\u00e7ada, ser\u00e1 quase o dobro do at\u00e9 agora campe\u00e3o absoluto que \u00e9 \u201cDona Flor e Seus Dois Maridos\u201d, de 1976, com aproximadamente 11 milh\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Para Gl\u00f3ria, atriz acostumada a ser assistida por milh\u00f5es de brasileiros todos os dias durante d\u00e9cadas na tela da Globo, esse tamanho assusta? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cAssusta. Acho que se a gente fica pensando nisso, essas possibilidades que est\u00e3o surgindo, travaria. Ainda bem que s\u00f3 estamos tendo acesso a isso agora com o filme pronto, porque se fossemos fazer sabendo de todo esse peso&#8230;n\u00e3o dava pra fazer nada, seria um bloqueador.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Realmente, levar a m\u00e3e de um dos personagens mais ic\u00f4nicos da hist\u00f3ria do Brasil para as telas \u00e9 um trabalho complicado. Dona Lindu, magistralmente interpretada por Gl\u00f3ria, \u00e9 nitidamente o eixo por onde \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d se move. Lindu personifica n\u00e3o s\u00f3 o estere\u00f3tipo da m\u00e3e aguerrida, batalhadora, que teve de assumir boa parte da cria\u00e7\u00e3o dos filhos sozinha, a exemplo de tantas hist\u00f3rias de outras brasileiras, como \u00e9 a principal influ\u00eancia de Luiz In\u00e1cio. A quem o atual presidente deve parte fundamental de seu car\u00e1ter. Como interpretar uma personagem real de tamanha import\u00e2ncia mas sem muitos registros de sua personalidade? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cFoi muito com os familiares. As informa\u00e7\u00f5es foram s\u00f3 com eles. N\u00e3o havia nada escrito sobre ela, nada gravado, apenas algumas fotos. Fomos buscar tudo nos relatos familiares: filhos, primos, sobrinhos netos.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1249\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-012.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-012.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-012-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Os olhos de Gl\u00f3ria brilham numa quase devo\u00e7\u00e3o ao papel. Nota-se, na fala da atriz, a paix\u00e3o pela ess\u00eancia de Lindu, a profundidade com que se entregou a ela: <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cEu n\u00e3o sabia nada dessa hist\u00f3ria. Ent\u00e3o foi uma grande surpresa descobrir como tudo surgiu. E o que me encantou muito foi a forma como as pessoas que  conheceram a Dona Lindu at\u00e9 hoje se emocionam ao falar dela. Do jeito dela, da positividade que ela tinha, da forma surpreendente de lidar com as adversidades, que n\u00e3o foram poucas.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Dentre todas as personagens marcantes em mais de 40 anos de carreira, o que mais fascina em Lindu? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cA positividade, essa forma de olhar pro futuro e caminhar, apesar de tudo. A capacidade de surpreender em suas atitudes. Ela n\u00e3o tinha estudo, mas uma grande intui\u00e7\u00e3o, uma intelig\u00eancia emocional muito forte. E \u00e9 maravilhoso porque tudo isso \u00e9 verdade. As coisas realmente aconteceram: a enchente, a viagem de 13 dias e 13 noites, a morte dos filhos, ainda beb\u00eas, tudo isso aconteceu de fato e ela sempre com a sua maneira positiva, valente, destemida. Ela tinha um orgulho, mas n\u00e3o era orgulhosa. Uma retid\u00e3o sem ser prepotente. Uma for\u00e7a sem ser resmungona. Sempre rindo, bem humorada. O resultado dessas qualidades \u00e9 que a torna forte, capaz de encaminhar todos os filhos bem, com suas vidas organizadas. O amor, que \u00e9 tudo que a gente pensa quando falamos de \u2018m\u00e3e\u2019, essa coisa do amor incondicional, fazer das tripas cora\u00e7\u00e3o. Sempre com alto-astral e acho que isso t\u00e1 no filme. Muito n\u00edtido\u201d.<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">E como \u00e9 interpretar um personagem real? Mais dif\u00edcil que o comum? Como equilibrar as coisas? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cNa verdade, acho que \u00e9 dif\u00edcil porque voc\u00ea tem um resultado que \u00e9 real. Quando voc\u00ea interpreta uma pessoa real, t\u00e1 recriando algo que aconteceu. Por um lado \u00e9 mais f\u00e1cil justamente por causa dos testemunhos que voc\u00ea recebe, tem um peso diferente. O tempo todo ficava pensando, enquanto fazia, que os filhos dela ir\u00e3o assistir ao filme. Ent\u00e3o queria da melhor forma resgatar essa mulher para que eles tivessem um desdobramento da imagem que ficou l\u00e1 atr\u00e1s. Afinal de contas, o tempo cria um distanciamento muito grande e n\u00e3o queria interferir de uma forma contr\u00e1ria, oposta ao que eles me narraram. Fiz muito para os filhos. Pensando nos filhos. Respeitando o que me passaram.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1254\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-009.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-009.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-009-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><strong>O trabalho ao lado de Cl\u00e9o e F\u00e1bio Barreto, a popularidade e a retomada do cinema<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u201c<span lang=\"pt-BR\">Lula\u201d tamb\u00e9m marca a primeira que vez que Gl\u00f3ria e sua filha, Cl\u00e9o, atuam juntas, dividindo a cena. O que n\u00e3o estava previsto: <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cNa verdade atuamos juntas por acaso. N\u00e3o tinha no roteiro nenhuma sequencia junta, onde houvese um di\u00e1logo. O F\u00e1bio (Barreto, diretor) que criou. Era o \u00faltimo dia de filmagem e ele me disse \u2018n\u00e3o posso fazer um filme com voc\u00eas duas e n\u00e3o ter um di\u00e1logo\u2019. A cena acontece depois do casamento da Lourdes com o Lula. Fiquei feliz, porque claro que tem toda uma coisa afetiva. O F\u00e1bio \u00e9 muito amoroso, ele se preocupa com umas coisas que ningu\u00e9m se preocuparia. Ele tem essa qualidade: dentro da loucura toda ele lembrar, pensar, que n\u00e3o tinha nenhum di\u00e1logo nosso e criar isso. Fiquei muito feliz, acho que ela t\u00e1 muito bem no filme.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">A parceria de Gl\u00f3ria e F\u00e1bio, na verdade, \u00e9 antiga. \u201c\u00cdndia, A Filha do Sol\u201d, de 1982, marcou a estreia dos dois no cinema. F\u00e1bio estreando na dire\u00e7\u00e3o e Gl\u00f3ria consagrada por sucessos recentes na TV da \u00e9poca como \u201cDancin\u2019 Days\u201d, de 1978 e Cabocla, de 79.  A parceria se repetiria anos depois em \u201cO Quatrilho\u201d, de 1995, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Gl\u00f3ria relata a proximidade entre os dois: <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cO F\u00e1bio \u00e9 muito f\u00e1cil de conviver, porque ele quer todo mundo feliz. \u00c9 muito dif\u00edcil isso, a n\u00e3o ser que as pessoas entrem nessa. E ele tem essa preocupa\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 muito sens\u00edvel, inteligente.  \u00c9 um amigo querido e assim tudo fica mais f\u00e1cil. Temos bastante intimidade. Ele ouve muito, n\u00e3o tem nenhum problema de ego. Se algu\u00e9m tem uma ideia boa, qualquer pessoa que seja, e a ideia for mesmo boa, ele vai usar. N\u00e3o tem esse neg\u00f3cio de \u2018eu sou o diretor e a bola \u00e9 minha\u2019, sabe? Tem sido \u00f3timo ao longo destes anos todos\u201d.<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1250\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-046.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-046.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-046-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">E qual \u00e9, afinal, a posi\u00e7\u00e3o de gl\u00f3ria sobre o aspecto \u201cpol\u00edtico\u201d de \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cEu n\u00e3o acho que seja um filme pol\u00edtico. Existe uma expectativa muito grande, que \u00e9 normal. E as pessoas veem o Lula como um homem pol\u00edtico. Mas o filme n\u00e3o conta esta hist\u00f3ria. Conta o que vem antes, o que ningu\u00e9m conhece. Acho que \u00e9 s\u00f3 um alarde, a maioria das pessoas sequer viu, n\u00e3o sabem do que se trata. Na \u00e2nsia de ter que falar alguma coisa,  acabam soltando isso.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Ap\u00f3s ficar alguns anos sem participac\u00f5es no cinema, Gl\u00f3ria come\u00e7ou a acumular um filme atr\u00e1s do outro, justo no per\u00edodo crescente de participa\u00e7\u00e3o do cinema nacional em termos de p\u00fablico nas salas, que passou de 5% a uma m\u00e9dia de 15% do mercado, chegando a 23%. A que se deve esta constante (e bem vinda) apari\u00e7\u00e3o de Gl\u00f3ria no cinema? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cEsse retorno \u00e9 culpa do Daniel Filho (risos). Fiquei um tempo muito grande de jejum de cinema. E, a partir de A Partilha (de 2001), que tava com o Daniel h\u00e1 muitos anos, ele acabou me convidando pra fazer. Era uma grande f\u00e3 da pe\u00e7a, que ficou muitos anos em cartaz e adorava a Selma, que \u00e9 a personagem que ele me convidou. E depois veio Se Eu Fosse Voc\u00ea (2006), Primo Bas\u00edlio (2007), Se Eu Fosse Voc\u00ea 2 (2009), todos com a dire\u00e7\u00e3o do Daniel.  Ele foi muito respons\u00e1vel por isso, por me trazer de volta ao cinema. E \u00e9 um trabalho mais intenso, at\u00e9 porque dura menos tempo, d\u00e1 pra fazer v\u00e1rios. Fiz praticamente tr\u00eas filmes num ano (2008):  Se Eu Fosse Voc\u00ea 2  em abril, \u00c9 Proibido Fumar (de Anna Muylaert) em julho e  em dezembro comecei a prepara\u00e7\u00e3o do \u2018Lula\u2019. Tr\u00eas filmes totalmente diferentes, com propostas diferentes , o que foi muito bom.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">E como ela se sente sendo uma das respons\u00e1veis por alguns dos maiores sucesso de p\u00fablico dos \u00faltimos anos? Ela n\u00e3o seria o grande \u00edcone do cinema nacional na atualidade? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cAh, eu me sinto uma sortuda. Porque foram meus amigos que me chamaram para fazer esses filmes. Pessoas que trabalharam comigo e eu tive a sorte de ser convidada e ter esse sucesso todo. O que eu levo em conta mesmo (na hora de escolher o projeto de um filme) \u00e9 o roteiro, a possibilidade daquele roteiro virar um bom filme, quem dirige, a hist\u00f3ria que estamos contando e tudo. Na verdade os temas v\u00e3o de encontro a determinado momento pessoal. No cinema \u00e9 mais difi\u00edcil ter essa coisa de repetir personagem, normalmente n\u00e3o se faz filme toda hora. Na televis\u00e3o \u00e9 mais normal, mas no cinema \u00e9 mais dif\u00edcil. O que \u00e9 determinante mesmo pra mim \u00e9 quem me chama e a hist\u00f3ria que ser\u00e1 contada\u201d <\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Com 9 filmes no curr\u00edculo desde a chamada \u201cretomada\u201d, sendo parte importante dela pelo pr\u00f3prio \u201cO Quatrilho\u201d, de 95, como Gl\u00f3ria observa o desenvolvimento do cinema nacional, a mudan\u00e7a da recepc\u00e3o do p\u00fablico e da pr\u00f3pria m\u00eddia? <\/span><span lang=\"pt-BR\"><em>\u201cEu vejo que existe esse crescimento, at\u00e9 com rela\u00e7\u00e3o a imprensa, porque ela tamb\u00e9m tem uma s\u00e9rie de ran\u00e7os, vamos dizer. Fazendo filmes com o Daniel, eu vi demais isso, porque ele mesmo j\u00e1 fala, a imprensa vai dizer \u2018ah, l\u00e1 vem o cara fazer novela no cinema\u2019. Que \u00e9 um discurso batido, velho, ran\u00e7oso e que n\u00e3o tem nada a ver. Cinema \u00e9 cinema. Se voc\u00ea quer ter mercado, n\u00e3o pode falar com uma parcela do p\u00fablico, tem que falar com todo mundo. \u00c9 muito simplista falar que o cara faz televis\u00e3o no cinema. \u00c9 meio burro isso. Uma coisa n\u00e3o tem nada a ver com a outra.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Iniciando 2010 com o maior lan\u00e7amento da hist\u00f3ria do cinema brasileiro e num papel forte e marcante como \u00e9 Dona Lindu, Gl\u00f3ria tem toda a propriedade do mundo para falar. Enquanto observa a trajet\u00f3ria de \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d nas telas, Gl\u00f3ria pode analisar com calma os diversos convites que recebe para novos projetos. Uma das maiores atrizes da dramaturgia brasileira em todos os tempos se despede com um sorriso no rosto e a satisfa\u00e7\u00e3o de ter pleno dom\u00ednio da carreira. Todos querem um pouco de Gl\u00f3ria Pires. E ela sabe muito bem o que faz.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1251\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-049.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-049.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-049-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>Lula: apote\u00f3tico, brega, problem\u00e1tico e popular como o Brasil<\/strong><\/p>\n<p><em><span lang=\"pt-BR\">Filme busca sem cessar o \u201cmelodrama \u00e9pico\u201d forjado por F\u00e1bio Barreto<\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">O que as palmas protocolares de um teatro apinhado com quase 2 mil pessoas, numa sess\u00e3o tensa, turbulenta, repleta de pol\u00edticos dos mais elevados cargos do pa\u00eds at\u00e9 o pov\u00e3o, curioso, ansioso, depois de duas horas do filme mais caro, de maior lan\u00e7amento e mais esperado do cinema brasileiro recente significam? Exatamente o que \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d \u00e9. Um filme mediano, com problemas cr\u00f4nicos e lapsos de cinematografia art\u00edstica. Uma obra que deixa um gosto estranho na boca. As palmas, que deveriam ser efusivas, s\u00e3o apenas frias, corretas. A consagra\u00e7\u00e3o absoluta n\u00e3o vem.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">O p\u00fablico, cansado pelas quase 4 horas que a sess\u00e3o levou (incluindo o atraso) parece mais preocupado em sair logo do Teatro Nacional, acotovelando-se com outras centenas de pessoas na sa\u00edda, que saudar o elenco, a produ\u00e7\u00e3o e a primeira dama, Marisa, ali presente. Assim foi a premi\u00e9re mundial de \u201cLula\u201d, em Bras\u00edlia. Como o pr\u00f3prio Barreto admitiu na coletiva do dia seguinte, o p\u00fablico riu quando \u201ctinha\u201d que rir, se emocionou quando \u201ctinha\u201d que se emocionar e assistiu tudo com profundo interesse e respeito. Os objetivos, afinal, foram cumpridos com louvor. A pel\u00edcula entrega exatamente o que se espera dela: a epop\u00e9ia real de um homem pobre, imigrante, que se formou em meio a uma fam\u00edlia destru\u00edda, enormes priva\u00e7\u00f5es financeiras, descobriu o amor, perdeu a esposa e o filho, foi preso, assistiu a morte da m\u00e3e, batalhou, viu-se l\u00edder sindical quase por acaso e acabou como presidente do Brasil. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">A teimosia. A persist\u00eancia. Perseveran\u00e7a. Caracter\u00edsticas apregoadas quase com messianismo. Dentre todas as expectativas poss\u00edveis que a produ\u00e7\u00e3o de \u201cLula\u201d gerou, na verdade, algumas s\u00e3o principais. Tecnicamente, os R$ 12 milh\u00f5es gastos s\u00e3o evidentes: a fotografia consegue dar a exata medida dos cen\u00e1rios: do sert\u00e3o ao porto de Santos. Cenas como as da enchente pela qual a fam\u00edlia sobrevive s\u00e3o realistas e fogem do padr\u00e3o \u201cduvidoso\u201d que as produ\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes carregam. Ao mesmo tempo em que atinge resultado aceit\u00e1vel e com algum brilho na maioria das cenas (F\u00e1bio nunca foi exatamente um mestre das c\u00e2meras), alguns momentos extrapolam o limite da pieguice. Como o beijo entre Lula e Cl\u00e9o Pires com um cora\u00e7\u00e3o brilhante de fundo. No extremo oposto, est\u00e1 o \u00e1pice que \u00e9 a reuni\u00e3o sindical de inesperadas 80 mil pessoas, reproduzida com cuidado, de cria\u00e7\u00e3o dif\u00edcil (3 dias), mesclada com computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica, material de arquivo e a presen\u00e7a de figurantes que realmente viveram a ocasi\u00e3o d\u00e9cadas antes.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1252\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-025.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"429\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-025.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-025-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">A cena \u00e9, por si s\u00f3, talvez a maior representante da alma de Lula. O homem que atinge e tem a multid\u00e3o na m\u00e3o pelo carisma, a capacidade de lideran\u00e7a, de fazer com que um est\u00e1dio inteiro ou\u00e7a o que tem a dizer em colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua. O que teima diante de todas as adversidades, imagin\u00e1veis ou n\u00e3o.  A m\u00fasica,  de Jaques Morelenbaum e Antonio Pinto (mesma dupla de Central do Brasil), vai na esteira da inten\u00e7\u00e3o obsessiva de provocar emo\u00e7\u00f5es, sendo bela em alguns momentos e massante na maior parte do longa. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Milhem Cortaz, como o pai, Aristides, tem participa\u00e7\u00e3o curta por\u00e9m fundamental. Gl\u00f3ria Pires sobra em cena. \u00c9 ela toda a estabilidade de Lula e, por consequencia, do filme. Entre o ainda menino que perde o dedo e corre para os bra\u00e7os da m\u00e3e e o l\u00edder sindicalista capaz de domar multid\u00f5es, Lula perde a esposa, o filho, o pai e a m\u00e3e. \u00c9 pelo trauma, pelos golpes mais duros, que a personalidade e a trajet\u00f3ria de Luiz In\u00e1cio se forma. Para al\u00e9m de seus problemas art\u00edsticos, da superficialidade e planifica\u00e7\u00e3o com que tudo \u00e9 contado (35 anos em 2 horas), de algumas escolhas infelizes, \u201cLula\u201d se imp\u00f5e pelos in\u00fameros temas relevantes que toca: imigra\u00e7\u00e3o, darwinismo social (depois demolido), alcoolismo, fam\u00edlia, perseveran\u00e7a, amor, mercado, repress\u00e3o e&#8230;pol\u00edtica. <\/span><\/p>\n<p lang=\"pt-BR\" align=\"JUSTIFY\">\n<p align=\"JUSTIFY\">\u201c<span lang=\"pt-BR\">Lula\u201d \u00e9 um filme pol\u00edtico? A intermin\u00e1vel pergunta. Aquilo que os produtores s\u00e3o obrigados a responder incessantemente. O ponto preferido da m\u00eddia, da oposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o do p\u00fablico. \u201cLula\u201d \u00e9 um filme \u201capol\u00edtico\u201d no m\u00e1ximo que a hist\u00f3ria de um personagem como Luiz In\u00e1cio d\u00e1 para ser. No entanto, \u00e9 importante ressaltar que jamais o car\u00e1ter minimamente pol\u00edtico da obra \u00e9 no sentido eleitoreiro. A princ\u00edpio, inclusive, Lula \u00e9 mostrado como algu\u00e9m que, se n\u00e3o chega a ter rep\u00fadio pela pol\u00edtica, n\u00e3o se interessa por ela. Esnoba, foge, teme, desconfia. \u00c9 empurrado pelo irm\u00e3o, Chico. O tempo todo advertido que \u201cesse neg\u00f3cio de sindicato n\u00e3o presta\u201d.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1255\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-035.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-035.jpg 600w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/imagem-035-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Ap\u00f3s a morte da esposa \u00e9 que Lula, no filme, adquire outro tom. Outra postura. Ante a pol\u00edtica e todo o resto. Ali ele quebra o mundo da inf\u00e2ncia, a timidez, o conforto. Assume a lideran\u00e7a do sindicato, \u201cpra ocupar a cabe\u00e7a\u201d. A obra \u00e9 n\u00edtida em mostrar que Lula entra na pol\u00edtica pelo escapismo. Com o objetivo inicial de superar uma perda. O que, em tese, pode soar como algo n\u00e3o muito positivo para o p\u00fablico. Assim como a acusa\u00e7\u00e3o de que Barreto mostra Lula como \u201cum her\u00f3i sem falhas\u201d n\u00e3o encontra raz\u00e3o. Sim, ele \u00e9 tido como estudioso, adepto da n\u00e3o-viol\u00eancia, defensor da m\u00e3e, rom\u00e2ntico, etc. Mas aparece sempre bebendo, fumando. Tamb\u00e9m xinga, se exalta. Tem comportamentos d\u00fabios. O m\u00ednimo de humanidade est\u00e1 ali.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">Goste-se ou n\u00e3o de Lula, o presidente, h\u00e1 que se admitir que ele nunca precisou de filme algum para vencer dois mandatos e ter o n\u00edvel de popularidade alt\u00edssimo e constante. Para n\u00e3o dizer que a transfer\u00eancia de votos (para Dilma ou qualquer outro candidato) \u00e9 ci\u00eancia complexa, longe do simplismo que a maioria parece acreditar e que j\u00e1 se provou tremendamente falha no passado.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span lang=\"pt-BR\">O filme termina com o salto hist\u00f3rico e as imagens reais da posse do primeiro mandato, em 2002, em Bras\u00edlia. Nos bra\u00e7os do povo. Ali o melodrama \u00e9pico encontra seu auge. Aut\u00eantico e cambaleante como todo o resto. Dentre todos os problemas, como filme, que \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d possui, a hist\u00f3ria \u00e9 forte por si mesma. Err\u00e1tica e torta. Por isso, mais humana. A sensa\u00e7\u00e3o do dever realizado se confunde com o que poderia ser e n\u00e3o foi. Da\u00ed a necessidade de assisti-lo como ser humano, n\u00e3o partid\u00e1rio, n\u00e3o ideol\u00f3gico. Algo que, no fim, vale a pena fazer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Maur\u00edcio Angelo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publico abaixo a mat\u00e9ria que foi capa da revista Movie de janeiro de 2010, \u00e9poca de lan\u00e7amento do filme &#8220;Lula, O Filho do Brasil&#8221;, contendo uma entrevista que fiz com Gl\u00f3ria Pires durante o 42\u00ba Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro e uma cr\u00edtica da pel\u00edcula. Pela primeira vez na web. 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