﻿{"id":1428,"date":"2013-04-10T23:16:36","date_gmt":"2013-04-11T01:16:36","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1428"},"modified":"2013-04-10T23:16:36","modified_gmt":"2013-04-11T01:16:36","slug":"marx-berman-capitalismo-democracia-e-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1428","title":{"rendered":"Marx, Berman, capitalismo, democracia e modernidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1430 aligncenter\" title=\"marshallberman_moreiramariz\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/marshallberman_moreiramariz.jpg\" alt=\"marshallberman_moreiramariz\" width=\"640\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/marshallberman_moreiramariz.jpg 800w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/marshallberman_moreiramariz-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Artigo publicado originalmente em 16.06.2005, no site <a href=\"http:\/\/www.duplipensar.net\" target=\"_blank\">Duplipensar<\/a>. \u00c9poca em que, como demonstra o texto, eu era tomado por um sentimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Marx, Berman, capitalismo, democracia e modernidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>O conceito de democracia significa basicamente que o poder \u00e9 outorgado pelo povo. S\u00f3 que o simples fato de conceder n\u00e3o \u00e9 garantia de controle do poder proporcionado. Segundo a l\u00f3gica, os mandat\u00e1rios deste poder deveriam retribuir a confian\u00e7a que lhes \u00e9 dada, governando para o povo. Contudo, esta l\u00f3gica \u00e9 invertida e o resultado final quase sempre \u00e9 um pastiche de populismo, neoliberalismo, capitalismo autof\u00e1gico, egocentrismo, aristocracia e um conluio de interesses que raramente colocam a popula\u00e7\u00e3o em primeiro lugar. As defini\u00e7\u00f5es de capitalismo e democracia, em separado, n\u00e3o se antagonizam, n\u00e3o revelam atrito entre elas. O fato de o capital ser o in\u00edcio, meio e fim do objetivo global n\u00e3o impede que o poder de cada Estado-Na\u00e7\u00e3o seja concedido por seu povo. O ato de votar \u00e9 in\u00f3cuo por si pr\u00f3prio. O problema s\u00e3o seus desdobramentos. Se considerarmos que grande parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o disp\u00f5e de recursos suficientes para uma vida plena, e por extens\u00e3o, n\u00e3o fazem parte do n\u00facleo do sistema, assumindo posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica de meros esp\u00edritos fornecedores de material humano para o metabolismo do capital, ou seja, uma exist\u00eancia torturante (sintomatizada na massacrante rotina de trabalho) que traz aliena\u00e7\u00e3o quanto ao pr\u00f3prio meio em que est\u00e3o inseridos e que a democracia \u00e9 comumente utilizada como sin\u00f4nimo de liberdade, a\u00ed sim temos um problema gigantesco que o establishment n\u00e3o \u00e9 capaz de explicar e\/ou solucionar, porque na verdade, simplesmente n\u00e3o pode. Estamos na ditadura do capital. Que se subdivide, principalmente, na ditadura do pensamento. Vivemos num mundo majoritariamente democr\u00e1tico, sim, mas carente de liberdade, t\u00e3o carente que passou a desconhecer o sentido de tal palavra e se contentar com muito pouco para d\u00e1-la como presente. Tornamo-nos med\u00edocres porque isto passou a fazer sentido, \u00e9 um sintoma cl\u00e1ssico do homem moderno.<\/span><\/p>\n<p><span>Patologia expressa na din\u00e2mica capitalista de Marx e Engels em seu Manifesto Comunista:<\/span><\/p>\n<blockquote style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><span>A burguesia n\u00e3o pode sobreviver sem revolucionar constantemente os instrumentos de produ\u00e7\u00e3o, e com eles as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, e com eles todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. (&#8230;) Revolu\u00e7\u00e3o ininterrupta da produ\u00e7\u00e3o, cont\u00ednua perturba\u00e7\u00e3o de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, intermin\u00e1vel incerteza e agita\u00e7\u00e3o, distinguem a era burguesa de todas as anteriores. <\/span><\/p>\n<p><span>E continuam:<\/span><\/p>\n<p><span>De um lado, tiveram acesso \u00e0 vida for\u00e7as industriais e cient\u00edficas de que nenhuma \u00e9poca anterior, na hist\u00f3ria da humanidade, chegara a suspeitar. De outro lado, estamos diante de sintomas de decad\u00eancia que ultrapassam em muito os horrores dos \u00faltimos tempos do Imp\u00e9rio Romano. Em nossos dias, tudo parece estar impregnado do seu contr\u00e1rio. O maquin\u00e1rio, dotado do maravilhoso poder de amenizar e aperfei\u00e7oar o trabalho humano, s\u00f3 faz, como se observa, sacrific\u00e1-lo e sobrecarreg\u00e1-lo. As mais avan\u00e7adas fontes de sa\u00fade, gra\u00e7as a uma misteriosa distor\u00e7\u00e3o, tornaram-se fontes de pen\u00faria. As conquistas da arte parecem ter sido conseguidas com a perda do car\u00e1ter. Na mesma inst\u00e2ncia em que a humanidade domina a natureza, o homem parece escravizar-se a outros homens ou \u00e0 sua pr\u00f3pria inf\u00e2mia. At\u00e9 a pura luz da ci\u00eancia parece incapaz de brilhar sen\u00e3o no escuro pano de fundo da ignor\u00e2ncia. Todas as nossas inven\u00e7\u00f5es e progressos parecem dotar de vida intelectual \u00e0s for\u00e7as materiais, estupidificando a vida humana ao n\u00edvel da for\u00e7a material.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><span>O capitalismo eleva a democracia, mas apenas para obliter\u00e1-la. Evoca a no\u00e7\u00e3o de liberdade, mas n\u00e3o a pode manter. D\u00e1 conforto material a popula\u00e7\u00e3o, para em seguida, acorrent\u00e1-la. A \u00e9poca burguesa, sem precedentes em termos de evolu\u00e7\u00e3o industrial, tecnol\u00f3gica, econ\u00f4mica, propaga\u00e7\u00e3o cultural, a verdadeira criadora de um novo mundo, capaz de tantas transforma\u00e7\u00f5es prodigiosas, criou, igualmente, em seu segundo ato, uma gera\u00e7\u00e3o de empedernidos inanimados. Trouxe o complexo conceito materialista para o centro das aten\u00e7\u00f5es, relegou o desenvolvimento humano \u2013 em seu sentido mais pleno \u2013 para segunda inst\u00e2ncia. Por isso o materialismo dial\u00e9tico de Marx se faz necess\u00e1rio. A paradoxal s\u00edstole e di\u00e1stole moderna, a introdu\u00e7\u00e3o do niilismo no cotidiano, a brutal l\u00f3gica do sistema capitalista destruiu n\u00e3o s\u00f3 com a verdadeira democracia (tal qual postulava Montesquieu) e a verdadeira liberdade, mas com todas as rela\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-metab\u00f3licas que inescapavelmente constru\u00edmos.<\/span><\/p>\n<p><span>Procurou se apegar a nossa ess\u00eancia, impregnar nossa alma, fazer-nos escravos de n\u00f3s mesmos, introduziu a indel\u00e9vel sensa\u00e7\u00e3o de insignific\u00e2ncia pessoal e absoluta impot\u00eancia diante do grande nada em que vivemos. Criou uma horda infind\u00e1vel de seres massificados, sem personalidade, condicionados cegamente ao sistema que seguem. S\u00e3o estes seres que devemos libertar, destruindo a ilus\u00e3o da democracia, construindo a realidade da revolu\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Ademais, \u00e9 preciso lembrar, antes de prosseguirmos, que o capitalismo transformou todas as rela\u00e7\u00f5es humanas, em todas as esferas existentes. E ao contr\u00e1rio do que nossa incompetente observa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nos diz &#8211; fruto de nosso egocentrismo mor &#8211; a era do capital n\u00e3o \u00e9 onipresente. Como teve um in\u00edcio, ter\u00e1 um fim. \u00c9 indubitavelmente o sistema mais poderoso, din\u00e2mico e abrangente que j\u00e1 existiu, contudo, n\u00e3o passa de uma cria\u00e7\u00e3o humana. Tal regime n\u00e3o est\u00e1 em nossa natureza, n\u00e3o \u00e9 parte intr\u00ednseca da constitui\u00e7\u00e3o societal e n\u00e3o h\u00e1 motivos para acreditar que seja.<\/span><\/p>\n<p><span>N\u00e3o apenas gosto de pensar, como tamb\u00e9m o termo \u00e9 incrivelmente adequado, de que estamos na sobre-vida deste sistema. Ele j\u00e1 est\u00e1 morto, s\u00f3 n\u00e3o foi enterrado. A aniquila\u00e7\u00e3o deste cad\u00e1ver deve ser nosso pr\u00f3ximo objetivo. Um \u00f3timo meio de faz\u00ea-lo \u00e9 expor suas entranhas f\u00e9tidas, para que o choque de sua repugn\u00e2ncia natural desperte em seus elos adormecidos o inquietante sentimento revolucion\u00e1rio. N\u00e3o ut\u00f3pico, mas palp\u00e1vel. N\u00e3o alienado, mas fundamentado numa s\u00f3lida base t\u00e9cnica e te\u00f3rica. E saindo da in\u00e9rcia para a a\u00e7\u00e3o transformadora.<\/span><\/p>\n<p><span>Por ser irracional e auto-destrutiva, sua l\u00f3gica tamb\u00e9m o \u00e9. Por reduzir o homem a mero reprodutor de capital, acabamos por nos tornar apenas produtos. N\u00e3o criamos, somos criados. Nosso desenvolvimento \u00e9 condicionado pelas artimanhas do capitalismo. Seu maior trunfo \u00e9 nos fazer crer que somos iguais a ele. Tentando convencer-nos de sua paternidade, para que nos enxerguemos nele e o adotemos como manifesta\u00e7\u00e3o natural e necess\u00e1ria de nossa \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p><span>Tudo, absolutamente tudo o que vivemos hoje poderia ser resumido desta forma: o imp\u00e9rio aparentemente inextingu\u00edvel do poderio capitalista no mundo. Todo o resto \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia: a ind\u00fastria cultural, as manifesta\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, o sistema pol\u00edtico, econ\u00f4mico, social, b\u00e9lico, a personalidade sacrificada de cada indiv\u00edduo. Tudo isto \u00e9 um mal necess\u00e1rio \u00e0 perman\u00eancia do capitalismo, pois \u00e9 disso que ele se alimenta e \u00e9 disso que suas engrenagens se constituem.<\/span><\/p>\n<p><span>N\u00e3o existe democracia. Pois n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel existir democracia na ditadura do capital. A primeira mentira que nos contam \u00e9 que o poder \u00e9 concedido por n\u00f3s, uma tentativa barata de jogar a culpa no povo. J\u00e1 que os governantes escolhidos s\u00e3o de responsabilidade popular, as conseq\u00fc\u00eancias deste regime tamb\u00e9m o ser\u00e3o. Como o resultado nunca \u00e9 o esperado, cria-se a ilus\u00e3o de que na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o tudo ser\u00e1 diferente. E continuamos a viver neste cont\u00ednuo fluxo e refluxo de pseudo-esperan\u00e7a que nos \u00e9 concedido. Apenas uma das artimanhas do sistema. N\u00e3o h\u00e1 a possibilidade de mudan\u00e7a porque a raiz continua a mesma, o comprometimento idem e o deus mercado reina soberano sob o combalido planeta Terra. Como diria Marx: \u201cO governo moderno n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um comit\u00ea para gerir os neg\u00f3cios comuns de toda a classe burguesa\u201d. Nosso tempo clama por insurrei\u00e7\u00e3o. \u00c9 a necessidade basal do renascimento humano. Iria al\u00e9m, diria que \u00e9 vital expurgar toda experi\u00eancia pr\u00e9-estabelecida que temos, nos despir da casca asquerosa comum que se forma ao longo da vida. Somente nus, verdadeiramente livres, revestidos de isen\u00e7\u00e3o mental e da acuidade cr\u00edtica \u00e9 que teremos condi\u00e7\u00f5es de reconstruir a sociedade em que vivemos.<\/span><\/p>\n<p><span>Revolu\u00e7\u00e3o lenta, dolorosa, recheada de derrotas parciais, momentos de puro desespero, vit\u00f3rias paliativas, desencanto, rev\u00e9sses. Pensar historicamente \u00e9 o primeiro passo. Ter a consci\u00eancia pura e simples de que a verdadeira e efetiva revolu\u00e7\u00e3o social durar\u00e1 s\u00e9culos para acontecer torna nossa luta muito mais apraz\u00edvel. N\u00e3o devemos deixar que esta eterna mania de querer resultados r\u00e1pidos emperre a transforma\u00e7\u00e3o pessoal. Voc\u00ea n\u00e3o precisa ser comunista (at\u00e9 porque o conceito anda muito desgastado e perscrutar suas peculiaridades n\u00e3o cabe neste artigo) para vislumbrar um novo mundo se formando, para se sentir compelido a engajar-se nesta luta. O pr\u00f3prio capitalismo te empurra a isso, a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o, em seu auge, ao atingir seu cl\u00edmax, inserida no torpor insaci\u00e1vel de suas v\u00edsceras, cria a revolu\u00e7\u00e3o. Recorro ao que diz Marshall Berman em sua obra \u201cTudo que \u00e9 S\u00f3lido Desmancha no Ar \u2013 A Aventura da Modernidade\u201d:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span><br \/>\n<\/span><\/p>\n<blockquote style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Nossas vidas s\u00e3o controladas por uma classe dominante de interesses bem definidos n\u00e3o s\u00f3 na mudan\u00e7a, mas na crise e no caos. \u201cIninterrupta perturba\u00e7\u00e3o, intermin\u00e1vel incerteza e agita\u00e7\u00e3o\u201d, em vez de subverter esta sociedade, resultam de fato no seu fortalecimento. Cat\u00e1strofes s\u00e3o transformadas em lucrativas oportunidades para o redesenvolvimento e a renova\u00e7\u00e3o; a desintegra\u00e7\u00e3o trabalha como for\u00e7a mobilizadora e, portanto, integradora. O \u00fanico espectro que realmente amedronta a moderna classe dominante e que realmente p\u00f5e em perigo o mundo criado por ela \u00e0 sua imagem \u00e9 aquilo por que as elites tradicionais (e, por extens\u00e3o, as massas tradicionais) suspiravam: uma estabilidade s\u00f3lida e prolongada. Neste mundo, estabilidade significa t\u00e3o somente entropia, morte lenta, uma vez que nosso sentido de progresso e crescimento \u00e9 o \u00fanico meio que dispomos, para saber, com certeza, que estamos vivos. Dizer que nossa sociedade est\u00e1 caindo aos peda\u00e7os \u00e9 apenas dizer que ela est\u00e1 viva e em forma. (p. 94)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>O capitalismo n\u00e3o teme crises, guerras, instabilidade. Porque como os \u00faltimos cinq\u00fcenta anos nos provam, \u00e9 justamente dessas perturba\u00e7\u00f5es que ele retira mat\u00e9ria vital para continuar existindo. A sua not\u00e1vel capacidade em se renovar constantemente, e por extens\u00e3o, solidificar-se e fortalecer-se, mesmo sob as mais duras crises, \u00e9 o que o difere de todos os outros sistemas que vigoraram antes. Por isso ele nunca fica obsoleto, nunca exala um odor suficientemente desagrad\u00e1vel para que seja definitivamente destru\u00eddo. Mas, paradoxalmente, \u00e9 ao nos espelharmos nesta caracter\u00edstica do sistema que podemos extinguir sua dial\u00e9tica pseudo-indestrut\u00edvel. A inquieta\u00e7\u00e3o resultante de tal metabolismo, a for\u00e7osa sensa\u00e7\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o; \u00e9 isto que precisamos absorver e \u00e9 isso que causar\u00e1 sua ru\u00edna. Enquanto as constitui\u00e7\u00f5es capital\u00edsticas continuam renascendo indefinidamente, o homem moderno v\u00ea-se igualmente obrigado a se reestruturar, aprender, desenvolver-se, desapegar, evoluir. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>O proletariado capta os meandros da burguesia, entretanto, apenas para continuar a sustent\u00e1-la. O capitalismo fomenta o desenvolvimento humano, mas instaura fronteiras cuidadosamente delineadas para ele. O faz n\u00e3o porque enxerga no autodesenvolvimento uma qualidade de vida melhor para seus subordinados e sim porque precisa de melhorias em sua m\u00e1quina. Suga tudo que lhe interessa e reprime o resto (fun\u00e7\u00e3o exercida pela ind\u00fastria cultural de Adorno, pelas conven\u00e7\u00f5es sociais, pela ditadura do pensamento citada aqui e num contexto \u201cmoderno\u201d, at\u00e9 pelo superego freudiano), ao mesmo tempo em que cria revolu\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se esquece de inventar mecanismos para que tais chamas sejam apaziguadas, o m\u00ednimo de liberdade e isen\u00e7\u00e3o concedidas s\u00e3o logo soterradas para n\u00e3o oferecem perigo. Todavia, o establishment n\u00e3o \u00e9 suficientemente bem sucedido neste ponto para manter sua exist\u00eancia intacta e \u00e9 justamente ao brincar com fogo que ele acaba se queimando. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>O nivelamento rasteiro \u00e9 outro mal necess\u00e1rio \u00e0 sua perman\u00eancia, embora saiba que n\u00e3o deve subestimar as capacidades humanas, ele f\u00e1-lo porque almeja, com esta mentira, nos renegar a subprodutos de sua linha de produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o nestes atos falhos (um problema aterrorizantemente insol\u00favel para o capital) que encontramos a brecha perfeita para sua combust\u00e3o. A eloq\u00fc\u00eancia imensur\u00e1vel da impetuosidade burguesa acaba por voltar-se contra ela na t\u00eanue linha entre a domina\u00e7\u00e3o e a liberdade, a manuten\u00e7\u00e3o e a revolu\u00e7\u00e3o, a massifica\u00e7\u00e3o e a idiossincrasia, a necessidade e a potencialidade. Enquanto muitos permanecem cegos pela efic\u00e1cia parcial da m\u00e1quina, outros tantos renascem e se fazem livres. E isto (assim como sua derrocada p\u00f3stuma) \u00e9 incontrol\u00e1vel, j\u00e1 que o sistema n\u00e3o conseguiu atingir o \u201cstatus\u201d de \u201chermeticamente fechado\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>Marx j\u00e1 provou como as incessantes exig\u00eancias transformativas burguesas, que precisam ser cada vez mais violentas, torturantes, desiguais, inumanas e irracionais (pois s\u00f3 assim seu capital pode ser sustentado) levar\u00e3o \u00e0 sua autodestrui\u00e7\u00e3o iminente. Como dissemos, estamos na sobre-vida deste sistema (um dos poucos erros de Marx se referem \u00e1 quest\u00e3o temporal). Em nossa \u00e9poca, n\u00e3o h\u00e1 a necessidade de ser \u201cprofeta do caos\u201d, pois se o fizermos, ser\u00edamos apenas \u201cprofetas do acontecido\u201d. O loda\u00e7al ca\u00f3tico das constitui\u00e7\u00f5es capital\u00edsticas apresenta-se evidente a todos, fomos obrigados a aprender como se locomover nele, em seguida, a interpret\u00e1-lo, enfim chega o momento de o sobrepujar. <\/span><\/p>\n<p><span>Marshall Berman, no supracitado livro, chega a uma conclus\u00e3o interessante no t\u00e9rmino de seu cap\u00edtulo sobre Marx:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><span>Ele (Marx) sabia que o caminho para al\u00e9m das contradi\u00e7\u00f5es teria de ser procurado atrav\u00e9s da modernidade, n\u00e3o fora dela. Ele sabia que precisamos come\u00e7ar do ponto onde estamos: psiquicamente nus, despidos de qualquer halo religioso, est\u00e9tico ou moral, e de v\u00e9us sentimentais, devolvidos \u00e0 nossa vontade e energia individuais, for\u00e7ados a explorar aos demais e a n\u00f3s mesmos para sobreviver; e mesmo assim, a despeito de tudo, reunidos pelas mesmas for\u00e7as que nos separam, vagamente c\u00f4nscios de tudo o que poderemos realizar juntos, prontos a nos distendermos na dire\u00e7\u00e3o de novas possibilidades humanas, a desenvolver identidades e fronteiras comuns que podem ajudar-nos a manter-nos juntos, enquanto o selvagem ar moderno explode em calor e frio atrav\u00e9s de todos n\u00f3s. (p. 125)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><span>Toda a hist\u00f3ria foi composta por lutas. Conflitos de todas as naturezas, relativos a qualquer coisa existente, resultado de quest\u00f5es indissoci\u00e1veis do ser humano. A que se apresenta neste artigo \u00e9 a mais visceral da atualidade. Todos s\u00e3o bem vindos para se juntar nesta luta. N\u00e3o h\u00e1 nada mais a perder, temos um mundo a ganhar.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado originalmente em 16.06.2005, no site Duplipensar. \u00c9poca em que, como demonstra o texto, eu era tomado por um sentimento revolucion\u00e1rio. Marx, Berman, capitalismo, democracia e modernidade O conceito de democracia significa basicamente que o poder \u00e9 outorgado pelo povo. 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