﻿{"id":150,"date":"2008-05-19T01:22:17","date_gmt":"2008-05-19T01:22:17","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.wordpress.com\/?p=157"},"modified":"2008-05-19T01:22:17","modified_gmt":"2008-05-19T01:22:17","slug":"jornalismo-%e2%80%93-nas-entrelinhas-do-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=150","title":{"rendered":"Jornalismo \u2013 Nas Entrelinhas Do Caos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/05\/news1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-158\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/05\/news1.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"279\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Eu nunca tive ilus\u00f5es com o jornalismo. Nunca achei que fosse encontrar um mercado f\u00e1cil, um curso empolgante, que fosse me maravilhar e ter orgasmos m\u00faltiplos a cada aula, cada mat\u00e9ria. Jamais tive a esperan\u00e7a de adentrar uma reda\u00e7\u00e3o, ter algum talento\/esfor\u00e7o\/dedica\u00e7\u00e3o\/interesse reconhecidos, colocar em pr\u00e1tica o ideal (suspeito) de \u201cservir \u00e0 sociedade\u201d e salvar o mundo. N\u00e3o dou pra super-homem. A realidade \u00e9 \u2013 e sempre foi \u2013 um pouco menos colorida. Talvez o  jornal n\u00e3o seja preto-e-branco \u00e0 toa.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Tamb\u00e9m nunca \u201cdecidi\u201d que seria jornalista. N\u00e3o foi uma decis\u00e3o mec\u00e2nica nem um sorteio dentro de um guia do estudante qualquer. Processo natural que culminou num caminho estranhamento \u00f3bvio. Sou tarado por informa\u00e7\u00e3o. Extremamente curioso. Com sede de saber, um pouco mais, daquilo que gosto. Desde novo, a partir dos 10 anos \u2013 que me lembro bem \u2013 viciado em games e, posteriormente, cinema e m\u00fasica, comprava religiosamente, todo m\u00eas, revistas relacionadas a estes assuntos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">E costumava sonhar com jornais prontos frequentemente. Quando ia dormir pensando muito em algo ou querendo saber o resultado de alguma coisa, ou mesmo de modo espor\u00e1dico, visualizava, perfeitamente, no sonho, toda a mat\u00e9ria de um jornal ou revista, lendo atentamente e acordando achando que aquilo era real! Depois veio, mais forte, a m\u00fasica. E o profundo interesse por ela. Lia, pesquisava, descobria, ouvia, trocava, vivenciava. Paralelo \u00e0 m\u00fasica, a literatura. Gordinho, t\u00edmido, introspectivo, calado, rato de biblioteca, gamer, fascinado por todo aquele universo novo que se desdobrava.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed, n\u00e3o sei como nem onde, porque, quem, quando, comecei a escrever. Sem nenhuma pretens\u00e3o, passei a escrever texto sobre m\u00fasica. Tentando compreender, interpretar e analisar as bandas que ouvia. Para public\u00e1-las na internet, foi um passo. Gradativamente, melhorei, amadureci e me formei na mesma medida em que praticava a escrita, ora, na pr\u00e1tica. E aprendi coisas simples na brincadeira: jornalista n\u00e3o \u00e9 formado, cria-se. E que interesse, pesquisa, curiosidade, cara de pau, leitura, confian\u00e7a, humildade e determina\u00e7\u00e3o s\u00e3o  mais do que fundamentais. A faculdade foi conseq\u00fc\u00eancia. Escrever textos bestas como este, tamb\u00e9m. Aprendi que nada acontece se voc\u00ea n\u00e3o fizer com que aconte\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Eu nunca tive ilus\u00f5es. Portanto, nunca me decepcionei. \u00c0s vezes, cometo erros propositais, provoco, insisto e bato de frente. Se eu n\u00e3o tiver o prazer de me divertir e incendiar, n\u00e3o tem gra\u00e7a. <span> <\/span>O engra\u00e7ado \u00e9 que o jornalismo, muitas vezes, transita entre o profundamente aborrecido e insuport\u00e1vel, e a imensa satisfa\u00e7\u00e3o e desejo. Sejamos francos, na m\u00eddia tradicional, o jornalismo est\u00e1 morto. Para n\u00e3o ser t\u00e3o rigoroso, digamos que uns 10% do que \u00e9 produzido vale \u2013 muito \u2013 a pena. E tudo aquilo de bom que \u00e9 feito me faz continuar a acreditar nessa profiss\u00e3o t\u00e3o maltratada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Ningu\u00e9m, em s\u00e3 consci\u00eancia, optaria por uma carreira dessa: m\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o, muitas horas de trabalho, mercado saturado, inchado, insuport\u00e1vel, reino dos jab\u00e1s, da democracia da cosa nostra, da puxa\u00e7\u00e3o de saco, disponibilidade quase integral para o ve\u00edculo, superiores tiranos, nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia de classe inexistente e sindicato inoperante, c\u00f3digo de \u00e9tica totalmente desrespeitado, dificuldade de ascens\u00e3o na carreira, meio infestado de amadores, possibilidades de emprego escassas, est\u00e1gios n\u00e3o remunerados, mais de 30 mil profissionais formados no pa\u00eds, expectativa m\u00e9dia de 10 anos de atua\u00e7\u00e3o para os bravamente persistentes, m\u00e3o de obra gradativamente mais barata, pouco reconhecimento, alta rotatividade e o mercado local, pasmem, ainda mais ingrato e restrito que outros pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Afinal, o que leva um ser humano em suas perfeitas faculdades mentais a se formar em jornalismo? Juro que n\u00e3o sei responder a esta pergunta. Talvez uma parte entre iludida com ideais de fama, glamour, sucesso, dinheiro (a realidade de 3% da classe). Outros apenas por ser uma das op\u00e7\u00f5es que tinha em mente, curiosidade, sorteio. Outros tantos, ainda, de fato bem intencionados, querendo fazer um bom trabalho dentro do \u201cquarto poder\u201d. E outros, simplesmente, porque n\u00e3o se imaginam fazendo outra coisa na vida \u2013 parcela dos quais me incluo. Mas sei que a possibilidade \u00e9 simplesmente, real.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Pior. No jornalismo, muitas pessoas atuam porque <em>acham que podem <\/em>fazer o trabalho que um profissional faria. Afinal, escrever, est\u00e1 a\u00ed, ao alcance de todos. Um release, uma not\u00edcia, uma \u201ccr\u00edtica\u201d, uma mat\u00e9ria, uma entrevista&#8230;todos acham que com um pouco de interesse consegue \u201cdar conta\u201d, levando muita gente que passou longe de uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica a atuar na \u00e1rea e roubar vagas de quem, em tese, deveria as estar ocupando. H\u00e1 um problema s\u00e9rio nisso: jornalismo, realmente, n\u00e3o se aprende na universidade. Ela n\u00e3o chega a ser in\u00fatil, mas o principal, a parte funcional da profiss\u00e3o, que nos \u00e9 ensinado na teoria e na pr\u00e1tica, n\u00e3o chega a ser um mist\u00e9rio. \u00c9 inconceb\u00edvel (e a sociedade n\u00e3o aceita, bem como os conselhos de cada profiss\u00e3o n\u00e3o permitem, \u00f3rg\u00e3o inexistente no jornalismo) que um engenheiro, m\u00e9dico, professor, advogado, economista, etc, atuem sem terem um diploma. Al\u00e9m de ser uma profiss\u00e3o que se regulamentou tarde, herdando muitos profissionais antigos, formados na pr\u00e1tica, todo mundo acha que pode fazer o trabalho que um jornalista faz.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Vai piorar: muitos cursos superiores, seguindo as mudan\u00e7as das normas do MEC, passar\u00e3o a ser de apenas 2 anos, englobando somente a parte t\u00e9cnica do jornalismo e excluindo as disciplinas \u201chumanas\u201d, de forma\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o, teoria, cultura. Al\u00e9m de isto aumentar a velocidade com que supostos \u201cprofissionais\u201d s\u00e3o jogados no mercado, ainda destr\u00f3i a j\u00e1 prec\u00e1ria forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de um rep\u00f3rter. Se ter a capacidade de pensar e refletir, o arcabou\u00e7o te\u00f3rico e o background cultural j\u00e1 s\u00e3o predicados escassos, os verdadeiros macacos que sair\u00e3o destas institui\u00e7\u00f5es conseguir\u00e3o a proeza de estar incont\u00e1veis n\u00edveis abaixo dos s\u00edmios que hoje s\u00e3o formados. O grosso, as \u201ct\u00e9cnicas\u201d do jornalismo  s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvias e f\u00e1ceis que muitas vezes, pra mim, tornam-se insuport\u00e1veis. \u00c9 preciso descer alguns n\u00edveis, transmutar-se num ser um pouco mais burro do que j\u00e1 \u00e9 para fazer tal mat\u00e9ria. E isto \u00e9 dif\u00edcil. Parece engra\u00e7ado, ou exagero, mas n\u00e3o \u00e9. A intelig\u00eancia, no jornalismo, n\u00e3o \u00e9 muito bem vinda (muito menos do que seria saud\u00e1vel ou se gostaria de admitir).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Se o prospecto \u00e9 ruim, e tende a se agravar, s\u00f3 me resta parafrasear o REM: este \u00e9 o fim do mundo, como o conhecemos, e eu N\u00c3O me sinto muito bem.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 apocalipse que resta.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Na verdade, al\u00e9m de ut\u00f3pico e um pouco masoquista, o jornalista encontra alguns benesses na profiss\u00e3o, mas, sobretudo, h\u00e1 o prazer de escrever, conhecer, divulgar, encontrar coisas novas, excitantes, desafios di\u00e1rios entre a press\u00e3o, o mau humor, os goles de caf\u00e9, a sa\u00fade que vai pro ralo e o sal\u00e1rio ris\u00edvel no fim do m\u00eas. Mesmo com tudo, consegue ser uma profiss\u00e3o fascinante, divertida, curiosa, recompensadora.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 pessoas que tem isso no sangue. Que nasceram com palavras correndo em suas veias. Com uma sede impetuosa de conhecimento, informa\u00e7\u00e3o, cultura&#8230;e de compartilhar isto. Como sempre, o que n\u00e3o encontra muita racionalidade, a paix\u00e3o explica. Uma parte de inclina\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Vivemos em dias estranhos, disse Jim Morrison h\u00e1 mais de 40 anos atr\u00e1s. Atualmente, isto parece mais \u201cverdadeiro\u201d do que nunca. H\u00e1 que se ter persist\u00eancia, desejo, \u00edmpeto, for\u00e7a&#8230;e compet\u00eancia, \u00e2nimo. Crescer dando murro em l\u00e2mina. E melhorar com isso. N\u00e3o sei como a equa\u00e7\u00e3o se resolve, repito, \u201c\u00e9 como se voc\u00ea pegasse o ontem, o hoje, e o amanh\u00e3\u201d. N\u00e3o d\u00e1 pra dizer o que ir\u00e1 acontecer. E esta, afinal, \u00e9 a gra\u00e7a da vida.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:center;\" align=\"center\"><em><span>\u201cStrange days have found us<br \/>\nStrange days have tracked us down<br \/>\nTheyre going to destroy<br \/>\nOur casual joys<br \/>\nWe shall go on playing<br \/>\nOr find a new town<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><em>Yeah!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><em>Strange eyes fill strange rooms<br \/>\nVoices will signal their tired end<br \/>\nThe hostess is grinning<br \/>\nHer guests sleep from sinning<br \/>\nHear me talk of sin<br \/>\nAnd you know this is it<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><em>Yeah!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><em>Strange days have found us<br \/>\nAnd through their strange hours<br \/>\nWe linger alone<br \/>\nBodies confused<br \/>\nMemories misused<br \/>\nAs we run from the day<br \/>\nTo a strange night of stone\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu nunca tive ilus\u00f5es com o jornalismo. Nunca achei que fosse encontrar um mercado f\u00e1cil, um curso empolgante, que fosse me maravilhar e ter orgasmos m\u00faltiplos a cada aula, cada mat\u00e9ria. Jamais tive a esperan\u00e7a de adentrar uma reda\u00e7\u00e3o, ter algum talento\/esfor\u00e7o\/dedica\u00e7\u00e3o\/interesse reconhecidos, colocar em pr\u00e1tica o ideal (suspeito) de \u201cservir \u00e0 sociedade\u201d e salvar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[71,72,312],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/150"}],"collection":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/150\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}