﻿{"id":1546,"date":"2013-10-08T17:02:59","date_gmt":"2013-10-08T19:02:59","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1546"},"modified":"2013-10-08T17:04:24","modified_gmt":"2013-10-08T19:04:24","slug":"jonathan-franzen-internet-o-fim-do-jornalismo-e-do-romance","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1546","title":{"rendered":"Jonathan Franzen: internet, o fim do jornalismo e do romance"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/franzen7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1547\" alt=\"franzen7\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/franzen7.jpg\" width=\"650\" height=\"1014\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/franzen7.jpg 650w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/franzen7-192x300.jpg 192w\" sizes=\"(max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jonathan Franzen \u00e9 reconhecido como um dos maiores escritores da contemporaneidade. Chegou l\u00e1 atrav\u00e9s de obras como &#8220;As Corre\u00e7\u00f5es&#8221; e &#8220;Liberdade&#8221;. Para Nicholas Dames, Franzen \u00e9 expoente do que ele chama de <strong><a href=\"http:\/\/www.revistaserrote.com.br\/2012\/12\/a-geracao-teoria-por-nicholas-dames\/\" target=\"_blank\">&#8220;Gera\u00e7\u00e3o Teoria&#8221;<\/a><\/strong>. Afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final dos anos 1990, a equa\u00e7\u00e3o simples oferecida pela Teoria \u2013 o realismo \u00e9 uma ferramenta da racionalidade capitalista, uma ferramenta do<em>\u00a0status quo<\/em>; um produto, e n\u00e3o um artefato imaginativo \u2013 soava como um tru\u00edsmo. Mas, quando um argumento torna-se tru\u00edsmo, \u00e9 bem prov\u00e1vel que uma resposta a ele j\u00e1 se encontre a caminho.\u00a0<em>As corre\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0forneceu uma vers\u00e3o incipiente dessa resposta. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil detectar o afeto subjacente pela Teoria no trecho em que Franzen descreve a liquida\u00e7\u00e3o radical, promovida por Chip. A Teoria ainda \u00e9 uma presen\u00e7a constitutiva nesses romances; \u00e9 evidente que s\u00e3o hist\u00f3rias sobre reifica\u00e7\u00e3o, aliena\u00e7\u00e3o e, particularmente, sobre o capitalismo tardio \u2013 um termo explorado de forma obsessiva, ainda que cuidadosa. Mas, ao menos para os estudantes, ex-estudantes e acad\u00eamicos, em 2001 a Teoria j\u00e1 havia se tornado parte insepar\u00e1vel de suas vidas \u2013 algo que eles n\u00e3o precisavam justificar para ningu\u00e9m, mas que ao mesmo tempo era vagamente revolucion\u00e1rio. Ela j\u00e1 n\u00e3o era mais uma chave para todas as coisas do mundo, mas meramente uma das coisas do mundo. \u00c9 precisamente sobre essa banaliza\u00e7\u00e3o que Franzen reflete: ao virar rotina, a Teoria se transformou de objeto de medo, s\u00e1tira ou venera\u00e7\u00e3o em um elemento ficcional. E o romance, especialmente o do tipo que se baseia no detalhamento social e nos destinos individuais (e, no caso de Franzen, no n\u00facleo familiar burgu\u00eas), estava louco para arrumar briga e tentar reconquistar seu prest\u00edgio obscurecido.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei desse \u00f3timo artigo j\u00e1 no in\u00edcio que serve para contextualizar o trabalho de Jonathan. <strong><a href=\"http:\/\/www.theparisreview.org\/interviews\/6054\/the-art-of-fiction-no-207-jonathan-franzen\" target=\"_blank\">Recomendo tamb\u00e9m essa entrevista na Paris Review<\/a>,<\/strong> sempre com seu n\u00edvel alt\u00edssimo de qualidade. Em seu novo livro, Franzen explora algo que j\u00e1 tinha ficado muito claro: ele n\u00e3o gosta muito da internet. Em especial, das redes sociais. Algo que tem sido criticado por a\u00ed (<strong><a href=\"http:\/\/www.slate.com\/blogs\/future_tense\/2013\/10\/04\/jonathan_franzen_says_twitter_is_a_coercive_development_is_grumpy_and_out.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vulture.com\/2013\/09\/jonathan-franzen-still-doesnt-like-the-internet.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a><\/strong>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<i>The Kraus Project: Essays by Karl Kraus,\u00a0<\/i>Franzen aborda um obscuro cr\u00edtico austr\u00edaco que, segundo ele, pode ser considerado &#8220;pioneiro&#8221; na cr\u00edtica sobre como a tecnologia pode impactar de modo negativo na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em geral. A &#8220;m\u00e1quina infernal&#8221; da cita\u00e7\u00e3o que ilustra esse post seria, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a internet, representada pela tecnologia e o consumismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos leva para esse <strong><a href=\"http:\/\/www.theatlantic.com\/entertainment\/archive\/2013\/10\/jonathan-franzen-on-the-19th-century-writer-behind-his-internet-skepticism\/280168\/\" target=\"_blank\">longo artigo publicado na The Atlantic<\/a><\/strong>. Reunindo as suas observa\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias com o trabalho de Kraus, Franzen oferece um panorama da m\u00eddia e da web em nossos tempos de um jeito, digamos, &#8220;peculiar&#8221;. Kraus, afirma ele, oferece coment\u00e1rios \u00e1cidos sobre a imprensa em Vienna na virada do s\u00e9culo 19 para o 20.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">He particularly attacked a corrupt coupling of two things: that a small number of media magnates were getting extremely rich, and that the newspapers they owned kept reassuring their readers that society was becoming ever more democratic and advanced. More empowered, more enlightened, more communal. And it drove Kraus crazy, because he saw these naked profit-making enterprises masquerading as great equalizers\u2014and\u00a0<em>succeeding<\/em>, because people were addicted to them.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qu\u00e3o familiar isto soa? O consumismo e a tecnologia, afirma Franzen, enquanto nos torna cada vez mais viciados e anestesiados, poderia quase que obliterar nossa capacidade de construir um pensamento relativamente cr\u00edtico e, sua maior preocupa\u00e7\u00e3o, acabar de vez com o romance. &#8220;Infinite Jest&#8221;, o cl\u00e1ssico precoce de David Foster Wallace, seria um grande monumento na abordagem desse problema, proclama Franzen. &#8220;when I look at social media, it seems like a world that once had adults in it is being changed into the 8th grade junior-high cafeteria. When I look at Facebook, I see a video-poker room in Vegas&#8221;, provoca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por vezes, Franzen soa como aquele velho rabugento que, bem, gosta de algumas comodidades da internet (o email, por exemplo), mas abomina essa fixa\u00e7\u00e3o dos jovens em, &#8220;s\u00f3 porque tem a possibilidade de fazer algo, acabam fazendo&#8221;. A &#8220;m\u00e1quina infernal&#8221; de Kraus nada mais \u00e9 que o capitalismo em sua manifesta\u00e7\u00e3o mais recente, poderosa e veloz. Na \u00e2nsia de processar tudo e todos, nas ferramentas que oferece, de como nos escraviza e como acaba, inevitavelmente, sendo usado tamb\u00e9m de forma burra e\/ou limitadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais aqui. Delimita Franzen:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kraus was very suspicious of the notion of progress, the idea that things are just getting better and better. In 1912, when he was writing the essays that are in my new book, people were very optimistic about what science was going to do for the world. Everyone was becoming enlightened in a straightforward scientific sense, politics was liberalizing, and the world was going to be a much, much better place\u2014the story went. Well, two years later the most horrible war in the history of humankind broke out, and was followed by an even worse war 25 years after that. Kraus was right about something: He was right to distrust the people who were telling us that technology was going to serve humanity and make things better and better. In the context of the crazy techno-utopianism and crazy techno-boosterism we\u2019re now living through, it seems worth taking a look at a writer who was there at the birth of modern media and tech, being suspicious of the language of the people who were talking about how everything is getting better.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o poderia concordar mais. J\u00e1 se foi exaustivamente tratado do quanto a ideia de &#8220;desenvolvimento&#8221; e &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; da humanidade, no seu fetiche pelo &#8220;crescimento&#8221; constante \u00e9 algo perigoso, perseguido \u00e0 todo custo pelos pa\u00edses, n\u00e3o importa como e porqu\u00ea. Ideia sempre alimentada pela m\u00eddia, que abra\u00e7a a ideia de &#8220;crescimento&#8221; como uma f\u00f3rmula m\u00e1gica, como dados que automaticamente nos dizem que, se crescemos (o PIB, por exemplo), estamos melhorando, estamos &#8220;avan\u00e7ando&#8221; para um pa\u00eds melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todas as coisas boas que a internet oferece, lembra Franzen, como ferramenta para pesquisa, na facilidade para fazer compras, no trabalho em conjunto, no compartilhamento de paix\u00f5es ou de situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis com outras pessoas que passam pelo mesmo, o problema est\u00e1 em compartilhar tudo e na no\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 relevante, tudo \u00e9 sensacional. O ref\u00fagio e a solid\u00e3o, lembra ele, \u00e9 um dos pilares da boa literatura:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Good novels aren\u2019t written by committee. Good novels aren\u2019t collaborated on. Good novels are produced by people who voluntarily isolate themselves, and go deep, and report from the depths on what they find. They do put what they find in a form that\u2019s communally accessible, communally shareable, but not at the production end. What makes a good novel, apart from the skill of the writer, is how true it is to the individual subjectivity. People talk about \u201cfinding your voice\u201d: Well, that\u2019s what it is. You\u2019re finding your own individual voice, not a group voice.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso colocar fronteiras bem delimitadas, Franzen afirma, na medida em que &#8220;o progresso tecnol\u00f3gico&#8221; pode realmente fazer mal para o esp\u00edrito. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compartilharmos desse sentimento de Franzen, por vezes. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil nos sentirmos sugados por uma certa m\u00e1quina, palp\u00e1vel ou n\u00e3o. Por uma necessidade besta que somos quase incapazes de identificar de onde vem. Chegamos em um tempo em que precisamos dizer &#8220;n\u00e3o&#8221; para as coisas. Dizer n\u00e3o para muitas das ofertas que a vida tecnol\u00f3gica nos traz. Para Franzen, a internet est\u00e1 acabando com o jornalismo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">I mean, the Internet has almost destroyed journalism! How can you have a functioning, complicated democracy of 300 million people without professional journalists? The boosters are always saying, well you can crowdsource it, you can leak it, you can take pictures with your iPhone. Bullshit. You can\u2019t crowdsource working the Capitol beat for 20 years. We need to think critically about the consequences of our machines. We need to learn how to say no, and how to support the vital social services, like professional journalism, that we\u2019re destroying.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz sentido, at\u00e9 certo ponto, j\u00e1 que todos tentam, exaustivamente, achar um modelo vi\u00e1vel, sustent\u00e1vel, rent\u00e1vel. Ou v\u00e1rios deles. Tentar se tornar uma pessoa e n\u00e3o apenas um mero membro da multid\u00e3o, em suma, desenvolver o seu ego ao m\u00e1ximo &#8211; j\u00e1 diria Hermann Hesse que a\u00ed est\u00e1 o verdadeiro caminho para o desenvolvimento. Como escritor, Franzen afirma, preservar a privacidade e a consci\u00eancia interior \u00e9 fundamental, o que fica bastante comprometido se gastamos boa parte do tempo sendo um alto-falante para os outros. \u00c9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o em coisas que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o prestando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo de hoje, isso fica cada vez mais dif\u00edcil. E cada vez mais f\u00e1cil o escritor, o jornalista, o produtor de conte\u00fado e, por fim, a pr\u00f3pria personalidade, nossa pr\u00f3pria ideia do &#8220;ser&#8221; ficar extremamente abalada. Eis um problema que se manifesta nas mais diversas formas em todos os cantos poss\u00edveis. Novamente, eu n\u00e3o poderia concordar mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jonathan Franzen \u00e9 reconhecido como um dos maiores escritores da contemporaneidade. Chegou l\u00e1 atrav\u00e9s de obras como &#8220;As Corre\u00e7\u00f5es&#8221; e &#8220;Liberdade&#8221;. Para Nicholas Dames, Franzen \u00e9 expoente do que ele chama de &#8220;Gera\u00e7\u00e3o Teoria&#8221;. 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