﻿{"id":1633,"date":"2014-06-19T13:00:56","date_gmt":"2014-06-19T15:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1633"},"modified":"2014-06-19T13:00:56","modified_gmt":"2014-06-19T15:00:56","slug":"os-negros-na-america-latina-henry-louis-gates-jr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1633","title":{"rendered":"Os Negros na Am\u00e9rica Latina &#8211; Henry Louis Gates Jr."},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/negrosnaal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1634\" alt=\"negrosnaal\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/negrosnaal.jpg\" width=\"428\" height=\"647\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/negrosnaal.jpg 428w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/negrosnaal-198x300.jpg 198w\" sizes=\"(max-width: 428px) 100vw, 428px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<em>Em livro decepcionante, Henry L. G. Jr faz uma viagem pela hist\u00f3ria negra da regi\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da escravid\u00e3o na Am\u00e9rica Latina \u00e9 marcada por um tra\u00e7o comum: a nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das ra\u00edzes negras de todas as formas em virtude da primazia de um suposto orgulho &#8220;mesti\u00e7o&#8221;. A celebra\u00e7\u00e3o da raiz europ\u00e9ia e \u00edndia, povos mais &#8220;evolu\u00eddos&#8221; e de origem mais &#8220;nobre&#8221; em detrimento da flagrante, vasta e ineg\u00e1vel heran\u00e7a africana n\u00e3o s\u00f3 na pele, mas na cultura, nas artes, na religi\u00e3o, na gastronomia e por a\u00ed afora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 isso que Henry Louis Gates Jr procura mostrar nesse livro. Pesquisador de Harvard e diretor do W. E. B. Du Bois Research Institute no Hutchins Center for African and African American Research, Henry visitou o Brasil, M\u00e9xico, Peru, Rep\u00fablica Dominicana, Haiti e Cuba para investigar a hist\u00f3ria negra desses pa\u00edses e como cada um lida com essa heran\u00e7a atualmente. Inicialmente dando origem a uma s\u00e9rie de tv, as viagens tamb\u00e9m resultaram nesse livro. E da\u00ed talvez resulte no principal problema: a narrativa funciona como um di\u00e1rio de viagem de Henry, que descreve seus encontros com personalidades diversas nos pa\u00edses que visita &#8211; de Abdias do Nascimento a MV Bill, no Brasil &#8211; e suas impress\u00f5es sobre o que v\u00ea ao seu redor, muitas vezes &#8220;fascinado&#8221; com o que desconhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o livro perde muito em for\u00e7a e vigor acad\u00eamico, pesquisa sistem\u00e1tica e dial\u00e9tica hist\u00f3rica. Ainda assim, Henry oferece um panorama geral muit\u00edssimo interessante, na teoria e na pr\u00e1tica, ao investigar o que teses como a &#8220;democracia racial&#8221; de Gilberto Freyre, no Brasil e o &#8220;orgulho pardo&#8221;, de Jos\u00e9 Mar\u00eda Vasconcelos, no M\u00e9xico, causaram na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe lembrar que, dos 11 milh\u00f5es de escravos africanos que chegaram ao Novo Mundo entre 1500 e 1866, aproximadamente 5 milh\u00f5es vieram para o Brasil. Quase metade do total. E fomos o \u00faltimo pa\u00eds a abolir a escravid\u00e3o. Os Estados Unidos receberam &#8220;apenas&#8221; 450 mil escravos e o impacto da cultura negra \u00e9 vasto e evidente. Em suma &#8211; e percebe Gates Jr. ao longo da sua viagem &#8211; as 134 (cento e trinta e quatro!) categorias de &#8220;cor&#8221; catalogadas no Brasil para designar os afro-brasileiros (segundo o IBGE) s\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 uma consequencia da extrema mistura racial desse pa\u00eds (intensificada com o branqueamento tardio da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do incentivo da imigra\u00e7\u00e3o europeia nos s\u00e9culos XVIII e XIX), mas tamb\u00e9m uma tentativa declarada de se eximir da negritude propriamente dita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, e \u00e9 um teste que o pesquisador faz nas ruas, ouvimos as mais diversas classifica\u00e7\u00f5es quando perguntamos que cor determinada pessoa \u00e9. &#8220;Caf\u00e9 com leite&#8221;, &#8220;queimado de sol&#8221;, &#8220;burro quando foge&#8221;, &#8220;morena bem chegada&#8221;, &#8220;morena cor de canela&#8221;, &#8220;sapecado&#8221; e &#8220;branca suja&#8221; s\u00e3o alguns exemplos. A hist\u00f3ria mostra que, quanto mais negro de fato, mais perseguido e mais exclu\u00eddo socialmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justi\u00e7a feita, Gates Jr. oferece v\u00e1rios insights interessantes: em meados do s\u00e9culo XIX, lembra ele, n\u00e3o havia em todo o hemisf\u00e9rio ocidental uma cidade com maior n\u00famero de escravos que o Rio de Janeiro, cerca de 100 mil. Aqui, com m\u00e3o de obra farta, sendo o destino mais pr\u00f3ximo da \u00c1frica que os demais pa\u00edses da Am\u00e9rica, a vida era particularmente dura. &#8220;Os senhores de escravos podiam sempre substituir africanos mortos por africanos vivos, a custo m\u00f3dico&#8221;. O que n\u00e3o acontecia, por exemplo, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil desmistificar a democracia racial de Freyre &#8211; teoria segundo o Brasil \u00e9 t\u00e3o mesti\u00e7o que estaria &#8220;al\u00e9m do racismo&#8221;. Basta viver por aqui. Por mais que seja dif\u00edcil para n\u00f3s, classe m\u00e9dia-branca-h\u00e9tero-descendente-de-europeus-profissionais-liberais perceber isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora do nosso curral &#8211; digo, a mania do brasileiro em olhar sempre para o pr\u00f3prio umbigo no continente e esquecer nossa condi\u00e7\u00e3o de imp\u00e9rio da Am\u00e9rica Latina &#8211; o livro mostra como \u00e9 vasto o racismo na regi\u00e3o em todas as suas formas. Os quadros de castas no M\u00e9xico, personagens como El Negro Mama, no Peru e Mem\u00edn Pingu\u00edn, tamb\u00e9m no M\u00e9xico, o sistem\u00e1tico branqueamento e\/ou relativiza\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is negros que comandaram muitas revolu\u00e7\u00f5es e contribu\u00edram de forma decisiva para a hist\u00f3ria latina. N\u00f3s, brasileiros, extremamente preconceituosos em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios, podemos ver como o orgulho da origem ind\u00edgena no Peru, no M\u00e9xico, na Rep\u00fablica Dominicana funcionam, por sua vez, para tentar apagar os tra\u00e7os africanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerados povos &#8220;mais evolu\u00eddos&#8221; que os negros, o orgulho amer\u00edndio sobrepuja fortemente os negros nesses pa\u00edses, encostados em rinc\u00f5es de pobreza e apagados da hist\u00f3ria da fam\u00edlia. \u00c9 interessante as visitas de Henry Louis Gates Jr. em diferentes regi\u00f5es dentro de um mesmo pa\u00eds, mostrando a cultura como resist\u00eancia, as pol\u00edticas sociais que ainda engatinham, as v\u00e1rias formas de vis\u00e3o de pesquisadores, acad\u00eamicos e personalidades locais, a realidade mut\u00e1vel e diversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim, fica aquela sensa\u00e7\u00e3o que conhecemos bem: a hist\u00f3ria oficial \u00e9 contada por quem pode cont\u00e1-la. Por quem tem os meios de faz\u00ea-lo. N\u00e3o pelos vencedores, porque mesmo os vencedores s\u00e3o borrados e menosprezados quando aquilo n\u00e3o interessa para a primazia dos livros. Bol\u00edvia, Chile, Argentina, Uruguai, Venezuela, Equador, etc, s\u00e3o muitos os pa\u00edses ausentes nesta obra e que merecem um escrut\u00ednio b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os Negros na Am\u00e9rica Latina&#8221; serve de boa introdu\u00e7\u00e3o para o nosso profundo desconhecimento da hist\u00f3ria local e para a vis\u00e3o contaminada que temos das nossas pr\u00f3prias ra\u00edzes. Ainda estamos engatinhando quando se trata de igualdade, respeito, isonomia, inclus\u00e3o social &#8211; falsos pleonasmos &#8211; e estudo razoavelmente aprofundado daquilo que nos constitui e estamos mergulhados. Come\u00e7ar a se inteirar de verdade sobre isso parece o primeiro passo para mudar essa realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Em livro decepcionante, Henry L. G. Jr faz uma viagem pela hist\u00f3ria negra da regi\u00e3o A hist\u00f3ria da escravid\u00e3o na Am\u00e9rica Latina \u00e9 marcada por um tra\u00e7o comum: a nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das ra\u00edzes negras de todas as formas em virtude da primazia de um suposto orgulho &#8220;mesti\u00e7o&#8221;. 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