﻿{"id":1645,"date":"2014-06-16T13:34:38","date_gmt":"2014-06-16T15:34:38","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1645"},"modified":"2016-01-19T18:42:38","modified_gmt":"2016-01-19T20:42:38","slug":"thomas-piketty-e-o-obvio-ululante-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1645","title":{"rendered":"Thomas Piketty e o \u00f3bvio ululante do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/thomas-piketty-620.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1646\" alt=\"thomas-piketty-620\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/thomas-piketty-620.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/thomas-piketty-620.jpg 620w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/thomas-piketty-620-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobretudo, o grande m\u00e9rito do economista franc\u00eas Thomas Piketty \u00e9 colocar no centro do debate mundial, extrapolando o gueto acad\u00eamico da economia e sociologia &#8211; e qual \u00e1rea acad\u00eamica n\u00e3o \u00e9 um gueto? &#8211; a quest\u00e3o da desigualdade evidente do capitalismo, porqu\u00ea ela existe e como chegamos \u00e0 ela no contexto da economia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o \u00f3bvio ululante sistematizado, bem estruturado, resultado de toda a carreira acad\u00eamica de Piketty e seus muitos colegas, parceiros e colaboradores. As principais conclus\u00f5es de &#8220;O Capital no S\u00e9culo XXI&#8221; circulam pela m\u00eddia mundial, pelas redes sociais num momento relevante, p\u00f3s crise de 2008, p\u00f3s Occupy Wall Street e p\u00f3s um turbilh\u00e3o de coisas que aconteceram nos \u00faltimos anos, direta ou indiretamente ligadas aos problemas intr\u00ednsecos do capital que n\u00e3o preciso elencar aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vendendo mais de 100 mil exemplares somente nos \u00faltimos 60 dias, Piketty se mant\u00e9m nas listas dos mais vendidos dos Estados Unidos e foi lan\u00e7ado ao curioso status de economia pop. Entender suas origens, parece-me, \u00e9 importante. <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/ideias\/noticia\/2014\/05\/thomas-piketty-o-profeta-bda-distribuicaob.html\" target=\"_blank\">Escreve Ivan Martins<\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como estudioso de desigualdade mais respeitado da \u00faltima d\u00e9cada nos meios acad\u00eamicos, \u00e9 improv\u00e1vel que Piketty seja ef\u00eamero. Prod\u00edgio matem\u00e1tico, ele chegou aos Estados Unidos em 1993 para dar aulas de economia no Instituto Tecnol\u00f3gico de Massachusetts (MIT), uma das universidades mais respeitadas\u00a0do mundo. Tinha 22 anos. Tr\u00eas anos depois, voltou \u00e0 Fran\u00e7a, convencido de que os americanos se preocupavam mais com matem\u00e1tica e teoria do que com o mundo real. Admirador do historiador Fernand Braudel e do antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss, sonhava testar com fatos as convic\u00e7\u00f5es que sobravam no seu meio. Mergulhou na pesquisa hist\u00f3rica sobre renda e patrim\u00f4nio e criou, em 15 anos de trabalho, com ajuda de colaboradores no mundo todo, um banco de dados sobre a evolu\u00e7\u00e3o da renda e da desigualdade que cobre 30 pa\u00edses. Esse acervo \u00e9 a base de seu livro.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E lembra <a href=\"http:\/\/online.wsj.com\/article\/SB10001424052702304587704579584484178926834.html\" target=\"_blank\">Pascal Emmanuel-Gobry, no Wall Street Journal<\/a>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Alguns no pequeno c\u00edrculo dos economistas respeitados da Fran\u00e7a dizem que Piketty pode ser melhor compreendido atrav\u00e9s de sua hist\u00f3ria pessoal. Ele vem de uma fam\u00edlia da classe trabalhadora. Seus pais foram membros ativos do radical partido trotskista Lutte Ouvri\u00e8re (Luta dos Trabalhadores). Ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio numa escola p\u00fablica, aos 16 anos, ele foi aceito na Ecole Normale Sup\u00e9rieure, a mais seletiva das superseletivas grandes faculdades francesas. Ele terminou o doutorado aos 22 anos, tendo recebido um pr\u00eamio da Associa\u00e7\u00e3o Francesa de Economia pela melhor tese do ano. O tema: a redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, Piketty \u00e9 algo cada vez mais raro: um produto puro da meritocracia francesa, um jovem da classe trabalhadora que frequentou escola p\u00fablica, conseguiu entrar numa faculdade de elite e acabou numa \u00e1rea prestigiada do servi\u00e7o p\u00fablico (ele ajudou a fundar e liderou a Escola de Economia de Paris). Esse foi o modelo respons\u00e1vel por reviver a Fran\u00e7a no p\u00f3s-guerra, mas que agora est\u00e1 em frangalhos.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Piketty n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o radical quanto parece &#8211; j\u00e1 que\u00a0se op\u00f4s \u00e0 \u00faltima medida do governo socialista franc\u00eas, as famosas 35 horas de trabalho por semana, e defendeu cortes nos impostos trabalhistas &#8211; \u00e9 um al\u00edvio que n\u00e3o seja. Uma das premissas do radicalismo, especialmente o tipo de radicalismo caduco e viciado que (felizmente) uma parte cada vez menor da esquerda mundial conserva, \u00e9 que ele fica restrito a pouqu\u00edssima gente e tem falhas clamorosas j\u00e1 na fonte.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso do franc\u00eas e esta \u00e9 \u00f3tima not\u00edcia. O que ele apresenta?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirma que a distribui\u00e7\u00e3o de renda, marca da prosperidade no s\u00e9culo XX, estancou e hoje regride. Desde os anos 1970, as curvas de desigualdade come\u00e7aram a subir na Europa e nos Estados Unidos. Na \u00faltima contagem, em 2010, o 1% mais rico dos EUA detinha 20% da renda total, percentual equivalente ao da Europa em 1910 \u2013 \u00e9poca de privil\u00e9gios heredit\u00e1rios, em que a mobilidade social era p\u00edfia; a meritocracia, m\u00ednima; e os mais pobres, estruturalmente condenados a continuar assim \u2013 a menos que casassem com a fortuna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a desacelera\u00e7\u00e3o das economias ocidentais e a suspens\u00e3o dos controles sobre as finan\u00e7as, Piketty afirma que a for\u00e7a da concentra\u00e7\u00e3o voltou a prevalecer \u2013 e sugere, polidamente, que a tend\u00eancia \u00e9 piorar no s\u00e9culo XXI. Se alguma provid\u00eancia n\u00e3o for tomada, diz ele, poderemos chegar rapidamente a um cen\u00e1rio em que 0,1% da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 cerca de 4,5 milh\u00f5es de pessoas \u2013 detenha entre 40% e 60% da riqueza global. Seria a volta ao mundo econ\u00f4mico de Charles Dickens e Machado de Assis, em que herdeiros afortunados viviam cercados de aproveitadores ou dependentes. Nesse universo, havia pouco espa\u00e7o para o m\u00e9rito pessoal, para a iniciativa empreendedora ou para uma vida est\u00e1vel de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os supersal\u00e1rios e\/ou a brutal diferen\u00e7a entre a remunera\u00e7\u00e3o dos mais ricos &#8211; nas mais diversas formas do capitalismo videofinanceiro &#8211; faria o resto. N\u00e3o \u00e9 novidade e estamos rodeados de exemplos suficientes que corroboram a tese. \u00c9 s\u00f3 olhar ao redor, acompanhar as not\u00edcias e o mercado mundial, o \u00f3bvio ululante de Piketty, gra\u00e7as a alguma coisa, embalado com verniz intelig\u00edvel, chega dispon\u00edvel para uma parcela maior de pessoas e chama aten\u00e7\u00e3o para o problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <a href=\"http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-92\/tribuna-livre-da-luta-de-classes-ii\/piketty-e-nos\" target=\"_blank\">excelente (e longo) artigo na Piau\u00ed<\/a>, Marcelo Medeiros traz alguns recortes interessantes:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza afeta a din\u00e2mica pol\u00edtica e as oportunidades econ\u00f4micas, seus resultados de longo prazo s\u00e3o dif\u00edceis de prever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piketty argumenta que os mercados n\u00e3o possuem nem os mecanismos nem os incentivos para frear esse processo. Ele precisa ser controlado por institui\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar pelo Estado. Em apoio a esse racioc\u00ednio, Piketty invoca a hist\u00f3ria de mais de vinte pa\u00edses: nos per\u00edodos em que os mercados s\u00e3o desregulados, a desigualdade aumenta; nos per\u00edodos em que s\u00e3o regulados, cai. Um debate que era antes travado de forma acalorada no terreno da especula\u00e7\u00e3o e da ideologia agora tem mais de 100 anos de estat\u00edsticas exaustivas como crit\u00e9rio de desempate.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Uh-oh, olha o Estado a\u00ed novamente. O Estado que foi chamado para limpar a sujeira que a crise de 2008 gerou. Em resumo, para salvar da bancarrota completa centenas de empresas, bancos, etc. Para tirar do bolso do contribuinte o que a falta de regula\u00e7\u00e3o gerou, devolvendo os ativos podres que esse mesmo sistema nos vendeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explica Marcelo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos um Estado com razo\u00e1vel capacidade para fazer investimentos em pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas que usa uma parte pequena dessa capacidade para promover a igualdade. Proporcionalmente, o poder p\u00fablico contribui mais para as rendas dos 5% mais ricos do que para as rendas dos 50% mais pobres, mesmo depois de considerar as transfer\u00eancias da assist\u00eancia social. Ou seja, por n\u00e3o ser suficientemente igualitarista, o Estado contribui para aumentar a desigualdade, em vez de minor\u00e1-la. Servi\u00e7os p\u00fablicos, como os de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade,\u00a0 melhoram o cen\u00e1rio, \u00e9 verdade, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para revert\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imposto de renda, que no Brasil tem al\u00edquotas ainda menores que as dos Estados Unidos, ajuda a frear os n\u00edveis de desigualdade, mas pouco. O imposto de renda brasileiro \u00e9 bastante progressivo, mas limitado. Isso porque a carga do imposto de renda no pa\u00eds \u00e9 baixa, ao contr\u00e1rio do que se costuma anunciar. \u201cEscorchante\u201d \u00e9 um adjetivo que s\u00f3 se usa para tributos. Os dados de Piketty mostram que de escorchante o imposto de renda n\u00e3o tem nada: pa\u00edses desenvolvidos optaram por ter uma carga de impostos muito maior do que a nossa quando ainda estavam no n\u00edvel em que estamos hoje. Al\u00e9m disso, enquanto esses pa\u00edses sempre taxaram patrim\u00f4nio e heran\u00e7as, no Brasil esses tributos s\u00e3o de pouca import\u00e2ncia. Nos Estados Unidos, boa parte da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 financiada com o equivalente do nosso iptu,e a pr\u00e1tica de doa\u00e7\u00f5es a funda\u00e7\u00f5es \u00e9 disseminada porque os impostos sobre heran\u00e7as s\u00e3o expressivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao que tudo indica, a desigualdade entre os ricos e o restante da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 um tipo particular de desigualdade, bem mais particular do que a diferen\u00e7a entre pobres e n\u00e3o pobres. Aquilo que tradicionalmente se usa para explicar as diferen\u00e7as de renda entre os 99% mais pobres n\u00e3o explica t\u00e3o bem a desigualdade entre o 1% mais rico e os demais.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Todos os homens s\u00e3o iguais, mas alguns s\u00e3o mais iguais que outros&#8221;, lembram? \u00c9 \u00f3tima not\u00edcia que isso esteja, em todas as esferas e de todas as maneiras, sendo finalmente posto em cheque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Sobretudo, o grande m\u00e9rito do economista franc\u00eas Thomas Piketty \u00e9 colocar no centro do debate mundial, extrapolando o gueto acad\u00eamico da economia e sociologia &#8211; e qual \u00e1rea acad\u00eamica n\u00e3o \u00e9 um gueto? &#8211; a quest\u00e3o da desigualdade evidente do capitalismo, porqu\u00ea ela existe e como chegamos \u00e0 ela no contexto da economia contempor\u00e2nea. 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