﻿{"id":1684,"date":"2014-08-27T12:50:26","date_gmt":"2014-08-27T14:50:26","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1684"},"modified":"2014-08-27T12:50:26","modified_gmt":"2014-08-27T14:50:26","slug":"sobre-rubem-fonseca-instintos-e-mediocridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1684","title":{"rendered":"Sobre Rubem Fonseca, instintos e mediocridade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/2010-rubem-fonseca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1693\" alt=\"2010-rubem-fonseca\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/2010-rubem-fonseca.jpg\" width=\"614\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/2010-rubem-fonseca.jpg 768w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/2010-rubem-fonseca-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu primeiro contato com Rubem Fonseca foi pelos livros &#8220;Agosto&#8221;, &#8220;O Caso Morel&#8221;, &#8220;Feliz Ano Novo&#8221; e alguns contos soltos que li ainda na adolesc\u00eancia. N\u00e3o me impressionou e n\u00e3o teve grande impacto na minha forma\u00e7\u00e3o. O estilo seco, duro e urbano de Fonseca n\u00e3o bateu t\u00e3o pesado para algu\u00e9m que sempre teve certo melindre com a literatura policial, terreno t\u00e3o caro a Rubem, direta ou indiretamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.unicamp.br\/iel\/site\/alunos\/publicacoes\/textos\/r00004.htm\" target=\"_blank\">Este artigo<\/a> define bem:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Rubem Fonseca inaugurou uma nova corrente na literatura brasileira contempor\u00e2nea que ficou conhecida, em 1975 atrav\u00e9s de Alfredo Bosi, como\u00a0<i>brutalista<\/i>. Em seus contos e romances utiliza-se de uma maneira de narrar na qual destacam-se personagens que s\u00e3o ao mesmo tempo narradores. V\u00e1rias das suas hist\u00f3rias (em especial, os romances) s\u00e3o apresentadas sob a estrutura de uma narrativa policial com fortes elementos de\u00a0<i>oralidade<\/i>. O fato de ter atuado como advogado, aprendido medicina legal, bem como ter sido comiss\u00e1rio de pol\u00edcia, nos anos 50 no sub\u00farbio do Rio de Janeiro teria contribu\u00eddo para o escritor compor hist\u00f3rias do submundo dentro dessa linguagem\u00a0<i>direta<\/i>. Muito provavelmente devido a isso, v\u00e1rios dos personagens principais em sua obra s\u00e3o (ou foram) delegados, inspetores, detetives particulares, advogados criminalistas, ou, ainda, escritores.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, resolvi acertar minhas contas com Fonseca. Comprei &#8220;Ela e Outras Mulheres&#8221;, lan\u00e7ado em 2006, &#8220;Am\u00e1lgama&#8221;, o \u00faltimo, de 2013, &#8220;Vastas Emo\u00e7\u00f5es e Pensamentos Imperfeitos&#8221;, de 1988 e &#8220;Os Prisioneiros&#8221;, o livro de contos que foi a sua estreia, de 1963. Um panorama interessante de diversas \u00e9pocas de um escritor que produz h\u00e1 mais de 50 anos, portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1696\" style=\"margin: 10px;\" alt=\"9d5a33d1-3ca8-423c-97e0-f175d3f4e72d\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/9d5a33d1-3ca8-423c-97e0-f175d3f4e72d.jpg\" width=\"300\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/9d5a33d1-3ca8-423c-97e0-f175d3f4e72d.jpg 300w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/9d5a33d1-3ca8-423c-97e0-f175d3f4e72d-194x300.jpg 194w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Impressiona a solidez da estreia. <a href=\"http:\/\/livrosdoexilado.org\/os-prisioneiros-rubem-fonseca\/\" target=\"_blank\">H\u00e1, em &#8220;Os Prisioneiros&#8221;, praticamente tudo que iria consagrar Rubem Fonseca dali em diante<\/a>: a concis\u00e3o narrativa, o estilo cru, sujo e os di\u00e1logos diretos, sem empola\u00e7\u00e3o, a descri\u00e7\u00e3o detalhada de procedimentos m\u00e9dicos como a aut\u00f3psia (&#8220;Duzentos e vinte e cinco gramas&#8221;) &#8211; <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1995\/6\/25\/mais!\/22.html\" target=\"_blank\">relato real de uma das aulas de medicina legal que teve na Escola de Pol\u00edcia do Rio<\/a> &#8211; a aparente amoralidade dos personagens, as refer\u00eancias enciclop\u00e9dicas, hist\u00f3ricas e da pr\u00f3pria literatura, o flerte com a linguagem cinematogr\u00e1fica e o surrealismo, \u00a0em suma, o lado mais instintivo e visceral do humano, a m\u00e9trica afinada, com uma prosa paradoxalmente simples e repleta de camadas poss\u00edveis. &#8220;Os Prisioneiros&#8221;, \u00e9 de fato, um monumento do conto brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rubem n\u00e3o se preocupa em entregar tudo mastigado para o leitor, em tecer longas digress\u00f5es filos\u00f3ficas. O faz com frequencia, mas apenas pincela, pontua &#8211; \u00e9 um contraponto sucinto, uma provoca\u00e7\u00e3o ensaiada. Seus contos acabam n\u00e3o raro de forma abrupta e inesperada, sem solu\u00e7\u00f5es prontas e, com frequencia, desagrad\u00e1veis para o leitor desavisado: um beb\u00ea jogado na lixeira, mortes de todos os tipos imagin\u00e1veis, pris\u00f5es e sequelas diversas, amores interrompidos. Os personagens se encontram normalmente em situa\u00e7\u00f5es degradantes e experimentam a mais profunda miserabilidade da exist\u00eancia, utilizando a viol\u00eancia, o sexo e os v\u00edcios como atenuantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai que guarda segredo do caso entre o filho menor de idade e a professora, a trepada que acaba em esganamento com a v\u00edtima gozando em prazer pleno, os amantes que nunca mais se veem, o bandido que prefere matar a namorada ao inv\u00e9s de executar o crime combinado, o sexo estragado pela filosofia, aproveitadores, outsiders e calhordas em geral. O cen\u00e1rio \u00e9 de perf\u00eddia, sordidez, cinismo e desgra\u00e7a. Me espanta que n\u00e3o tenha me apaixonado por Fonseca antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma que foi excessivamente celebrado e reconhecido por cr\u00edtica, pr\u00eamios e p\u00fablico, \u00e9 f\u00e1cil acusar Rubem de ser med\u00edocre, raso e limitado. As influ\u00eancias naturalmente s\u00e3o vastas, mas a literatura policial americana (Raymond Chandler e tantos outros) \u00e9 n\u00edtida, ainda que Rubem seja t\u00e3o brasileiro, t\u00e3o urbano e t\u00e3o fincado em nossa oralidade, trag\u00e9dias e hist\u00f3ria popular. &#8220;O Inimigo&#8221; \u00e9 espetacular nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/capa_rubem_fonseca_outras_mulheres.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-1697\" style=\"border: 0px; margin: 10px;\" alt=\"capa_rubem_fonseca_outras_mulheres\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/capa_rubem_fonseca_outras_mulheres.jpg\" width=\"418\" height=\"418\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/capa_rubem_fonseca_outras_mulheres.jpg 522w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/capa_rubem_fonseca_outras_mulheres-150x150.jpg 150w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/capa_rubem_fonseca_outras_mulheres-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><\/a>Rubem tamb\u00e9m gosta de alfinetar os principais estigmas e linhas de pensamento dos s\u00e9culos XIX e XX: a psicologia aparece com frequencia, expondo os clich\u00eas de Freud e cia (&#8220;Os prisioneiros&#8221;, conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, chega a ser did\u00e1tico), assim como o marxismo e a arte moderna (&#8220;Natureza-podre \u00a0ou Franz Potocki e o mundo&#8221; encerra a quest\u00e3o). Ante a solid\u00e3o e a aspereza da vida cotidiana, sempre entregues aos pr\u00f3prios dem\u00f4nios, resta o apego \u00e0 lasc\u00edvia, devassid\u00e3o e viol\u00eancia f\u00edsica e &#8220;moral&#8221;, resta a aus\u00eancia de padr\u00f5es, a degluti\u00e7\u00e3o das conven\u00e7\u00f5es, o del\u00edrio, a desesperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do jeito Fonseca de ser, os personagens encontram-se f\u00edsica e psiquicamente nus ante as ang\u00fastias, os problemas e a sujeira que precisam enfrentar. \u00c9 Rei Lear catando guimbas de cigarro na rua. Quando acerta, Rubem Fonseca \u00e9 um monstro da concis\u00e3o avassaladora. Um tiro na nuca que recebemos sem esperar, ainda que conhe\u00e7amos suas estrat\u00e9gias. Beirando os 90 anos, Rubem j\u00e1 n\u00e3o conserva a primazia de seus melhores trabalhos. Ainda assim, \u00e9 um \u00edcone vivo de muito do que de mais interessante a literatura brasileira produziu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">**************<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\">Conto &#8220;Ela&#8221;, de &#8220;Ela e Outras Mulheres&#8221;<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cama n\u00e3o se fala de filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peguei na m\u00e3o dela, coloquei sobre meu cora\u00e7\u00e3o, disse, meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 seu, depois pus sua m\u00e3o sobre minha cabe\u00e7a e disse, meus pensamentos s\u00e3o seus, mol\u00e9culas do meu corpo est\u00e3o impregnadas com mol\u00e9culas do seu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois botei a m\u00e3o dela no meu pau, que estava duro, disse, \u00e9 seu esse pau.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela nada disse, me chupou, depois chupei sua boceta, ela veio por cima, fodemos, ela ficou de joelhos, rosto no travesseiro, penetrei por tr\u00e1s, fodemos. Fiquei deitado e ela de costas para mim sentou-se sobre o meu p\u00fabis, enfiou meu pau na boceta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu via meu pau entrando e saindo, via o cu rosado dela, que depois lambi. Fodemos, fodemos, fodemos. Gozei como um animal agonizando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela disse, te amo, vamos viver juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntei, n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o bom assim? Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Bot\u00e2nico, comer salada com salm\u00e3o, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama \u00e9 mortal. Ela respondeu que Nietzsche disse que a mesma palavra amor significa duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. Para a mulher, amor exprime ren\u00fancia, d\u00e1diva. J\u00e1 o homem quer possuir a mulher, tom\u00e1-la, a fim de se enriquecer e refor\u00e7ar seu poder de existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respondi que Nietzsche era um maluco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aquela conversa foi o in\u00edcio do fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cama n\u00e3o se fala de filosofia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu primeiro contato com Rubem Fonseca foi pelos livros &#8220;Agosto&#8221;, &#8220;O Caso Morel&#8221;, &#8220;Feliz Ano Novo&#8221; e alguns contos soltos que li ainda na adolesc\u00eancia. N\u00e3o me impressionou e n\u00e3o teve grande impacto na minha forma\u00e7\u00e3o. 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