﻿{"id":1939,"date":"2015-10-07T16:28:40","date_gmt":"2015-10-07T18:28:40","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1939"},"modified":"2015-10-07T16:37:03","modified_gmt":"2015-10-07T18:37:03","slug":"edyr-augusto-na-literatura-e-preciso-ousar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1939","title":{"rendered":"Edyr Augusto: &#8220;na literatura, \u00e9 preciso ousar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/destaque-342501-edyr-proenca-2-danilo-verpa-folhapress.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1941\" alt=\"destaque-342501-edyr-proenca-2--danilo-verpa-folhapress\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/destaque-342501-edyr-proenca-2-danilo-verpa-folhapress.jpg\" width=\"640\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/destaque-342501-edyr-proenca-2-danilo-verpa-folhapress.jpg 800w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/destaque-342501-edyr-proenca-2-danilo-verpa-folhapress-300x187.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por <a href=\"http:\/\/www.crimideia.com.br\" target=\"_blank\">Maur\u00edcio Angelo<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falei recentemente da <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Autores\/visualizar\/edyr-augusto-proenca\" target=\"_blank\">obra do paraense Edyr Augusto Proen\u00e7a<\/a> <a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=1930\" target=\"_blank\">aqui no blog<\/a>. Com 6 livros lan\u00e7ados e &#8220;Pssica&#8221;, de 2015, fresquinho nas prateleiras, nada melhor que bater um papo r\u00e1pido com o autor e jornalista sobre algumas das principais quest\u00f5es da sua literatura, sua linguagem, sua forma de ver o mundo e o estado atual das coisas, seja ele qual for. Entrevista que voc\u00ea confere abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">Voc\u00ea mora no centro de Bel\u00e9m e o centro de grandes cidades (talvez especialmente cidades portu\u00e1rias) costuma ser uma regi\u00e3o especialmente \u201cdegradada\u201d. E voc\u00ea j\u00e1 disse o quanto esse conv\u00edvio com os diferentes tipos de figuras que habitam esse cen\u00e1rio \u00e9 importante para a sua literatura. Ao mesmo tempo, voc\u00ea n\u00e3o acha que falta, talvez, justamente essa viv\u00eancia para escritores de centros que costumam se isolar em seus apartamentos em bairros de classe m\u00e9dia alta e ter uma vis\u00e3o quase superficial e fortuita com o pulso das cidades em que vivem? A literatura n\u00e3o fica razoavelmente fake com isso?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #1a1a1a;\">\u00c9 dif\u00edcil responder. Cada escritor tem seu pr\u00f3prio universo e seu m\u00e9todo de trabalho. N\u00e3o posso responder pelos outros. No meu caso, \u00e9 essencial ouvir a melodia, o ritmo, as palavras usadas. H\u00e1 pessoas do povo tamb\u00e9m circulando em bairros de classe media alta onde poderiam ouvir suas falas. Enfim, \u00e9 uma quest\u00e3o de m\u00e9todo.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span><span style=\"color: #1a1a1a;\">Sua linguagem \u00e9 extremamente direta, talvez mais que qualquer outro nome. A princ\u00edpio, confesso, isso me incomoda. Essa \u00e2nsia em pegar o leitor pela jugular e n\u00e3o deix\u00e1-lo respirar. Mas funciona. Como voc\u00ea equilibra essa pegada para, paradoxalmente, n\u00e3o cansar o leitor? Entre todas suas atividades \u2013 escritor de teatro, radialista, redator publicit\u00e1rio\u00a0etc \u2013 qual tem mais influ\u00eancia nisso?<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #1a1a1a;\">Escrever para teatro me deu uma certa medida, que fui percebendo ao longo do tempo. Entre o palco e a plateia, h\u00e1 uma tens\u00e3o alta e qualquer movimento em falso, pode-se perder a aten\u00e7\u00e3o de todos. Escrever de maneira concisa, \u00e9 a premissa para a reda\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria, radio e jornal. N\u00e3o sei qual a maior influ\u00eancia, mas cheguei ao estilo por conta dessas atividades. Escrever \u00e9 cortar palavras.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">Escrever cenas de sexo \u00e9 sempre uma armadilha. A chance de soar pat\u00e9tico, pueril, for\u00e7ado ou algo que o valha \u00e9 sempre enorme. Mas as suas, talvez por conservarem um teor t\u00edpico de algo cr\u00edvel, rotineiro, sujo na medida, comum a todos n\u00f3s, conserva uma identidade. H\u00e1 um cuidado maior em escrever tais cenas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #1a1a1a;\">N\u00e3o tenho maior cuidado do que tenho com outras. As cenas de sexo s\u00e3o provocadas por uma grande emo\u00e7\u00e3o, nervos \u00e0 flor da pele e mais do que tudo, s\u00e3o descargas de viol\u00eancia, tens\u00e3o e erotismo. Escrevo de uma vez. Escrevo como quem enxerga na tela do computador, os personagens se relacionando. E ali j\u00e1 est\u00e3o dentro de um contexto. Est\u00e3o imersos em seu desespero.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong>A<span style=\"color: #1a1a1a;\">\u00a0investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, em fatos \u201creais\u201d retratados por jornais, \u00e9 um processo pelo qual voc\u00ea j\u00e1 disse que s\u00e3o fundamentais para o seu livro. A brutalidade do real sempre supera a fic\u00e7\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">Como diz Marcelo Mirisola, \u201cficcionistas, cuidado, a realidade \u00e9 uma concorrente\u201d. Com tantas c\u00e2meras, tantos programas policiais ou investigativos, \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil os acontecimentos n\u00e3o estarem na m\u00eddia. No caso do \u201cPssica\u201d, usei como pano de fundo, fatos cansativamente noticiados nos cadernos policiais. Todo o resto \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. O real \u00e9 sempre brutal. Muito. N\u00f3s, escritores, tentamos provocar no leitor essa emo\u00e7\u00e3o. Nem sempre conseguimos.<\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\"><a href=\"http:\/\/opiniaonaosediscute.blogspot.com.br\/2015\/09\/nos-os-invisiveis.html\" target=\"_blank\">No seu blog, no texto \u201cN\u00f3s, os invis\u00edveis\u201d<\/a>, voc\u00ea comenta o quanto os principais ve\u00edculos de imprensa e o pr\u00f3prio poder p\u00fablico desconhecem ou n\u00e3o d\u00e3o o devido valor ou n\u00e3o tem o m\u00ednimo de pol\u00edtica e incentivo para estimular a cultura local. Seja em Bel\u00e9m, seja em SP, megal\u00f3pole e principal cidade do continente, isso parece queixa comum. A cultura no Brasil realmente est\u00e1 condenada \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o eterna? Em viver de migalhas do poder p\u00fablico e midi\u00e1tico? Somos um pa\u00eds que l\u00ea e se importa pouco e quase nada mudou nas \u00faltimas d\u00e9cadas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">Em \u00e2mbito nacional, \u00e9 mais dif\u00edcil opinar, mas posso dizer que a Cultura, nos \u00faltimos vinte anos, profissionalizou-se, \u00e9 uma atividade que gera empregos, impostos, uma ind\u00fastria. Mas os dirigentes n\u00e3o acompanharam esse processo, o que \u00e9 uma pena. No caso do Par\u00e1, temos h\u00e1 longos anos, uma campanha justamente de dizima\u00e7\u00e3o da classe art\u00edstica. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma pol\u00edtica cultural para nenhuma area. N\u00f3s, escritores, promovemos a segunda FLiPa, Feira Liter\u00e1ria do Par\u00e1, iniciativa completamente particular. N\u00e3o estamos parados. \u00c9 preciso profissionaliza\u00e7\u00e3o. Chega de amadorismo.<\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">Jornalistas s\u00e3o, grosso modo, bichos ignorantes?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">Eu sou jornalista. H\u00e1 bons e maus em qualquer lugar. No Par\u00e1, sou muito bem noticiado pelos colegas, fora o caso de donos de jornais que brigam e quem escreve em um jornal (escrevo semanalmente em O Di\u00e1rio do Par\u00e1), n\u00e3o \u00e9 noticiado em outro. Coisa provinciana.<\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">Voc\u00ea teme uma poss\u00edvel &#8216;exaust\u00e3o&#8217; de estilos, temas e abordagens? Ou, na linha do \u201cminha aldeia \u00e9 o mundo\u201d e sendo o Par\u00e1 uma sociedade t\u00e3o complexa e sincretista, h\u00e1 material suficiente para uma carreira inteira? Pode sair do seu lugar de origem para ambientar uma obra futura?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">O Par\u00e1 e Bel\u00e9m s\u00e3o assuntos \u00f3timos. Tudo o que escrevi at\u00e9 hoje tem a ver com isso. Mas nada me impede de ter outras ideias, tamb\u00e9m. Sou absolutamente livre para escrever sobre o que quiser. Escritores de best sellers parecem escrever o mesmo livro h\u00e1 longos anos e s\u00e3o admirados. O estilo ser\u00e1 o mesmo. As hist\u00f3rias, sempre diferentes.<\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">Se fosse poss\u00edvel tra\u00e7ar um desejo, e n\u00e3o apenas individual, mas amplo, o que seria essencial para mudar o cen\u00e1rio que encontramos em 2015 em todo o pa\u00eds em termos de literatura, etc?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\">Educa\u00e7\u00e3o. Temos, hoje, pelo menos umas tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es perdidas, sem cultura, educa\u00e7\u00e3o, \u00e9tica, nada. N\u00e3o sou t\u00e9cnico, mas \u00e9 preciso cuidar imediatamente das novas gera\u00e7\u00f5es. Um choque brutal. Para tudo. Recome\u00e7a. Em uns doze anos, talvez tenhamos algum horizonte. Com isso, a literatura. O que fazer com essas gera\u00e7\u00f5es perdidas? N\u00e3o sei. Mas sei que n\u00e3o se pode dar a um moleque que passa o dia mexendo com twitter, whatsapp, facebook e outros, um Machado de Assis para ler. O cara precisa se identificar com a linguagem. Precisa gostar. N\u00e3o ler por obriga\u00e7\u00e3o. Mais tarde ele procurar\u00e1 por Machado.<\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">Seria arbitr\u00e1rio identificar um eixo comum para a gera\u00e7\u00e3o 00 ou, em termos pr\u00e1ticos, voc\u00ea enxerga algu\u00e9m capaz de quebrar o nicho a que a literatura est\u00e1 normalmente confinada? Isto \u00e9 importante?<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #1a1a1a;\">N\u00e3o vou citar nomes. Fatalmente esqueceria algu\u00e9m. Mas tenho gostado de alguns jovens escritores. Gosto dos temas, da linguagem. \u00c9 preciso ousar. Com a internet, os jovens t\u00eam acesso ao que \u00e9 produzido no mundo inteiro. Precisamos ganhar essa aposta com textos fortes, criativos e interessantes. O grande problema \u00e9 chegar a eles. Interess\u00e1-los. Tir\u00e1-los dos smartphones. E isso tem a ver com a quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o.<\/span><span style=\"color: #1a1a1a;\">\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #1a1a1a;\">A desigualdade social brasileira &#8211; uma das 10 maiores do mundo &#8211; de alguma forma, e longe do clich\u00ea t\u00e3o normalmente abordado na arte nacional (por gente da classe m\u00e9dia alta) \u00e9 um dos panos de fundo da sua narrativa? O Par\u00e1 \u00e9 um universo simb\u00f3lico neste aspecto e na &#8220;aus\u00eancia de lei&#8221; em algumas regi\u00f5es. O Brasil profundo que a maioria das capitais gosta de n\u00e3o enxergar. \u00c9 poss\u00edvel que isto seja um dos fatores fundamentais do seu texto?\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p lang=\"en-US\" style=\"text-align: justify;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #1a1a1a;\">O Brasil \u00e9 muito grande. O Par\u00e1, tamb\u00e9m. Terra de contrastes. Talvez o Estado potencialmente mais rico e ao mesmo tempo, economicamente um dos mais pobres. Com as riquezas descobertas, desesperados correram para ficar ricos. Hoje, jazem pelas ruas esfomeados, sem porvir. O Maraj\u00f3 \u00e9 a maior ilha fluvial do mundo. Um arquip\u00e9lago de cem ilhas. A Lei n\u00e3o chega. A mis\u00e9ria \u00e9 maior. O Estado \u00e9 incompetente. Falta tudo. Vira lei do c\u00e3o. Lei da selva. Manda o mais forte. S\u00e3o esses contrastes que me interessam. Que fazem minha literatura. Dou voz aos ricos e a quem est\u00e1 nas sombras, perdido, assustado, armando o bote para alguma presa.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maur\u00edcio Angelo Falei recentemente da obra do paraense Edyr Augusto Proen\u00e7a aqui no blog. 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