﻿{"id":20,"date":"2008-02-26T17:42:51","date_gmt":"2008-02-26T17:42:51","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.wordpress.com\/?p=20"},"modified":"2008-02-26T17:42:51","modified_gmt":"2008-02-26T17:42:51","slug":"gosto-se-discute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=20","title":{"rendered":"Gosto se discute"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\"> (Artigo escrito em 20.12.2005 e publicado originalmente no site Duplipensar &#8211; www.duplipensar.net)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Continuando nossa s\u00e9rie de &#8220;conceitos simples que trazem confus\u00e3o&#8221;, vamos elucidar a terr\u00edvel catacrese axiom\u00e1tica de que &#8220;gosto n\u00e3o se discute&#8221;. Na verdade, variante do seguinte dito popular (desculpem-me a transcri\u00e7\u00e3o literal): &#8220;opini\u00e3o \u00e9 igual bunda, todo mundo tem&#8221; ou \u201ccriticar qualquer um critica\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Tomada no \u00e2mbito rasteiro pelo qual se popularizou, a cr\u00edtica \u00e9 encarada como manifesta\u00e7\u00e3o intelectualmente confort\u00e1vel e de cunho puro e simplesmente destrutivo. Uma heresia gigantesca.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Diante de seu imensur\u00e1vel poder emp\u00edrico, a cr\u00edtica \u00e9 uma elevad\u00edssima arte que exige perscruta\u00e7\u00e3o apurada do objeto abordado. Construtivamente inigual\u00e1vel, sempre foi &#8211; e continua sendo &#8211; requisito b\u00e1sico para a compreens\u00e3o do mundo em que vivemos. S\u00f3 ela fornece mat\u00e9ria confi\u00e1vel e adequada para a indispens\u00e1vel interpreta\u00e7\u00e3o daquilo que nos cerca, configurando-se como resultado de incessantes e profundas absor\u00e7\u00f5es reflexivas (em sua manifesta\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria e rebuscada, pelo menos).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\u00c9 comum que os cr\u00edticos musicais, liter\u00e1rios, cinematogr\u00e1ficos, pol\u00edticos, sociais e das artes em geral sejam sempre tratados como \u201co inimigo\u201d. Um ser metido e execr\u00e1vel, disposto sempre a espinafrar gratuitamente o objeto avaliado em fun\u00e7\u00e3o de seu ego e suas prefer\u00eancias ex\u00f3ticas. \u00c9 ineg\u00e1vel que tais seres existem aos montes, refor\u00e7ando a validade do estere\u00f3tipo (ou talvez o cinema iraniano seja mesmo o melhor do mundo), contudo, est\u00e3o longe de serem a maioria. N\u00e3o raro a receptividade do p\u00fablico e da cr\u00edtica difere entre si, o que \u00e9 absolutamente natural. Ainda que aprove tal obra, o cr\u00edtico sempre faz suas ressalvas, considera\u00e7\u00f5es, observa\u00e7\u00f5es e notas, relacionando-se, de fato, com o objeto abordado, n\u00e3o podendo se restringir ao simples e vazio \u201cgostei ou n\u00e3o gostei\u201d, \u201c\u00e9 bom ou n\u00e3o \u00e9\u201d. Ele precisa justificar o porqu\u00ea de sua avalia\u00e7\u00e3o, explicar razoavelmente suas conclus\u00f5es, denotar respeito atrav\u00e9s de suas palavras, submetendo-se ao p\u00fablico, que testar\u00e1 seu conhecimento. \u00c9 de tais imperativos que se deriva grande parte do fastio e da dificuldade de tal of\u00edcio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">O t\u00edtulo deste texto foi a maneira mais eficaz que encontrei para chamar a aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o. Na verdade, gosto n\u00e3o se discute. O que se discute s\u00e3o t\u00e9cnicas, qualidades, execu\u00e7\u00e3o, criatividade, legado, inova\u00e7\u00e3o, aplicabilidade, \u00e9tica, enfim. Cada arte, cada coisa que \u00e9 pass\u00edvel de cr\u00edtica possui seus pr\u00f3prios fundamentos, hist\u00f3ria, regras e preceitos, os predicados e as falhas, identificadas logo numa primeira inst\u00e2ncia. Coisa que o p\u00fablico comum, geralmente, n\u00e3o possui a capacidade de avaliar. N\u00e3o se trata de corporativismo, ou seja, de um cr\u00edtico chato querendo justificar a chatice de seus companheiros e a alegada superioridade intelectual de avalia\u00e7\u00e3o, que, diga-se, n\u00e3o \u00e9 inata, mas fruto de aprimoramento e experi\u00eancia. Tamb\u00e9m \u00e9 desnecess\u00e1rio discutir se o cr\u00edtico \u00e9 ou n\u00e3o \u201csuperior\u201d \u00e0 m\u00e9dia do p\u00fablico, a op\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe, ele simplesmente tem que ser dotado de maior capacidade \u2013 n\u00e3o necessariamente intelectual. Ele tem que ter um diferencial, um acuro t\u00e9cnico, senso apurado de observa\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e grandiosidade. O verdadeiro cr\u00edtico tem que ter estes predicados, tem que se configurar como algu\u00e9m acima do normal, porque esta \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o, nada mais. E isto, \u00f3bvio, n\u00e3o significa que ele \u201cest\u00e1 sempre certo\u201d ou que \u201csua palavra \u00e9 a lei\u201d e qualquer besteira do tipo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Gosto \u00e9 gosto. Cr\u00edtica \u00e9 cr\u00edtica. Eu posso aprovar tal coisa mesmo sem gostar dela, sem apreci\u00e1-la, sem t\u00ea-la, pessoalmente, como algo ador\u00e1vel. A\u00ed que entra a imparcialidade. Pude comprovar nos \u00faltimos tempos, atrav\u00e9s de debates, discuss\u00f5es, pesquisas e mat\u00e9rias, que o conceito de imparcialidade anda muito desgastado, desacreditado e at\u00e9 desencorajado, ou seja, em baixa. Profissionais experientes dizem que ela \u00e9 uma farsa, iniciantes a ridicularizam. Para tais, \u00e9 imposs\u00edvel dissociar qualquer an\u00e1lise \u2013 por maior que seja a boa inten\u00e7\u00e3o e o distanciamento do cr\u00edtico \u2013 de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e gostos pessoais. Entrando na famigerada dualidade raz\u00e3o-emo\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o-sobriedade. A parcialidade nos seria inerente. O olhar individual, por excel\u00eancia, seria duvidoso, err\u00f4neo, incompleto, passional.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Verdades obscuras, falsas s\u00ednteses.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">Ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil separar a vida profissional da vida pessoal, os gostos da opini\u00e3o cr\u00edtica?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\u00c9 aceit\u00e1vel que um jornalista esportivo tenda a olhar com mais carinho para o seu time do cora\u00e7\u00e3o? Ou que um cr\u00edtico musical favore\u00e7a suas bandas preferidas?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Ainda que defendamos uma posi\u00e7\u00e3o, uma ideologia sobre determinado assunto \u2013 logo, estar\u00edamos assumindo claramente uma das partes \u2013 ainda nestes casos \u00e9 poss\u00edvel sair ileso. Isto n\u00e3o impede que sejamos imparciais, confi\u00e1veis e cr\u00edticos. Pelo contr\u00e1rio, a cr\u00edtica reina suprema sob tudo.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">O que voc\u00ea \u00e9 enquanto individuo n\u00e3o deve servir de desculpa para a tendenciosidade. Devemos utilizar nossas ideologias e gostos para sermos ainda mais pungentes em nosso of\u00edcio, ou mesmo no dia-a-dia. Nossa hist\u00f3ria deve influir de forma contributiva para este aspecto, pois, afinal de contas, o background cultural, seja ele qual for, \u00e9 requisito b\u00e1sico para a cr\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">Acima das idiossincrasias h\u00e1 uma arte, um estudo, um padr\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o que n\u00e3o prov\u00e9m da pessoa em si, mas do aspecto cronol\u00f3gico em que tal coisa est\u00e1 inserida. Desprezar a hist\u00f3ria e subestimar a capacidade de reflex\u00e3o e estabelecimento de grandezas \u00e9 um erro inadmiss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pautar-se apenas pelo que se gosta, assim, o cr\u00edtico que tece coment\u00e1rios negativos em rela\u00e7\u00e3o a tudo que ele n\u00e3o aprecia n\u00e3o passa de um mentecapto insignificante. Respeito. Prud\u00eancia. Pesquisa. Observa\u00e7\u00e3o. Ser moderado mas intenso, razo\u00e1vel mas pungente, \u00e9 deveras complicado. Exige v\u00e1rias qualidades que necessitam serem aperfei\u00e7oadas continuamente. Cair na verborragia, e, por conseq\u00fc\u00eancia, no amadorismo, \u00e9 muito f\u00e1cil. Oxal\u00e1 que a imunidade a isto existisse.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">Gosto se discute. \u00c9 divertido. Cr\u00edtica tamb\u00e9m. A segunda \u00e9 infinitamente mais s\u00e9ria e dolorosa do que parece.<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoBodyText\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Artigo escrito em 20.12.2005 e publicado originalmente no site Duplipensar &#8211; www.duplipensar.net) &nbsp; Continuando nossa s\u00e9rie de &#8220;conceitos simples que trazem confus\u00e3o&#8221;, vamos elucidar a terr\u00edvel catacrese axiom\u00e1tica de que &#8220;gosto n\u00e3o se discute&#8221;. Na verdade, variante do seguinte dito popular (desculpem-me a transcri\u00e7\u00e3o literal): &#8220;opini\u00e3o \u00e9 igual bunda, todo mundo tem&#8221; ou \u201ccriticar qualquer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[302,71],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20"}],"collection":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}