﻿{"id":327,"date":"2007-10-08T20:03:07","date_gmt":"2007-10-08T20:03:07","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.wordpress.com\/2007\/10\/08\/sede-parte-ii\/"},"modified":"2007-10-08T20:03:07","modified_gmt":"2007-10-08T20:03:07","slug":"sede-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=327","title":{"rendered":"Sede Parte II"},"content":{"rendered":"<p>Pra come\u00e7ar&#8230;posto um texto que j\u00e1 foi publicado no Simplic\u00edssimo (www.simplicissimo.com.br) mas que, devido a problemas com o site, acabou desaparecendo. Segunda parte de uma fic\u00e7\u00e3o que, acho eu, estou desenvolvendo.<\/p>\n<p>E nem sempre temos que sair do ponto comum, por isso, vai a partir do &#8220;II&#8221; mesmo. =)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Sede \u2013 Part II<\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Havia dias em que estava particularmente sens\u00edvel. Parecia constitu\u00eddo por pequenas ilhotas de sentimentos, prestes a eclodir. Uma passagem, uma lembran\u00e7a, uma m\u00fasica. Brincava com dados, flores e tecidos. Ornamentava o espa\u00e7o para ele mesmo atuar. Travava di\u00e1logos hom\u00e9ricos, discuss\u00f5es acaloradas sobre um tema qualquer. N\u00e3o sabia o que se passava l\u00e1 fora, contudo. \u201cL\u00e1 fora\u201d, para ele, n\u00e3o existia. Ao menos era no que preferia acreditar.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Era um pianista magistral. Capaz de executar as mais intrincadas pe\u00e7as de Chopin. Compunha apenas quando sua consci\u00eancia musical o tomava de assalto. Apenas assim. Gostava de tudo que era fresco. Frutas da esta\u00e7\u00e3o constavam sempre em sua lista de pedidos. N\u00easpera, p\u00eassego e uva, os prediletos. Saboreava com ador\u00e1vel \u00edmpeto a polpa carnuda, suculenta. N\u00e3o deixava escapar uma gota de l\u00edquido sequer. Sorvia com gula o que lhe vinha \u00e0 boca.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p class=\"MsoNormal\">Manifesto, em seu ser, a vivacidade juvenil, embora num corpo decr\u00e9pito de 80 anos. Achou, ent\u00e3o, um texto que escrevera nos idos de sua mocidade:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">\u201cPois o mal do s\u00e9culo n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o outra coisa que a covardia. A in\u00e9rcia, a fidelidade canina \u00e0 estupidez pl\u00e1cida. N\u00e3o por op\u00e7\u00e3o, claro. Mas sempre o dedo p\u00fatrido do establishment, com seus infinitos paradoxos e estratagemas que se chocam e geram sempre o nada. A s\u00edntese de nosso tempo \u00e9 a esterilidade. Anuncia-se, como se fosse grande coisa, a morte de Deus, de Marx, da arte, do amor, dos pensamentos pol\u00edticos de esquerda, de qualquer possibilidade vi\u00e1vel. O asco \u00e0 mudan\u00e7a \u00e9 t\u00e3o grande, que optamos por permanecer onde estamos, <em>como <\/em>estamos, ainda que isso simbolize a desgra\u00e7a indiscut\u00edvel. Mesmo que identifiquem a derrocada inevit\u00e1vel de suas corpora\u00e7\u00f5es, trilham o caminho mais f\u00e1cil, mais c\u00f4modo, esperando extrair o \u00faltimo suspiro da pujan\u00e7a do lucro. N\u00f3s, com efeito, na posi\u00e7\u00e3o de rebanho, repetimos subliminarmente o mantra de que \u201co mercado \u00e9 nosso pastor e tudo nos faltar\u00e1\u201d. Antes fosse poss\u00edvel resumir em observa\u00e7\u00f5es t\u00e3o elementares a magnitude da esterilidade vigente. A covardia, o pudor, o medo, a vergonha, o ego\u00edsmo, a hipocrisia, o cinismo e o apego ao conforto parecem, eles sim, fundir-se como a quintess\u00eancia da constitui\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">A capacidade que desenvolvemos de manter o status quo forte e sadio, mesmo sob as mais duras crises, renova\u00e7\u00f5es, desintegra\u00e7\u00f5es e incertezas soa al\u00e9m de qualquer justificativa cr\u00edvel. Somos seus soldados. Os est\u00f3icos e empedernidos \u201cconsumidad\u00e3os\u201d. Estupidificados a ponto de sermos incapazes de nos chocar. De sentir. Quando muito, manifestamos pena ou compaix\u00e3o. Falsas, obviamente. Os parcos momentos de revolta, daqueles que ainda conseguem compartilhar deles, evaporam-se t\u00e3o logo surja a primeira necessidade. Entregues \u00e0 pr\u00f3pria conta, exalamos uma depend\u00eancia asquerosa e insuport\u00e1vel de tudo aquilo que julgamos combater. Desprovidos do v\u00e9u sagrado do capitalismo, deixamos exposto o quanto nos esfor\u00e7amos para autenticar o contr\u00e1rio do que pretensiosamente proferimos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Esticados em seus colch\u00f5es macios, protegidos por seus carros e casas, amparados pela jamais desprez\u00edvel quantia na conta banc\u00e1ria, os ternos ajustados, vestidos car\u00edssimos, refrigeradores potentes e toda a opul\u00eancia de seus pequenos caprichos, tornados essenciais, os seres ditos de intelecto \u201cmais avan\u00e7ado\u201d, os pensadores, independentes e livres de nosso tempo tecem as mais elaboradas teses revolucion\u00e1rias, pregam a quebra das tradi\u00e7\u00f5es, a vanguarda art\u00edstica, celebram a vida como elemento uno e potencializador em si mesmo. Para qu\u00ea, no entanto? Apenas para almejarem a notoriedade em seu c\u00edrculo reduzido e esquizofr\u00eanico. Ou, sen\u00e3o, para conquistar incautos de suas artimanhas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Viver, viver, viver. Banalizaram o que temos de mais puro e inato. S\u00ea isso, s\u00ea aquilo. Acumule. Demonstre. Prove. Com t\u00e3o pouco sangue se escreve. Com t\u00e3o pouca paix\u00e3o se atua. <span> <\/span>O entusiasmo sucumbe ante a rotina. O espont\u00e2neo se enrijece pelas conven\u00e7\u00f5es. Resta apenas a entropia. E tudo que recebo \u00e9 o sil\u00eancio.\u201d<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s um pequeno hiato, soltou uma leve risada ir\u00f4nica. Continuou a passar os olhos pela prateleira, e chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o um outro envelope, j\u00e1 amarelado e comido pelas tra\u00e7as. Abriu. Era uma das poucas cartas endere\u00e7adas a mulheres que havia escrito. Come\u00e7ava assim.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\u201cDoce S.,<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Queria poder te pedir que esquecesse de tudo e viesse comigo. Para dormirmos juntos numa noite fria de inverno, ou mesmo no abafado ver\u00e3o. Abrigaria, com meu corpo, as tuas curvas que me tiraram a paz e a sa\u00fade. Mas n\u00e3o posso.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Seria demasiado eg\u00f3latra e arbitr\u00e1rio da minha parte. N\u00e3o posso oferecer-te mais que a vol\u00fapia e a libido. \u00c9 somente o que restou. O demais foi arrancado. A pequenas punhaladas. Pontuais e cortantes. Ficou s\u00f3 o animal. Qualquer resqu\u00edcio da personalidade sens\u00edvel e paternal j\u00e1 n\u00e3o existe, ou est\u00e1 coberta por uma espessa e irremov\u00edvel cortina.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">V\u00eas, contudo, que n\u00e3o sou um canalha comum. Os invejo, na verdade. Gostaria de conseguir alcan\u00e7ar a canalhice mais plena e ordin\u00e1ria. Um desejo simples por\u00e9m distante. H\u00e1 que se ser sincero mesmo na desgra\u00e7a. E sabe por que a \u201cverdade\u201d \u00e9 t\u00e3o poderosa? Porque n\u00e3o possui advers\u00e1rios. Porque atrai, revela e instiga. E porque n\u00e3o precisamos tem\u00ea-la. \u00c9 a melhor escolha dos pregui\u00e7osos: n\u00e3o exige nenhum malabarismo mental.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Contarei um segredo e voc\u00ea pode espalh\u00e1-lo se quiser. Em ess\u00eancia, o ser humano \u00e9 ridiculamente previs\u00edvel. Existem padr\u00f5es de comportamento facilmente identific\u00e1veis que se repetem h\u00e1 mil\u00eanios, e que dificilmente se alteram. No que se convencionou chamar de \u201camor\u201d, mais ainda. A obviedade \u00e9 gritante. Nos torna pat\u00e9ticos a ponto de n\u00e3o admitirmos nem passado nem futuro. De nos vermos sempre nos mesmos ciclos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">N\u00e3o se trata de tentar evitar a dor, sabe-se bem. Ao contr\u00e1rio: \u00e9 a doen\u00e7a, ipsis litteris. Ver humanos buscarem e desejarem a patologia \u00e9 de uma estupidez admir\u00e1vel. Em vez do ac\u00famulo de for\u00e7as, gera-se o ac\u00famulo de fraquezas e frivolidades. Usamos como espelho de nossas imperfei\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o temos coragem de admitir. Se sozinhos somos abomin\u00e1veis, no amor nos tornamos duplamente rid\u00edculos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">N\u00e3o sei como essa equa\u00e7\u00e3o se resolve, admito. Tornei-me imbecil de mais ao pensar em voc\u00ea. Felizmente esta sensa\u00e7\u00e3o passou r\u00e1pido. Sa\u00ed da utopia asquerosa para voltar a ser um homem digno. \u00c9 sempre reconfortante. Talvez seja isso: posso ter achado o sentido de tamanha ignor\u00e2ncia. Pois a doen\u00e7a n\u00e3o serve para nos certificar do quanto estamos fortes? N\u00e3o \u00e9 ela o estado pelo qual temos que passar para expurgar e reconhecer os males, ficando saud\u00e1veis novamente? Ela \u00e9 a nossa mea-culpa. A lama que nos chafurdamos opcionalmente porque, afinal, n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes dos porcos. E como se reviram felizes na lama e na lavagem! Somos n\u00f3s, no fim, quando destitu\u00eddos de c\u00e9rebro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Talvez o amor seja s\u00f3 uma desculpa para abdicar da raz\u00e3o. E na estupidez, isso n\u00e3o se discute, \u00e9 t\u00e3o mais f\u00e1cil viver. Percebes o tamanho da previsibilidade? \u00c9 porque somos covardes, em suma. E necessitamos de muletas para respirar: dinheiro, Deus, os outros, fam\u00edlia, amigos, o companheiro. Na rela\u00e7\u00e3o, note bem, \u00e9 onde nos deixamos mais vulner\u00e1veis, pat\u00e9ticos, dependentes, idiotas. E por isto mesmo mais humanos. Quando todas as ilus\u00f5es de fortitude, independ\u00eancia e liberdade ruem. Conheces algo mais desprez\u00edvel que o homem apaixonado? Ele \u00e9 tudo que n\u00e3o dev\u00edamos ser, mas buscamos. O que por si s\u00f3 d\u00e1 um belo retrato de nossa decad\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">E \u00e9 por isso que reafirmo que n\u00e3o almejo a sua presen\u00e7a. Se tiveres alguma pretens\u00e3o al\u00e9m da fome e da libido. E sei que, apesar de tudo, vai soltar um sorriso contido de admira\u00e7\u00e3o. Nunca ter\u00e1s como saber por que falo, para quem, com que objetivo e sob quais condi\u00e7\u00f5es. Convenhamos: h\u00e1 algo mais sedutor que o mist\u00e9rio e a intelig\u00eancia?.\u201d<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:justify;text-indent:28.05pt;\">Ap\u00f3s ler, ficou satisfeito. Era ele. Indubitavelmente. E percebeu que pouca coisa havia mudado desde os long\u00ednquos anos em que aquilo tinha sido escrito. Nada, ali\u00e1s. N\u00e3o importa quanto tempo passe, certas coisas nunca mudam. A convic\u00e7\u00e3o e clareza que tinha aos 20 era a mesma que demonstrava aos 80. Aquilo o agradou. Foi dormir. Estava cansado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra come\u00e7ar&#8230;posto um texto que j\u00e1 foi publicado no Simplic\u00edssimo (www.simplicissimo.com.br) mas que, devido a problemas com o site, acabou desaparecendo. Segunda parte de uma fic\u00e7\u00e3o que, acho eu, estou desenvolvendo. 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