﻿{"id":329,"date":"2007-10-13T18:17:30","date_gmt":"2007-10-13T18:17:30","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.wordpress.com\/2007\/10\/13\/miller\/"},"modified":"2007-10-13T18:17:30","modified_gmt":"2007-10-13T18:17:30","slug":"miller","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=329","title":{"rendered":"Miller"},"content":{"rendered":"<p>Relendo Henry Miller estes dias&#8230;imposs\u00edvel resistir a postar um trecho de sua obra mais famosa: &#8220;Tr\u00f3pico de C\u00e2ncer&#8221;.  Se era &#8220;chocante&#8221; no in\u00edcio da d\u00e9cada de 30, para muitos continua sendo at\u00e9 hoje: o &#8220;maldito&#8221; escritor realmente n\u00e3o pode agradar aos guardi\u00e3es dos bons-costumes &#8211; seja l\u00e1 o que isto for &#8211; e a tradicional mediocridade da hipocrisia burguesa, ou seja, aquilo que a imensa maioria de n\u00f3s \u00e9 (e cultiva) mesmo sem ter consci\u00eancia disto. N\u00e3o me espanta que Orwell tenha sido um dos primeiros a reconhecer sua import\u00e2ncia e originalidade.<\/p>\n<p>Seus romances mezzo auto-biogr\u00e1ficos que misturam experi\u00eancias reais com uma fic\u00e7\u00e3o tresloucada e cheias de reflex\u00f5es filos\u00f3ficas, cr\u00edticas e sociais (&#8230;) encharcadas de forte teor sexual, das mais intensas e vivas, literalmente, que podemos ter, \u00e9 um deleite para quem \u00e9 capaz de apreci\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Aproveite.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 para voc\u00ea, T\u00e2nia, que estou cantando. Desejaria poder cantar melhor, mais melodiosamente, mas ent\u00e3o talvez voc\u00ea jamais consentisse em ouvir-me. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu outros cantarem e permaneceu fria. Cantavam bonito demais ou n\u00e3o cantavam suficientemente bonito.<\/p>\n<p>Estamos em vinte e tantos de outubro. N\u00e3o acompanho mais as datas. Que diz voc\u00ea? Meu sonho de 14 de novembro do ano passado? H\u00e1 intervalos, mas ficam entre sonhos e deles n\u00e3o resta consci\u00eancia alguma. O mundo ao meu redor est\u00e1 se dissolvendo, deixando aqui e acol\u00e1 manchas de tempo. O mundo \u00e9 um c\u00e2ncer que est\u00e1 comendo a si pr\u00f3prio&#8230; Estou pensando que, quando o grande sil\u00eancio descer sobre tudo e todos, a m\u00fasica triunfar\u00e1 por fim. Quando tudo se retirar de novo para o \u00fatero do tempo, o caos ser\u00e1 restabelecido, e o caos \u00e9 a p\u00e1gina sobre a qual a realidade est\u00e1 escrita. Voc\u00ea, T\u00e2nia, \u00e9 o meu caos. \u00c9 por isso que canto. N\u00e3o sou nem eu, \u00e9 o mundo morrendo, deixando cair a pele do tempo. Eu ainda estou vivo, dando pontap\u00e9s em seu \u00fatero, uma realidade sobre a qual escrever.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Mudei a m\u00e1quina de escrever para o aposento ao lado onde posso ver-me no espelho enquanto escrevo.<\/p>\n<p>T\u00e2nia \u00e9 como Irene. Espera cartas gordas. Mas existe outra T\u00e2nia, uma T\u00e2nia semelhante a uma grande semente, que espalha p\u00f3len por toda parte -_ou, digamos, um pouco de Tolst\u00f3i, uma cena de est\u00e1bulo na qual o feto \u00e9 desenterrado. T\u00e2nia \u00e9 uma febre tamb\u00e9m&#8211; les voies urinaires, Caf\u00e9 de la Libert\u00e9, Place des Vosges, gravatas brilhantes no Boulevard de Montparnasse, banheiros escuros, Porto Sec, cigarros Abdullah, sonata pat\u00e9tica em ad\u00e1gio, amplificadores auditivos, sess\u00f5es de anedotas, peitos castanho-avermelhados queimados, ligas pesadas, que horas s\u00e3o, fais\u00f5es dourados recheados com castanhas, dedos de tafet\u00e1, crep\u00fasculos vaporosos transformando-se em azinheiras, acromegalia, c\u00e2ncer e del\u00edrio, v\u00e9us quentes, fichas de p\u00f4quer, tapetes de sangue e coxas macias. T\u00e2nia diz para que todos ou\u00e7am: &#8220;Eu o amo!&#8221; E, enquanto B\u00f3ris se queima com u\u00edsque, ela diz: &#8220;Sente-se aqui! \u00d3 B\u00f3ris&#8230; R\u00fassia&#8230; que farei? Estou estourando!&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0 noite, quando olho o cavanhaque de B\u00f3ris estendido sobre o travesseiro, fico hist\u00e9rico.<\/p>\n<p>\u00d3 T\u00e2nia, onde est\u00e3o agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro h\u00e1 um osso de quinze cent\u00edmetros de comprimento. T\u00e2nia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mand\u00e1-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o \u00fatero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em voc\u00ea, T\u00e2nia. Deixarei seus ov\u00e1rios incandescentes. Seu Sylvester agora est\u00e1 um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, n\u00e3o sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, voc\u00ea pode receber garanh\u00f5es, touros, carneiros, cisnes e S\u00e3o Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Voc\u00ea pode defecar arpejos ou amarrar uma c\u00edtara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, T\u00e2nia, para que voc\u00ea fique fornicada. E se tem medo de ser fornicada em p\u00fablico, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns p\u00ealos de sua vulva e os grudarei no queixo de B\u00f3ris. Morderei seu clit\u00f3ris e cuspirei moedas de dois francos&#8230;<\/p>\n<p>C\u00e9u de anil limpo de onde foram varridas as nuvens felpudas, \u00e1rvores magras infinitamente estendidas, com seus galhos pretos a gesticular como um son\u00e2mbulo. \u00c1rvores sombrias e espectrais, de troncos p\u00e1lidos como cinza de charuto. Sil\u00eancio supremo e absolutamente europeu. Venezianas cerradas, lojas fechadas. Um brilho vermelho aqui e acol\u00e1 para marcar encontro. Fachadas bruscas, quase proibitivas; imaculadas, n\u00e3o fossem as manchas de sombra que as \u00e1rvores lan\u00e7am. Passando pela Orangerie, lembrei-me de outra Paris, a Paris de Maugham, de Gauguin, a Paris de George Moore. Penso naquele terr\u00edvel espanhol que ent\u00e3o espantava o mundo com seus saltos acrob\u00e1ticos de um estilo para outro. Penso em Spengler e seus terr\u00edveis pronunciamentos e pergunto se o estilo, o estilo \u00e0 grande maneira, morreu.<\/p>\n<p>Digo que meu esp\u00edrito est\u00e1 ocupado com esses pensamentos, mas n\u00e3o \u00e9 verdade; somente mais tarde, depois de ter atravessado o Sena, depois de ter deixado para tr\u00e1s o carnaval de luzes, \u00e9 que permito a meu esp\u00edrito brincar com essas id\u00e9ias. No momento, n\u00e3o posso pensar em nada &#8211; exceto em que sou um ser senciente ferido pelo milagre destas \u00e1guas que refletem um mundo esquecido. Ao longo de toda a extens\u00e3o das margens, as \u00e1rvores curvam-se pesadamente sobre o espelho emba\u00e7ado; quando o vento se ergue e as enche de um murm\u00fario farfalhante, elas derramam algumas l\u00e1grimas e estremecem sobre a \u00e1gua rodopiante que passa. Estou sufocado por isto. Ningu\u00e9m a quem possa comunicar sequer uma fra\u00e7\u00e3o de meus sentimentos&#8230;<\/p>\n<p>O mal de Irene \u00e9 ter uma valise em lugar de vulva. Quer cartas gordas para enfiar na valise. Imensa, avec des choses inou\u00efes. Agora, Llona tem uma boceta. Sei disso porque ela nos mandou alguns p\u00ealos arrancados bem do fundo. Llona &#8211;uma \u00e9gua selvagem cheirando prazer no vento. Em todo monte alto ela fez o papel de puta&#8211; e \u00e0s vezes tamb\u00e9m em cabinas telef\u00f4nicas e lavat\u00f3rios. Ela comprou uma cama para o Rei Carol e um p\u00facaro para sab\u00e3o de barba com as iniciais dele. Deitava-se em Tottenham Court Road com o vestido levantado e fazia com os pr\u00f3prios dedos. Usava velas, velas romanas, e trincos de porta. N\u00e3o havia na terra membro t\u00e3o grande que lhe servisse&#8230; nenhum. Homens entravam nela e fraquejavam.<\/p>\n<p>Ela os queria com extens\u00e3o, foguetes explosivos, \u00f3leo fervente feito de cera e creosoto.<\/p>\n<p>Cortaria o seu e o conservaria dentro dela, se voc\u00ea lhe desse permiss\u00e3o. Uma boceta como n\u00e3o se encontra em um milh\u00e3o, Llona! Uma vagina de laborat\u00f3rio, sem papel de tornassol que pudesse tomar-lhe a cor. Era uma mentirosa tamb\u00e9m, essa Llona. Jamais comprou uma cama para o seu Rei Carol. Coroou-o com uma garrafa de u\u00edsque e sua l\u00edngua estava cheia de chatos e amanh\u00e3s. Pobre Carol, dentro dela ele s\u00f3 poderia fraquejar e morrer. Uma chupada, e ele caiu para fora &#8211;qual morta lesma.<\/p>\n<p>Em minha aus\u00eancia, colocaram as cortinas na janela. Tem apar\u00eancia de toalhas de mesa tirolesas, molhadas em lisol. O quarto resplandece. Sento-me na cama atordoado, pensando no homem antes de seu nascimento. De repente, sinos come\u00e7am a dobrar, m\u00fasica fant\u00e1stica, sobrenatural, como se eu tivesse sido transportado para as estepes da \u00c1sia Central. Alguns retinem num ritmo longo e demorado, outros ressoam bebedamente, chorosamente. Agora tudo est\u00e1 quieto de novo, a n\u00e3o ser por uma \u00faltima nota que mal corta o sil\u00eancio da noite &#8211;apenas uma fraca e aguda batida abafada como uma chama. &#8221;<\/p>\n<p>Inquietamente sublime. Amo. ;*<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relendo Henry Miller estes dias&#8230;imposs\u00edvel resistir a postar um trecho de sua obra mais famosa: &#8220;Tr\u00f3pico de C\u00e2ncer&#8221;. 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