﻿{"id":534,"date":"2009-07-30T20:46:06","date_gmt":"2009-07-30T22:46:06","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=534"},"modified":"2011-03-21T19:54:01","modified_gmt":"2011-03-21T21:54:01","slug":"michael-moore-e-a-roupa-suja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=534","title":{"rendered":"Michael Moore e a roupa suja"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-535\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/sicko2.jpg\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/sicko2.jpg 449w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/sicko2-300x263.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 449px) 100vw, 449px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.michaelmoore.com\/sicko\/index.html\" target=\"_blank\">Sicko<\/a> &#8211; Michael Moore &#8211; 2007 &#8211; ****<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e1-vontade (ou &#8220;birrinha&#8221;) que muitos &#8220;cr\u00edticos&#8221; tem com Michael Moore infelizmente quase nunca \u00e9 acompanhada de uma avalia\u00e7\u00e3o profunda dos principais temas levantados por seus document\u00e1rios. Manipulador, manique\u00edsta, apelativo, desonesto, sensacionalista, comediante. A lista \u00e9 longa. As t\u00e9cnicas de Moore s\u00e3o realmente question\u00e1veis. H\u00e1 at\u00e9 um <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Manufacturing-Dissent-Dave-Barber\/dp\/B000UYX4N6\/?tag=aotrst-20\" target=\"_blank\">document\u00e1rio sobre isso<\/a>, que infelizmente ainda n\u00e3o vi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para horror de quem se limita a falar besteiras muito maiores que qualquer deslize de MM, o gordinho venceu o Oscar, garantia de sucesso comercial, e Cannes, prova de reconhecimento da cr\u00edtica, que premia o que de mais &#8220;art\u00edstico&#8221; e contundente o cinema faz. Algo ignorado \u00e9 que Moore me parece inteligente o bastante para ter ci\u00eancia dos seus pontos falhos e de que forma ele pode ser atacado a cada document\u00e1rio que produz. Reconhecer a legitimidade do advers\u00e1rio, ali\u00e1s, \u00e9 a melhor maneira de enfraquec\u00ea-lo. Isso inclui at\u00e9 a artimanha de enviar um cheque an\u00f4nimo de 20 mil d\u00f3lares ao mantenedor do <a href=\"http:\/\/www.moorewatch.com\/\" target=\"_blank\">maior site anti-Moore do mundo<\/a>, porque o sujeito n\u00e3o conseguia pagar o atendimento m\u00e9dico necess\u00e1rio para a esposa. J\u00e1 o argumento de que em Guantanamo (base militar dos EUA em Cuba) os prisioneiros da Al-Qaeda s\u00e3o tratados com muito mais cuidados que boa parte da popula\u00e7\u00e3o dos EUA \u00e9, claro, fr\u00e1gil. Qualquer um sabe que Guantanamo n\u00e3o \u00e9 exatamente uma filial do para\u00edso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sicko aborda o sistema de sa\u00fade no mundo (em especial nos EUA). Dif\u00edcil imaginar tema mais importante. Os depoimentos e argumentos se sucedem, afim de mostrar que quem n\u00e3o tem cobertura m\u00e9dica nos EUA est\u00e1 literalmente ferrado e quem tem tamb\u00e9m. N\u00e3o por acaso Obama tenta, no momento, aprovar um projeto de reforma do sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com todas as restri\u00e7\u00f5es de &#8220;doen\u00e7as pr\u00e9-existentes&#8221; poss\u00edveis (uma lista infind\u00e1vel), 250 milh\u00f5es de estadunidenses tem algum tipo de plano. Moore mostra a m\u00e1fia por tr\u00e1s da ind\u00fastria m\u00e9dica (e farmac\u00eautica). Que tem o simples objetivo que toda empresa capitalista t\u00eam: fazer dinheiro a qualquer custo. Mesmo que isto seja sob a vida dos outros. Apenas um detalhe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3rias ver\u00eddicas de pessoas que perderam familiares e amigos porque os planos negaram os tratamentos necess\u00e1rios sob qualquer pretexto for\u00e7oso (um absurdo descomunal) se empilham na tela. D\u00edvidas com hospitais. Institui\u00e7\u00f5es que mandam despejar seus doentes na rua enfiando-os num t\u00e1xi qualquer. Quanto custou para a ind\u00fastria m\u00e9dica comprar o senado e o presidente Bush, permitindo que nada mudasse e o lucro continuasse a ser gerado como bem entendem. O terrorismo (este sim) feito sob o sistema de sa\u00fade socializado. O dinheiro em primeiro lugar, no p\u00fablico ou privado. Se voc\u00ea n\u00e3o tem como pagar, n\u00e3o \u00e9 atendido. Simples assim. E mesmo quem pode, encontra dificuldade. Basta que o plano avalie que o custo ser\u00e1 maior que o ganho. <em>Bye bye. We are america. Self-made man.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afim de comparar o sistema de sa\u00fade dos EUA com o de outros pa\u00edses, Moore vai at\u00e9 o Canad\u00e1, a Fran\u00e7a e a Inglaterra, entrevistando pessoas nativas destes lugares bem como estadunidenses que se mudaram para l\u00e1. A diferen\u00e7a gritante &#8211; atendimento respeitoso, humano, de ponta, r\u00e1pido, inclusive com os m\u00e9dicos indo at\u00e9 a casa do paciente, como na Fran\u00e7a, ou o hospital dando o dinheiro para o transporte, se a pessoa n\u00e3o puder pagar, como na Inglaterra &#8211; aparece. Americanos (sic) contam, com os olhos brilhando, que se sentem aben\u00e7oados por n\u00e3o dependerem do sistema de sa\u00fade do seu pa\u00eds de origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moore certamente desconfia que impostos alt\u00edssimos devem bancar isto. E escolhe visitar a casa de um m\u00e9dico ingl\u00eas do servi\u00e7o p\u00fablico, na esperan\u00e7a dele viver endividado, como a imensa maioria dos estadunidenses. Para &#8220;surpresa&#8221; o m\u00e9dico ganha muito bem, tem uma casa de tr\u00eas andares e n\u00e3o possui d\u00edvidas acumuladas. Seu principal gasto s\u00e3o frutas e f\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui fica evidente o manique\u00edsmo de Moore e o mundo encantado fora dos EUA que ele cuidadosamente cria. Parece \u00f3bvio que a hist\u00f3ria n\u00e3o se resume ao dualismo visto na tela. Os confort\u00e1veis benef\u00edcios conquistados pelos trabalhadores franceses ao custo, literal, de suor e sangue ao longo da hist\u00f3ria, proporciona um universo de vantagens que pesam, enormemente, no or\u00e7amento do governo. A previd\u00eancia estourada, a bolha crescente dif\u00edcil de ser contida. E quando o governo tenta, o pa\u00eds p\u00e1ra. Os benef\u00edcios s\u00e3o leg\u00edtimos. Funcionam. N\u00e3o ca\u00edram no colo de ningu\u00e9m. Mas os problemas atuais enfrentados por este quadro nem de longe s\u00e3o pincelados por Moore.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como \u00e9 \u00f3bvio que ingleses, franceses e canadenses n\u00e3o vivem exatamente no para\u00edso. Mesmo com essa ressalva, o sistema de sa\u00fade nestes pa\u00edses \u00e9 o que deveria ser o brasileiro se a carga monstruosa de impostos que pagamos fosse bem administrada, n\u00e3o sendo dragada (tamb\u00e9m) pela corrup\u00e7\u00e3o no meio do caminho. L\u00e1 eles pagam mas tem o retorno. Aqui&#8230;bem, voc\u00ea sabe como \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que os exemplos de Moore tem em comum s\u00e3o a imigra\u00e7\u00e3o explosiva, o desemprego, enfim, todas as mazelas compartilhadas em maior ou menor grau por quase todos os cidad\u00e3os do mundo. Exceto pelos 1% daqueles que det\u00e9m 80% da riqueza do planeta. Aspas para Orwell, por favor:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTornou-se tamb\u00e9m claro que o aumento total da riqueza amea\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o \u2013 com efeito, de certo modo era a destrui\u00e7\u00e3o \u2013 de uma sociedade hier\u00e1rquica. Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivessem bastante que comer, morassem numa casa com banheiro e refrigerador, e possu\u00edssem autom\u00f3vel ou mesmo avi\u00e3o, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de desigualdade. Generalizando-se, a riqueza n\u00e3o conferia distin\u00e7\u00e3o. Era poss\u00edvel, sem d\u00favida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal de bens e luxos, fosse igualmente distribu\u00edda, ficando o poder nas m\u00e3os de uma pequena casta privilegiada. Mas na pr\u00e1tica tal sociedade n\u00e3o poderia ser est\u00e1vel. Pois se o lazer e a seguran\u00e7a fossem por todos fru\u00eddos, a grande massa de seres humanos normalmente estupidificada pela mis\u00e9ria aprenderia a ler e a aprenderia a pensar por si; e uma vez isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde veria que n\u00e3o tinha fun\u00e7\u00e3o a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De maneira permanente, uma sociedade hier\u00e1rquica s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na base da pobreza e da ignor\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis a s\u00edntese do que realmente importa em Sicko. Em outras palavras, \u00e9 o mesmo que \u00e9 dito n\u00e3o por coincid\u00eancia por um ingl\u00eas: o governo dos EUA n\u00e3o parece muito interessado em ter pessoas educadas e saud\u00e1veis, porque, assim sendo, o seu poder seria questionado e destru\u00eddo. Como nos EUA, assim \u00e9 em boa parte do mundo. E Moore demonstra como somos enrolados numa teia de d\u00edvidas e preocupa\u00e7\u00f5es mundanas demais durante toda a vida para n\u00e3o termos o que pensar, argumentar. Para ficarmos ref\u00e9ns do <em>establishment<\/em>. N\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. Eis a base da nossa sociedade. Sem isso, ela se implode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aconteceria na Inglaterra se o sistema de sa\u00fade universal fosse alterado? Uma revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que o senhor diz. E uma estadunidense, morando na Fran\u00e7a, percebe a diferen\u00e7a b\u00e1sica: aqui (na Fran\u00e7a), o governo tem receio das pessoas, l\u00e1 (EUA), as pessoas tem medo do governo. E isto muda tudo.\u00a0<em>&#8220;N\u00e3o se revoltar\u00e3o enquanto n\u00e3o tiverem consci\u00eancia; n\u00e3o ter\u00e3o consci\u00eancia enquanto n\u00e3o se revoltarem&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, Moore vai \u00e0 Cuba. L\u00e1, os &#8220;her\u00f3is&#8221; do 11 de setembro (volunt\u00e1rios que ajudaram o trabalho dos bombeiros e acabaram desenvolvendo uma s\u00e9rie de doen\u00e7as principalmente respirat\u00f3rias com o passar dos anos) encontram o tratamento adequado &#8211; e gratuito &#8211; que lhes fora negado nos EUA. Em Cuba, o rem\u00e9dio que custa 120 d\u00f3lares nos EUA \u00e9 encontrado por 5 centavos de d\u00f3lar. Somente na ilha de Fidel (onde voc\u00ea acha que L\u00facifer mora, brinca Moore) os &#8220;her\u00f3is da Am\u00e9rica&#8221; s\u00e3o tratados com a dignidade merecida. N\u00e3o \u00e9 preciso ser &#8220;her\u00f3i&#8221; para receber o mesmo atendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paradoxo \u00e9 o que define o mundo moderno. Como um ilhazinha como Cuba, com todas as restri\u00e7\u00f5es comerciais impostas pelo pr\u00f3prio EUA, comunista, consegue ter um dos melhores sistemas de sa\u00fade do mundo, gratuito, e os EUA, a na\u00e7\u00e3o mais rica do planeta, n\u00e3o? Ora, tanta riqueza precisa vir de algum lugar. A ind\u00fastria m\u00e9dica (incluindo a farmac\u00eautica) \u00e9 s\u00f3 um deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3ximo filme de Moore (a sair em outubro) \u00e9, claro, sobre a crise econ\u00f4mica. A verdade, no entanto, a respeito dessa galhofa toda, \u00e9 s\u00f3 uma. Como diz Marshal Berman em &#8220;Tudo Que \u00c9 S\u00f3lido Desmancha no Ar&#8221;:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"PT-BR\">A economia moderna provavelmente continuar\u00e1 em expans\u00e3o, embora talvez em novas dire\u00e7\u00f5es, adaptando-se \u00e0s crises cr\u00f4nicas de energia e do meio ambiente que seu sucesso criou. As adapta\u00e7\u00f5es futuras exigir\u00e3o grandes turbul\u00eancias sociais e pol\u00edticas; mas a moderniza\u00e7\u00e3o sempre sobreviveu em meio a problemas, em uma atmosfera de \u201cincerteza e agita\u00e7\u00e3o constantes\u201d em que, como diz o Manifesto Comunista, \u201ctodas as rela\u00e7\u00f5es fixas e congeladas s\u00e3o suprimidas\u201d. Em tal ambiente, a cultura do modernismo continuar\u00e1 a desenvolver novas vis\u00f5es e express\u00f5es de vida, pois as mesmas tend\u00eancias econ\u00f4micas e sociais que incessantemente transformam o mundo que nos rodeia, tanto para o bem como para o mal, tamb\u00e9m transformam as vidas interiores dos homens e das mulheres que ocupam esse mundo e o fazem caminhar. O processo de moderniza\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que nos explora e nos atormenta, nos impele a apreender e a enfrentar o mundo que a moderniza\u00e7\u00e3o constr\u00f3i e a lutar por torna-lo o nosso mundo. Creio que n\u00f3s e aqueles que vir\u00e3o depois de n\u00f3s continuar\u00e3o lutando para fazer com que nos sintamos em casa neste mundo, mesmo que os lares que constru\u00edmos, a rua moderna, o esp\u00edrito moderno continuem a desmanchar no ar.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"MsoNormal\"><span lang=\"PT-BR\">N\u00e3o lhe parece familiar?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sicko &#8211; Michael Moore &#8211; 2007 &#8211; **** A m\u00e1-vontade (ou &#8220;birrinha&#8221;) que muitos &#8220;cr\u00edticos&#8221; tem com Michael Moore infelizmente quase nunca \u00e9 acompanhada de uma avalia\u00e7\u00e3o profunda dos principais temas levantados por seus document\u00e1rios. Manipulador, manique\u00edsta, apelativo, desonesto, sensacionalista, comediante. A lista \u00e9 longa. As t\u00e9cnicas de Moore s\u00e3o realmente question\u00e1veis. 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