﻿{"id":622,"date":"2009-10-22T21:00:51","date_gmt":"2009-10-22T23:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=622"},"modified":"2009-10-22T21:07:42","modified_gmt":"2009-10-22T23:07:42","slug":"a-liberdade-de-ver-os-outros-david-foster-wallace","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=622","title":{"rendered":"A liberdade de ver os outros &#8211; David Foster Wallace"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-623\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/wallace.jpg\" alt=\"\" width=\"560\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/wallace.jpg 560w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/wallace-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/p>\n<p>Lembrei desse texto agora, que aprecio bastante. J\u00e1 falei de DFW e havia linkado o texto neste post <a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=279\" target=\"_blank\">aqui<\/a>. Como fui conferir e <a href=\"http:\/\/www.revistapiaui.com.br\/convite.aspx?LinkAnterior=\/edicao_25\/artigo_766\/A_liberdade_de_ver_os_outros.aspx\" target=\"_blank\">a Piau\u00ed passou a exigir cadastro para l\u00ea-lo<\/a>, achei por bem publicar. Vale a pena. E, ah, este foi &#8220;apenas&#8221; um texto preparado por ele para dar uma palestra que, se n\u00e3o me engano, era a formatura de alguma faculdade (a qual fugiu o nome agora). Imagino a rea\u00e7\u00e3o da molecada&#8230;<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><strong>A liberdade de ver os outros<br \/>\npor David Foster Wallace<\/strong><\/div>\n<blockquote>\n<div style=\"text-align: justify;\">Dois peixinhos est\u00e3o nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contr\u00e1rio. Ele os cumprimenta e diz:<\/p>\n<p>\u2013 Bom dia, meninos. Como est\u00e1 a \u00e1gua?<\/p>\n<p>Os dois peixinhos nadam mais um pouco, at\u00e9 que um deles olha para o outro e pergunta:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c1gua? Que diabo \u00e9 isso?<\/p>\n<p>N\u00e3o se preocupem, n\u00e3o pretendo me apresentar a voc\u00eas como o peixe mais velho e s\u00e1bio que explica o que \u00e9 \u00e1gua ao peixe mais novo. N\u00e3o sou um peixe velho e s\u00e1bio. O ponto central da hist\u00f3ria dos peixes \u00e9 que a realidade mais \u00f3bvia, ub\u00edqua e vital costuma ser a mais dif\u00edcil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude \u2013 mas<br \/>\n\u00e9 fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da exist\u00eancia adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma import\u00e2ncia de vida ou morte.<\/p>\n<p>Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilus\u00f3rias. Vou dar como exemplo uma de minhas convic\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas: tudo \u00e0 minha volta respalda a cren\u00e7a profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e b\u00e1sico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele \u00e9 familiar a todos n\u00f3s. Ele faz parte de nossa configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.<\/p>\n<p>Querem ver? Todas as experi\u00eancias pelas quais voc\u00eas passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: voc\u00eas mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado est\u00e1 diante de voc\u00eas, ou atr\u00e1s, \u00e0 esquerda ou \u00e0 direita, na sua tev\u00ea, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que voc\u00eas sentem e pensam \u00e9 imediato, urgente, real. N\u00e3o pensem que estou me preparando para fazer um serm\u00e3o sobre compaix\u00e3o, desprendimento ou outras \u201cvirtudes\u201d. Essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de virtude \u2013 trata-se de optar por tentar alterar minha configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.<\/p>\n<p>Num ambiente de excel\u00eancia acad\u00eamica, cabe a pergunta: quanto do esfor\u00e7o em adequar a nossa configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta \u00e9 capciosa. O risco maior de uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u2013 pelo menos no meu caso \u2013 \u00e9 que ela refor\u00e7a a tend\u00eancia a intelectualizar demais as quest\u00f5es, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 ocorrendo bem na minha frente.<\/p>\n<p>Estou certo de que voc\u00eas j\u00e1 perceberam o quanto \u00e9 dif\u00edcil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante mon\u00f3logo que travamos em nossas cabe\u00e7as. S\u00f3 vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clich\u00ea de \u201censinar os alunos como pensar\u201d \u00e9, na verdade, uma simplifica\u00e7\u00e3o de uma id\u00e9ia bem mais profunda e s\u00e9ria. \u201cAprender a pensar\u201d significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consci\u00eancia do que escolher como alvo de aten\u00e7\u00e3o e pensamento. Se voc\u00eas n\u00e3o conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estar\u00e3o totalmente \u00e0 deriva.<\/p>\n<p>Lembrem o velho clich\u00ea: \u201cA mente \u00e9 um excelente servo, mas um senhorio terr\u00edvel.\u201d Como tantos clich\u00eas, tamb\u00e9m esse soa inconvincente e sem gra\u00e7a. Mas ele expressa uma grande e terr\u00edvel verdade. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o fa\u00e7am com um tiro na cabe\u00e7a. S\u00f3 que, no fundo, a maioria desses suicidas j\u00e1 estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a ess\u00eancia de uma educa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que v\u00eam junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confort\u00e1vel, pr\u00f3spera e respeit\u00e1vel vida adulta sem j\u00e1 estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o \u2013 a de sermos singularmente, completamente, imperialmente s\u00f3s.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m parece outra hip\u00e9rbole, mais uma abstra\u00e7\u00e3o oca. Sejamos concretos ent\u00e3o. O fato cru \u00e9 que voc\u00eas, graduandos, ainda n\u00e3o t\u00eam a mais vaga id\u00e9ia do significado real do que seja viver um dia ap\u00f3s o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ningu\u00e9m fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve t\u00e9dio, rotina e frustra\u00e7\u00e3o mesquinha.<\/p>\n<p>Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Voc\u00ea acordou de manh\u00e3, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, est\u00e1 cansado, estressado, e tudo que deseja \u00e9 chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque ter\u00e1 de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas a\u00ed lembra que n\u00e3o tem comida na geladeira. Voc\u00ea n\u00e3o teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o tr\u00e2nsito est\u00e1 uma l\u00e1stima.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea finalmente chega l\u00e1, o supermercado est\u00e1 lotado, horrivelmente iluminado com l\u00e2mpadas fluorescentes e impregnado de uma m\u00fasica ambiente de matar. \u00c9 o \u00faltimo lugar do mundo onde voc\u00ea gostaria de estar, mas n\u00e3o d\u00e1 para entrar e sair rapidinho: \u00e9 preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus pr\u00f3prios carrinhos de compras. E, claro, h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles idosos que n\u00e3o saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e voc\u00ea tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licen\u00e7a para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como n\u00e3o h\u00e1 caixas suficientes funcionando, a fila \u00e9 imensa, o que \u00e9 absurdo e irritante, mas voc\u00ea n\u00e3o pode descarregar toda a f\u00faria na pobre da caixa que est\u00e1 \u00e0 beira de um ataque de nervos.<\/p>\n<p>De qualquer modo, voc\u00ea acaba chegando \u00e0 caixa, paga por sua comida e espera at\u00e9 que o cheque ou o cart\u00e3o seja autenticado pela m\u00e1quina, e depois ouve um \u201cboa noite, volte sempre\u201d numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o tr\u00e2nsito est\u00e1 lento, pesado etc. e tal.<\/p>\n<p>\u00c9 num momento corriqueiro e desprez\u00edvel como esse que emerge a quest\u00e3o fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me d\u00e3o tempo de pensar. Se eu n\u00e3o tomar uma decis\u00e3o consciente sobre como pensar a situa\u00e7\u00e3o, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o me leva a pensar que situa\u00e7\u00f5es assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecer\u00e1 sempre que as outras pessoas n\u00e3o passam de estorvos. E quem s\u00e3o elas, ali\u00e1s? Qu\u00e3o repulsiva \u00e9 a maioria, qu\u00e3o bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, qu\u00e3o enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilit\u00e1rios e caminh\u00f5es enormes e est\u00fapidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, ego\u00edstas e perdul\u00e1rios. Posso me aborrecer com os adesivos patri\u00f3ticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos autom\u00f3veis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, s\u00f3 para avan\u00e7ar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezar\u00e3o por desperdi\u00e7armos todo o combust\u00edvel do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e qu\u00e3o mal-acostumados e est\u00fapidos e repugnantes todos n\u00f3s somos, e como tudo isso \u00e9 simplesmente pavoroso etc. e tal.<\/p>\n<p>Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, \u00f3timo, muitos de n\u00f3s somos assim \u2013 s\u00f3 que pensar dessa maneira tende a ser t\u00e3o autom\u00e1tico que sequer precisa ser uma op\u00e7\u00e3o. Ela deriva da minha configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me for\u00e7ar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado est\u00e3o t\u00e3o entediados e frustrados quanto eu, e, no c\u00f4mputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente t\u00eam vidas bem mais dif\u00edceis, tediosas ou dolorosas do que eu.<\/p>\n<p>Fazer isso \u00e9 dif\u00edcil, requer for\u00e7a de vontade e empenho mental. Se voc\u00eas forem como eu, alguns dias n\u00e3o conseguir\u00e3o faz\u00ea-lo, ou simplesmente n\u00e3o estar\u00e3o a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poder\u00e3o preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela n\u00e3o seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as tr\u00eas \u00faltimas noites em claro, segurando a m\u00e3o do marido que est\u00e1 morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcion\u00e1ria mal remunerada do Departamento de Tr\u00e2nsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocr\u00e1tica, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insol\u00favel de documenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro que nada disso \u00e9 prov\u00e1vel, mas tampouco \u00e9 imposs\u00edvel. Tudo depende do que voc\u00eas queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, voc\u00eas, assim como eu, n\u00e3o levar\u00e3o em conta possibilidades que n\u00e3o sejam in\u00fateis e irritantes. Mas, se voc\u00eas aprenderam como pensar, saber\u00e3o que t\u00eam outras op\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 ao alcance de voc\u00eas vivenciarem uma situa\u00e7\u00e3o \u201cinferno do consumidor\u201d n\u00e3o apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma for\u00e7a que acendeu as estrelas.<\/p>\n<p>Relevem o tom aparentemente m\u00edstico. A \u00fanica coisa verdadeira, com V mai\u00fasculo, \u00e9 que voc\u00eas precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Na trincheira do dia-a-dia, n\u00e3o h\u00e1 lugar para o ate\u00edsmo. N\u00e3o existe algo como \u201cn\u00e3o venerar\u201d. Todo mundo venera. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar \u2013 seja Jesus Cristo, Al\u00e1 ou Jeov\u00e1, ou algum conjunto inviol\u00e1vel de princ\u00edpios \u00e9ticos \u2013 \u00e9 que todo outro objeto de venera\u00e7\u00e3o te engolir\u00e1 vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achar\u00e1 que tem o suficiente. Aquele que venerar seu pr\u00f3prio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentir\u00e1 feio \u2013 e quando o tempo e a idade come\u00e7arem a se manifestar, morrer\u00e1 um milh\u00e3o de mortes antes de ser efetivamente enterrado.<\/p>\n<p>No fundo, sabemos de tudo isso, que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o de mitos, prov\u00e9rbios, clich\u00eas, epigramas e par\u00e1bolas. Ao venerar o poder, voc\u00ea se sentir\u00e1 fraco e amedrontado, e precisar\u00e1 de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabar\u00e1 se sentindo burro, um farsante na imin\u00eancia de ser desmascarado. E assim por diante.<\/p>\n<p>O insidioso dessas formas de venera\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em serem pecaminosas \u2013 e sim em serem inconscientes. S\u00e3o o tipo de venera\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 qual voc\u00ea vai se acomodando quase que por gravidade, dia ap\u00f3s dia. Voc\u00ea se torna mais seletivo em rela\u00e7\u00e3o ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consci\u00eancia de que est\u00e1 fazendo uma escolha.<\/p>\n<p>O mundo jamais o desencorajar\u00e1 de operar na configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela venera\u00e7\u00e3o que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas for\u00e7as de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos d\u00e1 a liberdade de sermos senhores de min\u00fasculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.<\/p>\n<p>Esse tipo de liberdade tem m\u00e9ritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, voc\u00eas pouco ouvir\u00e3o no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve aten\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia, disciplina, esfor\u00e7o e capacidade de efetivamente se importar com os outros \u2013 no cotidiano, de forma trivial, talvez med\u00edocre, e certamente pouco excitante. Essa \u00e9 a liberdade real. A alternativa \u00e9 a torturante sensa\u00e7\u00e3o de ter tido e perdido alguma coisa infinita.<\/p>\n<p>Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas n\u00e3o descartem o que ouviram como um serm\u00e3o cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religi\u00e3o ou dogma. Nem quest\u00f5es grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V mai\u00fasculo diz respeito \u00e0 vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Diz respeito \u00e0 consci\u00eancia \u2013 consci\u00eancia de que o real e o essencial est\u00e3o escondidos na obviedade ao nosso redor \u2013 daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: \u201cIsto \u00e9 \u00e1gua, isto \u00e9 \u00e1gua.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 extremamente dif\u00edcil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.<\/p><\/div>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembrei desse texto agora, que aprecio bastante. J\u00e1 falei de DFW e havia linkado o texto neste post aqui. Como fui conferir e a Piau\u00ed passou a exigir cadastro para l\u00ea-lo, achei por bem publicar. Vale a pena. 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