﻿{"id":697,"date":"2010-02-15T21:12:09","date_gmt":"2010-02-15T23:12:09","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=697"},"modified":"2010-02-15T22:21:26","modified_gmt":"2010-02-16T00:21:26","slug":"bbb-duplipensado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=697","title":{"rendered":"BBB duplipensado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-698\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bbb8.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bbb8.jpg 640w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bbb8-300x187.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Direto ao ponto: o BBB 9 rendeu \u00e0 Globo mais de R$ 100 milh\u00f5es. Isso explica as 10 edi\u00e7\u00f5es at\u00e9 aqui e sinaliza que teremos que conviver com o programa at\u00e9 que o contrato com a Endemol n\u00e3o seja renovado por algum motivo esdr\u00faxulo, o p\u00fablico canse ou o mundo acabe. Tr\u00eas coisas improv\u00e1veis. Sorria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando come\u00e7ou, a esperan\u00e7a geral era que a bobagem passasse logo, como a maioria dos reality shows. N\u00e3o passou. A cada ano somos bombardeados, n\u00e3o raro, pelos mesmos tipos de texto. An\u00e1lises sociol\u00f3gicas e antropol\u00f3gicas do BBB levadas a s\u00e9rio (<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=265ASP022\" target=\"_blank\">Roberto DaMatta acena<\/a>), um arsenal de experts do senso comum e, claro, os defensores ferrenhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade em admitir que se interessa pelo BBB apenas para ver as mulheres e homens nus (no programa e nas futuras capas de revistas especializadas) e porque n\u00e3o consegue achar nada mais interessante para fazer \u00e9 incompreens\u00edvel. Dizer que a &#8220;experi\u00eancia humana&#8221; ali \u00e9 rica e interessante soa como atestado de estupidez e blefe mal realizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00f3rmula nunca foi sutil. Pelo contr\u00e1rio. A premissa de juntar uma d\u00fazia de gostosas e gostos\u00f5es, personalidades explosivas, regi\u00f5es e origens diferentes, orienta\u00e7\u00f5es sexuais, forma\u00e7\u00f5es, etc, sempre foi muito expl\u00edcita pela pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. A divis\u00e3o da casa em &#8220;tribos&#8221;, este ano, foi o auge disso. Junte esse povo todo, distribua bebida a vontade, promova festinhas e disputas deb\u00e9is, crie historinhas de amor, mocinhos e vil\u00f5es, bla bla bla. Diferente sendo sempre igual. O aspecto novelesco com &#8220;pessoas reais&#8221; e roteiro ligeiramente improvisado com a decisiva participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. T\u00e1 feito o estrago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O BBB \u00e9 um desses produtos da cultura pop que voc\u00ea simplesmente n\u00e3o consegue passar imune. Em algum canto, algum lugar, vai tomar contato. Mesmo sem nunca assistir pode saber de tudo que se passa na casa. De alguns anos pra c\u00e1 surgiu outro fen\u00f4meno: gostar de BBB tornou-se cult, motivo de orgulho. Assunto comentado com empolga\u00e7\u00e3o nas rodas &#8220;alternativas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disto, chama aten\u00e7\u00e3o a curiosa necessidade de justificar o porqu\u00ea de assistir e acompanhar o programa. Como que prevendo a &#8220;m\u00e1 aceita\u00e7\u00e3o&#8221; dos amigos e conhecidos (&#8220;chatos intelectual\u00f3ides&#8221;), \u00e9 flagrante externar os motivos incontest\u00e1veis da validade do programa, presente em diversos textos internet afora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo pelo qual o que era desprezado e ignorado anos atr\u00e1s torna-se motivo de orgulho da personalidade e superioridade no mundo alternativo e &#8220;cr\u00edtico&#8221; n\u00e3o se restringe, claro, ao BBB. Experimente, por exemplo, dizer que n\u00e3o gosta de Odair Jos\u00e9 hoje em dia. As chances de ser visto como algu\u00e9m de &#8220;mentalidade menor e preconceituosa&#8221; \u00e9 enorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O alternativo, em suma, tem a necessidade de, tempos em tempos, tomar para si o que rejeitava anteriormente. De levantar a bandeira de &#8220;vanguarda&#8221; e um novo olhar, agora superior, para as coisas do povo. \u00c9 estranho que uma gama t\u00e3o grande de pessoas sinta-se compelida a justificar fortemente o seu interesse no BBB. Gostar de algo que voc\u00ea ache ruim parece hip\u00f3tese inaceit\u00e1vel. Afirmar que adora &#8220;Y&#8221; mesmo achando Y uma merda n\u00e3o est\u00e1 nas op\u00e7\u00f5es listadas. Como se houvesse contradi\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o falamos de <em>guilty pleasure<\/em>. \u00a0Com isso, essas pessoas externam a velha divis\u00e3o entre cultura erudita e cultura popular, o que \u00e9 do povo e o que \u00e9 da elite, por mais fundida e ultrapassada que isto esteja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se apropria de algo tido como &#8220;do povo&#8221;, a classe m\u00e9dia logo precisa justificar com todas as for\u00e7as e artimanhas o motivo da mudan\u00e7a. Criar um novo &#8220;pedestal&#8221;, um novo &#8220;paradigma&#8221;. Como aconteceu com o jazz, por exemplo. Apenas outro ponto em que o duplipensar orwelliano se faz presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orwell, afinal, de quem o t\u00edtulo do programa foi chupado, certamente n\u00e3o ficaria surpreso. Se o Grande Irm\u00e3o do Partido vigiava tudo, sendo a teletela um dos meios principais, n\u00e3o \u00e9 nada muito diferente do que ocorre dentro da casa do BBB e principalmente fora dela. Leitura j\u00e1 clich\u00ea e inescapavelmente verdadeira h\u00e1 umas boas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diz 1984:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"PT-BR\">Saber e n\u00e3o saber, ter consci\u00eancia de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opini\u00f5es opostas, sabendo-as contradit\u00f3rias e ainda assim acreditando em ambas; usar a l\u00f3gica contra a l\u00f3gica, repudiar moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardi\u00e3o da democracia; esquecer tudo quanto fosse necess\u00e1rio esquecer, traze-lo \u00e0 mem\u00f3ria prontamente no momento preciso, e depois torna-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o pr\u00f3prio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsci\u00eancia e ent\u00e3o tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. At\u00e9 para compreender a palavra \u201cduplipensar\u201d era necess\u00e1rio usar o duplipensar. <\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"PT-BR\">Os que precisam justificar desesperadamente seu interesse pelo BBB, al\u00e9m de escravizados pela &#8220;teletela&#8221;, se colocam como sua pr\u00f3pria Pol\u00edcia do Pensamento. Aqui o paradoxo perde para a obviedade. No fundo, o BBB n\u00e3o revela nenhuma camada al\u00e9m da superficialidade, das apar\u00eancias, dos estere\u00f3tipos e dos joguinhos extensamente conhecidos, n\u00e3o eleva e n\u00e3o rebaixa porcaria nenhuma, n\u00e3o tem qualquer sentido filos\u00f3fico ou sociol\u00f3gico, como a imensa maioria dos produtos culturais. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span lang=\"PT-BR\">Gostar e acompanhar ou n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 motivo de vergonha nem de orgulho. O fim \u00e9 o grande espet\u00e1culo vazio de sempre. Algo a que j\u00e1 estamos confortavelmente acostumados e n\u00e3o incomoda ningu\u00e9m. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto ao ponto: o BBB 9 rendeu \u00e0 Globo mais de R$ 100 milh\u00f5es. Isso explica as 10 edi\u00e7\u00f5es at\u00e9 aqui e sinaliza que teremos que conviver com o programa at\u00e9 que o contrato com a Endemol n\u00e3o seja renovado por algum motivo esdr\u00faxulo, o p\u00fablico canse ou o mundo acabe. Tr\u00eas coisas improv\u00e1veis. Sorria. 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