﻿{"id":734,"date":"2010-02-24T11:58:23","date_gmt":"2010-02-24T13:58:23","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=734"},"modified":"2017-04-28T13:06:59","modified_gmt":"2017-04-28T15:06:59","slug":"bertrand-russel-o-ocio-e-a-falacia-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=734","title":{"rendered":"Bertrand Russel: o \u00f3cio e a fal\u00e1cia do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-735\" alt=\"\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bertrand_russell-300x300.jpg\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bertrand_russell-300x300.jpg 300w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bertrand_russell-150x150.jpg 150w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/bertrand_russell.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos atr\u00e1s me deparei com o livro &#8220;Elogio Ao \u00d3cio&#8221;, do pensador brit\u00e2nico Bertrand Russel. O livro \u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o de textos escritos por Russel sobre assuntos como trabalho, educa\u00e7\u00e3o, comportamento, etc. Ao que parece, est\u00e1 esgotado na editora Sextante, pois s\u00f3 pode ser <a href=\"http:\/\/www.traca.com.br\/livro\/413107\/o-elogio-ao-ocio\" target=\"_blank\">encontrado em sebos como a Tra\u00e7a Virtual<\/a> (como este exemplar, por m\u00f3dicos 14 reais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teve um impacto decisivo em minha vida. Russel \u00e9 claro, l\u00facido, argumentador talentoso, capaz de expor as coisas sem fazer uso de ret\u00f3ricas desnecess\u00e1rias e do estilo &#8220;entrecortado&#8221; e for\u00e7osamente herm\u00e9tico de alguns &#8220;fil\u00f3sofos&#8221; enganadores da modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O eixo central do livro \u00e9 o texto que d\u00e1 nome \u00e0 ele: O Elogio Ao \u00d3cio, dispon\u00edvel aparentemente completo <a href=\"http:\/\/antivalor.vilabol.uol.com.br\/textos\/outros\/russel.htm\" target=\"_blank\">aqui<\/a>, com a ressalva apenas de leves deslizes de tradu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o comprometem em nada sua import\u00e2ncia. Com a licen\u00e7a do hiperbolismo, <strong>\u00e9 a \u00fanica coisa que voc\u00ea precisa ler<\/strong>. Depois pode partir para outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei que muita gente n\u00e3o l\u00ea textos com mais de dois par\u00e1grafos. Sintom\u00e1tico. Outros tantos dispensam coisas longas justamente porque a jornada de trabalho e tudo que a envolve toma muito tempo e muita energia vital. Ironia. Parece claro que esta \u00e9 uma das formas b\u00e1sicas de como o sistema age para manter as coisas como s\u00e3o: <strong>tentar retirar ao m\u00e1ximo do ser humano a possibilidade de se dedicar a reflex\u00f5es que exijam mais do que uma r\u00e1pida olhadela e uma informa\u00e7\u00e3o curta, seca, &#8220;direta&#8221;<\/strong>. Neste sentido, ali\u00e1s, os &#8220;princ\u00edpios&#8221; do jornalismo s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o mais flagrante. A m\u00eddia atua como o oper\u00e1rio mais incans\u00e1vel do esquema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o pensar. N\u00e3o ter tempo para refletir. Al\u00e9m disso: extirpar desde o nascimento a vontade, o tes\u00e3o, o interesse, a curiosidade e a dedica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para ultrapassar a mediocridade. Nos deixar confortavelmente anestesiados, acomodados, ignorantes. Cada vez mais. Fazer com que nos contentemos com pouco, muito pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Russel destr\u00f3i com uma mentira fulcral da sociedade: &#8220;o trabalho dignifica o homem&#8221;<\/strong>. Mostra como essa fal\u00e1cia hist\u00f3rica contribuiu (e contribui) para o estado das coisas. O texto, escrito no in\u00edcio dos anos 30, soa (infelizmente) atemporal. Podem alegar que o cen\u00e1rio analisado por Russel ainda se concentrava demasiadamente no trabalho f\u00edsico, na produ\u00e7\u00e3o de bens materiais, na incipi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Russel mostra, j\u00e1 naquela \u00e9poca, como a jornada de trabalho (que chegava a 15 horas para um adulto na Inglaterra) poderia ser convertida para 4 hs. Como nos concentr\u00e1vamos excessivamente no frisson em produzir bens in\u00fateis e dispens\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fato que muita coisa mudou de l\u00e1 pra c\u00e1. Mas Russel acreditava que quanto mais as m\u00e1quinas evolu\u00edssem, quanto mais a tecnologia fosse capaz de contribuir para a substitui\u00e7\u00e3o do trabalho pesado na ind\u00fastria e demais setores, mais raz\u00f5es existiriam e mais a sociedade poderia caminhar para uma substitui\u00e7\u00e3o deste tipo de trabalho e mentalidade. \u00c9 indiscut\u00edvel que, sim, houve avan\u00e7os descomunais nesta \u00e1rea nos \u00faltimos 80 anos. Ao mesmo tempo em que o capitalismo tratou de manter o mesmo tipo de consci\u00eancia e o mesmo tipo de jornada excruciante na &#8220;era da informa\u00e7\u00e3o&#8221;. Da\u00ed a tristeza por constatar que o texto de Russel se mant\u00e9m atual, presente. Que suas passagens possam falar t\u00e3o forte e t\u00e3o diretamente ao que vivemos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Selecionei alguns trechos essenciais do <a href=\"http:\/\/antivalor.vilabol.uol.com.br\/textos\/outros\/russel.htm\" target=\"_blank\">texto completo<\/a>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das coisas mais comuns que se faz com a poupan\u00e7a \u00e9 emprest\u00e1-la a algum governo. Considerando-se o fato de que a maior parte das despesas p\u00fablicas de quase todos os governos civilizados consiste nas d\u00edvidas das guerras passadas ou na prepara\u00e7\u00e3o de guerras futuras, quem empresta seu dinheiro ao governo acha-se na mesma posi\u00e7\u00e3o do vil\u00e3o que aluga assassinos de Shakespeare. O resultado l\u00edquido de seus h\u00e1bitos econ\u00f4micos \u00e9 aumentar as for\u00e7as armadas do Estado ao qual ele empresta sua poupan\u00e7a. Obviamente, seria melhor gastar o dinheiro, mesmo que fosse com bebida ou no jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de mais nada: o que \u00e9 trabalho? H\u00e1 dois tipos de trabalho: o primeiro, alterar a posi\u00e7\u00e3o de um corpo na ou pr\u00f3ximo \u00e0 superf\u00edcie da Terra relativamente a outro corpo; o segundo, mandar outra pessoa faz\u00ea-lo. O primeiro tipo \u00e9 desagrad\u00e1vel e mal pago; o segundo \u00e9 agrad\u00e1vel e muito bem pago. O segundo tipo \u00e9 capaz de extens\u00e3o indefinida: h\u00e1 n\u00e3o somente aqueles que d\u00e3o ordens, mas aqueles que d\u00e3o conselhos sobre que ordens deveriam ser dadas. Geralmente dois tipos opostos de conselhos s\u00e3o dados simultaneamente por dois grupos organizados; a isto se chama pol\u00edtica. A habilidade necess\u00e1ria a este tipo de trabalho n\u00e3o \u00e9 conhecimento dos assuntos sobre os quais s\u00e3o dados conselhos, mas conhecimento da arte da fala e da escrita persuasiva, isto \u00e9, da propaganda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Europa, mas n\u00e3o na Am\u00e9rica, h\u00e1 uma terceira classe de homens, mais respeitada do que qualquer uma das outras classes de trabalhadores. H\u00e1 homens que, pela propriedade da terra, podem fazer outros pagarem pelo privil\u00e9gio de poderem existir e trabalhar. Estes propriet\u00e1rios de terras s\u00e3o ociosos, e portanto se esperaria que eu os elogiasse. Infelizmente, a sua ociosidade se torna poss\u00edvel pelo trabalho de outros; de fato, seu desejo pelo \u00f3cio confort\u00e1vel \u00e9 historicamente a fonte de todo evangelho do trabalho. A \u00faltima coisa que eles desejariam \u00e9 que outros seguissem o seu exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00e9cnica moderna tornou poss\u00edvel que o lazer, dentro de certos limites, n\u00e3o seja uma prerrogativa de uma pequena classe privilegiada, mas um direito distribu\u00eddo eq\u00fcanimamente pela comunidade. <strong>A moral do trabalho \u00e9 a moral de escravos, e o mundo moderno n\u00e3o precisa da escravid\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00e9cnica moderna tornou poss\u00edvel diminuir enormemente a quantidade de trabalho necess\u00e1rio para assegurar as necessidades vitais para todos. Isto se tornou \u00f3bvio durante a Primeira Guerra Mundial. Naquele tempo todos os homens nas for\u00e7as armadas, e todos os homens e mulheres envolvidos na produ\u00e7\u00e3o de muni\u00e7\u00e3o, e todos os homens e mulheres envolvidos com espionagem, propaganda de guerra ou escrit\u00f3rios governamentais relacionados com a guerra foram tirados de ocupa\u00e7\u00f5es produtivas. Apesar disto, o n\u00edvel geral de bem-estar entre assalariados n\u00e3o-qualificados do lado dos aliados era mais alto do que antes ou mesmo depois da Guerra. O significado deste fato era escondido pelas finan\u00e7as: empr\u00e9stimos fizeram parecer que o futuro estava nutrindo o presente. Mas isto, \u00e9 claro, seria imposs\u00edvel; um homem n\u00e3o pode comer um p\u00e3o que n\u00e3o existe. A guerra mostrou conclusivamente que, atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel manter as popula\u00e7\u00f5es modernas em razo\u00e1vel conforto com uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno. Se, ao final da guerra, a organiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que foi criada para liberar homens para as guerras e produ\u00e7\u00e3o de muni\u00e7\u00e3o fosse preservada, e as jornada de trabalho fosse reduzida para quatro horas, tudo teria ficado bem. Aos inv\u00e9s disto, o antigo caos foi restaurado, aqueles cujo trabalho era necess\u00e1rio voltaram \u00e0s longas horas de trabalho, e o restante foi deixado \u00e0 m\u00edngua no desemprego. Por qu\u00ea? Porque o trabalho \u00e9 um dever, e um homem n\u00e3o deveria receber sal\u00e1rios proporcionalmente ao que produz, mas proporcionalmente \u00e0 virtude demonstrada em seu esfor\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a moral do Estado escravista, aplicada em circunst\u00e2ncias totalmente diferentes daqueles na qual surgiu. N\u00e3o \u00e9 surpresa que o resultado tenha sido desastroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00a0ideia\u00a0de que os pobres devam ter lazer sempre foi chocante para os ricos.<\/strong>\u00a0Na Inglaterra, no in\u00edcio do s\u00e9culo dezenove, quinze horas era a jornada comum para um homem; algumas vezes crian\u00e7as trabalhavam tanto quanto, e muito comumente trabalhavam doze horas por dia. Quando alguns intrometidos sugeriram que talvez estas horas fossem exageradas, foi-lhes dito que o trabalho afastava os adultos da bebida e as crian\u00e7as da marginalidade. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se o trabalhador comum trabalhasse quatro horas por dia, haveria o suficiente para todos e n\u00e3o haveria desemprego &#8211; assumindo um moderado senso de organiza\u00e7\u00e3o. Essa\u00a0ideia\u00a0choca os abastados, porque eles\u00a0est\u00e3o\u00a0convencidos\u00a0de\u00a0que os pobres n\u00e3o saberiam como usar tanto lazer.<\/strong> Nos Estados Unidos, os homens freq\u00fcentemente trabalham longas horas mesmo quando est\u00e3o bem financeiramente; tais homens, naturalmente, se indignam com a ideia do lazer para assalariados, exceto na forma do cruel castigo do desemprego; de fato, eles n\u00e3o gostam de lazer nem mesmo para seus filhos. Estranhamente, enquanto querem que seus filhos trabalhem t\u00e3o duro que n\u00e3o tenham tempo para serem civilizados, eles n\u00e3o se importam que suas esposas e filhas n\u00e3o tenham absolutamente nenhum trabalho. A inutilidade esnobe, que em uma sociedade aristocr\u00e1tica se estende a ambos os sexos, \u00e9, sob uma plutocracia, confinada \u00e0s mulheres; isto, entretanto, n\u00e3o a torna mais sensata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso s\u00e1bio do lazer, deve-se conceder, \u00e9 produto de civiliza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o. Um homem que tenha trabalhado longas horas a vida inteira fica entendiado se se torna subitamente ocioso. Mas sem consider\u00e1vel quantidade de lazer um homem \u00e9 privado de muitas das melhores coisas. <strong>N\u00e3o h\u00e1 mais nenhuma raz\u00e3o para que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o sofra dessa priva\u00e7\u00e3o; somente um ascetismo tolo, geralmente paroquiano, nos faz continuar a insistir em excessivas quantidades de trabalho agora que n\u00e3o h\u00e1 mais necessidade.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tentamos fazer justi\u00e7a econ\u00f4mica, de forma que uma grande propor\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o total vai para uma pequena minoria da popula\u00e7\u00e3o, e boa parte dela simplesmente n\u00e3o trabalha. <strong>Devido \u00e0 aus\u00eancia de qualquer controle central sobre a produ\u00e7\u00e3o, produzimos grande quantidade de coisas que n\u00e3o precisamos. <\/strong>Mantemos uma grande percentagem da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora ociosa, porque podemos dispensar seu trabalho dando sobretrabalho a outros. Quando todos estes m\u00e9todos se provarem inadequados, temos a guerra: colocamos muitas pessoas a fabricar explosivos, e muitas outras para explodi-los, como se f\u00f4ssemos crian\u00e7as que rec\u00e9m descobriram os fogos de artif\u00edcio. Combinando estes mecanismo, somos capazes, com dificuldade, de manter viva a no\u00e7\u00e3o de que uma grande quantidade de trabalho manual intenso \u00e9 o quinh\u00e3o inevit\u00e1vel do homem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O fato \u00e9 que mudar corpos de lugar, ainda que em certa quantidade seja necess\u00e1rio \u00e0 nossa exist\u00eancia, n\u00e3o \u00e9, em absoluto, um dos objetivos da vida humana. Se fosse, ter\u00edamos que considerar todo operador de britadeira superior a Shakespeare.<\/strong> Temos sido enganados neste aspecto por duas raz\u00f5es. <strong>Uma \u00e9 a necessidade de manter os pobres aplacados, o que levou os ricos, por milhares de anos, a defender a dignidade do trabalho, enquanto cuidavam eles mesmos de se manterem indignos a este respeito. A outra \u00e9 o novo prazer no maquinismo, que nos delicia com as espantosas transforma\u00e7\u00f5es que podemos causar na superf\u00edcie da Terra.<\/strong> Nenhum destes motivos tem grande apelo ao trabalhador real. Se se pergunta a ele o qual ele acha a melhor parte de sua vida, n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que ele dia: &#8220;Eu gosto do trabalho manual porque ele me faz sentir que estou fazendo a tarefa mais nobre do homem, e porque eu gosto de pensar o quanto o homem pode transformar o planeta. \u00c9 verdade que o meu corpo necessitam per\u00edodos de descanso, que devo preencher da melhor forma poss\u00edvel, mas eu nunca fico t\u00e3o feliz quanto quando chega a manh\u00e3 e eu posso retornar ao trabalho duro do qual prov\u00e9m o meu contentamento&#8221;. Eu nunca ouvi trabalhadores dizerem este tipo de coisa. Eles consideram o trabalho como ele deve ser considerado, um meio necess\u00e1rio \u00e0 sobreviv\u00eancia, e \u00e9 de seu lazer que eles obt\u00e9m qualquer felicidade que possam ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem diga que, enquanto um pouco de lazer \u00e9 prazeroso, os homens n\u00e3o saberiam como preencher seus dias se tivessem somente quatro horas de trabalho nas suas vinte e quatro horas do dia. Considerar isto uma verdade no mundo moderno \u00e9 uma condena\u00e7\u00e3o de nossa civiliza\u00e7\u00e3o; as coisas nunca foram assim. Havia anteriormente uma capacidade de despreocupa\u00e7\u00e3o e divertimento que foi de certo modo inibido pelo culto \u00e0 efici\u00eancia. O homem moderno pensa que tudo deve ser feito pelo bem de alguma outra coisa, e nunca por seu pr\u00f3prio bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E A PARTE FINAL, RESUMO COMPLETO E PUNGENTE DO PENSAMENTO DE RUSSEL:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de que as atividades desej\u00e1veis s\u00e3o aquelas que trazem lucro \u00e9 uma invers\u00e3o da ordem das coisas. O a\u00e7ougueiro que lhe fornece carne e o padeiro que lhe fornece p\u00e3o s\u00e3o dignos de louvor, porque est\u00e3o ganhando dinheiro; mas quando se saboreia a comida que eles forneceram, se \u00e9 fr\u00edvolo, a n\u00e3o ser que se coma somente para ficar forte para o seu trabalho. Falando de maneira geral, diz-se que ganhar dinheiro \u00e9 bom e gastar dinheiro \u00e9 ruim. Vendo que s\u00e3o dois lado de uma transa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9 absurdo; poderia se dizer que chaves s\u00e3o boas, mas fechaduras s\u00e3o ruins. Qualquer m\u00e9rito que haja na produ\u00e7\u00e3o de bens deve ser inteiramente retirado da vantagem a ser obtida consumindo-os. O indiv\u00edduo, em nossa sociedade, trabalha pelo lucro; mas a finalidade social do trabalho se baseia no consumo do que ele produz. \u00c9 este div\u00f3rcio entre o indiv\u00edduo e a finalidade social da produ\u00e7\u00e3o que torna t\u00e3o dif\u00edcil aos homens pensar claramente em um mundo no qual fazer lucro \u00e9 o incentivo da ind\u00fastria. Pensamos demais na produ\u00e7\u00e3o, e de menos no consumo. Um resultado \u00e9 que atribu\u00edmos muito pouca import\u00e2ncia ao divertimento e \u00e0 simples felicidade, e que n\u00e3o julgamos a produ\u00e7\u00e3o pelo prazer que ela proporciona ao consumidor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando sugiro que a jornada de trabalho deveria ser reduzida para quatro horas, n\u00e3o quero dizer que todo o tempo restante deveria necessariamente ser gasto em frivolidade pura. Quero dizer que um dia de trabalho de quatro horas deveriam ser suficientes para as necessidades e confortos elementares da vida, e que o resto de seu tempo deveria ser seu para us\u00e1-lo como achasse conveniente. \u00c9 uma parte essencial em qualquer sistema social que a educa\u00e7\u00e3o deva ser levada al\u00e9m do que normalmente \u00e9 no presente e deveria por objetivo, em parte, prover gosto que iriam tornar um homem apto a usar o lazer inteligentemente. N\u00e3o estou pensando aqui no tipo de coisa que seria considerada &#8220;intelectualizada&#8221;. Dan\u00e7as camponesas desapareceram exceto em remotas \u00e1reas rurais, mas os impulsos que levaram ao seu cultivo ainda devem existir na natureza humana. Os prazeres das popula\u00e7\u00f5es urbanas se tornaram na maior parte passivos: ver filmes no cinema, assistir jogos de futebol, escutar r\u00e1dio, e assim por diante. Isto resulta do fato de que suas energias ativas s\u00e3o totalmente gastas com o trabalho; se tivessem mais lazer, iriam aproveitar novamente os prazeres nos quais tem um papel ativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado havia uma pequena classe ociosa e uma grande classe trabalhadora. A classe ociosa desfrutava de vantagens para as quais n\u00e3o havia base em justi\u00e7a social; isto necessariamente as fez opressivas, limitou sua simpatia, e levou \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de teorias para justificar seus privil\u00e9gios. Isto fez diminuir enormemente a sua excel\u00eancia, mas apesar disto elas contribu\u00edram com quase tudo do que chamamos de civiliza\u00e7\u00e3o. Ela cultivou as artes e descobriu as ci\u00eancias; escreveu os livros, inventou as filosofias, e refinou as rela\u00e7\u00f5es sociais. Mesmo a liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos foi geralmente iniciada de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria emergido da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9todo da classe ociosa sem deveres, entretanto, gerou enormes desperd\u00edcios. Nenhum de seus membros tinha que aprender a ser trabalhador, e a classe como um todo n\u00e3o era excepcionalmente inteligente. A classe podia produzir um Darwin, mas a ele se opunham dezenas de milhares de propriet\u00e1rios rurais que nunca pensavam em nada mais inteligente do que ca\u00e7ar \u00e0 raposa e punir invasores de propriedades. No presente, espera-se que as universidades forne\u00e7am, de forma mais sistem\u00e1tica, o que a classe ociosa fornecia acidentalmente e como um subproduto. Isto \u00e9 um grande avan\u00e7o, mas tem certas desvantagens. A vida universit\u00e1ria \u00e9 t\u00e3o diferente da vida do mundo exterior que os homens que vivem no meio acad\u00eamico tendem a ficar alheios das preocupa\u00e7\u00f5es e problemas de homens e mulheres comuns; al\u00e9m disso, suas formas de se expressar \u00e9 geralmente tal que rouba de suas opini\u00f5es a influ\u00eancia que elas deveriam ter no p\u00fablico em geral. Outra desvantagem \u00e9 que nas universidades os estudos s\u00e3o organizados, e o homem que pensa sobre alguma pesquisa original provavelmente ser\u00e1 desencorajado. As institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, portanto, \u00fateis como s\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o guardi\u00e3s adequadas para os interesses da civiliza\u00e7\u00e3o em um mundo onde todos fora de seus muros est\u00e3o ocupados demais para objetivos n\u00e3o-utilit\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um mundo em que ningu\u00e9m seja compelido a trabalhar mais do que quatro horas por dia, todas as pessoas que possu\u00edssem curiosidade cient\u00edfica seriam capazes de satisfaz\u00ea-la, e todo pintor seria capaz de pintar sem passar por priva\u00e7\u00f5es, qualquer que seja a qualidade de suas pinturas. Jovens escritores n\u00e3o precisar\u00e3o procurar a independ\u00eancia econ\u00f4mica indispens\u00e1vel \u00e0s grandes obras, para as quais, quando a hora finalmente chega, ter\u00e3o perdido o gosto e a capacidade. Homens que, em seu trabalho profissional, tenham se interessado em alguma fase da economia ou governo, ser\u00e3o capazes de desenvolver suas id\u00e9ias sem a dist\u00e2ncia acad\u00eamica que faz o trabalho de economistas universit\u00e1rios freq\u00fcentemente parecer fora da realidade. M\u00e9dicos ter\u00e3o tempo para aprender sobre o progresso da medicina, professores n\u00e3o estar\u00e3o lutando exasperadamente para ensinar por m\u00e9todos rotineiros coisas que aprenderam na juventude, que podem, no intervalo, terem se revelado falsas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acima de tudo, haver\u00e1 felicidade e alegria de viver, ao inv\u00e9s de nervos em frangalhos, fadiga e m\u00e1 digest\u00e3o. O trabalho exigido ser\u00e1 suficiente para tornar o lazer agrad\u00e1vel, mas n\u00e3o suficiente para causar exaust\u00e3o. Uma vez que os homens n\u00e3o ficar\u00e3o cansados em seu tempo livre, eles n\u00e3o exigir\u00e3o somente divers\u00f5es passivas e mon\u00f3tonas. Ao menos um por cento provavelmente devotar\u00e1 o tempo n\u00e3o gasto no trabalho profissional para objetivos de alguma import\u00e2ncia p\u00fablica e, como n\u00e3o depender\u00e3o destes objetivos para viver, sua originalidade n\u00e3o ser\u00e1 tolhida, e n\u00e3o haver\u00e1 necessidade de adaptar-se aos padr\u00f5es estabelecidos pelos velhos mestres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 somente nestes casos excepcionais que as vantagens do lazer aparecer\u00e3o. Homens e mulheres comuns, tendo a oportunidade de uma vida feliz, se tornar\u00e3o mais gentis, menos persecut\u00f3rios e menos inclinados a ver os outros com desconfian\u00e7a. O gosto pela guerra desaparecer\u00e1, parcialmente por esta raz\u00e3o, e parcialmente porque ele envolver\u00e1 trabalho longo e severo para todos. A boa \u00edndole \u00e9, de todas as qualidades, a que o mundo mais precisa, e boa \u00edndole \u00e9 o resultado de seguran\u00e7a e bem-estar, n\u00e3o de uma vida de \u00e1rdua luta. Os m\u00e9todos modernos de produ\u00e7\u00e3o nos deram a possibilidade de bem-estar e seguran\u00e7a para todos; escolhemos, ao inv\u00e9s disso, ter sobretrabalho para alguns e priva\u00e7\u00e3o para outros. Ainda somos t\u00e3o energ\u00e9ticos quanto \u00e9ramos antes do surgimento das m\u00e1quinas; neste aspecto temos sido tolos, mas n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para continuarmos sendo tolos para sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anos atr\u00e1s me deparei com o livro &#8220;Elogio Ao \u00d3cio&#8221;, do pensador brit\u00e2nico Bertrand Russel. 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