﻿{"id":782,"date":"2010-05-14T11:17:39","date_gmt":"2010-05-14T13:17:39","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=782"},"modified":"2010-05-14T11:26:56","modified_gmt":"2010-05-14T13:26:56","slug":"super-noticia-e-os-paradoxos-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=782","title":{"rendered":"Super Not\u00edcia e os paradoxos do jornalismo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-783\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/super.jpg\" alt=\"\" width=\"332\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/super.jpg 332w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/super-207x300.jpg 207w\" sizes=\"(max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Super Not\u00edcia nasceu como o &#8220;filhote popular&#8221; do jornal <a href=\"http:\/\/www.otempo.com.br\" target=\"_blank\">O Tempo<\/a>, de Belo Horizonte, na esteira do que j\u00e1 acontecia em anos anteriores em outros lugares do Brasil. O in\u00edcio dos anos 2000 marcou a avalanche dos tais jornais populares pelo pa\u00eds, a deteriora\u00e7\u00e3o &#8211; em certa medida &#8211; dos jornais mais &#8220;acess\u00edveis&#8221; sempre presentes em grandes centros como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. As capitais que n\u00e3o tinham o seu representante foram recebendo: Not\u00edcia Agora no Esp\u00edrito Santo (cria do<a href=\"http:\/\/gazetaonline.com.br\" target=\"_blank\"> A Gazeta<\/a>) e o pr\u00f3prio Super em BH, que originou o &#8220;contra-ataque&#8221; do Di\u00e1rios Associados, lan\u00e7ando o &#8220;Aqui&#8221; em Belo Horizonte e Bras\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 2002, quando surgiu, at\u00e9 o estouro em 2007, quando se tornou o jornal mais vendido do Brasil, com mais de 300 mil exemplares por dia, o Super soube rapidamente estudar o mercado e chegar at\u00e9 o p\u00fablico. Em toda esquina movimentada de Belo Horizonte foi colocado um vendedor do Super. Literalmente. Nos sinais, mesma coisa. Extremamente vendido nos \u00f4nibus e coletivos em geral. O pre\u00e7o de apenas 0,25 centavos tornava acess\u00edvel a qualquer um e garantia a agilidade no ato de &#8220;receber e entregar&#8221;.\u00a0Bom lembrar que o pre\u00e7o que foi fundamental na sua virada: inicialmente, nos primeiros anos, custava R$ 50. Quando reduziu pela metade \u00e9 que o boom aconteceu. Tanto que, naturalmente, este valor n\u00e3o foi aumentado at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;fen\u00f4meno&#8221;, ent\u00e3o, gerou estudos diversos que se perpetuam: quais as implica\u00e7\u00f5es mercadol\u00f3gicas, sociais, econ\u00f4micas, jornal\u00edsticas, ideol\u00f3gicas, etc, que a prolifera\u00e7\u00e3o destes peri\u00f3dicos representa? Como vejo, h\u00e1 muito menos glamour e mist\u00e9rio nisso tudo, ao contr\u00e1rio do que muitos gostariam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00f3rmula \u00e9 simples e velha, levada \u00e0s \u00faltimas consequencias: chamadas &#8220;impactantes&#8221; de capa, geralmente policiais, sem &#8220;meio-termo&#8221;, futebol, mulheres semi-nuas, televis\u00e3o, promo\u00e7\u00f5es &#8220;junte x selos e ganhe y&#8221; \u00a0e um tantinho de &#8220;servi\u00e7o&#8221;, o &#8220;grita geral&#8221; e coisas do g\u00eanero. Reda\u00e7\u00f5es dedicadas a produzir material exclusivo? Rep\u00f3rteres na rua para cobrir as editorias? Minoria. A maioria desses jornais, quase todos, s\u00e3o meras redu\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias j\u00e1 feitas pelo jornal principal da casa somada a not\u00edcias &#8220;curiosas&#8221; e\/ou &#8220;bizarras&#8221; que n\u00e3o tiveram espa\u00e7o por l\u00e1 e o &#8220;tratamento&#8221; espec\u00edfico dado. Correio Braziliense&gt;Aqui DF. Estado de Minas&gt;Aqui MG. O Tempo&gt;Super Not\u00edcia. A Gazeta&gt; Not\u00edcia Agora. Al\u00e9m da f\u00f3rmula, claro, n\u00e3o ser nossa: mas importada de outros ventos, como as <a href=\"http:\/\/blog.pucp.edu.pe\/item\/25478\/catid\/2320\" target=\"_blank\">dezenas de jornais populares do Peru<\/a>, como lembrou a colega <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/lannamorais\" target=\"_blank\">Lanna Morais<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, os jornais populares foram uma maneira simples que as empresas encontraram de ganhar dinheiro f\u00e1cil, sem esfor\u00e7o. Fazer com que as reda\u00e7\u00f5es trabalhem por 2 jornais (e ainda atualizem os sites). \u00c9 a &#8220;sinergia&#8221;. Todos os profissionais da casa trabalham para todas as publica\u00e7\u00f5es e ve\u00edculos existentes. Quanto menos jornalistas e mais conte\u00fado, mais &#8220;ramifica\u00e7\u00f5es&#8221;, mais sobrecarga e mais dinheiro, melhor. J\u00e1 se disse por a\u00ed que o jornalismo foi uma das poucas profiss\u00f5es em que o advento massivo da tecnologia n\u00e3o fez melhorar o seu trabalho mas, ao contr\u00e1rio, gerou um ac\u00famulo de atribui\u00e7\u00f5es e incremento na carga hor\u00e1ria. Sintoma que os jornais populares representam apenas uma parte da hist\u00f3ria. Assunto para ser desenvolvido melhor em outro texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho at\u00e9 natural que <a href=\"http:\/\/webmanario.wordpress.com\/2010\/05\/05\/uma-visita-ao-jornal-mais-vendido-do-brasil\/\" target=\"_blank\">colegas se empolguem com o Super<\/a>. Muitas vezes, os &#8220;populares&#8221; s\u00e3o vistos como uma esp\u00e9cie de &#8220;resposta&#8221; aos jornal\u00f5es. N\u00e3o s\u00e3o. Por mais contaminados e\/ou comprometidos que cada grande jornal pode estar com quem paga sua estrutura, tendenciosos ou n\u00e3o e de ideologia &#8220;subliminar&#8221;, perto da f\u00f3rmula dos populares os tubar\u00f5es soam como reduto exemplar de intelig\u00eancia. Dada a quantidade de \u00f3timos jornalistas que, enfim, trabalham para eles. Um clich\u00ea cabe bem aqui: &#8220;uma coisa \u00e9 uma coisa e outra coisa \u00e9 outra coisa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das principais virtudes de jornais como o Super seria conquistar leitores que n\u00e3o leriam nenhum jornal, em condi\u00e7\u00f5es &#8220;normais&#8221;. Formar leitores, disseminar a leitura, chegar onde nenhum outro ve\u00edculo impresso chega. Classes D e E, principalmente. N\u00e3o d\u00e1 para negar que isto realmente acontece. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, tamb\u00e9m, esquecer que este trabalho \u00e9 muito mal-feito. Qual o sentido, afinal, em entregar aos seus leitores a deteriora\u00e7\u00e3o de algo e de todos os temas que a TV j\u00e1 trata t\u00e3o bem? A TV que, ao lado do r\u00e1dio, s\u00e3o os \u00fanicos ve\u00edculos realmente populares do Brasil. Quando digo &#8220;trata t\u00e3o bem&#8221; quero sinalizar que melhor que os populares. O que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 grande coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao entregar um pastiche di\u00e1rio de coisas que o p\u00fablico j\u00e1 est\u00e1 saturado de ver e saber, o argumento de &#8220;formar leitores&#8221; e sua &#8220;import\u00e2ncia&#8221; \u00e9 no m\u00ednimo question\u00e1vel. <strong>Aqui entra o preconceito central: a cren\u00e7a de que o povo gosta mesmo daquilo que lhe \u00e9 empurrado. <\/strong>E s\u00f3 disso. O que acho um dos pensamentos hist\u00f3ricos mais nefastos e perigosos que tenho not\u00edcia. O &#8220;interesse&#8221; do p\u00fablico passa necessariamente pelo custo. Por quanto quem mal tem dinheiro para pagar as contas pode desembolsar por informa\u00e7\u00e3o e entretenimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O pov\u00e3o s\u00f3 gosta de tosqueira, apela\u00e7\u00f5es e material de baixa qualidade&#8221;. Imagem, esc\u00e2ndalos, impacto. Ser\u00e1? Me parece que quando a &#8220;alta cultura&#8221; se permite chegar at\u00e9 ele, a coisa muda. Que quando programas que normalmente tem um custo elevad\u00edssimo passam a custar o mesmo que atra\u00e7\u00f5es &#8220;populares&#8221;, a resposta \u00e9 parecida. Ficando em Belo Horizonte: os concertos de m\u00fasica cl\u00e1ssica organizados no Parque Municipal, gratuito, aos domingos, estavam sempre lotados. Cheios da mesma forma que uma atra\u00e7\u00e3o musical &#8220;popular&#8221; geralmente fica. Todo ano, a &#8220;campanha de populariza\u00e7\u00e3o do teatro&#8221;, com ingressos a R$ 10, em m\u00e9dia, atrai milhares e milhares de pessoas. Com o fim da campanha e os ingressos voltando ao pre\u00e7o normal, o teatro fica novamente restrito aos apaixonados e pessoas do meio. Se a programa\u00e7\u00e3o de todas as emissoras abertas fosse levemente modificada, para coisas com um pouco mais de subst\u00e2ncia, o p\u00fablico deixaria de ver TV?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu ponto \u00e9 simples: quando o que \u00e9 bom &#8211; independente de classifica\u00e7\u00f5es ultrapassadas e discuss\u00f5es d\u00e9beis sobre &#8220;alta&#8221; e &#8220;baixa&#8221; cultura, o que \u00e9 v\u00e1lido e o que n\u00e3o \u00e9, que simplesmente n\u00e3o cabem mais num mundo minimamente aceit\u00e1vel &#8211; chega at\u00e9 o p\u00fablico, quando isto chega at\u00e9 o que ele pode pagar, a resposta \u00e9 sempre \u00f3tima. Ser\u00e1 que um jornalismo com um pouco mais de caldo e reflex\u00e3o, vendido a pre\u00e7o popular, n\u00e3o teria sucesso tamb\u00e9m? Jornalismo de verdade custa caro, sim. Nada que impe\u00e7a alternativas comerciais e de conte\u00fado no meio do caminho. Falta interesse das empresas, sobra ran\u00e7o, preconceito de classe e m\u00e1 vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de espantar que as elites &#8211; quem determina, publica, veicula o conte\u00fado jornal\u00edstico e de entretenimento &#8211; trate o &#8220;povo&#8221; com desd\u00e9m e tenha a &#8220;cren\u00e7a&#8221; &#8211; quase uma necessidade &#8211; de que pra ser &#8220;popular&#8221; n\u00e3o \u00e9 preciso grande coisa. Como sabemos, \u00e9 realmente muito perigoso que o povo desenvolva a cr\u00edtica e o pensamento. \u00c9 mais inofensivo e mais confort\u00e1vel manter as coisas como sempre foram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Super Not\u00edcia nasceu como o &#8220;filhote popular&#8221; do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, na esteira do que j\u00e1 acontecia em anos anteriores em outros lugares do Brasil. 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