﻿{"id":876,"date":"2010-09-06T13:57:05","date_gmt":"2010-09-06T15:57:05","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=876"},"modified":"2010-09-06T15:23:50","modified_gmt":"2010-09-06T17:23:50","slug":"dos-autores-tristemente-banalizados-hermann-hesse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=876","title":{"rendered":"Dos autores tristemente banalizados: Hermann Hesse"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-877\" title=\"Hesse numa nice, numa tranquila, numa boa\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/hesse.jpg\" alt=\"Hesse numa nice, numa tranquila, numa boa\" width=\"343\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/hesse.jpg 343w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/hesse-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e1 uma s\u00e9rie. \u00c9 inevit\u00e1vel que quando se torne &#8220;pop&#8221; a obra de algu\u00e9m seja planificada, esquartejada, reproduzida de modo fren\u00e9tico e gratuito, raramente chegando ao cerne da coisa. No caso das letras, \u00e9 quando as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o infinitamente mais lidas e conhecidas do que os livros em si. Mal inevit\u00e1vel e antigo que tomou propor\u00e7\u00e3o imensur\u00e1vel na internet: o reino por excel\u00eancia do faz de conta, da proje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os autores que &#8220;mais gosto&#8221;, h\u00e1 uma categoria especial: os que considero pais. Aqueles que tenho cumplicidade t\u00e3o grande, que mergulhei t\u00e3o profundamente, que falam t\u00e3o diretamente \u00e0 minha alma que n\u00e3o podem ser colocados lado a lado dos demais. Hesse \u00e9 um deles. Um dos principais. Com ele aprendi a ser algu\u00e9m melhor. A pensar e olhar o mundo de outra maneira, literalmente. E se conseguisse aplicar 50% do que Hesse passa, seria algu\u00e9m incomparavelmente melhor do que sou hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fam\u00edlia protestante, Hesse foi estudar as religi\u00f5es orientais (tendo viajado longamente para alguns pa\u00edses), especialmente o budismo. Ligado ao in\u00edcio da psican\u00e1lise na virada do s\u00e9culo XIX\/XX (Jung, principalmente) e tamb\u00e9m pelas marcas da Primeira Guerra Mundial, estes tr\u00eas pontos s\u00e3o fundamentais na sua literatura. Com sua vasta cultura autodidata e a incr\u00edvel lucidez e sensibilidade para o humano &#8211; o que mais me toca nele, inevitavelmente &#8211; Hesse acabou por se tornar esp\u00e9cie de \u00edcone do movimento hippie, como um dos autores mais &#8220;lidos&#8221; e referenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed as tentativas fracassadas de lig\u00e1-lo ao movimento beatnik (um absurdo sem fim) e o in\u00edcio da populariza\u00e7\u00e3o de sua obra. A espiritualidade t\u00e3o forte em Hesse &#8211; uma espiritualidade profunda e livre de ran\u00e7os e manique\u00edsmos &#8211; fala de modo \u00fanico, dada sua incr\u00edvel capacidade de colocar as coisas sob um prisma transparente ao mesmo tempo que rico e multifacetado. \u00a0Seu profundo conhecimento do cristianismo ocidental em colis\u00e3o com as bases das religi\u00f5es orientais geram um caldo irresist\u00edvel. Ler &#8220;Demian&#8221; na adolesc\u00eancia, como foi o meu caso, faz bastante diferen\u00e7a. &#8220;Demian&#8221; \u00e9 uma bela introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra hesseana, recomendado classicamente para adolescentes dado o poder e simplicidade. <a href=\"http:\/\/www.duplipensar.net\/george-orwell\/2004-12-demian-hesse-1984-orwell.html\" target=\"_blank\">Tentei exprimir &#8211; com as falhas inerentes &#8211; a ess\u00eancia de Demian, ligando-o a outras obras de Hesse e George Orwell, escrito e publicado na \u00e9poca que estava descobrindo tudo isso, em 2004, aos 17 anos.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Lobo da Estepe&#8221;, sua obra mais famosa, \u00e9 de pung\u00eancia assustadora. Harry Haller tornou-se um dos maiores outsiders da literatura, por mais que o termo seja clich\u00ea e insuficiente. &#8220;Siddartha&#8221; \u00e9 onde Hesse exp\u00f5e mais diretamente sua rela\u00e7\u00e3o com \u00a0o budismo. &#8220;Narciso e Goldmund&#8221; vai fundo na psican\u00e1lise e hist\u00f3ria, ambientado durante o per\u00edodo da Peste Negra na Europa. J\u00e1 &#8220;O Jogo das Contas de Vidro&#8221;, seu \u00faltimo romance (que lhe deu o Nobel de Literatura em 1946) \u00e9 o \u00e1pice da complexidade e da mente de Hesse. Seu romance final, deliberadamente composto para reunir todas as caracter\u00edsticas de sua obra at\u00e9 ent\u00e3o, levando-o a outro n\u00edvel. Diversos estilos liter\u00e1rios misturados e uma infinidade de conceitos e dilemas, &#8220;<em>Das Glasperlenspiel&#8221; <\/em><span>tem for\u00e7a assustadora. No mais, recomendo tamb\u00e9m a biografia, o &#8220;Para Ler e Guardar&#8221;, compila\u00e7\u00e3o de fragmentos de cartas, pensamentos espor\u00e1dicos e outros coment\u00e1rios de Hesse e seus diversos contos, sempre arrebatadores. Os demais livros at\u00e9 hoje infelizmente ainda n\u00e3o li.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>A banaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 cruel porque reduz toda uma concep\u00e7\u00e3o de mundo, est\u00e9tica e filos\u00f3fica, \u00e0 uma mero fragmento. Rigorosamente, tudo \u00e9 banalizado. A simplifica\u00e7\u00e3o e exposi\u00e7\u00e3o sucinta de conceitos e pensamentos \u00e9 um problema quase inescap\u00e1vel. Esse pr\u00f3prio texto. Uma das bases do jornalismo, ali\u00e1s, como sabemos. Piorado por n\u00e3o se tratar do buraco da rua da esquina que causa problema no tr\u00e2nsito &#8211; pra citar um caso di\u00e1rio &#8211; mas de coisas que demandam tempo, dedica\u00e7\u00e3o, interesse real. Que exigem mais que uma passada de olho r\u00e1pida. Algo quase surreal em tempos t\u00e3o est\u00e9reis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>A opress\u00e3o do universo criado em torno do trabalho para total e irrestrita domina\u00e7\u00e3o da mente j\u00e1 foi discutida aqui <\/span><a href=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=734\" target=\"_blank\">nesse artigo<\/a><span>. Sem falar na rede nefasta da pr\u00f3pria sociedade. \u00a0O problema n\u00e3o \u00e9 o carinho de algu\u00e9m por uma obra que n\u00e3o gosta de v\u00ea-la jogada como qualquer coisa por a\u00ed, a exemplo do que costuma acontecer na m\u00fasica, quando algo se torna popular passa necessariamente a ficar pior para certo grupos de pessoas. \u00a0N\u00e3o se trata de ci\u00fame ou falsa sensa\u00e7\u00e3o de exclusividade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>Como tudo que me \u00e9 caro, n\u00e3o posso negar a tristeza pela banaliza\u00e7\u00e3o irrestrita. Mais que isso, perdemos o essencial. Ficam s\u00f3 os r\u00f3tulos. Para pessoas que costumam receber 800 inser\u00e7\u00f5es de propaganda por dia desde crian\u00e7as &#8211; em estudo que lamentavelmente n\u00e3o possuo o link, feito pelo pessoal do <\/span><a href=\"https:\/\/www.adbusters.org\/\" target=\"_blank\">Adbusters<\/a><span> &#8211; parece natural que nos guiemos por marcas e defini\u00e7\u00f5es baratas. Rejeitando tudo que v\u00e1 al\u00e9m disso. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>A obra de Hesse, como de in\u00fameros outros (por exemplo Nietzsche que virou bottom de estudante universit\u00e1rio), acabam sofrendo desse mal. A capitaliza\u00e7\u00e3o da cultura n\u00e3o \u00e9 coisa nova e tampouco obrigatoriamente nefasta, desde que acompanhada de estudo e interesse real. 1% dos casos. Da\u00ed que, numa provoca\u00e7\u00e3o sob isso tudo, cabe a famosa frase de Hesse, extra\u00edda de &#8220;Lobo da Estepe&#8221;: s\u00f3 para os raros. Mesmo. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00e1 uma s\u00e9rie. \u00c9 inevit\u00e1vel que quando se torne &#8220;pop&#8221; a obra de algu\u00e9m seja planificada, esquartejada, reproduzida de modo fren\u00e9tico e gratuito, raramente chegando ao cerne da coisa. No caso das letras, \u00e9 quando as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o infinitamente mais lidas e conhecidas do que os livros em si. 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