﻿{"id":880,"date":"2010-09-10T19:10:58","date_gmt":"2010-09-10T21:10:58","guid":{"rendered":"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=880"},"modified":"2010-09-11T21:43:11","modified_gmt":"2010-09-11T23:43:11","slug":"o-peso-do-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/?p=880","title":{"rendered":"O peso do ser"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-894\" src=\"http:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/selecao_001.png\" alt=\"\" width=\"372\" height=\"477\" srcset=\"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/selecao_001.png 372w, https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/selecao_001-233x300.png 233w\" sizes=\"(max-width: 372px) 100vw, 372px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada que \u00e9 plano demais me atrai. Nada que n\u00e3o possua seu grau de tortuosidade, complexidade. Que n\u00e3o fira, de alguma maneira. Que arda. A pung\u00eancia \u00e9 necess\u00e1ria. T\u00e3o quanto perigosa. A pimenta, o imponder\u00e1vel, a ousadia. Qualidades t\u00e3o escassas desde sempre. Somos soterrados com o pensar e agir de maneira med\u00edocre, calculada, fria. Em arriscar pouco. Praticar joguinhos odientos. Funcionar pela hipocrisia e covardia. Pelo medo. Pela moral escrota que nos empurram. \u00c9 de cansar qualquer um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse papo todo de &#8220;peso do ser&#8221; lembra automaticamente Milan Kundera e seu largamente conhecido &#8220;A Insustent\u00e1vel Leveza do Ser&#8221;. Que gerou at\u00e9 um <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0096332\/\" target=\"_blank\">filme razo\u00e1vel com Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche<\/a>. Apesar de achar Kundera superestimado, n\u00e3o d\u00e1 pra negar que o livro tem suas qualidades e consegue lidar com algumas quest\u00f5es pulsantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, prefiro outra passagem cl\u00e1ssica, de um autor que tenho mais intimidade e fala mais \u00e0 mim. \u00c9 o momento chave de &#8220;Brave New World&#8221;. \u00c9 a met\u00e1fora perfeita para a ess\u00eancia desse texto. \u00c9 quando &#8220;O Selvagem&#8221; questiona diretamente a redoma do &#8220;mundo novo&#8221; criado. \u00c9 quando a assepsia e a comodidade come\u00e7am a incomodar. Perdem o sentido. Afetam demais o que realmente importa. Diz ele:<\/p>\n<blockquote><p>-[Selvagem] Mas eu gosto dos inconvenientes.<\/p>\n<p>-[Administrador] N\u00f3s, n\u00e3o. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.<\/p>\n<p>-Mas eu n\u00e3o quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo aut\u00eantico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.<\/p>\n<p>-Em suma &#8211; disse Mustapha Mon -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.<\/p>\n<p>-Pois bem, seja &#8211; retrucou o Selvagem em tom de desafio. &#8211; Eu reclamo o direito de ser infeliz.<\/p>\n<p>-Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter s\u00edfilis e c\u00e2ncer, no direito de n\u00e3o ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreens\u00e3o constante do que poder\u00e1 acontecer amanh\u00e3; no direito de contrair a febre tif\u00f3ide; no direito de ser torturado por dores indiz\u00edveis de toda esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Houve um longo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>-Eu os reclamo todos &#8211; disse finalmente o Selvagem.<\/p>\n<p>Mustapha Mond encolheu os ombros.<\/p>\n<p>-\u00c0 vontade &#8211; respondeu.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O peso do ser&#8221; \u00e9 algo muito caro a Huxley, direta ou indiretamente. <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Point_Counter_Point\" target=\"_blank\">&#8220;Contraponto&#8221; <\/a>\u00e9 preciso (ou propositadamente confuso) em analisar brilhantemente as diferentes personalidades e anseios de seus personagens. Mesmo com suas passagens pol\u00edticas, sua inspira\u00e7\u00e3o clara no movimento musical, expressa no t\u00edtulo, \u00e9 a premissa perfeita para Huxley explorar as rela\u00e7\u00f5es e a mente humana. Tudo com sua escrita fina, de beleza e pl\u00e1stica incomum. Para se encantar e degustar. O ritmo das palavras e a rara habilidade para construir di\u00e1logos e interse\u00e7\u00f5es fazem de &#8220;Contraponto&#8221; um dos livros que bateram mais forte em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ser \u00e9 ousar ser&#8221;, define Hesse. E paga-se um pre\u00e7o alt\u00edssimo por isso. N\u00e3o h\u00e1 como assumir o peso da exist\u00eancia &#8211; mesmo que se consiga torn\u00e1-la leve, por vezes, como deve ser &#8211; sem sofrer as duras consequencias disso. N\u00e3o h\u00e1 margem de discuss\u00e3o poss\u00edvel para o aforismo de que &#8220;a ignor\u00e2ncia \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o&#8221;. Nela, \u00e9 t\u00e3o mais f\u00e1cil viver. Quando sua consci\u00eancia quase inexiste e suas exig\u00eancias s\u00e3o baixas, tudo fica mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peco pelo exagero, sempre. \u00c9 da minha natureza. Vou fundo demais. Sou p\u00e9ssimo em esconder o que sinto, o que penso, o que quero. Me d\u00f4o extremamente. Orgulhoso. E espero o m\u00ednimo de volta. Dizem que &#8220;ser razo\u00e1vel&#8221; \u00e9 bom. Em certos casos, sem d\u00favida. Mas prefiro algo al\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada que \u00e9 plano demais me atrai. Nada que n\u00e3o possua seu grau de tortuosidade, complexidade. Que n\u00e3o fira, de alguma maneira. Que arda. A pung\u00eancia \u00e9 necess\u00e1ria. T\u00e3o quanto perigosa. A pimenta, o imponder\u00e1vel, a ousadia. Qualidades t\u00e3o escassas desde sempre. Somos soterrados com o pensar e agir de maneira med\u00edocre, calculada, fria. Em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/880"}],"collection":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=880"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/880\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":897,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/880\/revisions\/897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crimideia.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}