Literatura

Os Negros na América Latina – Henry Louis Gates Jr.

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 Em livro decepcionante, Henry L. G. Jr faz uma viagem pela história negra da região

A história da escravidão na América Latina é marcada por um traço comum: a negação sistemática das raízes negras de todas as formas em virtude da primazia de um suposto orgulho “mestiço”. A celebração da raiz européia e índia, povos mais “evoluídos” e de origem mais “nobre” em detrimento da flagrante, vasta e inegável herança africana não só na pele, mas na cultura, nas artes, na religião, na gastronomia e por aí afora.

É isso que Henry Louis Gates Jr procura mostrar nesse livro. Pesquisador de Harvard e diretor do W. E. B. Du Bois Research Institute no Hutchins Center for African and African American Research, Henry visitou o Brasil, México, Peru, República Dominicana, Haiti e Cuba para investigar a história negra desses países e como cada um lida com essa herança atualmente. Inicialmente dando origem a uma série de tv, as viagens também resultaram nesse livro. E daí talvez resulte no principal problema: a narrativa funciona como um diário de viagem de Henry, que descreve seus encontros com personalidades diversas nos países que visita – de Abdias do Nascimento a MV Bill, no Brasil – e suas impressões sobre o que vê ao seu redor, muitas vezes “fascinado” com o que desconhece.

Assim, o livro perde muito em força e vigor acadêmico, pesquisa sistemática e dialética histórica. Ainda assim, Henry oferece um panorama geral muitíssimo interessante, na teoria e na prática, ao investigar o que teses como a “democracia racial” de Gilberto Freyre, no Brasil e o “orgulho pardo”, de José María Vasconcelos, no México, causaram na população.

Cabe lembrar que, dos 11 milhões de escravos africanos que chegaram ao Novo Mundo entre 1500 e 1866, aproximadamente 5 milhões vieram para o Brasil. Quase metade do total. E fomos o último país a abolir a escravidão. Os Estados Unidos receberam “apenas” 450 mil escravos e o impacto da cultura negra é vasto e evidente. Em suma – e percebe Gates Jr. ao longo da sua viagem – as 134 (cento e trinta e quatro!) categorias de “cor” catalogadas no Brasil para designar os afro-brasileiros (segundo o IBGE) são, não só uma consequencia da extrema mistura racial desse país (intensificada com o branqueamento tardio da população através do incentivo da imigração europeia nos séculos XVIII e XIX), mas também uma tentativa declarada de se eximir da negritude propriamente dita.

Assim, e é um teste que o pesquisador faz nas ruas, ouvimos as mais diversas classificações quando perguntamos que cor determinada pessoa é. “Café com leite”, “queimado de sol”, “burro quando foge”, “morena bem chegada”, “morena cor de canela”, “sapecado” e “branca suja” são alguns exemplos. A história mostra que, quanto mais negro de fato, mais perseguido e mais excluído socialmente.

Justiça feita, Gates Jr. oferece vários insights interessantes: em meados do século XIX, lembra ele, não havia em todo o hemisfério ocidental uma cidade com maior número de escravos que o Rio de Janeiro, cerca de 100 mil. Aqui, com mão de obra farta, sendo o destino mais próximo da África que os demais países da América, a vida era particularmente dura. “Os senhores de escravos podiam sempre substituir africanos mortos por africanos vivos, a custo módico”. O que não acontecia, por exemplo, nos Estados Unidos.

Não é difícil desmistificar a democracia racial de Freyre – teoria segundo o Brasil é tão mestiço que estaria “além do racismo”. Basta viver por aqui. Por mais que seja difícil para nós, classe média-branca-hétero-descendente-de-europeus-profissionais-liberais perceber isso.

Fora do nosso curral – digo, a mania do brasileiro em olhar sempre para o próprio umbigo no continente e esquecer nossa condição de império da América Latina – o livro mostra como é vasto o racismo na região em todas as suas formas. Os quadros de castas no México, personagens como El Negro Mama, no Peru e Memín Pinguín, também no México, o sistemático branqueamento e/ou relativização dos heróis negros que comandaram muitas revoluções e contribuíram de forma decisiva para a história latina. Nós, brasileiros, extremamente preconceituosos em relação aos índios, podemos ver como o orgulho da origem indígena no Peru, no México, na República Dominicana funcionam, por sua vez, para tentar apagar os traços africanos.

Considerados povos “mais evoluídos” que os negros, o orgulho ameríndio sobrepuja fortemente os negros nesses países, encostados em rincões de pobreza e apagados da história da família. É interessante as visitas de Henry Louis Gates Jr. em diferentes regiões dentro de um mesmo país, mostrando a cultura como resistência, as políticas sociais que ainda engatinham, as várias formas de visão de pesquisadores, acadêmicos e personalidades locais, a realidade mutável e diversa.

No fim, fica aquela sensação que conhecemos bem: a história oficial é contada por quem pode contá-la. Por quem tem os meios de fazê-lo. Não pelos vencedores, porque mesmo os vencedores são borrados e menosprezados quando aquilo não interessa para a primazia dos livros. Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, Venezuela, Equador, etc, são muitos os países ausentes nesta obra e que merecem um escrutínio básico.

“Os Negros na América Latina” serve de boa introdução para o nosso profundo desconhecimento da história local e para a visão contaminada que temos das nossas próprias raízes. Ainda estamos engatinhando quando se trata de igualdade, respeito, isonomia, inclusão social – falsos pleonasmos – e estudo razoavelmente aprofundado daquilo que nos constitui e estamos mergulhados. Começar a se inteirar de verdade sobre isso parece o primeiro passo para mudar essa realidade.

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