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Gosto se discute

(Artigo escrito em 20.12.2005 e publicado originalmente no site Duplipensar – www.duplipensar.net)

 

Continuando nossa série de “conceitos simples que trazem confusão”, vamos elucidar a terrível catacrese axiomática de que “gosto não se discute”. Na verdade, variante do seguinte dito popular (desculpem-me a transcrição literal): “opinião é igual bunda, todo mundo tem” ou “criticar qualquer um critica”.

 

Tomada no âmbito rasteiro pelo qual se popularizou, a crítica é encarada como manifestação intelectualmente confortável e de cunho puro e simplesmente destrutivo. Uma heresia gigantesca.

Diante de seu imensurável poder empírico, a crítica é uma elevadíssima arte que exige perscrutação apurada do objeto abordado. Construtivamente inigualável, sempre foi – e continua sendo – requisito básico para a compreensão do mundo em que vivemos. Só ela fornece matéria confiável e adequada para a indispensável interpretação daquilo que nos cerca, configurando-se como resultado de incessantes e profundas absorções reflexivas (em sua manifestação mais séria e rebuscada, pelo menos).

 

É comum que os críticos musicais, literários, cinematográficos, políticos, sociais e das artes em geral sejam sempre tratados como “o inimigo”. Um ser metido e execrável, disposto sempre a espinafrar gratuitamente o objeto avaliado em função de seu ego e suas preferências exóticas. É inegável que tais seres existem aos montes, reforçando a validade do estereótipo (ou talvez o cinema iraniano seja mesmo o melhor do mundo), contudo, estão longe de serem a maioria. Não raro a receptividade do público e da crítica difere entre si, o que é absolutamente natural. Ainda que aprove tal obra, o crítico sempre faz suas ressalvas, considerações, observações e notas, relacionando-se, de fato, com o objeto abordado, não podendo se restringir ao simples e vazio “gostei ou não gostei”, “é bom ou não é”. Ele precisa justificar o porquê de sua avaliação, explicar razoavelmente suas conclusões, denotar respeito através de suas palavras, submetendo-se ao público, que testará seu conhecimento. É de tais imperativos que se deriva grande parte do fastio e da dificuldade de tal ofício.

 

O título deste texto foi a maneira mais eficaz que encontrei para chamar a atenção para a questão. Na verdade, gosto não se discute. O que se discute são técnicas, qualidades, execução, criatividade, legado, inovação, aplicabilidade, ética, enfim. Cada arte, cada coisa que é passível de crítica possui seus próprios fundamentos, história, regras e preceitos, os predicados e as falhas, identificadas logo numa primeira instância. Coisa que o público comum, geralmente, não possui a capacidade de avaliar. Não se trata de corporativismo, ou seja, de um crítico chato querendo justificar a chatice de seus companheiros e a alegada superioridade intelectual de avaliação, que, diga-se, não é inata, mas fruto de aprimoramento e experiência. Também é desnecessário discutir se o crítico é ou não “superior” à média do público, a opção não existe, ele simplesmente tem que ser dotado de maior capacidade – não necessariamente intelectual. Ele tem que ter um diferencial, um acuro técnico, senso apurado de observação, organização e grandiosidade. O verdadeiro crítico tem que ter estes predicados, tem que se configurar como alguém acima do normal, porque esta é uma imposição da função, nada mais. E isto, óbvio, não significa que ele “está sempre certo” ou que “sua palavra é a lei” e qualquer besteira do tipo.

 

Gosto é gosto. Crítica é crítica. Eu posso aprovar tal coisa mesmo sem gostar dela, sem apreciá-la, sem tê-la, pessoalmente, como algo adorável. Aí que entra a imparcialidade. Pude comprovar nos últimos tempos, através de debates, discussões, pesquisas e matérias, que o conceito de imparcialidade anda muito desgastado, desacreditado e até desencorajado, ou seja, em baixa. Profissionais experientes dizem que ela é uma farsa, iniciantes a ridicularizam. Para tais, é impossível dissociar qualquer análise – por maior que seja a boa intenção e o distanciamento do crítico – de sua própria história e gostos pessoais. Entrando na famigerada dualidade razão-emoção, paixão-sobriedade. A parcialidade nos seria inerente. O olhar individual, por excelência, seria duvidoso, errôneo, incompleto, passional.

Verdades obscuras, falsas sínteses.

Será tão difícil separar a vida profissional da vida pessoal, os gostos da opinião crítica?

É aceitável que um jornalista esportivo tenda a olhar com mais carinho para o seu time do coração? Ou que um crítico musical favoreça suas bandas preferidas?

Ainda que defendamos uma posição, uma ideologia sobre determinado assunto – logo, estaríamos assumindo claramente uma das partes – ainda nestes casos é possível sair ileso. Isto não impede que sejamos imparciais, confiáveis e críticos. Pelo contrário, a crítica reina suprema sob tudo.

O que você é enquanto individuo não deve servir de desculpa para a tendenciosidade. Devemos utilizar nossas ideologias e gostos para sermos ainda mais pungentes em nosso ofício, ou mesmo no dia-a-dia. Nossa história deve influir de forma contributiva para este aspecto, pois, afinal de contas, o background cultural, seja ele qual for, é requisito básico para a crítica.

 

Acima das idiossincrasias há uma arte, um estudo, um padrão de avaliação que não provém da pessoa em si, mas do aspecto cronológico em que tal coisa está inserida. Desprezar a história e subestimar a capacidade de reflexão e estabelecimento de grandezas é um erro inadmissível. Não é possível pautar-se apenas pelo que se gosta, assim, o crítico que tece comentários negativos em relação a tudo que ele não aprecia não passa de um mentecapto insignificante. Respeito. Prudência. Pesquisa. Observação. Ser moderado mas intenso, razoável mas pungente, é deveras complicado. Exige várias qualidades que necessitam serem aperfeiçoadas continuamente. Cair na verborragia, e, por conseqüência, no amadorismo, é muito fácil. Oxalá que a imunidade a isto existisse.

 

Gosto se discute. É divertido. Crítica também. A segunda é infinitamente mais séria e dolorosa do que parece.

 

 

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