Ativismo

Peter Sunde: “não existe internet livre”

Captura de tela de 2015-12-18 12:23:18

Peter Sunde é um dos fundadores do Pirate Bay, o agregador de torrents mais famoso dos anos 00, o símbolo da internet livre e do compartilhamento de arquivos. Condenado em 2009 e preso em 2014, a experiência de Sunde diz muito do estado de coisas atual. Destaco dois trechos dessa ótima entrevista para a Vice: 

“Não temos uma internet livre. Estamos perdendo privilégios e direitos o tempo inteiro. Não ganhamos nada em setor algum. A tendência é uma só: uma internet cada vez mais controlada e fechada. Isso tem um impacto enorme na nossa sociedade. Se você tem uma internet mais oprimida, você tem também uma sociedade oprimida. E deveríamos nos focar nisso. Nunca vimos tanta centralização, desigualdade e capitalismo extremos. Porém, de acordo com o marketing feito por gente como Mark Zuckerberg e empresas como o Google, tudo é feito para ajudar a rede aberta e promover democracia, e por aí vai. Ao mesmo tempo, são monopólios capitalistas. É como confiar no vilão pra fazer boas ações. É bizarro.

(…)

Penso que para vencer a guerra, primeiro precisamos entender o que é a luta e pra mim está claro que lidamos com algo ideológico: o capitalismo extremo em voga, o lobby extremo em voga e a centralização do poder. A internet é só uma peça em um quebra-cabeça ainda maior. E o lance com o ativismo é que preciso agir na hora certa para ganhar atenção e tudo mais. Mandamos muito mal nisso. Paramos a ACTA, mas então ela voltou com outro nome. Na época, já tínhamos gasto todos nossos recursos e atenção do público com aquilo. O motivo pelo qual foco no mundo real é porque a internet o emula. Estamos tentando recriar uma sociedade capitalista na internet. Logo, a internet tem servido de combustível para a chama capitalista ao fingir ser algo que te conectará ao mundo todo mas que, no final, tem interesses capitalistas. Observe as maiores empresas do mundo, todas tem base na internet. Veja o que elas vendem: nada. O Facebook não tem produto. O Airbnb, maior rede de hotelaria do mundo, não tem hoteis. Uber, a maior empresa de táxis mundial, não tem nem táxis. A quantidade de funcionários nessas empresas está mais reduzida que nunca e os lucros, por sua vez, maiores. Apple e Google ganham de petroleiras fácil. Minecraft foi vendido por 2,6 bilhões de dólares e o WhatsApp por uns 19 bilhões. São quantias absurdas de dinheiro trocadas por nada. Por isso a internet e o capitalismo se amam tanto.”

Sunde tem um ponto e está corretíssimo na sua avaliação. O recente bloqueio do Whatsapp no Brasil ilustra PERFEITAMENTE isso. Zuckerberg, que é dono do Whatsapp, se apressou em afirmar que “este é um dia triste para o Brasil” e “estamos” – risos – “lutando por uma internet independente”. É no mínimo “curioso” que uma empresa que colabora pesadamente com o governo dos EUA (assim como todas as outras) fornecendo dados dos usuários e que também usa cada letra que você escreve e cada click que você dá para filtrar a timeline, direcionar anúncios, etc, se negue a fornecer dados de um criminoso para a justiça brasileira (o que gerou a estapafúrdia interrupção temporária do Whatsapp).

Claro, nosso Marco Civil (apesar de erroneamente atacado no episódio) é patético. Claro, o que não falta é juiz fazendo “juizices” pra aparecer. Claro, é um absurdo que só acontece porquê ainda somos capitanias hereditárias. Mas serve pra esfregar na sua cara de quem parece viver em uma realidade paralela o óbvio ululante: não existe internet livre nem nunca existiu.

Essa é uma história sem mocinhos. O doc “Citizen Four”, sobre Edward Snowden e o vazamento de informações sobre as práticas da NSA mostra, desenhadinho, que isso nunca foi teoria da conspiração. Há uma estrutura gigantesca construída e mantida com esse único foco: espionar o usuário e manter todas as informações que circulam na internet bem controladas. Eles fazem o que querem e nós trabalhamos gratuitamente gerando conteúdo para eles. É 1984 aperfeiçoado. Quem controla o presente, controla o passado e o futuro.

Ter isso em mente é fundamental para não cairmos em falácias muito bem construídas de quem tenta se vender como o oposto do que realmente é.

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