Listas/Citações

“Há uma cansativa tristeza, um tédio infinito nesse joguinho miúdo de combinação através dos quais se resolve o destino da pátria”

“É um gênero de trabalho (a reportagem política) que só se pode fazer com alguma eficiência quando a gente se dedica a ele continuamente, todos os dias e quase todas as horas. O repórter precisa viver a vida dos políticos, andar no meio deles, embeber-se de suas ideias, seus planos, suas indecisões, birras e veleidades, acostumar-se à sua linguagem e seu ambiente. Embora entre os políticos de, praticamente, todos os partidos, haja pessoas pelas quais eu sinto amizade e admiração, confesso que me senti meio desolado com a experiência. Tive muitas vezes a impressão contristadora de estar trabalhando no vácuo, de estar levando a sério muitas coisas que na verdade não tem a menor importância.

Imagino perfeitamente como deve se sentir um colega qualquer da crônica política – e hoje temos vários e brilhantes – ao reler alguma coisa de três ou quatro meses atrás. Quanto esforço perdido em tirar deduções de tolices, em descobrir intenções em palpites vãos, em dar sentido a movimentos e fórmulas horrivelmente vazios. Ainda que frequentemente contando com homens de inteligência superior, nossa vida política é, em seu jogo diário, de um nível mental espantosamente medíocre. Mental…e moral. Há uma cansativa tristeza, um tédio infinito nesse joguinho miúdo de combinação através dos quais se resolve o destino da pátria. (…) Tenho pensado às vezes na paciência enorme que precisam ter aqueles que, metidos nesse bruaá monótono, lidando com tanta mediocridade ambiciosa e fátua, lutam por uma ideia, preservam uma consciência. Como a coisa vai indo, um grito não bastará mais para paralisar essa pantomina de sonâmbulos e inconscientes. Será preciso um berro forte, uma explosão de todas as consciências oprimidas e exaustas para despertar o Brasil.”

(Rubem Braga, Diário de Notícias, 24 de julho de 1949 in “Bilhete a um Candidato & outras crônicas sobre política brasileira”, páginas 37 e 38, editora Autêntica).

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Ativismo

O brasileiro cordial

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– No Brasil cordial, uma pessoa é assassinada a cada nove minutos. Foram 279 mil assassinatos de 2011 a 2015 (mais que na guerra da Síria, que matou 258 mil pessoas).
– Destes, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos.
– A cordial polícia brasileira mata em média 9 pessoas por dia, a mais violenta do mundo.
– O trânsito brasileiro, conhecido por sua cordialidade, matou 44 mil pessoas em 2014.
– Outras 600 mil pessoas ficaram com sequelas permanentes em função do excesso de cordialidade no trânsito brasileiro no mesmo ano.
– Para 65% dos brasileiros cordiais entrevistados, mulheres que ficam com parceiros abusivos é porque gostam de apanhar.
– Para outros 26% dos fofuxos, mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas.
– A cordialidade com a mulher: entre 1980 e 2013, num ritmo crescente ao longo do tempo, tanto em número quanto em taxas, morreu um total de 106.093 mulheres, vítimas de homicídio. Efetivamente, o número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980, para 4.762 em 2013, um aumento de 252%. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passa para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.
– Não por acaso, o Brasil tem hoje 1 denúncia de violência contra a mulher a cada 7 minutos.
– O brasileiro cordial é o campeão mundial em linchamentos públicos.
– Mais da metade dos brasileiros cordiais apoiam a tortura como método eficaz para conseguir informações.
– Para 57% dos brasileirinhos cordiais entrevistados, “bandido bom é bandido morto”.
– O brasileiro cordial também é campeão mundial em assassinatos de homossexuais.
– O brasileiro cordial também registra 5 casos de violência contra crianças a cada hora.
– Não satisfeito, o Brasil cordial também figura sempre entre os 5 países que mais matam jornalistas no mundo.

Em suma, como essa rápida pesquisa que eu fiz mostra (dados e reportagens aqui), somos um dos países mais assassinos, violentos, racistas, misóginos, homofóbicos, perversos, cretinos e “intolerantes” do mundo. Lembre-se disso, todos os dias. Nas ruas, na internet, em casa, no bar, na padaria. Some com a nossa desigualdade, entre as 10 piores nações do planeta, ligue outros pontos soltos por aí evidentes para quem não usa viseira e entenda porque o mito do “brasileiro cordial”, antes de parecer um povo “bondoso”, “simpático” ou “afável”, vem de de alguém que trabalha com o coração, com o instinto, com as vísceras: algo bem exemplificado pelo demonstrado acima.

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Literatura

Bernardo Kucinski: a ditadura e os limites borrados entre ficção e realidade

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“Caro leitor: tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”

Este é o aviso que Bernardo Kucinski coloca no início de “K. – Relato de Uma Busca” e que define, em grande parte, a tônica deste livro, mergulhado em experiências pessoais do autor, seja em “Você Vai Voltar Pra Mim e Outros Contos”, todos ambientados no período da ditadura militar brasileira. “K” é um romance “ficcional” de quem perdeu a irmã e o cunhado sequestrados e mortos pelos militares, escrito quase 4 décadas após o acontecido. Maria Rita Kehl, no prefácio, pergunta com propriedade: “quanto tempo é necessário para lidarmos com um trauma?”. Não existem respostas prontas ou fáceis. Kucinski, jornalista com vasta experiência nas mais diferentes funções possíveis, começou a escrever ficção já na casa dos 70 anos. Distanciamento de vida e sabedoria que transparecem tanto em “K” quanto em “Você vai Voltar Pra Mim”. Por mais próximo que esteja dos acontecimentos – a busca incessante do pai pelo corpo da filha, pelo descobrimento sobre quem era aquela pessoa tão íntima e tão insondável ao próprio pai, nos meandros das táticas de intimidação e sabotagem dos militares, da cultura judaica em que está mergulhado, no choque de tradição e necessidade, entre história e amor, enfim – Kucinski constrói uma narrativa brilhante, mesclando as reminiscências de Ana Rosa K e Wilson com a busca do pai e da família.

Trecho de “K”

Impossível não lembrar que, no Brasil, cada vez mais costumamos tratar a ditadura como uma “nódoa menor” na história, uma mancha inconveniente e pálida, um esqueleto no armário que não queremos mexer, um perigoso “não há de ser nada”, especialmente pelas gerações mais novas, uma condescendência covarde. Aqui, cultivamos o respeito pelo horror que ainda tem influência nos alçapões do poder. Mesmo iniciativas relativamente tímidas como a Comissão da Verdade são diminuídas ou escamoteadas. Covardia, por exemplo, comparar com o tratamento que a ditadura teve na Argentina, no âmbito criminal, judiciário e nas artes do país. Não são poucos os livros e filmes que abordagem magistralmente e até hoje as feridas profundas que a ditadura deixou. Como acontece em Portugal, no Chile, na Itália, na Espanha e por aí afora, cada um com as suas particularidades, mas nunca optando pelo caminho fácil do silêncio.

A literatura de Kucinski, no entanto, está longe de ser panfletária. E cresce em importância por ser magistralmente bem escrita. Não alivia para nenhum lado, não é maniqueísta, piegas ou enviesada. Mas sim um testamento ficcional brilhante de quem tem propriedade para relatar seja a dor, o incômodo, as contradições, os abusos, a ausência, a culpa, os confrontos internos e externos e as relações entre Brasil, Alemanha, Polônia, Estados Unidos e Israel, que permeiam a própria história da família, da tradição judaica e dos acontecimentos relatados no livro.

Mais que um autor necessário – e ele o é – o que Kucinski produz é ótima literatura: uma junção cada vez mais rara. Seu novo livro (que ainda não li), “Os Visitantes”, uma “continuação” de “K”, foi lançado em meados de 2016.

Recomendado:

Sobre como cuidar do nosso passado

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Jornalismo

Reuters Digital News Report 2016 – Insights

Todo ano, a Reuters proporciona a melhor análise sobre mídias digitais e jornalismo no mundo, analisando caso a caso a situação de vários países, realizando comparações entre os analisados e proporcionando algumas avaliações utilíssimas para todos que atuam na área. Você pode acessar o relatório completo em PDF e também ir direto para a página específica do Brasil no site. 

Alguns insights:

  • 70% dos usuários no país utilizam o Facebook como fonte de notícias e 39% o Whatsapp.
  • No geral, mídias sociais experimentam um rápido crescimento de 2013 pra cá, saindo do patamar de 50% para mais de 70%.
  • No online em geral, o índice chega a 91% de uso para notícias.
  • A confiança na mídia e nos jornalistas permanece alta, com quase 60%, terceiro lugar no mundo.
  • 22% afirmam pagar para ter acesso a conteúdo jornalístico online (o terceiro maior índice do mundo). A média (de 11 dólares ao ano) é uma das menores no planeta.
  • 21% usam extensões de bloqueadores de anúncios.
  • A Globo News lidera tanto no combo TV, rádio e impresso quanto no online, com mais de 50% de alcance.
  • G1 e UOL, os dos maiores na web, alcançam em torno de 30 milhões de usuários únicos por mês.
  • Mídias sociais são a fonte de notícia primária para 52% dos brasileiros, índice maior que a média mundial.
  • Na comparação entre 26 países, os brasileiros tem um dos menores interesses em notícias de política, economia, saúde, educação e internacional, perdendo somente para Japão e Coréia do Sul.
  • No entanto, os brasileiros são os que mais comentam e compartilham notícias no mundo, empatados com os turcos, com cerca de 90% de engajamento.

O relatório completo também oferece ótimos dados sobre o mercado de notícias, mídias digitais e participação de usuários no mundo, vale uma análise cuidadosa para quem é do ramo.

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Ativismo

“Seja lá o que você faça, não largue o seu emprego para perseguir a sua paixão”

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(Tradução livre do artigo de Janelle Quibuyen em Quartz, porque é preciso)

Dois anos atrás, eu larguei meu emprego em tempo integral – salário + benefícios – para seguir como uma designer gráfica freelancer e independente. (Talvez este seja o maior clichê que lemos online atualmente).

Desde então, as reações que recebi são sempre iguais. As pessoas ficam fascinadas pelo fato de eu ter tomado esse grande e poderoso passo para mudar minha vida. Recebo mensagens como “Uau, você é tão corajosa” e “É tão incrível que você esteja perseguindo a sua paixão” ou “eu desejo tanto poder ser o meu próprio chefe”.

No início, eu não sabia o que pensar. Havia muitas coisas pessoais acontecendo na época que me impactaram o suficiente para que eu largasse meu emprego em tempo integral. Mas após receber as mesmas reações dezenas de vezes e cansar de ler textos por aí como “eu larguei meu emprego e comecei meu próprio negócio!”, as típicas histórias de sucesso da noite pro dia que pipocam online em todo canto – comecei a aceitar a ideia. Acreditar por conta própria. Tornou-se parte da minha narrativa.

Claro, é fácil se identificar com várias coisas que os jovens empreendedores estão dizendo. Mas eu ralo pesado para trabalhar o suficiente em um mês para conseguir pagar as contas. Eu lido com o medo, a ansiedade e a instabilidade todos os dias. Tento evitar a adivinhação, analisando por quanto tempo eu vou conseguir me sustentar dessa maneira pensando realisticamente. Mas ao mesmo tempo eu sou paga para fazer algo que amo (o que supostamente deveria ser o suficiente para anular todo o resto).

Não vou mentir, tem sido divertido e enriquecedor. Eu estava orgulhosa em seguir a minha paixão, congratulando a mim mesma por fazer funcionar. Mas então outra parte de mim não poderia discordar mais desse sentimento. Ser o seu próprio chefe é difícil pra caralho. Você não tem ninguém para culpar quando as coisas dão errado. E não é sempre o que você espera que aconteça. Mas o que me incomoda mais é como nós louvamos a narrativa de que a classe empreendedora é sempre heroica e corajosa.

Eu não sou mais corajosa do que o imigrante que colhe as suas framboesas para enviar uma grana para a família em sua terra natal. Eu não sou mais heroica que o jovem recém formado que trabalha em condições insalubres nove horas por dia para pagar a dívida monstruosa que ele contraiu na faculdade. Eu não sou mais exemplar do que a mãe proletária que acumula três empregos diferentes para alimentar seus filhos.

Hoje em dia nós somos bombardeados com mensagens de que a vida pode ser tão significativa se fizermos aquilo que amamos (o que é subjetivo de todo modo). Largar empregos para viajar o mundo. Abandonar tudo para ser seu próprio chefe. Deixar a rotina para construir algo do nada. Nos oferecem cursos online, webinars, livros e podcasts com conselhos de profissionais. Vemos o marketing de aplicativos que prometem tornar o desafio de abrir o próprio negócio algo acessível. Dizem que o sacrífico será grande, mas tudo compensará no final – “Você só precisa largar o seu emprego, dar o seu máximo, comprar o meu ebook com conselhos por 20 dólares e ter a paixão para perseverar”.

Nós louvamos as pessoas que são “corajosas” o suficiente para largar o seu emprego das 9 às 17h e mergulhar profundamente no desconhecido. Nós idealizamos e romantizamos a ideia de ser o próprio chefe e ficar responsável pela própria rotina. Em assumir o risco e colher os benefícios. Ainda que ninguém fale sobre a real capacidade de manter a autossuficiência dessa fórmula enquanto os resultados não vem.

Largar o seu emprego para seguir a sua paixão é uma bobagem tremenda. É o tipo de narrativa que apenas beneficia pessoas privilegiadas e pode ser muito (muito) perigosa para o trabalhador comum de classe média.

O discurso em si já fede a privilégio. Primeiro confirma que você tem um emprego em tempo integral – para começar. Confirma que você tem tempo suficiente para desenvolver uma paixão que poderá capitalizar para atender o seu custo de vida. E confirma que você tem a opção de tentar algo diferente apenas porque tem vontade.

Há muitos desafios em trabalhar por conta própria do que apenas perseverança e confiança no seu potencial. Nós estamos atraindo o proletariado de forma predatória para o estilo de vida do empreendedor como se esta fosse a resposta para uma vida mais plena e capaz de gerar pilhas de dinheiro. É o novo sonho americano.

Pela minha própria experiência, eu pessoalmente não larguei o meu emprego em tempo integral de salários mais benefícios por ser corajosa e seguir minha paixão. Eu não o fiz espontaneamente ou por “um grande passo de fé”. Eu larguei porque estava confrontada por novas e desafiadoras responsabilidades na minha vida pessoal que exigiam mais de mim mental e emocionalmente do que eu fui capaz de prever. Eu larguei porque estava depressiva. Larguei porque não aguentava a rotina, às vezes doze horas por dia, fingindo que nada estava acontecendo. Larguei porque eu tinha freelancers o suficiente para me sustentar, não porque eu tinha freelancers em tempo integral. Larguei porque analisei bem minhas opções por 7 meses antes de tomar uma decisão definitiva.

Eu sou privilegiada porque não tenho empréstimos da minha faculdade para pagar. (Suponho que largar o ensino médio finalmente foi recompensador, hahaha). Sou privilegiada porque consegui pagar boa parte da minha dívida com o cartão de crédito enquanto eu estava empregada em tempo integral. Sou privilegiada porque tenho alguém que tem um trabalho fixo. Alguém com quem eu posso morar. Eu larguei meu emprego porque estava lidando com uma emergência familiar que me ocuparia por um longo tempo. Eu larguei meu emprego porque eu tinha o privilégio de poder fazê-lo.

No entanto, eu não quero espalhar a falsa narrativa de que larguei meu emprego porque eu sou corajosa o suficiente para perseguir minha paixão. Não quero ninguém que trabalhe de 09 às 17h se sinta um idiota por permanecer em um emprego estável, ou se sinta culpado por verdadeiramente gostar disso. Eu quero que as pessoas saibam que praticamente todas as histórias empreendedoras de sucesso da noite para o dia que aparecem ignoram a parte do privilégio reservado a elas em primeiro lugar. Nem todo mundo pode, ou deve, largar seu emprego na esperança de encontrar a felicidade ou algo que as complete. Paixão pode ser um incentivo, mas às vezes não é suficiente para pagar as contas e ninguém deve se sentir um lixo por não estar apto em atender esse modelo de sucesso que foi criado. O conceito simplesmente não é realístico.

Não estou dizendo que trabalhadores não podem ser empreendedores de sucesso. Estou apenas dizendo que se você não leu nada que mencione o privilégio desses “inspiradores, corajosos e bravos empreendedores que largaram tudo para seguir a sua paixão”, então aqui está. 

Recomendado: Bertrand Russel: o ócio e a falácia do trabalho, publicado neste blog em 2010

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Ativismo

33 homens

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33 homens doparam, estupraram de todas as formas possíveis e mantiveram em cárcere privado uma menina de 16 anos. Não satisfeitos, precisaram exibir o horror nas redes sociais. 33.

O choque que a notícia causa – porque precisa ser chocante, diante da magnitude de absurdos em que estamos imersos, bombardeados a cada segundo de informações, imagens e coisas por todos os lados – dá lugar a uma infinidade de significados.

Ver a mídia e várias figuras relativizarem o ocorrido não surpreende. O estupro sempre foi a barbárie socialmente aceita. A barbárie institucionalizada. E a barbárie que fingimos não ver porque fala muito mais sobre nós do que gostamos de admitir.

E aí precisamos falar da participação da mídia nos episódios diários de violência e abuso. Precisamos falar sobre a espetacularização da barbárie e da vaidade doentia na sociedade e nas redes sociais. Os criminosos só postaram (vejam o acúmulo de absurdos contidos no fato) porque estavam certos da impunidade, porque agiam com normalidade diante do que fizeram e porque precisavam contar e se exibir. Exibir o troféu que a sua dominação criminosa, física e psicológica propiciou. Exibir para ganhar o aplauso de outros javalis.

Precisamos falar sobre a cultura de competição onipresente que o capitalismo provoca. Sobre a necessidade de se autoafirmar pela força, em ser “aprovado” pelos demais. Da busca incessante em ser o mais forte, o melhor, o maioral, não importa quais as circunstâncias para isso. Os clubes masculinos, em todas as suas instâncias, foram criados e estão aí para isso, desde que o mundo é mundo.

Precisamos falar sobre o aumento exponencial da pornografia hardcore, em que mulheres são submetidas às mais diversas formas de humilhação e violência física para delírio dos homens ao alcance de um clique. E do impacto que isso tem na nossa vida sexual.

Precisamos falar sobre a anuência do papai, dos tios e todas as figuras masculinas adultas quando o menino submete a empregada à sua iniciação sexual, uma forma de estupro enraizada na cultura brasileira.

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Precisamos falar sobre os modelos que são exaltados, as figuras que dominam a política, os holofotes, as igrejas, as ruas, a internet, o abismo que está regurgitando na nossa cara o lixo que atiramos para dentro dele, fugindo da nossa responsabilidade. Como se diz, se homem engravidasse, o aborto seria feito no caixa eletrônico.

A cultura do estupro é milenar. A sua exaltação também. Episódios como esse servem para nos lembrar do quão atrasados estamos. Do quão é necessário um debate franco e permanente para mudar essa cultura de uma vez por todas, para evitar que dezenas de milhares de mulheres sejam violentadas, estupradas, agredidas, humilhadas e mortas todos os anos. No Brasil e no mundo.

Sobre o significado de cada ato de covardia e barbárie que nós, homens, praticamos no dia a dia. Eu não quero viver na canalhocracia.

Nós, todos nós, somos os mortos.

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> No Brasil, 1 pessoa é estuprada a cada 11 minutos. Foram 47,6 mil estupros registrados em 2014.

> Entre 2010-2014, um quarto de todas as gestações no mundo acabou em aborto. O percentual caiu nos países desenvolvidos, de 39% em 1990-1994 para 28% em 2010-2014. Por outro lado, mudou pouco nos países em desenvolvimento, de 21% para 24% no mesmo período. Contudo, a proporção de gravidez encerrada em aborto aumentou na América Latina e no Caribe (de 23% para 32%), Ásia Central e Meridional (de 17% para 25%) e África Austral (de 17% para 24%).

Criminalização do aborto é fator que mantém Brasil longe dos Objetivos do Milênio da ONU.

> A cada dois dias, uma brasileira (pobre) morre por aborto inseguro, um problema de saúde pública ligado à criminalização da interrupção da gravidez e à violação dos direitos da mulher. Estima-se em até 1 milhão de casos de aborto por ano no Brasil.

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Política & Economia

Requiem para o sonho americano: Noam Chomsky e os princípios da concentração de riqueza e poder

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Noam Chomsky é, sem dúvida, um dos intelectuais mais influentes e prolíficos dos últimos 100 anos. Figura central em diversas áreas do conhecimento que, não bastasse todo seu trabalho, tem um dom raro: o de conseguir ser extremamente didático, lúcido e sensato para diferentes tipos de público sem ser simplista.

E este dom fica evidente neste espetacular documentário “Requiem For The American Dream”, de 2016, disponível no Netflix. Em meros 70 minutos, Chomsky dá uma verdadeira aula sobre a economia, política e a sociedade do nosso tempo, baseado em 10 princípios da concentração de riqueza e poder, algo profundamente interligado e que explica todas as crises passadas, como pavimentamos o caminho para chegarmos até aqui e as crises e possibilidades que virão. Afinal, as crises não são somente parte intrínseca do capitalismo, como também representam o sinal mais inequívoco de que o sistema está sadio e funcionando, como disse Marx e Berman.

Através de uma série de entrevistas, realizadas durante 4 anos, Chosmky explica cada um destes princípios:

1. Reduzir a democracia: como uma das maiores preocupações dos “pais fundadores” da sociedade americana, expresso na Constituição e na criação do Senado, a exemplo de James Madinson, era proteger os ricos do “excesso” de democracia, criando mecanismos para que ela “não fugisse do controle”.

2. Moldar a ideologia: o documento “A Crise da Democracia” da Comissão Trilateral, citado por Chomsky, é exemplar nisso.

3. Redesenhar a economia: como o aumento exponencial da participação das instituições financeiras na economia, em detrimento da produção, somada com a desregulação do mercado a partir dos anos 70, potencializada nas décadas posteriores e a elevação do conceito de “insegurança do trabalhador” – celebrado por Alan Greenspan – servem de base para a situação atual.

4. Dividir o fardo: de que maneira o estado de bem estar social dos anos 50 e 60 e a melhora das condições de vida da população foi corroído ao longo do tempo, significando menos impostos para os ricos, que habilmente conseguiram fazer com que a maioria do povo arcasse com os custos básicos da sociedade, enquanto a desigualdade atinge picos históricos hoje em dia.

5. Atacar a noção de solidariedade: obedecendo a máxima de “tudo para mim, nada para os outros” de Adam Smith, como a educação pública e a previdência social foram atacadas e diminuídas, ainda que largamente usada pelas classes A e B no passado e base de sustentação do desenvolvimento da sociedade americana. Partindo desses exemplos, Chomsky mostra como o capitalismo atua para minar nossa capacidade de sentir empatia e solidariedade com o outro, conquistando nossas mentes e nos fazendo refém do egoísmo mais tóxico e abjeto possível.

6. Deixar reguladores atuarem em causa própria: o crescimento absurdo do lobby e como as pessoas escolhidas para definir a legislação são as mesmas que usufruem dela em praticamente todas as áreas da economia e da sociedade.

7. Financiar as eleições: grandes corporações financiando as campanhas presidenciais caríssimas que geram governantes que ficam na mão delas, em um círculo vicioso absurdo. Soa familiar, não?

8. Manter o povo na linha: o ataque ao sindicalismo e todas as organizações de trabalhadores. De que  forma eles eram parte essencial da resistência à exploração e ao abuso e, com o tempo, foram minados, seja diretamente pelo governo, seja pelas próprias organizações, que trataram de demonizar profundamente a atuação sindical, chegando a somente 7% de trabalhadores privados sindicalizados hoje.

9. Criar e propagar o consumismo: de que forma a propaganda, de maneira bem engenhosa e eficaz, tratou de criar gerações de consumidores com pouco ou nenhum senso crítico, um roteiro que todos conhecemos bem.

10. Marginalizar a população: “marginalizar” no sentido de excluir o povo das discussões principais, da participação democrática, minando o controle social e gerando cidadãos apolíticos que se engalfinham num ódio à política e ao governo absolutamente cego que, claro, compromete os maiores interessados na melhoria da sociedade: o próprio povo.

Nada disso é novidade, mas a capacidade de Chosmky em mostrar de maneira concisa e didática o seu impacto, somado ao arquivo histórico dos realizadores, faz com que esse documentário seja um excelente resumo de tudo aquilo que é central para o mundo em que vivemos.

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