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Reuters Digital News Report 2016 – Insights

Todo ano, a Reuters proporciona a melhor análise sobre mídias digitais e jornalismo no mundo, analisando caso a caso a situação de vários países, realizando comparações entre os analisados e proporcionando algumas avaliações utilíssimas para todos que atuam na área. Você pode acessar o relatório completo em PDF e também ir direto para a página específica do Brasil no site. 

Alguns insights:

  • 70% dos usuários no país utilizam o Facebook como fonte de notícias e 39% o Whatsapp.
  • No geral, mídias sociais experimentam um rápido crescimento de 2013 pra cá, saindo do patamar de 50% para mais de 70%.
  • No online em geral, o índice chega a 91% de uso para notícias.
  • A confiança na mídia e nos jornalistas permanece alta, com quase 60%, terceiro lugar no mundo.
  • 22% afirmam pagar para ter acesso a conteúdo jornalístico online (o terceiro maior índice do mundo). A média (de 11 dólares ao ano) é uma das menores no planeta.
  • 21% usam extensões de bloqueadores de anúncios.
  • A Globo News lidera tanto no combo TV, rádio e impresso quanto no online, com mais de 50% de alcance.
  • G1 e UOL, os dos maiores na web, alcançam em torno de 30 milhões de usuários únicos por mês.
  • Mídias sociais são a fonte de notícia primária para 52% dos brasileiros, índice maior que a média mundial.
  • Na comparação entre 26 países, os brasileiros tem um dos menores interesses em notícias de política, economia, saúde, educação e internacional, perdendo somente para Japão e Coréia do Sul.
  • No entanto, os brasileiros são os que mais comentam e compartilham notícias no mundo, empatados com os turcos, com cerca de 90% de engajamento.

O relatório completo também oferece ótimos dados sobre o mercado de notícias, mídias digitais e participação de usuários no mundo, vale uma análise cuidadosa para quem é do ramo.

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Ministério da Verdade

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O crime ambiental da Vale cometido em Mariana e em toda a extensão do Rio Doce, até o Espírito Santo, gerou um site próprio para discutir todas as questões relativas ao acontecimento e do cenário da mineração no Brasil e no mundo. Lançado na última quinta-feira (12/11), o site busca analisar de maneira independente e apartidária a situação, além de repercutir temas relevantes ao episódio. Há muito acontecendo por lá e no facebook. O site, digamos, é um “spin-off” desse blog, lançado em 2007 e naturalmente também com o seu conceito inspirado em George Orwell, assim como tudo relativo aos domínios Crimideia.

Acesse o site e leia as matérias

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Assessoria de imprensa: o que mudou em 10 anos?

Alunas de jornalismo do Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte, me procuraram para falar um pouquinho sobre os desafios e as mudanças da área nos últimos 10 anos, tempo em que atuei desde o ramo musical/produção/instituições (BDMG Cultural, Oficina G3, AES Brasil, etc) até economia (Banco Central do Brasil, CGDC, Tesouro Nacional), passando pela educação (CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e saúde (Ministério da Saúde), entre outros.

Agradecimentos à Nathália Guimarães e Rafaela Bragança, que fizeram a entrevista e o vídeo abaixo. Publicado originalmente em No Plural.

1- Você trabalha na área de assessoria há 10 anos. Ao longo desse tempo, quais as mudanças ocorridas na área você pode destacar?

Especialmente, se tivesse que destacar uma única mudança importante, seria: o surgimento de agências de nicho. Seja em mídias digitais, seja em assessoria política, de entretenimento, esportiva e por aí afora. Elas já existiam antes, mas se multiplicaram.
A popularização da internet, claro, colocou novos agentes no jogo.

2- Dentre essas mudanças, quais você poderia classificar como positivas na profissão? E negativas?

Apesar de ainda contar com muitos amadores que fazem um trabalho de nível flagrantemente baixo, dá pra dizer que as assessorias cresceram e se profissionalizaram. Assessoria e comunicação corporativa é uma das principais áreas da comunicação no Brasil hoje. A vinda de muitos profissionais experientes das redações e de outras funções melhoraram a gestão de equipe, a definição de estratégias e as interseções com as diversas atividades possíveis de uma assessoria: comunicação interna, clipping, redes sociais, mídias digitais, publicidade, rádio, media training, gestão de crise, consultoria, apuração e briefings, relacionamento com jornalistas, criação e divulgação de pautas e releases, análise de mídia, etc.
Muitas vezes, uma “assessoria” será responsável por tudo isso e/ou participará da definição dessas estratégias e influenciará na atuação de cada uma dessas frentes.

3- Você já assessorou desde uma banda gospel muito conhecida no país até um banco renomado. Quais as adaptações você teve de fazer ao longo de sua carreira, para assessorar diferentes tipos de empresas?

Se o jornalista é conhecido como “o especialista em generalidades”, ou seja, fala um pouco sobre tudo e sobre nada com profundidade (um clichê que, goste-se ou não, aplica-se à profissão), a armadilha é dúbia: especializar-se em uma área ou ser um bom jornalista em vários assuntos.
Por mais paradoxal que seja, creio que o melhor caminho é um meio termo. No meu caso, migrei de uma ligação mais forte com a produção cultural (seja em eventos, bandas, instituições, etc) para a economia e política, inicialmente escrevendo matérias sobre temas diversos e posteriormente assessoria. Mas também assessorei grandes instituições nas áreas de educação e saúde.
Então creio que o principal desafio é saber se adaptar aos diferentes desafios e oportunidades, absorvendo as peculiaridades de cada área.

4- Quando a internet se tornou um dos meios de comunicação e informação mais utilizados do país, isso refletiu na maneira de assessorar? Facilitou ou dificultou os métodos da assessoria de imprensa?

Facilitou por tornar mais fácil o envio de pautas, o acesso ao mailing list, o contato por profissionais da área, os debates e tudo mais. Ao mesmo tempo, com a saturação, com assessorias achando que basta enviar sugestão de pauta via email para centenas e milhares de contatos, virando spam, cresce a importância de um trabalho personalizado e focado, de uma assessoria capaz de realmente criar relacionamento e saber explorar as potencialidades do cliente, sabendo também a hora de dizer não.

5- Atualmente, estamos no ápice de uma crise narrativa no jornalismo, ocasionando a falta de empregos em redações. Os jornalistas estão recorrendo à assessoria como profissão? Isso pode fazer com que a área torne-se mais concorrida?

Sem dúvida. A assessoria, já há algum tempo, não só é a área que tem mais vagas como é a que paga melhor. Com isso, muitos profissionais mais experientes tem migrado das redações, seja pela onda infinita de demissões e diminuição de salários, para liderar, chefiar ou serem consultores de assessorias em áreas específicas. Além disso, para quem tá começando, a assessoria de imprensa talvez seja a área mais interessante. Ficar mais concorrida é uma consequência natural.
No entanto, ressalte-se a importância de também atuar como jornalista, produzindo conteúdo (seja para impresso, online, rádio, etc), facilitando não só a transição como o relacionamento do outro lado do balcão.

6- Você acredita que o mercado da assessoria está crescendo ou retrocedendo? Há mais procura de empresas públicas ou privadas?

Estável. Há grande equilíbrio entre setor público e privado. Com a crise, que não poupa ninguém, as assessorias tem encolhido ou reduzido salários. É um péssimo momento para o governo federal, que impacta também no repasse de recursos para estados e municípios. Com arrecadação menor em todas as frentes, a comunicação sempre sofre. Mais que outras áreas, já que costuma ser uma das primeiras a serem cortadas.
No entanto, as empresas há muito já reconheceram a importância de contar uma assessoria presente e eficiente. E sempre tem espaço no mercado para quem consegue se diferenciar.

7- O que você diria que são características necessárias para o jornalista que queira atuar nessa área?

Muito jogo de cintura, rs. Saber produzir conteúdo relevante e também saber dizer não para o cliente que, muitas vezes, insiste numa divulgação inadequada, de um produto ou informação pouco atraente para os veículos. Assessoria não pode se pautar pela quantidade (conseguindo espaços mínimos em veículos irrelevantes para encher clipping), mas na real efetividade e no real interesse que a divulgação X ou Y pode ter na empresa.
Além disso, preparar o cliente para as diversas situações em que ele pode estar envolvido. Um bom media training é fundamental. Assim como gestão de crise, cada vez mais necessário no governo ou em grandes organizações.
No caso de empresas de menor porte, saber desenvolver uma estratégia adequada para as pretensões do cliente, administrando também a angústia por resultados e posicionando-o diante da realidade, não alimentando expectativas irreais.

8- Durante seus 10 anos de profissão, quais foram os principais desafios?

Não é fácil adaptar-se a diferentes áreas, realidades, tamanhos, conceitos, expectativas, temas, egos, administrar a pressão por resultados, o stress do dia a dia no atendimento com jornalistas de todo o país, desde os especializados até aqueles que não fazem a mínima ideia do tema que estão trabalhando e também querem informação.
Assessoria pode ser tão ou mais dinâmica que redação, seja ela qual for (online, impresso, etc). Cada cliente irá te desafiar a enfrentar novas realidades, desfavoráveis ou não e é preciso desenvolver a capacidade de se alinhar rapidamente ao meio em que se está inserido.

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HSM Management: Wäls e Bohemia andando lado a lado

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Maurício Angelo

Na edição de julho/agosto da revista HSM Management (você pode acessar uma degustação da edição aqui) fiz uma matéria contando os bastidores da aquisição da Wäls Cervejas feita pela Bohemia, do grupo AB-INBEV, o maior conglomerado cervejeiro do mundo. Na matéria, José Felipe Carneiro, sócio e mestre-cervejeiro da Wäls e Daniel Wakswaser, diretor da Bohemia, contam como foi a aproximação da Inbev, a trajetória da Wäls e tudo que isso simboliza para o mercado cervejeiro brasileiro, já que é a primeira vez que um grande grupo adquire uma empresa artesanal, o que não acontecia desde 2007 quando a então Schincariol (hoje Brasil Kirin) comprou a Eisenbahn, Baden Baden e Devassa.

O que na época da matéria era ainda boato (que a Ambev preferiu não comentar) acabou se confirmando na última semana: após a Wäls, a empresa adquiriu também a Colorado, uma das mais antigas cervejarias artesanais brasileiras. A estratégia é muito semelhante ao que a INBEV vem fazendo nos Estados Unidos na última década. Reconhecendo que chegou tarde no mercado artesanal, que viveu um momento de legítima expansão nos Estados Unidos nos últimos 20 anos, gerando uma legítima nova escola de cervejas e crescendo absurdamente sua fatia de mercado (hoje chegam a incríveis 6,5% do mercado em volume e 10,2% em receita) a INBEV adquiriu diversas cervejarias artesanais: Goose Island (a primeira e que também acaba de chegar ao Brasil), Blue Point, 10 Barrel e Elysian.

Concentradas sob o guarda-chuva da Bohemia, tanto Wäls quanto Colorado seguem tendo autonomia operacional e seguirão com suas marcas separadas no mercado, mas ganharão em escala, distribuição e, claro, poder de fogo e inovação, com todos os recursos da INBEV disponíveis. A Bohemia sempre foi a marca premium da Ambev, apostando em lançamentos sazonais ou de linha fixa que fugiam do padrão de massa da empresa, sem, no entanto, alcançar conceitos realmente altos entre o público especialista.

As cervejas artesanais (microcervejarias, etc) representam hoje, no Brasil, somente 0,15% do mercado, com previsão de chegar a 2% em 10 anos. Mesmo o mercado considerado “premium”, que engloba marcas como Heineken, Original, etc, chega a apenas 6,5%. O apetite de aquisições da Ambev tem tudo para ser um novo marco cervejeiro no Brasil, se bem administrado. Apesar de ter crescido exponecialmente nos últimos anos, ainda há muito para expandir. E, em se tratando de inovação, Wäls e Colorado tem muito, muito mesmo para contribuir.

A revista está nas bancas de todo o país.

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A responsabilidade jornalística e a regulação da mídia em xeque

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Não é de hoje que a chamada “grande mídia” brasileira é questionada por aderir de maneira bem contundente, ainda que disfarçada, quase nunca de modo deliberado, a uma candidatura específica. Do emblemático debate de 1989 entre Lula e Collor, ainda hoje um incômodo para a Rede Globo, esta mídia – representada especialmente pela Globo, maior emissora da América Latina, os jornalões como Estadão, Folha de S. Paulo, O Globo, Estado de Minas e todo o Diários Associados e a editora Abril, através de títulos como a Veja – opta, não raro, por atropelar elementos básicos do código de ética jornalístico.

Apelidada simbolicamente de “PIG – Partido da Imprensa Golpista” por blogueiros majoritariamente de esquerda nos anos 00/10 – e lembremos aqui que a esquerda nunca foi algo homogêneo e restrito a poucas linhas de pensamento, mas o oposto – a grande mídia sempre tendeu a revelar posições muito mais duras em momentos agudos da nossa história. Em toda eleição presidencial isso fatalmente ocorre. Os acontecimentos de 2014 não podem ser ignorados por uma classe jornalística séria, minimamente preocupada com a representatividade e credibilidade do seu ofício, levando-nos, novamente, ao inevitável e interminável debate da regulação dos meios de comunicação.

A mídia citada, com posição bem definida nas manchetes que escolhe, nas chamadas veiculadas, nos subtítulos destacados, nas fotos que seleciona, no lead determinado, no tom geral das matérias escritas, nos “especialistas” ouvidos e personagens citados, ultrapassou todo o limite da razoabilidade jornalística especialmente com a capa da revista Veja publicada (e antecipada) na última quinta-feira, baseando-se em supostas declarações de um doleiro que assinou um acordo de delação premiada e com a credibilidade no mínimo altamente questionável se levarmos em conta outros acordos já quebrados por ele, outras histórias passadas inventadas e a própria, digamos, “natureza” da sua “profissão”.

A capa, provavelmente o panfleto mais caro da campanha de Aécio Neves – cabe lembrar que um ex-diretor da revista foi para a campanha do tucano – é digna do material mais sórdido que se pode produzir numa disputa eleitoral. Sem nenhuma prova, Veja tentou única e exclusivamente minar a candidatura de Dilma Rousseff nas vésperas do pleito. E recebeu resposta maiúscula e imediata da presidenta no seu último programa eleitoral. Seu alcance, muito além dos leitores em si da matéria, mas atingindo todos os pontos de venda de bancas, shoppings, supermercados e tudo mais, é típico material de campanha, prontamente condenada pelo TSE.

Ainda que Alberto Youssef tenha, de fato, falado o que a revista supostamente divulgou, isso novamente não prova nada. Apenas acusações vazias que a revista tratou de usar por um histórico já vexatório de capas e matérias desde que o PT assumiu o poder, indo contra sua história de, até os anos 90, ser uma revista equilibrada, de típica classe média centro-direita, que ainda praticava jornalismo. A Folha de S. Paulo encampou a denúncia, repercutida no Jornal Nacional pós-debate na Globo, dando muito espaço para a resposta de Dilma, veiculada na campanha e no próprio debate.

Como jornalista, independente de qual função você exerça e em qual veículo trabalhe, é vergonhoso ignorar a tentativa inaceitável e anti-democrática da revista apenas como “mais um deslize de uma mídia que, ‘todos sabem’, persegue o governo”. Sem dizer no pouquíssimo questionamento que as “acusações” de Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, sob sigilo de justiça, tem recebido. Cabe, oportunamente, lembrar breves trechos do código de ética jornalística:

Art 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.
Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:
I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;
(…)
III – obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração;
Art. 12. O jornalista deve:
I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;
II – buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;

Fica muitíssimo claro, portanto, como a Veja atuou e atua, considerando ainda os interesses mais do que deliberados por trás da matéria. O recente episódio nos leva de volta para o necessário debate da regulação dos meios de comunicação no Brasil, sistematicamente adiada pelos governos com medo da represália da mídia, que se apressa em engrossar o coro de “censura”, “ditadura” e “controle”, esquecendo seu próprio passado de apoio à ditadura e a própria natureza da proposta de regulação.

É claríssimo que a grita geral dos seus donos baseia-se num princípio muito transparente: evitar a perda de todos seus privilégios acumulados durante décadas. Acabar com o feudo e com a carta branca que possuem para fazer literalmente o que bem entenderem, incluindo a profunda precarização do trabalho, conhecida muito bem pelos jornalistas, seja nos salários exíguos, muitas vezes abaixo do piso e tabela base, seja nas absurdas condições de terceirização, contratando como pessoa jurídica profissionais que ficam sem nenhum direito trabalhista. Farra que deve acabar em breve.

Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Argentina, Uruguai, Reino Unido, França, Espanha, Portugal…para citar alguns exemplos, todos possuem algum tipo de regulação e/ou regulamentação (importante diferenciação, aqui) sobre os meios audiovisuais e impressos. No Brasil, o coletivo Intervozes promove um debate sério sobre a questão, entre tantas outras entidades, sindicatos e a federação dos jornalistas.

Dilma não me parece disposta a arcar com os custos enormes que uma proposta concreta sobre o tema traz. Se o PT já é acusado, de modo acéfalo e delirante pelos pitbulls midiáticos de plantão de realizar “censura” e “perseguir” – tadinhos – a mídia, é de se imaginar o custo de imagem imediato que algo assim acarreta. O problema é só um: ele precisa, urgentemente, ser enfrentado. As eleições de 2014 foram o estopim definitivo para demonstrar isso. Não só a regulação, mas a revisão de todas as concessões audiovisuais.

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Não é preciso ser muito esperto para saber que pouquíssimas famílias controlam a mídia no país. Entre as dezenas de matérias disponíveis, cabe um resuminho da BBC, de 2011:

O mercado de mídia no Brasil é dominado por um punhado de magnatas e famílias.

Na indústria televisiva, três deles têm maior peso: a família Marinho (dona da Rede Globo, que tem 38,7% do mercado), o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Edir Macedo (maior acionista da Rede Record, que detém 16,2% do mercado) e Silvio Santos (dono do SBT, 13,4% do mercado).

A família Marinho também é proprietária de emissoras de rádio, jornais e revistas – campo em que concorre com Roberto Civita, que controla o Grupo Abril (ambos detêm cerca de 60% do mercado editorial).

Famílias também controlam os principais jornais brasileiros – como os Frias, donos da Folha de S.Paulo, e os Mesquita, de O Estado de S. Paulo (ambos entre os cinco maiores jornais do país). No Rio Grande do Sul, a família Sirotsky é dona do grupo RBS, que controla o jornal Zero Hora, além de TVs, rádios e outros diários regionais.

Famílias ligadas a políticos tradicionais estão no comando de grupos de mídia em diferentes regiões, como os Magalhães, na Bahia, os Sarney, no Maranhão, e os Collor de Mello, em Alagoas.

Acrescente aí a família Saad, da Bandeirantes. Cada grupo desse controla não só os “veículos principais”, como dezenas de afiliadas (117 só da Rede Globo), jornais, rádios, revistas e sites Brasil e mundo afora. Lembre-se das dezenas de concessões dadas para estas famílias antes, durante e depois da ditadura militar, concessões que duram décadas e asseguram o monopólio. Lembre-se do dono da Jovem Pan e um dos sócios do Grupo Estado em passeata pró-Aécio, do dono do Estado de Minas no palanque com o candidato tucano…os exemplos são inúmeros.

Em ótimo artigo, Venício Lima lembra:

Apesar de a Constituição rezar que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (parágrafo 5º do artigo 220), apenas uns poucos grupos privados controlam os meios de comunicação diretamente ou indiretamente através de “redes” de afiliadas cuja “formação” não obedece a qualquer regulação.

É por isso que, apesar de a Constituição rezar que “os Deputados e Senadores não poderão firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes” (alínea ‘a’ do inciso I do artigo 54), muitos deles mantêm vínculos com empresas privadas concessionárias do serviço público de radiodifusão, numa viciosa circularidade que inviabiliza a aprovação de projetos que regulem as normas e princípios constitucionais sobre a comunicação social no Congresso Nacional.

É por isso que, apesar de a Constituição rezar que as outorgas e renovações de concessões, permissões e autorizações para o serviço público de radiodifusão sonora e de sons e imagens devem “observar o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal” (artigo 223), a imensa maioria das concessões, permissões e autorizações de radiodifusão no país continua a ser explorada por empresas privadas.

Outro debate necessário é a destinação de verbas de publicidade do governo federal. Ainda que a Globo tenha diminuído sua participação em 11 pontos percentuais desde 2000, a TV recebeu R$ 5,9 bilhões do governo neste período. Veja os gráficos (clique para ampliar):

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A distribuição dos meios que mais recebem recursos revela que a TV aumentou sua fatia, enquanto os jornais encolheram (clique para ampliar):

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Matéria do Terra com Lula, no final do seu mandato, em 2010, mostra, ainda na época, o que Lula pensava e o que planejava para o período 2010-2014. Diz o texto:

Para Lula, críticas à falta de liberdade na área de comunicação, mais do que injustas, não têm sentido. Ele diz duvidar que outros países tenham mais liberdade de informação do que o Brasil:

-Nesse momento do Brasil, falar em falta de liberdade de comunicação? Eu duvido. Eu quero até que vocês coloquem em negrito isso aqui. Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo.

O presidente se mostra disposto a um duro embate com setores da mídia:- A verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais.

“No Brasil – foi o Cláudio Lembo que disse isso para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada”, cobra Lula.

O presidente sinaliza que mudanças nessa área deverão ser discutidas no Congresso Nacional e poderão ser viabilizadas no próximo governo:

-O Brasil, independentemente de que de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável.

Avançamos nada ou muito pouco (apesar da regionalização, outro fator muito importante, veja detalhes no site da SECOM). Enquanto o governo se recusar a levar adiante esse debate, pedido por entidades de classe e movimentos sociais, continuaremos refém de meia dúzia de famílias que tem um lado muitíssimo claro, apenas não tem a decência de assumi-lo antes, durante ou depois de qualquer eleição.

Crimes cometidos pela imprensa, como é o caso de Veja, não podem ficar impunes. O que pode parecer óbvio para nós, jornalistas, nem sempre o é para a maioria da população. Mesmo entre os profissionais observa-se um surto de omissão misturada com o receio de “represália dos patrões”, o conhecido “passaralho”, o famoso “cale a boca e cumpra as regras da empresa”. Algo pouco digno do ofício jornalístico e muito mais próximo da cretinice absoluta, do esvaziamento de ideias e da velha oligarquia que domina o Brasil – um clichê tão batido quanto incômodo e verdadeiro.

Diante de tudo isso, a omissão, se algum dia o foi, já não é mais uma opção aceitável. De todos os lados envolvidos.

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Os grandes jornais ainda sofrem para entender a web

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Já falei aqui sobre isso algumas vezes. A mais recente, em 2012, neste post. Mas, ainda em 2014, especialmente os grandes jornais, penam para ter o mínimo de compreensão sobre o que a sua presença online representa e, mais especificamente, como lidar com o leitor e as questões que isto traz.

Hoje, ao tentar postar um trecho do texto do Contardo Calligaris no twitter, sujeito que anda falando muita asneira não é de hoje, a Folha me saiu com esse aviso:

“Para compartilhar esse conteúdo, por favor utilize o link http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2014/02/1411422-amor-de-maquina.shtml ou as ferramentas oferecidas na página. Textos, fotos, artes e vídeos da Folha estão protegidos pela legislação brasileira sobre direito autoral. Não reproduza o conteúdo do jornal em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização da Folhapress (pesquisa@folhapress.com.br). As regras têm como objetivo proteger o investimento que a Folha faz na qualidade de seu jornalismo.”

Além de impedir o compartilhamento de parte do texto, o jornal ainda se sai com uma mensagem automática autoritária, com uma ameaça disfarçada de lembrete – “estão protegidos pela legislação brasileira” – pede que o leitor solicite autorização e ainda finaliza com um discurso típico de auto-piedade do capital, “isso é pra proteger o excelente serviço que fazemos por você, esperamos que você reconheça”. É muito erro junto.

É ir contra tudo o que estes quase 20 anos de experiência online nos mostra. É arbitrário e, sobretudo, burro, por tratar o usuário praticamente como inimigo e dificultar ao máximo a reprodução da informação. O jornal O Globo também faz o mesmo, colocando um aviso automático sempre que você tenta copiar parte de algo.

O Estadão, se não chega a tanto, comete outro erro capital: a abominável atualização automática, explodindo um flash de F5 na sua cara bem durante a leitura de um artigo, algo odiado por 11 entre 10 pessoas que conheço.

Contra o aspecto cada vez mais livre da web, em que não só o conteúdo – e o bom conteúdo – grátis está disponível com enorme facilidade, quanto a pirataria de músicas, filmes e seriados ganhou alcance ainda mais brutal com a disseminação da banda larga no mundo nos últimos 10 anos, a indústria e o mercado tem reagido como pode. Desde a prisão de usuários que utilizavam serviços de P2P em diversos países, leis contra a pirataria e compartilhamento de arquivos locais, SOPA e PIPA nos EUA, a vigilância permanente da indústria musical e dos estúdios de Hollywood e, como discuto no artigo citado no início, o desespero dos meios de comunicação para tentar encontrar uma forma de financiamento viável.

Como campo de conhecimento mais fluído e, portanto, impreciso, complicado de se delimitar – ainda que vários tenham tentado, a exemplo de nomes famosos como Pierre Levy, Manuel Castells e por aí afora – a relação da mídia com o seu público, na web, muda a cada dia. E, ao contrário do que gostariam, vai muito além da zona de conforto a que estão acostumados. O pior, afinal, é assumir a postura que Folha e Globo praticam atualmente. Indo contra os princípios mais básicos da maneira com que essa relação deveria ser pautada em 2014.

O conteúdo dos grandes portais, em sua maioria – e aí basta navegar pela home de qualquer um deles neste momento – é uma piada, sobretudo com a quantidade de dinheiro que investem. Pensados para a web, resvalam no patético. Não sou fatalista como muitos amigos e – ainda – acredito que o jornalismo não morreu. Apenas boa parte dele, e a parte com mais recursos, é que parece estar em estado terminal, resistindo por aparelhos.

É sabido que o bom jornalismo custa caro. E má gestão mais ainda.

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HSM Management 101: UniAlgar, universidade corporativa pioneira no Brasil

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A edição 101 da HSM Management, revista que é a maior referência em gestão do Brasil, traz uma matéria que fiz sobre a UniAlgar, universidade corporativa do Grupo Algar, com sede em Uberlândia (MG) e atuação em todas as regiões do Brasil, com mais de 21 mil associados, atuando em áreas como telecomunicações, agronegócio, aviação, turismo, segurança privada, tecnologia e mídia.

A universidade é pioneira no Brasil e também é considerada uma das melhores do país. Entrevistas com Luiz Alberto Garcia, presidente do Conselho de Administração, Luiz Alexandre Garcia, CEO da Algar, Cícero Domingos Penha, presidente da UniAlgar, Elizabeth Amaral, diretora superintendente da UniAlgar, Celso Machado, diretor de cultura corporativa, Luis Augusto Lobão Mendes, da Fundação Dom Cabral e outros.

Nas bancas, em todo o país.

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